Fanfy
.studio
Imagem de fundo

BLACKWOOD ACADEMY

Fandom: militares

Criado: 27/06/2026

Tags

DistopiaDramaAçãoMistérioSuspenseSobrevivênciaExperimentação HumanaEstudo de PersonagemSombrio
Índice

Cinzas e Arame Farpado

O cheiro de terra úmida e pólvora era a única coisa que Blackwood oferecia de graça. Rowan Hale apertou os olhos, ignorando o suor que escorria por baixo do seu boné militar, e ajustou o fuzil no ombro. O pátio de tiro estava envolto por uma névoa densa que subia da floresta circundante, transformando os alvos de silhueta em fantasmas cinzentos a cinquenta metros de distância.

Ao lado dele, o instrutor Miller — um homem cujo rosto parecia esculpido em granito e ressentimento — caminhava entre as fileiras de cadetes.

— Hale! — Miller rosnou, parando atrás de Rowan. — Sua gravata está frouxa. De novo.

Rowan não se deu ao trabalho de olhar para trás. Ele puxou o gatilho. O disparo ecoou pelo vale, um impacto seco que perfurou o centro do peito do alvo de papel.

— O vento está forte, senhor — Rowan respondeu, a voz rouca e desinteressada. — Achei que a prioridade fosse o agrupamento dos tiros, não a estética do meu pescoço.

— A prioridade é a obediência — Miller rebateu, aproximando-se o suficiente para que Rowan sentisse o cheiro de café barato. — Você acha que é especial porque tem boa mira? Aqui, você é apenas mais um problema que eu tenho que consertar.

Rowan finalmente virou o rosto. Seus olhos castanhos, quase negros de tão escuros e carregados de olheiras, encontraram os do instrutor. Ele deu um sorriso de lado, curto e sem humor, revelando a cicatriz que cruzava seu lábio inferior.

— Você chama isso de disciplina, senhor — Rowan disse, as palavras saindo lentas e afiadas. — Eu chamo de coleira. E eu mordo quem tenta apertar demais.

Miller abriu a boca para responder, mas o som de uma risada abafada veio da posição ao lado. Nico Álvarez estava tentando, sem sucesso, limpar a lente de seu óculos de proteção enquanto equilibrava o rifle no quadril de um jeito que faria qualquer oficial de segurança ter um infarto.

— Ele pegou você nessa, sargento — Nico comentou, piscando para Rowan. — Mas, falando em coleiras, a Viv disse que a comida de hoje parece ração de cachorro, então a metáfora é bem apropriada.

— Silêncio, Álvarez! — gritou Miller. — Dez voltas no pátio para os dois assim que terminarem a munição.

Rowan apenas suspirou e voltou a focar no alvo. Ele odiava aquele lugar. Odiava o silêncio opressor das montanhas e o modo como as paredes de pedra de Blackwood pareciam se fechar sobre ele a cada toque de recolher. A única coisa que o mantinha são era o peso da sua Leica M3 escondida sob o assoalho do dormitório e a música que ele escrevia nos versos dos manuais de estratégia militar.

***

Mais tarde, o céu desabou. A chuva em Blackwood nunca era uma garoa gentil; era uma punição líquida que transformava o solo em um lamaçal intransitável.

Vivian Mercer estava sentada em um banco de pedra nos fundos da biblioteca, um lugar onde as câmeras tinham um ponto cego de exatos dezessete graus. Ela segurava um lápis entre os dentes enquanto ajustava os fones de ouvido de um walkman antigo. O som de uma fita cassete chiada preenchia seus ouvidos, mas seus olhos estavam fixos em um caderno de capa dura, cheio de diagramas complexos.

— Você sabe que o Capitão Sterling vai passar por aqui em três minutos, não sabe? — Uma voz feminina surgiu das sombras.

Viv nem sequer levantou a cabeça.

— Ele parou no meio do caminho para fumar um cigarro escondido — Viv respondeu calmamente. — Ganhei mais cinco minutos. O que você tem para mim, Maeve?

Maeve O'Connor saiu de trás de uma pilastra, sacudindo a água de sua jaqueta impermeável. O cabelo ruivo curtíssimo estava espetado e ela mascava chiclete com uma energia frenética. Ela tirou um molho de chaves do bolso — um emaranhado de metal que tilintava como sinos de igreja — e selecionou uma pequena chave prateada.

— Consegui o acesso à sala de registros do bloco C — Maeve anunciou, entregando a chave para Viv. — Mas vai te custar caro. Quero três daqueles cartões de memória que você "achou" no escritório da administração.

— Dois — Viv negociou, finalmente olhando para a amiga. — E eu te conto quem mandou a carta anônima para o beliche do Rowan ontem à noite.

Maeve parou de mascar o chiclete por um segundo, os olhos brilhando de curiosidade.

— Fechado. Quem foi?

— Ninguém do dormitório dele — Viv disse, guardando a chave no bolso do uniforme amassado. — Veio de fora. O selo era de uma agência postal em Seattle. Ninguém entra ou sai daqui, Maeve. Como uma carta de Seattle chega ao armário de um aluno sem passar pela censura do Diretor Thorne?

O silêncio que se seguiu não foi o comum de Blackwood. Foi um silêncio pesado, carregado de uma percepção incômoda.

— Tem algo errado com este lugar — Maeve murmurou, perdendo o tom brincalhão. — Mais errado do que o normal.

— Depende — Viv deu de ombros, voltando para seu caderno. — Você quer a verdade ou uma resposta educada?

— Guarde a verdade para quando estivermos no telhado — Maeve disse, recuperando o ritmo. — O Nico está planejando algo na torre do relógio hoje à noite. Ele disse que "vai dar certo".

— O que significa que vamos todos acabar na enfermaria ou na solitária — Viv concluiu.

***

À meia-noite, a academia era um labirinto de sombras e luzes de segurança oscilantes. Rowan escalava a lateral do prédio de tijolos escuros com uma facilidade que vinha de anos fugindo de janelas de quartos no segundo andar. Seus dedos, com os nós cobertos de cicatrizes, encontravam apoio em cada fresta da alvenaria.

Quando ele alcançou o topo da torre de observação, Nico já estava lá, balançando as pernas sobre o abismo de trinta metros de altura.

— Demorou, capitão — Nico disse, estendendo a mão para ajudar Rowan a subir o último degrau. — Estava ocupado desobedecendo a quem?

— Todos eles — Rowan respondeu, sentando-se e tirando um maço de cigarros amassado do bolso. — Onde estão as meninas?

— A Viv está hackeando o sensor de movimento do corredor leste para nos dar uma janela de vinte minutos. A Maeve... bem, a Maeve está sendo a Maeve.

Como se fosse invocada, a cabeça ruiva de Maeve apareceu pelo alçapão. Ela subiu ofegante, carregando uma mochila que tilintava com latas de refrigerante e fitas cassete.

— Se eu for pega carregando contrabando para vocês mais uma vez, eu vou cobrar juros — ela reclamou, sentando-se entre eles.

Viv chegou logo depois, silenciosa como um espectro. Ela se sentou na beirada, o caderno aberto no colo, e olhou para a floresta que cercava a escola.

— Olhem para as luzes do perímetro — Viv disse, apontando para as torres distantes que marcavam o limite de Blackwood. — Elas mudaram de padrão.

Rowan acendeu o cigarro, a chama do isqueiro iluminando seu rosto cansado por um breve momento.

— O que você quer dizer com "mudaram"?

— Estão voltadas para dentro — Viv explicou, o tom de voz seco e analítico. — Antes, elas varriam a floresta para evitar que alguém entrasse. Agora, elas estão fixas nos dormitórios. Eles não estão mais tentando impedir que o mundo entre, Rowan. Estão garantindo que nada saia.

Nico, que estava prestes a abrir uma lata de refrigerante, parou no meio do gesto. O carisma habitual desapareceu de seu rosto, substituído por uma tensão rara.

— Vai dar certo — ele disse, mas desta vez a frase não soou como uma promessa, e sim como uma oração desesperada. — A gente só precisa de um plano.

— Planos são para pessoas que acreditam no sistema — Rowan disse, soprando a fumaça para o céu chuvoso. Ele olhou para os três amigos — os únicos que não o tratavam como um projeto de reabilitação. — Nós não precisamos de um plano. Precisamos de uma saída.

— Eu tenho as chaves — Maeve disse, batendo no bolso.

— Eu tenho os códigos — Viv complementou.

— E eu posso escalar qualquer muro que eles construírem — Nico sorriu levemente.

Rowan olhou para a floresta escura, sentindo a inteligência que ele tanto tentava esconder começar a trabalhar, conectando os pontos que Viv havia espalhado. Blackwood não era uma escola. Era um laboratório. E eles eram as cobaias que estavam começando a morder a mão do dono.

— Viv — Rowan chamou, a voz baixa. — O que os documentos que você hackeou na outra escola diziam sobre Blackwood?

Viv fechou o caderno lentamente. Seus olhos verdes brilharam sob a luz da lua oculta pelas nuvens.

— Eles não chamavam este lugar de academia — ela sussurrou. — Chamavam de "Unidade de Contenção de Ativos Voláteis".

Um trovão ecoou ao longe, e a chuva começou a cair com mais força, lavando o sangue dos nós dos dedos de Rowan e o suor de seus rostos. Naquele momento, no topo da torre, eles não eram mais apenas adolescentes problemáticos. Eram fumaça no sistema, uma falha na engrenagem que os mestres de Blackwood ainda não haviam percebido.

— Então é isso — Rowan disse, levantando-se e jogando a bituca de cigarro no vazio. — Eles querem uma guerra de disciplina. Vamos dar a eles uma revolução.

Eles ficaram ali, quatro sombras contra o céu de chumbo, enquanto a música de uma fita cassete velha de punk rock começava a tocar baixinho no rádio de Maeve, desafiando o silêncio que Blackwood tentava impor. A coleira ainda estava lá, mas os dentes deles já estavam à mostra.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic