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Mais frio que o gelo

Fandom: Descendentes 5

Criado: 27/06/2026

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O Labirinto de Vidro e Veludo

As sombras no castelo da Rainha de Copas nunca eram apenas sombras. Elas pareciam ter vida própria, esticando-se pelas paredes de mármore vermelho como dedos longos e famintos, sussurrando segredos que apenas os mais loucos ousariam ouvir. E, naquele reino de tirania e perfeição geométrica, ninguém era mais louco — ou mais útil — do que Maddox.

O filho do Chapeleiro Maluco não caminhava pelos corredores como um servo comum. Ele se movia com uma estranheza rítmica, um passo saltado seguido por um deslize, seus olhos brilhando com uma intensidade que beirava a mania. Ele não temia a Rainha. Ele não temia o machado do carrasco. Na verdade, Maddox habitava um espaço onde o medo e a adoração se fundiam em uma obsessão perigosa.

Ele parou diante das portas duplas dos aposentos reais, adornadas com corações de rubi que pareciam pulsar. Sem bater, ele girou a maçaneta.

O quarto estava mergulhado em uma penumbra escarlate. A Rainha de Copas, Bridget, estava de pé diante de um espelho de corpo inteiro, observando a própria imagem com uma rigidez que esconderia qualquer vulnerabilidade de um olhar destreinado. Mas Maddox não tinha olhos comuns.

— Você está atrasado três minutos e dezessete segundos — disse ela, sem se virar. A voz dela era como seda sobre navalhas. — Eu deveria mandar cortar a sua cabeça por tamanha insolência.

Maddox soltou uma risadinha anasalada, tirando a cartola e fazendo uma reverência exagerada que quase o fez perder o equilíbrio.

— O tempo é uma construção tão frágil, Majestade — disse ele, aproximando-se com passos silenciosos. — E, de qualquer forma, os segundos que perdi foram gastos admirando a simetria perfeita das suas roseiras. Elas estão... sangrentas hoje.

A Rainha virou-se lentamente. O vestido volumoso sussurrou contra o chão. Ela o encarou com aquele olhar frio que fazia exércitos inteiros tremerem, mas Maddox apenas sorriu, revelando um brilho de fixação que a maioria das pessoas consideraria perturbador.

— Você é um tolo, Maddox Hatter — declarou ela, embora houvesse uma nota de suavidade quase imperceptível em seu tom.

— Sou o seu tolo — corrigiu ele, encurtando a distância entre eles. — O único que entende que a ordem exige um pouco de caos para ser apreciada.

Maddox estendeu a mão, seus dedos longos e manchados de tinta e chá pairando perto do rosto da Rainha. Ele não a tocou de imediato; ele saboreou a antecipação, a eletricidade que sempre pairava no ar quando estavam sozinhos. Para o resto de Auradon e da Ilha, ela era a tirana implacável. Para ele, ela era a obra-prima que ele ajudava a manter intacta.

— O que você trouxe para mim hoje? — perguntou ela, fechando os olhos por um breve momento enquanto ele finalmente roçava a ponta dos dedos em sua mandíbula.

— Um novo mecanismo para o seu relógio de bolso — sussurrou Maddox, puxando um objeto intrincado de dentro do casaco. — Ele não marca as horas. Ele marca os batimentos cardíacos de quem o segura. Assim, você saberá exatamente quando o medo de seus súditos se transforma em... algo mais útil.

A Rainha pegou o objeto, seus dedos roçando nos dele. O toque foi breve, mas carregado de uma tensão que nenhum dos dois admitiria em voz alta.

— Você passa tempo demais criando engenhocas e pouco tempo cuidando da sua própria sanidade — disse ela, guardando o relógio.

— A sanidade é um tédio, Bridget — Maddox usou o nome dela, um crime que custaria a vida de qualquer outro. — Eu prefiro a obsessão. Ela é muito mais... colorida.

Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. A Rainha não recuou. Pelo contrário, ela inclinou a cabeça, desafiando-o.

— Você é obcecado pela ordem que eu imponho ou pela mulher que a dita? — perguntou ela, a voz caindo para um sussurro perigoso.

— Eu sou obcecado pelo modo como você destrói qualquer coisa que não se encaixe no seu mundo — respondeu Maddox, os olhos arregalados e brilhantes. — E sou obcecado pelo fato de que, neste exato momento, eu sou a única peça fora do lugar que você permite que fique.

A Rainha soltou um suspiro curto, uma mistura de irritação e desejo. Ela agarrou as lapelas do casaco dele, puxando-o para mais perto até que suas respirações se misturassem.

— Se alguém descobrir... — começou ela.

— Ninguém vai descobrir — interrompeu ele, com um sorriso distorcido. — As paredes têm ouvidos, mas eu as subornei com segredos e chá de jasmim. As sombras me servem, Majestade. E eu sirvo a você.

— Você não serve a ninguém além de seus próprios caprichos — retrucou ela, mas suas mãos não o soltaram. — Você é um perigo para o meu reino.

— E você é o veneno que eu bebo com prazer todas as tardes — disse Maddox.

Sem mais palavras, ela o puxou para um beijo que era tudo menos delicado. Era uma colisão de vontades, um encontro de duas mentes que operavam em frequências que ninguém mais conseguia alcançar. Havia desespero ali, e uma fome que nascia da solidão absoluta que o poder trazia.

Maddox a segurou pela cintura, sentindo a estrutura rígida do espartilho sob suas mãos. Ele adorava a rigidez dela, o modo como ela se mantinha impecável mesmo quando o mundo ao seu redor desmoronava. Ele era o único que via as rachaduras na porcelana, e era nessas rachaduras que ele depositava sua devoção.

Eles se separaram ofegantes, mas Maddox não se afastou. Ele encostou a testa na dela, fechando os olhos.

— Diga-me para parar — murmurou ele. — Diga-me para ir embora e nunca mais voltar para este quarto.

A Rainha de Copas o olhou, e por um segundo, apenas um segundo, o brilho de Bridget, a garota que um dia quis apenas ser amada, brilhou através da máscara da monarca.

— Eu não posso — admitiu ela, a voz falhando por um milésimo de segundo. — O caos que você traz é a única coisa que me faz sentir que a ordem vale a pena.

Maddox sorriu, um sorriso que não chegava a ser feliz, mas era profundamente satisfeito.

— Então continuaremos nossa dança — disse ele, ajeitando a gola do vestido dela com uma delicadeza possessiva. — Entre as rosas vermelhas e as cabeças cortadas.

— Saia agora — ordenou ela, recuperando instantaneamente a postura real. — Tenho um conselho com os generais em dez minutos e não tolerarei sua presença perturbadora.

Maddox fez outra reverência, recuperando sua cartola e colocando-a na cabeça com um movimento fluido.

— Como desejar, minha Rainha — disse ele, caminhando em direção à porta secreta atrás da tapeçaria. — Mas lembre-se: o relógio que lhe dei... ele está batendo no ritmo do meu coração agora. Tente não quebrá-lo.

Ele desapareceu nas sombras antes que ela pudesse responder. A Rainha de Copas ficou sozinha em seu quarto vermelho, o silêncio retornando como uma manta pesada. Ela olhou para o pequeno objeto mecânico em sua mão.

Tique-taque. Tique-taque.

O ritmo era frenético, errático e absolutamente louco.

Exatamente como o homem que o havia criado.

Ela apertou o relógio contra o peito, sentindo a frieza do metal contra sua pele quente. Por fora, ela era a soberana absoluta de um reino de medo. Por dentro, ela era a prisioneira de uma obsessão que cheirava a chá e loucura.

— Tolo — sussurrou ela para o quarto vazio.

Mas, pela primeira vez naquele dia, um sorriso genuíno, pequeno e secreto, tocou seus lábios.

Enquanto isso, nos túneis escondidos sob o castelo, Maddox Hatter ria baixinho. Ele sabia que o jogo era perigoso. Ele sabia que, em qualquer outro dia, ela poderia simplesmente gritar "Cortem as cabeças!" e seu tempo chegaria ao fim.

Mas ele não se importava. Para Maddox, o amor não era um conto de fadas de Auradon. O amor era um labirinto de vidro onde você corria até sangrar, apenas para ver o reflexo da pessoa que você adorava.

E ele nunca tinha sido tão bom em encontrar o caminho de volta para ela.

Ele parou diante de uma pequena mesa de chá que mantinha em um nicho escondido, onde uma única rosa vermelha, pintada à mão, repousava em um vaso de cristal. Ele pegou um pincel e, com um cuidado obsessivo, adicionou uma gota de tinta carmesim a uma pétala que ainda parecia branca demais.

— Perfeição — murmurou ele. — Ela exige sacrifício.

Maddox sabia que o sol nasceria em breve, e com ele, as máscaras voltariam. Ela seria a Rainha. Ele seria o chapeleiro excêntrico. Mas, nas sombras do labirinto, entre o veludo e o aço, eles pertenciam um ao outro de uma forma que a lógica jamais poderia explicar.

E, no mundo de Maddox, a lógica era a única coisa que ele nunca convidaria para o chá.
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