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Tulipas e Lírios

Fandom: Sem fandom

Criado: 28/06/2026

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Traços de Grafite e Estrelas de Cetim

O céu sobre o vale estava pintado com uma mistura impossível de violeta e azul-marinho, salpicado por estrelas que pareciam brilhar apenas para eles dois. O acampamento da escola estava silencioso, com a maioria dos alunos reunidos em volta da fogueira principal, longe o suficiente para que o som dos violões e das risadas fosse apenas um eco distante, abafado pela brisa que soprava entre os pinheiros.

Camila e Gabriel haviam encontrado o refúgio perfeito: uma pequena clareira elevada, onde a barraca deles estava montada sob a proteção de um carvalho antigo. Hoje não era apenas mais uma noite de viagem escolar. Hoje eles celebravam dois meses desde que Gabriel, o capitão do time de futebol que todos juravam ser inalcançável, parou o corredor da escola para entregar a Camila um desenho feito à mão dela distraída na biblioteca, acompanhado de um pedido de namoro que fez metade das meninas suspirarem e a outra metade roer as unhas de inveja.

Camila, por outro lado, era o coração exposto da escola. Bonita de um jeito delicado, quase etéreo, ela era a garota que chorava assistindo a comerciais de margarina e que escrevia poemas nas margens dos cadernos de biologia. Sua popularidade não vinha de uma postura de superioridade, mas de uma empatia que parecia transbordar.

Sentada sobre uma manta xadrez estendida na grama, Camila observava Gabriel. Ele estava concentrado, a luz de uma pequena lanterna de LED iluminando seu perfil anguloso. O capitão do time não estava segurando uma bola de futebol agora, mas sim um bloco de rascunhos e um lápis de grafite macio.

— Você prometeu que não ia me desenhar hoje — disse ela, com a voz suave, um sorriso brincando nos lábios. — É nosso aniversário de dois meses, Biel.

Gabriel levantou o olhar, e o brilho intenso em seus olhos escuros fez o estômago de Camila dar uma cambalhota. Ele tinha essa intensidade que às vezes a assustava, um jeito de olhar que parecia enxergar através de todas as suas camadas de insegurança.

— Eu não consigo evitar, Mila — respondeu ele, a voz rouca e baixa. — A luz da lua está batendo no seu rosto de um jeito que... se eu não registrar isso, sinto que vou perder algo precioso.

Camila sentiu os olhos arderem. Lá vinha o choro, aquela sensibilidade que ela tentava controlar, mas que Gabriel sempre acolhia como se fosse a coisa mais linda do mundo.

— Você é tão romântico que chega a ser injusto — murmurou ela, limpando uma lágrima solitária que escapou. — Eu nem trouxe presente, só os marshmallows que a gente já comeu.

Gabriel fechou o bloco com um estalo suave e se arrastou pela manta até ficar a centímetros dela. Ele deixou o lápis de lado e segurou o rosto de Camila com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas úmidas.

— Você é o presente, boba — disse ele, aproximando o rosto. — Dois meses com você foram melhores do que todos os campeonatos que eu já ganhei. Eu sou intenso demais, eu sei, mas é porque tudo com você parece ser elevado à décima potência.

— Eu também sinto isso — confessou ela, fechando os olhos e aproveitando o calor das mãos dele. — Às vezes eu acho que meu coração não vai aguentar tanto sentimento.

— Deixa que eu ajudo a carregar — sussurrou Gabriel.

Ele a beijou. Foi um beijo que começou lento, carregado daquela ternura característica de quem ainda está descobrindo os contornos um do outro. O gosto era de chocolate quente e do frescor da noite. Camila passou os braços pelo pescoço dele, puxando-o para mais perto, sentindo os músculos dos ombros dele — resultado de horas de treino no campo — sob suas mãos.

O beijo mudou de ritmo rapidamente. A doçura deu lugar a uma urgência que ambos vinham contendo durante todo o dia de trilhas e atividades em grupo. Gabriel a deitou suavemente sobre a manta, o corpo dele cobrindo o dela sem colocar todo o peso, protegendo-a do chão irregular.

— Mila... — ele murmurou entre beijos que desciam do canto de sua boca para a linha da mandíbula. — Você tem certeza? A gente não precisa...

Camila o interrompeu, puxando-o de volta para um beijo profundo.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada, Biel — disse ela, a respiração ofegante. — Eu amo o jeito que você me vê. Não só nos seus desenhos, mas o jeito que você me enxerga de verdade.

Gabriel sorriu, aquele sorriso que derretia qualquer resistência dela, e começou a desabotoar a jaqueta de Camila. O contato da pele quente dele contra a dela, sob a brisa fria da montanha, criava um contraste eletrizante. Cada toque de Gabriel era carregado de uma reverência quase artística; ele a tocava como se ela fosse a obra-prima que ele passara a vida tentando esboçar.

— Você é tão linda — sussurrou ele, os olhos percorrendo o rosto dela, que estava levemente corado. — Às vezes eu acho que te inventei na minha cabeça.

— Então não me acorda — respondeu ela, puxando-o pela gola da camiseta para que ele voltasse a beijá-la.

As mãos de Gabriel eram firmes, mas cuidadosas. Ele conhecia a fragilidade dela, mas também conhecia a força que Camila escondia por trás das lágrimas fáceis. Enquanto se moviam em sintonia, o mundo ao redor parecia desaparecer. Não havia mais escola, não havia mais time de futebol, não havia mais expectativas sociais. Havia apenas o som da respiração um do outro e o estalar distante da lenha na fogueira lá embaixo.

Camila sentia cada centímetro de Gabriel. A intensidade dele, que muitas vezes se manifestava em campo com jogadas agressivas e foco absoluto, ali se transformava em uma paixão avassaladora. Ele era romântico até na forma como a segurava, como se cada toque fosse uma promessa.

— Biel... — ela arquejou, as unhas cravando-se levemente nas costas dele.

— Estou aqui, Mila. Sempre aqui — respondeu ele, a voz vibrando contra o pescoço dela.

Eles se perderam um no outro por um tempo que pareceu não pertencer ao relógio. Naquele pequeno espaço de lona e grama, o tempo era ditado pelas batidas sincronizadas de seus corações. Quando finalmente o ritmo desacelerou e eles se viram abraçados sob o cobertor pesado, o silêncio da noite voltou a reinar, mas agora era um silêncio preenchido.

Camila estava com a cabeça repousada no peito de Gabriel, ouvindo o coração dele ainda acelerado. Ela sentiu aquela onda familiar de emoção subindo pela garganta.

— Você está chorando de novo? — perguntou Gabriel, com um tom de diversão carinhosa, levantando o queixo dela para olhar em seus olhos.

— É que eu estou muito feliz — soluçou ela, rindo através das lágrimas. — É ridículo, eu sei.

— Não é ridículo — disse ele, limpando o rastro úmido com um beijo. — É você. E eu não mudaria um único traço.

Gabriel esticou o braço e alcançou o bloco de desenho que havia caído para fora da manta. Ele o abriu em uma página em branco e, com movimentos rápidos e precisos, começou a esboçar algo sob a luz fraca da lanterna.

— O que você está fazendo agora? — perguntou ela, curiosa, tentando espiar.

— Guardando o momento — respondeu ele, sem desviar os olhos do papel. — O jeito que seu cabelo está bagunçado e como seus olhos brilham depois de chorar. É a coisa mais bonita que eu já vi.

Camila se aconchegou mais a ele, sentindo-se protegida e amada.

— Você vai me mostrar depois? — perguntou ela, já sentindo o sono chegar.

— Vou mostrar para o mundo, se você deixar — disse ele, embora soubesse que aquele desenho, especificamente, ficaria guardado em uma pasta especial, apenas para os olhos dele. — Feliz dois meses, Mila.

— Feliz dois meses, meu capitão — murmurou ela, fechando os olhos.

Lá fora, as estrelas continuavam seu curso lento pelo firmamento, mas para Camila e Gabriel, o universo inteiro havia se reduzido àquela clareira, ao cheiro de pinho e à promessa silenciosa de que aqueles dois meses eram apenas o rascunho de uma história muito mais longa que eles estavam prontos para pintar juntos.
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