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Fandom: record of ragnarok

Criado: 28/06/2026

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O Espelho de Vidro Quebrado

O salão de conferências do Valhalla, geralmente um palco de tensões políticas e preparativos para o extermínio da humanidade, estava mergulhado em um silêncio sepulcral. Deuses e humanos, separados pela linha tênue da sobrevivência, encaravam a gigantesca projeção que flutuava no centro da arena. Brunhilde, a Valquíria mais velha, apertava o dispositivo em suas mãos, surpresa com o que a memória coletiva do registro akáshico estava exibindo.

Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, estava sentado em uma poltrona que ele mesmo arrastara para o meio do corredor, tratando-a como se fosse o trono mais glorioso do universo. Ele mantinha a venda sobre os olhos e um sorriso enigmático nos lábios, as pernas cruzadas com uma elegância que beirava a insolência. Ao seu lado, Hades, o Rei do Submundo, observava a tela com uma seriedade gélida, sua postura impecável e nobre contrastando com a exuberância do imperador.

A imagem na tela tremeu, revelando um cenário sombrio. Não era o palácio de mármore de Xianyang, mas uma ruela lamacenta em uma província esquecida. Estava chovendo.

— Que tipo de entretenimento é este? — perguntou Zeus, acariciando sua barba e soltando uma risada curta. — Um filme de terror humano?

— Cale-se, velho — murmurou Qin, embora seu sorriso não fosse tão largo quanto o habitual. — Estão vendo a história de um Rei.

Na tela, um jovem Qin, ainda conhecido apenas como Ying Zheng, corria desesperadamente. Ele era pouco mais que um adolescente, as roupas rasgadas e o rosto coberto de fuligem. Atrás dele, sombras disformes — homens com rostos distorcidos pelo ódio — gritavam obscenidades.

— Peguem o monstro! Matem a aberração de Zhao! — gritavam os perseguidores na memória.

Hades estreitou os olhos. Ele reconhecia aquele olhar no jovem na tela. Não era o olhar de um criminoso, mas o de uma presa que sentia cada grama da intenção assassina ao seu redor.

Subitamente, um dos perseguidores arremessou um gancho de ferro preso a uma corda. O metal rasgou o ar e prendeu-se violentamente no calcanhar do jovem Zheng.

Um grito agudo ecoou pelo salão do Valhalla, mas não veio apenas da tela. Qin Shi Huang, no presente, contraiu levemente o pé, seus dedos apertando o braço da poltrona. A sinestesia toque-espelho ainda pulsava nele; ver o seu eu passado ser ferido trazia a dor de volta como um eco fantasmagórico.

Na projeção, o jovem imperador foi puxado para trás, caindo de cara na lama fria. O som do impacto foi seco, visceral.

— Não... — sussurrou Héracles, seu coração heróico apertando-se diante da covardia da cena.

— Que patético — comentou Poseidon, embora seus olhos não deixassem a tela. — Um "Rei" sendo arrastado como um animal.

— Olhe mais de perto, irmão — disse Hades, sua voz profunda ressoando com uma autoridade que silenciou o Deus dos Mares. — Ele não está desistindo.

Na tela, Zheng lutava. Ele cravava as unhas na terra ensopada, os dedos sangrando enquanto era puxado em direção aos homens que riam. O desespero em seu rosto era palpável. Lágrimas misturavam-se à água da chuva e ao sangue que escorria de sua testa. Ele conseguiu, em um movimento de pura adrenalina, chutar o gancho com o outro pé, soltando-se por milímetros.

Ele se levantou, mancando, e continuou a correr. Sua respiração era um chiado doloroso.

— Por favor... — soluçou o jovem na tela, a voz falhando. — Qualquer Deus que esteja ouvindo... por favor... façam eles caírem... deixem-me fugir!

Nesse momento, a sorte — ou talvez algo mais sombrio — sorriu. Os perseguidores, em sua pressa cega, tropeçaram em detritos ocultos pela lama e caíram uns sobre os outros em um emaranhado de membros e maldições. O jovem Zheng não olhou para trás. Ele se arrastou para dentro de um vão estreito entre duas casas abandonadas, encolhendo-se ali.

A câmera da memória permaneceu nele durante toda a noite. O garoto tremia violentamente, abraçando os próprios joelhos, os olhos arregalados e vazios. Ele sentia a dor dos homens que haviam caído, a dor de suas próprias feridas e, acima de tudo, o peso do ódio de um mundo inteiro.

Quando o sol começou a despontar no horizonte, tingindo a chuva de um cinza pálido, o jovem Zheng se levantou. O rosto que ele mostrava agora não era o de uma criança. Era uma máscara de puro desespero e, ao mesmo tempo, de uma resolução aterrorizante.

A projeção se apagou.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Jack, o Estripador, girou seu relógio de bolso, sua expressão oculta.

— Que cor interessante... — murmurou o assassino. — O medo transformado em uma armadura de ouro.

— Então é daí que vem essa sua arrogância, garoto? — perguntou Leônidas I, cruzando os braços, o charuto apagado no canto da boca. — Você decidiu que nunca mais seria puxado para baixo.

Qin Shi Huang soltou uma risada melodiosa, embora houvesse um fio de aço nela. Ele se levantou de sua poltrona, a capa flutuando suavemente.

— Um Rei não é definido pelo quanto ele sofre — disse Qin, apontando para si mesmo com o polegar —, mas pelo quanto ele suporta para que seu povo não precise sofrer o mesmo. Onde eu me sento, é o trono. E onde eu ando, é o caminho da realeza.

Hades, que permanecera em silêncio, levantou-se e caminhou até ficar frente a frente com o imperador. A diferença de altura era notável, mas a pressão emanada por ambos era equivalente.

— Você pediu aos deuses naquela noite — disse Hades, sua voz calma, mas carregada de um peso ancestral. — E agora você desafia os próprios deuses que, segundo você, permitiram sua fuga.

— Eu não pedi por misericórdia — respondeu Qin, o sorriso diminuindo, tornando-se algo mais genuíno e perigoso. — Eu pedi por uma oportunidade. E eu a tomei. Deuses, humanos... para mim, todos estão abaixo do céu, e o céu é o meu domínio.

Hades olhou fundo nos olhos vendados de Qin, como se pudesse ver através do tecido as cicatrizes que a alma do homem carregava.

— Você é um governante estranho, Qin Shi Huang — admitiu o Rei do Submundo. — Há uma nobreza em sua dor que eu não esperava encontrar em um mortal.

— Nobreza? — Qin riu novamente, caminhando em direção à saída do salão, ignorando as ordens de Brunhilde para que voltasse. — Eu sou apenas o Rei. E um Rei não precisa da validação de quem vive nas nuvens ou nas sombras.

— Ele é irritante — comentou Belzebu, encostado em uma coluna, os olhos sem brilho.

— Ele é um guerreiro — corrigiu Buda, mastigando um doce com desdém pela tensão no ar. — Ele conhece o peso do mundo.

Enquanto Qin se afastava, seus passos ecoando pelo mármore, Hades observou a mancha de lama imaginária que o imperador parecia carregar com tanto orgulho. O Rei do Submundo sentiu uma ponta de respeito que não deveria ter por um adversário.

— Irmão — chamou Zeus, aproximando-se de Hades. — Você parece pensativo. Ficou comovido com a historinha do humano?

Hades não respondeu imediatamente. Ele pensou em seus próprios irmãos, na responsabilidade que carregava sobre os ombros para manter o equilíbrio do cosmos e do Helheim.

— Não é comovente, Zeus — disse Hades, virando as costas para o telão apagado. — É um aviso. Aquele homem não luta por glória. Ele luta porque já conheceu o inferno na terra, e decidiu que ele seria o mestre de lá.

No corredor, longe dos olhos de todos, Qin Shi Huang parou por um momento. Ele tocou o próprio calcanhar, onde a cicatriz antiga ainda pulsava sob a bota ornamentada. Sua mão tremeu levemente, um resquício daquele garoto na chuva.

— Hou Yan... — sussurrou ele, o nome da mulher que o ensinara a amar apesar da dor.

Ele respirou fundo, endireitou a coluna e ajustou a venda. O desespero daquela manhã chuvosa foi trancado novamente em uma caixa de ferro dentro de seu coração. Quando ele voltou a andar, cada passo era majestoso, cada movimento era um decreto.

Ele era o Imperador. E o mundo, fosse ele de deuses ou de homens, teria que se curvar diante da sua dor transformada em poder.

Lá dentro, no salão, Nikola Tesla anotava algo em seu caderno, os olhos brilhando de curiosidade científica e empatia humana.

— A resiliência humana é, de fato, a maior das energias — disse Tesla para ninguém em particular. — Ele transformou o trauma em um motor de conquista.

— Ele é apenas um teimoso — resmungou Sasaki Kojiro, embora estivesse sorrindo, limpando sua espada. — Mas é o tipo de teimosia que ganha guerras.

Hades, já perto da saída oposta, olhou uma última vez para o lugar onde Qin estivera sentado. O Rei do Submundo sabia que, quando chegasse a hora de se enfrentarem na arena, ele não estaria lutando apenas contra um homem, mas contra a vontade inquebrável de alguém que se recusou a morrer na lama.

E, para Hades, não havia honra maior do que derrotar — ou ser derrotado por — um verdadeiro Rei.
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