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A vida de giovanna
Fandom: A vida de giovanna
Criado: 28/06/2026
Tags
RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraCiúmesHistória DomésticaCenário Canônico
Entre Febres e Confissões
O corredor da escola parecia mais longo do que o normal para Giovanna. Ela abraçava seus cadernos contra o peito, sentindo o peso de um sentimento que não conseguia rotular, mas que ardia como brasa. Seus olhos, sempre gentis, estavam levemente nublados enquanto ela observava, de longe, o grupo no pátio.
Lá estavam elas. Hadassa, com seus cabelos ondulados balançando conforme ela gesticulava animadamente, estava grudada em Damilly. Isabella estava logo ao lado, rindo de alguma piada interna que Giovanna não conhecia. O que mais doía era ver Hadassa e Damilly cochichando, trocando olhares cúmplices e risadinhas abafadas.
— Elas parecem estar se divertindo — murmurou Giovanna para si mesma, sentindo uma pontada incômoda de ciúmes.
Giovanna sempre fora a mais tímida do grupo, a inteligente que preferia o silêncio de um livro à agitação de uma festa, mas Hadassa era seu porto seguro. Ver Hadassa, tão extrovertida e caótica, subitamente tão próxima de Damilly — que era a personificação do caos com sua franja sempre desalinhada — fazia Giovanna se sentir... substituível.
O que ela não sabia, entretanto, era o conteúdo daqueles cochichos.
— Você tem certeza que ela gosta de girassóis? — perguntou Hadassa, a voz trêmula de nervosismo, algo raro para ela.
— Tenho, Hadassa! — Damilly revirou os olhos, ajeitando a franja. — A Gi é romântica, ela ama coisas delicadas. Mas o foco aqui é você criar coragem.
— Eu concordo com a Damilly — Isabella interveio, cruzando os braços e sorrindo. — Você está enrolando há meses. Se não se declarar logo, vai acabar tendo um colapso nervoso de tanto segredo.
— É que ela é tão... perfeita — Hadassa suspirou, olhando de relance para onde Giovanna estava, sem perceber que a amiga rapidamente desviou o olhar. — Eu não quero estragar a nossa amizade.
— Você não vai estragar nada — Damilly garantiu, embora estivesse mais interessada em observar Isabella do que na conversa. — Mas agora, foco. Precisamos planejar o momento certo.
Os dias se passaram e o distanciamento aparente continuou. Giovanna se retraiu cada vez mais, convencida de que o trio — Hadassa, Damilly e Isabella — agora formava um núcleo onde ela não se encaixava mais. No entanto, o destino tinha outros planos, e eles envolveriam um termômetro e uma caneca de chá.
Na quinta-feira, Hadassa não apareceu na escola. O grupo sentiu sua falta imediatamente, mas foi Giovanna quem recebeu a mensagem no meio da tarde.
"Gi... eu tô morrendo. Acho que é gripe. Minha mãe teve que trabalhar e eu tô sozinha. Você pode vir aqui me dar um oi? Por favor?"
O coração de Giovanna amoleceu instantaneamente. O ciúme deu lugar à preocupação. Ela passou na farmácia, comprou alguns remédios e seguiu para a casa de Hadassa.
Ao entrar no quarto, encontrou a amiga enrolada em três cobertores, com o nariz vermelho e os olhos brilhantes pela febre.
— Você veio — a voz de Hadassa saiu rouca, mas carregada de um alívio genuíno.
— Claro que vim, boba — Giovanna respondeu, aproximando-se e colocando a mão na testa da amiga. — Você está queimando de febre, Hadassa.
— Eu me sinto péssima — resmungou a garota de cabelos ondulados, esticando os braços como uma criança pequena. — Fica aqui comigo?
Hadassa, quando doente, perdia toda a sua pose de garota extrovertida e caótica. Ela se tornava extremamente carente, e sua pessoa favorita no mundo para mimar essa carência sempre fora Giovanna.
— Vou fazer uma sopa para você — disse Giovanna, tentando se levantar, mas sendo impedida pela mão de Hadassa que segurou seu pulso.
— Agora não. Só... senta aqui. Por favor.
Giovanna cedeu. Ela se sentou na beira da cama e começou a acariciar os cabelos de Hadassa. O silêncio era confortável, quebrando o gelo que o ciúme havia criado nos últimos dias.
— Gi... — Hadassa murmurou, fechando os olhos sob o toque suave. — Você estava estranha comigo essa semana.
— Eu? — Giovanna sentiu o rosto esquentar. — Achei que você estivesse ocupada demais com a Damilly e a Isabella. Vocês não paravam de segredar.
Hadassa soltou uma risada fraca, que logo virou uma tosse.
— Ah, se você soubesse... — Ela abriu um dos olhos, observando a expressão confusa de Giovanna. — A gente estava falando de você, sua boba.
— De mim? Por quê?
— Porque eu sou uma covarde — Hadassa suspirou, puxando o cobertor até o queixo. — Eu queria te pedir algo, mas precisava da ajuda delas para não passar vergonha.
Giovanna sentiu um frio na barriga. Antes que pudesse perguntar o que era, Hadassa se aconchegou mais perto dela, encostando a cabeça em seu colo.
— Não sai de perto de mim hoje. Promete?
— Prometo — respondeu Giovanna, sentindo o carinho transbordar.
A tarde passou devagar. Giovanna cuidou de cada detalhe: deu o remédio na hora certa, preparou o chá e até leu em voz alta um dos seus livros favoritos para entreter a amiga. Hadassa, por sua vez, não desgrudava. Onde Giovanna ia, o olhar de Hadassa seguia. Se Giovanna se afastava dois passos, Hadassa reclamava de frio.
Conforme o sol começava a se pôr, tingindo o quarto de tons alaranjados e roxos, a febre de Hadassa parecia ter cedido um pouco, mas a intensidade de seus sentimentos estava no ápice. A carência da doença se misturou com a urgência de tudo o que ela vinha guardando.
Giovanna estava em pé, guardando o termômetro na mesinha de cabeceira, quando sentiu um puxão em seu braço.
— Gi, olha para mim — pediu Hadassa.
Ela se levantou da cama com uma energia repentina que não condizia com quem estava prostrada horas antes. Giovanna deu um passo para trás, surpresa pela aproximação súbita, até que suas costas tocaram a parede fria do quarto.
Hadassa não recuou. Ela se aproximou, prendendo Giovanna contra a parede, colocando as mãos de cada lado da cabeça da amiga. A respiração de Hadassa ainda estava quente, e seus olhos pareciam mais escuros, focados intensamente nos lábios de Giovanna.
— Hadassa... o que você está fazendo? — Giovanna sussurrou, o coração batendo tão forte que ela achava que a outra podia ouvir.
— Eu cansei de planejar com a Damilly e a Isabella — disse Hadassa, a voz agora firme, embora carregada pela vulnerabilidade da febre. — Eu não quero mais ajuda de ninguém.
— Ajuda para quê?
— Para isso.
Antes que Giovanna pudesse processar a frase, Hadassa inclinou a cabeça e a beijou. Foi um beijo urgente, um pouco desajeitado por causa do estado gripal, mas carregado de uma doçura e uma entrega que fizeram as pernas de Giovanna fraquejarem.
Giovanna arregalou os olhos por um segundo, mas logo se entregou, fechando-os e retribuindo o toque. Suas mãos subiram timidamente para os ombros de Hadassa, sentindo o calor da pele dela. O mundo lá fora, o ciúme de Damilly, as piadas de Isabella... tudo desapareceu.
Quando se afastaram, o rosto de Giovanna estava num tom de vermelho profundo, a timidez voltando com força total. Ela escondeu o rosto nas mãos, soltando um ganido baixo de vergonha.
— Meu Deus... Hadassa! — Giovanna exclamou, sem saber onde enfiar a cara.
Hadassa sorriu, um sorriso vitorioso e sonolento, antes de cambalear de volta para a cama.
— Missão cumprida — murmurou ela, caindo nos travesseiros e pegando no sono quase instantaneamente, exausta pelo esforço e pela doença.
Giovanna passou o resto da noite em transe, tocando os próprios lábios e cuidando de Hadassa enquanto ela dormia um sono pesado e restaurador.
No dia seguinte, Hadassa acordou se sentindo muito melhor. A febre havia sumido e sua energia caótica estava de volta. Ela se espreguiçou, vendo Giovanna sentada na poltrona ao lado, lendo um livro.
— Bom dia, raio de sol! — exclamou Hadassa, saltando da cama. — Caramba, eu me sinto ótima. Acho que seu cuidado é milagroso.
Giovanna levantou o olhar, o coração disparando novamente.
— Que bom que você melhorou — disse ela, esperando menção ao que acontecera na tarde anterior.
— Eu tive uns sonhos muito loucos ontem — Hadassa continuou, indo até o espelho para arrumar os cabelos ondulados. — Sonhei que a gente estava lutando contra dragões ou algo assim. Minha memória está meio nublada, a febre faz isso, né?
O coração de Giovanna afundou um pouco.
— Você... você não lembra de nada do final da tarde? — perguntou Giovanna, a voz pequena.
Hadassa parou, pensativa, franzindo a testa.
— Lembro de você me dando chá. E de você lendo para mim. Depois disso, é um apagão total. Por quê? Eu fiz alguma coisa vergonhosa? Eu ronquei?
Giovanna sentiu um misto de alívio e decepção.
— Não, você não fez nada demais — mentiu Giovanna, voltando os olhos para o livro, embora não conseguisse ler uma única palavra.
Naquela segunda-feira, de volta à escola, o clima era de conspiração. Damilly e Isabella puxaram Hadassa para um canto assim que ela chegou.
— E aí? — perguntou Damilly, ansiosa. — Você usou o plano do piquenique que a gente montou?
— Ou o poema que eu ajudei a escrever? — Isabella completou.
Hadassa suspirou, parecendo murchar.
— Não. Eu fiquei doente, lembram? A Gi cuidou de mim, mas eu estava tão grogue que nem consegui falar nada produtivo. Perdi a oportunidade perfeita.
Damilly deu um tapa na própria testa.
— Você é um desastre, Hadassa!
Enquanto isso, Giovanna observava a cena de longe. Ela via a frustração no rosto de Hadassa e a agitação de Damilly. Pela primeira vez, ela não sentiu ciúmes. Ela entendeu que o "segredo" delas era, na verdade, um esforço conjunto para fazê-la feliz.
Mas o fato de Hadassa ter esquecido o beijo a incomodava. Giovanna não era de tomar a iniciativa, mas ver Hadassa tão triste por achar que tinha "falhado" deu a ela uma coragem que ela não sabia que possuía.
Na hora do intervalo, enquanto Hadassa estava sentada sozinha em um banco, tentando criar coragem para recomeçar o plano do zero, Giovanna se aproximou.
— Oi — disse Giovanna, sentando-se ao lado dela.
— Oi, Gi — Hadassa sorriu fraco. — Desculpa não ter falado nada de importante enquanto eu estava doente. Eu queria ter dito coisas bonitas, mas meu cérebro derreteu.
Giovanna respirou fundo, sentindo os cachos balançarem com o movimento de sua cabeça.
— Sabe, Hadassa... você disse algumas coisas. E fez outras.
Hadassa franziu a testa, confusa.
— Como assim?
— Você disse que não queria mais a ajuda da Damilly e da Isabella para falar comigo — Giovanna começou, a voz trêmula, mas decidida. — E depois... você me prendeu contra a parede.
Os olhos de Hadassa se arregalaram. Uma imagem flash de Giovanna contra a parede, o calor da pele dela e o gosto de lábios doces invadiu sua mente como um trovão. A memória, antes trancada pela névoa da febre, voltou com força total.
— Ah, meu Deus — Hadassa cobriu o rosto com as mãos, ficando instantaneamente parda-avermelhada. — Eu... eu fiz isso? Eu te beijei enquanto estava com gripe? Que nojo, eu devo ter passado germes para você! Eu sou uma idiota!
Giovanna riu, uma risada leve e cristalina, e segurou as mãos de Hadassa, afastando-as do rosto dela.
— Eu não me importo com os germes — disse Giovanna, olhando nos olhos de Hadassa com toda a gentileza do mundo. — Eu só queria saber se você só fez aquilo porque estava com febre ou se... se era verdade.
Hadassa parou de tremer. O olhar de Giovanna era um convite, um porto seguro.
— Foi a coisa mais verdadeira que eu já fiz em toda a minha vida — confessou Hadassa, a voz suave. — Eu estou apaixonada por você há tanto tempo que dói, Gi.
Damilly e Isabella, que observavam tudo de trás de uma pilastra, deram um grito de comemoração abafado.
— Finalmente! — Damilly exclamou, abraçando Isabella de lado, que riu da empolgação da amiga. — Eu achei que ia ter que desenhar para elas!
No banco, alheias ao caos das amigas, Hadassa e Giovanna apenas sorriram uma para a outra.
— Então — disse Hadassa, recuperando um pouco de sua confiança caótica —, agora que eu não estou mais doente e minha memória voltou... posso fazer as coisas do jeito certo?
— E qual seria o jeito certo? — perguntou Giovanna, curiosa.
Hadassa se inclinou, mas desta vez não havia parede, nem febre, apenas a vontade de estar perto.
— Sem germes desta vez — brincou Hadassa, antes de selar seus lábios aos de Giovanna em um beijo calmo, sob a luz do sol do pátio, selando o início de algo que nenhuma gripe ou ciúme poderia abalar.
Damilly, observando a cena, suspirou dramaticamente.
— Elas são tão fofas que chega a dar raiva.
— Pois é — concordou Isabella, olhando para Damilly com um brilho diferente nos olhos. — Talvez a gente devesse seguir o exemplo delas, não acha?
Damilly engasgou com a própria saliva, a franja caindo sobre os olhos enquanto Isabella ria, e o ciclo de caos e romance daquele grupo de amigas continuava, mais forte e unido do que nunca.
Lá estavam elas. Hadassa, com seus cabelos ondulados balançando conforme ela gesticulava animadamente, estava grudada em Damilly. Isabella estava logo ao lado, rindo de alguma piada interna que Giovanna não conhecia. O que mais doía era ver Hadassa e Damilly cochichando, trocando olhares cúmplices e risadinhas abafadas.
— Elas parecem estar se divertindo — murmurou Giovanna para si mesma, sentindo uma pontada incômoda de ciúmes.
Giovanna sempre fora a mais tímida do grupo, a inteligente que preferia o silêncio de um livro à agitação de uma festa, mas Hadassa era seu porto seguro. Ver Hadassa, tão extrovertida e caótica, subitamente tão próxima de Damilly — que era a personificação do caos com sua franja sempre desalinhada — fazia Giovanna se sentir... substituível.
O que ela não sabia, entretanto, era o conteúdo daqueles cochichos.
— Você tem certeza que ela gosta de girassóis? — perguntou Hadassa, a voz trêmula de nervosismo, algo raro para ela.
— Tenho, Hadassa! — Damilly revirou os olhos, ajeitando a franja. — A Gi é romântica, ela ama coisas delicadas. Mas o foco aqui é você criar coragem.
— Eu concordo com a Damilly — Isabella interveio, cruzando os braços e sorrindo. — Você está enrolando há meses. Se não se declarar logo, vai acabar tendo um colapso nervoso de tanto segredo.
— É que ela é tão... perfeita — Hadassa suspirou, olhando de relance para onde Giovanna estava, sem perceber que a amiga rapidamente desviou o olhar. — Eu não quero estragar a nossa amizade.
— Você não vai estragar nada — Damilly garantiu, embora estivesse mais interessada em observar Isabella do que na conversa. — Mas agora, foco. Precisamos planejar o momento certo.
Os dias se passaram e o distanciamento aparente continuou. Giovanna se retraiu cada vez mais, convencida de que o trio — Hadassa, Damilly e Isabella — agora formava um núcleo onde ela não se encaixava mais. No entanto, o destino tinha outros planos, e eles envolveriam um termômetro e uma caneca de chá.
Na quinta-feira, Hadassa não apareceu na escola. O grupo sentiu sua falta imediatamente, mas foi Giovanna quem recebeu a mensagem no meio da tarde.
"Gi... eu tô morrendo. Acho que é gripe. Minha mãe teve que trabalhar e eu tô sozinha. Você pode vir aqui me dar um oi? Por favor?"
O coração de Giovanna amoleceu instantaneamente. O ciúme deu lugar à preocupação. Ela passou na farmácia, comprou alguns remédios e seguiu para a casa de Hadassa.
Ao entrar no quarto, encontrou a amiga enrolada em três cobertores, com o nariz vermelho e os olhos brilhantes pela febre.
— Você veio — a voz de Hadassa saiu rouca, mas carregada de um alívio genuíno.
— Claro que vim, boba — Giovanna respondeu, aproximando-se e colocando a mão na testa da amiga. — Você está queimando de febre, Hadassa.
— Eu me sinto péssima — resmungou a garota de cabelos ondulados, esticando os braços como uma criança pequena. — Fica aqui comigo?
Hadassa, quando doente, perdia toda a sua pose de garota extrovertida e caótica. Ela se tornava extremamente carente, e sua pessoa favorita no mundo para mimar essa carência sempre fora Giovanna.
— Vou fazer uma sopa para você — disse Giovanna, tentando se levantar, mas sendo impedida pela mão de Hadassa que segurou seu pulso.
— Agora não. Só... senta aqui. Por favor.
Giovanna cedeu. Ela se sentou na beira da cama e começou a acariciar os cabelos de Hadassa. O silêncio era confortável, quebrando o gelo que o ciúme havia criado nos últimos dias.
— Gi... — Hadassa murmurou, fechando os olhos sob o toque suave. — Você estava estranha comigo essa semana.
— Eu? — Giovanna sentiu o rosto esquentar. — Achei que você estivesse ocupada demais com a Damilly e a Isabella. Vocês não paravam de segredar.
Hadassa soltou uma risada fraca, que logo virou uma tosse.
— Ah, se você soubesse... — Ela abriu um dos olhos, observando a expressão confusa de Giovanna. — A gente estava falando de você, sua boba.
— De mim? Por quê?
— Porque eu sou uma covarde — Hadassa suspirou, puxando o cobertor até o queixo. — Eu queria te pedir algo, mas precisava da ajuda delas para não passar vergonha.
Giovanna sentiu um frio na barriga. Antes que pudesse perguntar o que era, Hadassa se aconchegou mais perto dela, encostando a cabeça em seu colo.
— Não sai de perto de mim hoje. Promete?
— Prometo — respondeu Giovanna, sentindo o carinho transbordar.
A tarde passou devagar. Giovanna cuidou de cada detalhe: deu o remédio na hora certa, preparou o chá e até leu em voz alta um dos seus livros favoritos para entreter a amiga. Hadassa, por sua vez, não desgrudava. Onde Giovanna ia, o olhar de Hadassa seguia. Se Giovanna se afastava dois passos, Hadassa reclamava de frio.
Conforme o sol começava a se pôr, tingindo o quarto de tons alaranjados e roxos, a febre de Hadassa parecia ter cedido um pouco, mas a intensidade de seus sentimentos estava no ápice. A carência da doença se misturou com a urgência de tudo o que ela vinha guardando.
Giovanna estava em pé, guardando o termômetro na mesinha de cabeceira, quando sentiu um puxão em seu braço.
— Gi, olha para mim — pediu Hadassa.
Ela se levantou da cama com uma energia repentina que não condizia com quem estava prostrada horas antes. Giovanna deu um passo para trás, surpresa pela aproximação súbita, até que suas costas tocaram a parede fria do quarto.
Hadassa não recuou. Ela se aproximou, prendendo Giovanna contra a parede, colocando as mãos de cada lado da cabeça da amiga. A respiração de Hadassa ainda estava quente, e seus olhos pareciam mais escuros, focados intensamente nos lábios de Giovanna.
— Hadassa... o que você está fazendo? — Giovanna sussurrou, o coração batendo tão forte que ela achava que a outra podia ouvir.
— Eu cansei de planejar com a Damilly e a Isabella — disse Hadassa, a voz agora firme, embora carregada pela vulnerabilidade da febre. — Eu não quero mais ajuda de ninguém.
— Ajuda para quê?
— Para isso.
Antes que Giovanna pudesse processar a frase, Hadassa inclinou a cabeça e a beijou. Foi um beijo urgente, um pouco desajeitado por causa do estado gripal, mas carregado de uma doçura e uma entrega que fizeram as pernas de Giovanna fraquejarem.
Giovanna arregalou os olhos por um segundo, mas logo se entregou, fechando-os e retribuindo o toque. Suas mãos subiram timidamente para os ombros de Hadassa, sentindo o calor da pele dela. O mundo lá fora, o ciúme de Damilly, as piadas de Isabella... tudo desapareceu.
Quando se afastaram, o rosto de Giovanna estava num tom de vermelho profundo, a timidez voltando com força total. Ela escondeu o rosto nas mãos, soltando um ganido baixo de vergonha.
— Meu Deus... Hadassa! — Giovanna exclamou, sem saber onde enfiar a cara.
Hadassa sorriu, um sorriso vitorioso e sonolento, antes de cambalear de volta para a cama.
— Missão cumprida — murmurou ela, caindo nos travesseiros e pegando no sono quase instantaneamente, exausta pelo esforço e pela doença.
Giovanna passou o resto da noite em transe, tocando os próprios lábios e cuidando de Hadassa enquanto ela dormia um sono pesado e restaurador.
No dia seguinte, Hadassa acordou se sentindo muito melhor. A febre havia sumido e sua energia caótica estava de volta. Ela se espreguiçou, vendo Giovanna sentada na poltrona ao lado, lendo um livro.
— Bom dia, raio de sol! — exclamou Hadassa, saltando da cama. — Caramba, eu me sinto ótima. Acho que seu cuidado é milagroso.
Giovanna levantou o olhar, o coração disparando novamente.
— Que bom que você melhorou — disse ela, esperando menção ao que acontecera na tarde anterior.
— Eu tive uns sonhos muito loucos ontem — Hadassa continuou, indo até o espelho para arrumar os cabelos ondulados. — Sonhei que a gente estava lutando contra dragões ou algo assim. Minha memória está meio nublada, a febre faz isso, né?
O coração de Giovanna afundou um pouco.
— Você... você não lembra de nada do final da tarde? — perguntou Giovanna, a voz pequena.
Hadassa parou, pensativa, franzindo a testa.
— Lembro de você me dando chá. E de você lendo para mim. Depois disso, é um apagão total. Por quê? Eu fiz alguma coisa vergonhosa? Eu ronquei?
Giovanna sentiu um misto de alívio e decepção.
— Não, você não fez nada demais — mentiu Giovanna, voltando os olhos para o livro, embora não conseguisse ler uma única palavra.
Naquela segunda-feira, de volta à escola, o clima era de conspiração. Damilly e Isabella puxaram Hadassa para um canto assim que ela chegou.
— E aí? — perguntou Damilly, ansiosa. — Você usou o plano do piquenique que a gente montou?
— Ou o poema que eu ajudei a escrever? — Isabella completou.
Hadassa suspirou, parecendo murchar.
— Não. Eu fiquei doente, lembram? A Gi cuidou de mim, mas eu estava tão grogue que nem consegui falar nada produtivo. Perdi a oportunidade perfeita.
Damilly deu um tapa na própria testa.
— Você é um desastre, Hadassa!
Enquanto isso, Giovanna observava a cena de longe. Ela via a frustração no rosto de Hadassa e a agitação de Damilly. Pela primeira vez, ela não sentiu ciúmes. Ela entendeu que o "segredo" delas era, na verdade, um esforço conjunto para fazê-la feliz.
Mas o fato de Hadassa ter esquecido o beijo a incomodava. Giovanna não era de tomar a iniciativa, mas ver Hadassa tão triste por achar que tinha "falhado" deu a ela uma coragem que ela não sabia que possuía.
Na hora do intervalo, enquanto Hadassa estava sentada sozinha em um banco, tentando criar coragem para recomeçar o plano do zero, Giovanna se aproximou.
— Oi — disse Giovanna, sentando-se ao lado dela.
— Oi, Gi — Hadassa sorriu fraco. — Desculpa não ter falado nada de importante enquanto eu estava doente. Eu queria ter dito coisas bonitas, mas meu cérebro derreteu.
Giovanna respirou fundo, sentindo os cachos balançarem com o movimento de sua cabeça.
— Sabe, Hadassa... você disse algumas coisas. E fez outras.
Hadassa franziu a testa, confusa.
— Como assim?
— Você disse que não queria mais a ajuda da Damilly e da Isabella para falar comigo — Giovanna começou, a voz trêmula, mas decidida. — E depois... você me prendeu contra a parede.
Os olhos de Hadassa se arregalaram. Uma imagem flash de Giovanna contra a parede, o calor da pele dela e o gosto de lábios doces invadiu sua mente como um trovão. A memória, antes trancada pela névoa da febre, voltou com força total.
— Ah, meu Deus — Hadassa cobriu o rosto com as mãos, ficando instantaneamente parda-avermelhada. — Eu... eu fiz isso? Eu te beijei enquanto estava com gripe? Que nojo, eu devo ter passado germes para você! Eu sou uma idiota!
Giovanna riu, uma risada leve e cristalina, e segurou as mãos de Hadassa, afastando-as do rosto dela.
— Eu não me importo com os germes — disse Giovanna, olhando nos olhos de Hadassa com toda a gentileza do mundo. — Eu só queria saber se você só fez aquilo porque estava com febre ou se... se era verdade.
Hadassa parou de tremer. O olhar de Giovanna era um convite, um porto seguro.
— Foi a coisa mais verdadeira que eu já fiz em toda a minha vida — confessou Hadassa, a voz suave. — Eu estou apaixonada por você há tanto tempo que dói, Gi.
Damilly e Isabella, que observavam tudo de trás de uma pilastra, deram um grito de comemoração abafado.
— Finalmente! — Damilly exclamou, abraçando Isabella de lado, que riu da empolgação da amiga. — Eu achei que ia ter que desenhar para elas!
No banco, alheias ao caos das amigas, Hadassa e Giovanna apenas sorriram uma para a outra.
— Então — disse Hadassa, recuperando um pouco de sua confiança caótica —, agora que eu não estou mais doente e minha memória voltou... posso fazer as coisas do jeito certo?
— E qual seria o jeito certo? — perguntou Giovanna, curiosa.
Hadassa se inclinou, mas desta vez não havia parede, nem febre, apenas a vontade de estar perto.
— Sem germes desta vez — brincou Hadassa, antes de selar seus lábios aos de Giovanna em um beijo calmo, sob a luz do sol do pátio, selando o início de algo que nenhuma gripe ou ciúme poderia abalar.
Damilly, observando a cena, suspirou dramaticamente.
— Elas são tão fofas que chega a dar raiva.
— Pois é — concordou Isabella, olhando para Damilly com um brilho diferente nos olhos. — Talvez a gente devesse seguir o exemplo delas, não acha?
Damilly engasgou com a própria saliva, a franja caindo sobre os olhos enquanto Isabella ria, e o ciclo de caos e romance daquele grupo de amigas continuava, mais forte e unido do que nunca.
