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d51
Fandom: record of ragnarok
Criado: 28/06/2026
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DramaAngústiaDor/ConfortoEstudo de PersonagemFantasiaHistóricoCenário CanônicoCena Perdida
O Peso da Coroa de Espinhos
A biblioteca do palácio de Qin Shi Huang era um monumento à sua própria grandiosidade. Prateleiras que tocavam o teto, repletas de pergaminhos antigos e registros de uma era onde ele era o único senhor sob o céu. No entanto, o silêncio que habitava aquele lugar não era de paz, mas de opressão.
Do lado de fora, no grande pátio que unia as alas dos lutadores do Ragnarok, uma multidão incomum se reunira. Deuses e humanos, por um breve momento de trégua forçada pela curiosidade, caminhavam juntos. Zeus saltitava com sua energia caótica, enquanto Brunhilde tentava manter a compostura ao lado de um Buda que mascava chiclete despreocupadamente.
— Onde está aquele pirralho arrogante? — resmungou Zeus, coçando a barba rala. — O banquete vai começar e o "Imperador" ainda não deu as caras para reivindicar o seu trono de sempre.
— Provavelmente ocupado demais admirando o próprio reflexo — comentou Poseidon, a voz fria como as profundezas do oceano, embora seus olhos buscassem o irmão, Hades, que caminhava em silêncio absoluto ao seu lado.
— Qin não é de se atrasar para onde haja público — observou Jack, o Estripador, ajustando sua cartola. — A cor das emoções dele costuma ser tão vibrante que é impossível não notar sua presença a quilômetros.
Liderados por uma mistura de irritação e tédio, o grupo — que incluía desde a força bruta de Thor e Raiden até a mente analítica de Tesla e a fúria contida de Leônidas — decidiu invadir os domínios do Primeiro Imperador. Eles esperavam encontrá-lo sentado em cima de uma mesa, rindo de alguma piada interna ou desafiando Ares para mais uma humilhação pública.
Mas, ao cruzarem as portas duplas da biblioteca, o cenário que encontraram congelou o sangue até dos deuses mais antigos.
A luz do entardecer filtrava-se pelas janelas altas, iluminando a poeira que dançava no ar. No centro da sala, longe de qualquer trono ou pedestal, Qin Shi Huang estava sentado no chão frio de mármore. Ele não usava sua venda habitual; seus olhos estavam expostos, e deles brotavam lágrimas que pareciam não ter fim.
O Imperador da China, o homem que dizia ser o começo e o fim, estava encolhido. Seus ombros tremiam violentamente em soluços silenciosos. Ele não percebeu a entrada dos outros. Estava perdido em um abismo que ninguém ali, exceto talvez um, conseguia compreender.
— Mas o que... — sussurrou Okita Soji, abaixando sua espada, o choque estampado no rosto jovem.
— Ele está... chorando? — Simo Häyhä ajustou o protetor de rosto, desconfortável com a vulnerabilidade alheia.
Sasaki Kojiro deu um passo à frente, mas parou. Como espadachim, ele sentia a "forma" das pessoas. E a forma de Qin, naquele momento, era a de uma criança quebrada.
— Nós esquecemos — disse Buda, sua voz perdendo toda a brincadeira habitual. — Antes de ser o Imperador, ele foi o monstro. O filho do ódio.
As memórias do passado de Qin começaram a ressoar na mente daqueles que conheciam sua história. O menino que nasceu em território inimigo, que foi espancado, cuspido e odiado por cada pessoa que cruzava seu caminho. A sinestesia toque-espelho, que o obrigava a sentir fisicamente a dor de quem o agredia, transformando sua infância em um ciclo interminável de tortura sensorial.
— Ele sempre sorri — murmurou Héracles, sentindo o peito apertar. — Mesmo na luta contra Hades, ele sorria. Eu pensei que ele fosse inabalável.
— Ninguém é inabalável quando se carrega o ódio de uma nação inteira nas costas por tanto tempo — disse Beelzebub, sua voz sombria ecoando a própria solidão.
Qin soltou um arquejo doloroso, as mãos agarrando o tecido de suas vestes reais como se tentasse se ancorar na realidade.
— Por que... — a voz de Qin saiu quebrada, rouca de tanto chorar. — Por que o peso nunca diminui?
Antes que qualquer humano pudesse se aproximar, ou que Zeus pudesse dizer alguma asneira para quebrar o gelo, uma figura se destacou. Hades, o Rei do Submundo, caminhou com passos firmes e dignos em direção ao homem caído.
Houve um momento de tensão. Os deuses observavam, esperando que Hades talvez aproveitasse a fraqueza do oponente que quase o tirou a vida. Mas Hades não era um deus de mesquinharias. Ele era um rei. E reis reconhecem o fardo um do outro.
Hades ajoelhou-se no mármore, ignorando a poeira em suas vestes impecáveis. Ele não disse nada de imediato. Apenas estendeu a mão e, com uma delicadeza que surpreendeu até Poseidon, tocou o ombro de Qin.
O Imperador sobressaltou-se. Ao ver Hades, ele tentou instintivamente limpar o rosto e recuperar a máscara de arrogância.
— Hades... — Qin tentou rir, mas o som morreu em sua garganta, transformando-se em um novo soluço. — O que faz aqui? O trono... o trono está ali fora, não está? Eu já vou... eu só...
— Shh — interrompeu Hades, sua voz profunda e calma como o repouso eterno. — Não há trono aqui, Ying Zheng. E não há público.
Qin congelou ao ouvir seu nome de nascimento. Ele olhou para os lados e viu a multidão na porta. Por um segundo, a vergonha brilhou em seus olhos, mas Hades moveu-se para bloquear a visão dos outros, criando um santuário privado para o imperador.
— Eles me odiavam — sussurrou Qin, as defesas finalmente desmoronando diante da empatia genuína do Deus dos Mortos. — Cada pessoa que eu tentava proteger... no início, eles só queriam me ver morto. Eu sinto a dor deles, Hades. Até hoje. Cada cicatriz que eu carrego não é minha. É o ódio deles que se tornou carne em mim.
— Eu sei — respondeu Hades, aproximando-se mais e permitindo que o imperador apoiasse a testa em seu peito. — Ser um rei é ser o mais solitário dos homens. Você se tornou o pilar para que eles não precisassem cair, mas quem segura o pilar quando ele racha?
Qin agarrou a capa de Hades, chorando abertamente agora. O choro de alguém que guardou séculos de rejeição e sofrimento atrás de uma fachada de ouro.
— Eu cansei de ser forte — confessou o humano, a voz abafada. — Eu cansei de fingir que o ódio não dói.
Hades fechou os olhos, passando a mão pelos cabelos de Qin de forma protetora. Ele pensou em seus próprios irmãos, em Adamas, em Poseidon, e em como ele mesmo teve que ser o alicerce inabalável para que sua família não se desintegrasse. Ele entendia a dor de ser o "irmão mais velho" de uma nação inteira.
— Você não precisa ser o Imperador neste momento — disse Hades, olhando por cima do ombro para os outros deuses e humanos na porta.
Seu olhar era um comando silencioso. Um por um, os espectadores começaram a recuar. Zeus suspirou e colocou a mão no ombro de Hermes, conduzindo-o para fora. Thor deu um último olhar respeitoso antes de se retirar. Até mesmo Jack e Tesla entenderam que aquela era uma dor que não pertencia a eles.
— Vá — ordenou Hades para Poseidon, que permanecia imóvel.
O Deus dos Mares estreitou os olhos, mas, ao ver a sinceridade no rosto do irmão, apenas bufou e virou as costas, saindo da biblioteca e fechando as grandes portas atrás de si.
Agora, estavam apenas os dois. O Rei que governa os mortos e o Rei que unificou os vivos.
— Eles nunca vão entender — disse Qin, sua respiração começando a se acalmar sob o toque rítmico de Hades. — Eles acham que eu sou feito de jade.
— Deixe que pensem — respondeu Hades, ajudando Qin a se levantar lentamente, mas sem soltar suas mãos. — O mundo precisa da sua luz e da sua arrogância. Mas aqui, nestas sombras, você pode ser apenas Ying Zheng.
Qin Shi Huang olhou para Hades. Pela primeira vez, não havia desafio em seus olhos, apenas uma gratidão profunda e silenciosa. Ele limpou os resquícios das lágrimas e respirou fundo, sentindo o peso em seu peito um pouco mais leve, não porque a dor tivesse sumido, mas porque alguém finalmente a vira e não o julgara por ela.
— Você é um homem estranho, Hades — comentou Qin, tentando recuperar um pouco de seu tom característico, embora sua voz ainda estivesse frágil. — Consolar o homem que te derrotou no campo de batalha?
Hades deu um pequeno sorriso, um gesto raro e nobre.
— Um rei não odeia outro rei por cumprir seu dever. Eu vi sua alma lutar, Ying Zheng. E uma alma que sentiu tanto ódio e ainda assim escolheu amar seu povo... essa é uma alma que merece respeito, não desprezo.
Qin endireitou a postura. Ele pegou sua venda, que estava caída no chão, e a recolocou com mãos agora firmes. O Imperador estava voltando, mas o homem por baixo da máscara estava em paz.
— Onde eu me sento... — começou Qin, olhando para o salão vazio.
— É o seu trono — completou Hades, gesticulando para a saída. — Vamos. O banquete nos espera. E eu suspeito que Zeus já começou a beber o vinho mais caro.
Qin soltou uma risada curta, a primeira risada verdadeira em muito tempo.
— Então é melhor irmos. Eu não posso deixar que um deus menor como ele termine com o estoque real.
Enquanto caminhavam lado a lado para fora da biblioteca, o contraste era evidente: o ouro vibrante de Qin e o roxo profundo e nobre de Hades. Dois governantes, dois inimigos, mas, naquele momento, dois pilares que encontraram, um no outro, o apoio necessário para continuar carregando o mundo nas costas.
Ao cruzarem as portas e retornarem ao olhar do público, Qin Shi Huang ergueu o queixo, o sorriso confiante e a aura de superioridade de volta ao lugar. Ninguém ousou mencionar seus olhos vermelhos. Ninguém ousou questionar sua força.
Pois agora, o Imperador sabia que, mesmo no reino das sombras, ele não estava mais sozinho. E Hades, observando-o de relance, sentia-se satisfeito. Afinal, um rei sempre deve cuidar do que é precioso, e a vontade de Ying Zheng era, sem dúvida, a joia mais rara que ele já encontrara em toda a sua eternidade.
Do lado de fora, no grande pátio que unia as alas dos lutadores do Ragnarok, uma multidão incomum se reunira. Deuses e humanos, por um breve momento de trégua forçada pela curiosidade, caminhavam juntos. Zeus saltitava com sua energia caótica, enquanto Brunhilde tentava manter a compostura ao lado de um Buda que mascava chiclete despreocupadamente.
— Onde está aquele pirralho arrogante? — resmungou Zeus, coçando a barba rala. — O banquete vai começar e o "Imperador" ainda não deu as caras para reivindicar o seu trono de sempre.
— Provavelmente ocupado demais admirando o próprio reflexo — comentou Poseidon, a voz fria como as profundezas do oceano, embora seus olhos buscassem o irmão, Hades, que caminhava em silêncio absoluto ao seu lado.
— Qin não é de se atrasar para onde haja público — observou Jack, o Estripador, ajustando sua cartola. — A cor das emoções dele costuma ser tão vibrante que é impossível não notar sua presença a quilômetros.
Liderados por uma mistura de irritação e tédio, o grupo — que incluía desde a força bruta de Thor e Raiden até a mente analítica de Tesla e a fúria contida de Leônidas — decidiu invadir os domínios do Primeiro Imperador. Eles esperavam encontrá-lo sentado em cima de uma mesa, rindo de alguma piada interna ou desafiando Ares para mais uma humilhação pública.
Mas, ao cruzarem as portas duplas da biblioteca, o cenário que encontraram congelou o sangue até dos deuses mais antigos.
A luz do entardecer filtrava-se pelas janelas altas, iluminando a poeira que dançava no ar. No centro da sala, longe de qualquer trono ou pedestal, Qin Shi Huang estava sentado no chão frio de mármore. Ele não usava sua venda habitual; seus olhos estavam expostos, e deles brotavam lágrimas que pareciam não ter fim.
O Imperador da China, o homem que dizia ser o começo e o fim, estava encolhido. Seus ombros tremiam violentamente em soluços silenciosos. Ele não percebeu a entrada dos outros. Estava perdido em um abismo que ninguém ali, exceto talvez um, conseguia compreender.
— Mas o que... — sussurrou Okita Soji, abaixando sua espada, o choque estampado no rosto jovem.
— Ele está... chorando? — Simo Häyhä ajustou o protetor de rosto, desconfortável com a vulnerabilidade alheia.
Sasaki Kojiro deu um passo à frente, mas parou. Como espadachim, ele sentia a "forma" das pessoas. E a forma de Qin, naquele momento, era a de uma criança quebrada.
— Nós esquecemos — disse Buda, sua voz perdendo toda a brincadeira habitual. — Antes de ser o Imperador, ele foi o monstro. O filho do ódio.
As memórias do passado de Qin começaram a ressoar na mente daqueles que conheciam sua história. O menino que nasceu em território inimigo, que foi espancado, cuspido e odiado por cada pessoa que cruzava seu caminho. A sinestesia toque-espelho, que o obrigava a sentir fisicamente a dor de quem o agredia, transformando sua infância em um ciclo interminável de tortura sensorial.
— Ele sempre sorri — murmurou Héracles, sentindo o peito apertar. — Mesmo na luta contra Hades, ele sorria. Eu pensei que ele fosse inabalável.
— Ninguém é inabalável quando se carrega o ódio de uma nação inteira nas costas por tanto tempo — disse Beelzebub, sua voz sombria ecoando a própria solidão.
Qin soltou um arquejo doloroso, as mãos agarrando o tecido de suas vestes reais como se tentasse se ancorar na realidade.
— Por que... — a voz de Qin saiu quebrada, rouca de tanto chorar. — Por que o peso nunca diminui?
Antes que qualquer humano pudesse se aproximar, ou que Zeus pudesse dizer alguma asneira para quebrar o gelo, uma figura se destacou. Hades, o Rei do Submundo, caminhou com passos firmes e dignos em direção ao homem caído.
Houve um momento de tensão. Os deuses observavam, esperando que Hades talvez aproveitasse a fraqueza do oponente que quase o tirou a vida. Mas Hades não era um deus de mesquinharias. Ele era um rei. E reis reconhecem o fardo um do outro.
Hades ajoelhou-se no mármore, ignorando a poeira em suas vestes impecáveis. Ele não disse nada de imediato. Apenas estendeu a mão e, com uma delicadeza que surpreendeu até Poseidon, tocou o ombro de Qin.
O Imperador sobressaltou-se. Ao ver Hades, ele tentou instintivamente limpar o rosto e recuperar a máscara de arrogância.
— Hades... — Qin tentou rir, mas o som morreu em sua garganta, transformando-se em um novo soluço. — O que faz aqui? O trono... o trono está ali fora, não está? Eu já vou... eu só...
— Shh — interrompeu Hades, sua voz profunda e calma como o repouso eterno. — Não há trono aqui, Ying Zheng. E não há público.
Qin congelou ao ouvir seu nome de nascimento. Ele olhou para os lados e viu a multidão na porta. Por um segundo, a vergonha brilhou em seus olhos, mas Hades moveu-se para bloquear a visão dos outros, criando um santuário privado para o imperador.
— Eles me odiavam — sussurrou Qin, as defesas finalmente desmoronando diante da empatia genuína do Deus dos Mortos. — Cada pessoa que eu tentava proteger... no início, eles só queriam me ver morto. Eu sinto a dor deles, Hades. Até hoje. Cada cicatriz que eu carrego não é minha. É o ódio deles que se tornou carne em mim.
— Eu sei — respondeu Hades, aproximando-se mais e permitindo que o imperador apoiasse a testa em seu peito. — Ser um rei é ser o mais solitário dos homens. Você se tornou o pilar para que eles não precisassem cair, mas quem segura o pilar quando ele racha?
Qin agarrou a capa de Hades, chorando abertamente agora. O choro de alguém que guardou séculos de rejeição e sofrimento atrás de uma fachada de ouro.
— Eu cansei de ser forte — confessou o humano, a voz abafada. — Eu cansei de fingir que o ódio não dói.
Hades fechou os olhos, passando a mão pelos cabelos de Qin de forma protetora. Ele pensou em seus próprios irmãos, em Adamas, em Poseidon, e em como ele mesmo teve que ser o alicerce inabalável para que sua família não se desintegrasse. Ele entendia a dor de ser o "irmão mais velho" de uma nação inteira.
— Você não precisa ser o Imperador neste momento — disse Hades, olhando por cima do ombro para os outros deuses e humanos na porta.
Seu olhar era um comando silencioso. Um por um, os espectadores começaram a recuar. Zeus suspirou e colocou a mão no ombro de Hermes, conduzindo-o para fora. Thor deu um último olhar respeitoso antes de se retirar. Até mesmo Jack e Tesla entenderam que aquela era uma dor que não pertencia a eles.
— Vá — ordenou Hades para Poseidon, que permanecia imóvel.
O Deus dos Mares estreitou os olhos, mas, ao ver a sinceridade no rosto do irmão, apenas bufou e virou as costas, saindo da biblioteca e fechando as grandes portas atrás de si.
Agora, estavam apenas os dois. O Rei que governa os mortos e o Rei que unificou os vivos.
— Eles nunca vão entender — disse Qin, sua respiração começando a se acalmar sob o toque rítmico de Hades. — Eles acham que eu sou feito de jade.
— Deixe que pensem — respondeu Hades, ajudando Qin a se levantar lentamente, mas sem soltar suas mãos. — O mundo precisa da sua luz e da sua arrogância. Mas aqui, nestas sombras, você pode ser apenas Ying Zheng.
Qin Shi Huang olhou para Hades. Pela primeira vez, não havia desafio em seus olhos, apenas uma gratidão profunda e silenciosa. Ele limpou os resquícios das lágrimas e respirou fundo, sentindo o peso em seu peito um pouco mais leve, não porque a dor tivesse sumido, mas porque alguém finalmente a vira e não o julgara por ela.
— Você é um homem estranho, Hades — comentou Qin, tentando recuperar um pouco de seu tom característico, embora sua voz ainda estivesse frágil. — Consolar o homem que te derrotou no campo de batalha?
Hades deu um pequeno sorriso, um gesto raro e nobre.
— Um rei não odeia outro rei por cumprir seu dever. Eu vi sua alma lutar, Ying Zheng. E uma alma que sentiu tanto ódio e ainda assim escolheu amar seu povo... essa é uma alma que merece respeito, não desprezo.
Qin endireitou a postura. Ele pegou sua venda, que estava caída no chão, e a recolocou com mãos agora firmes. O Imperador estava voltando, mas o homem por baixo da máscara estava em paz.
— Onde eu me sento... — começou Qin, olhando para o salão vazio.
— É o seu trono — completou Hades, gesticulando para a saída. — Vamos. O banquete nos espera. E eu suspeito que Zeus já começou a beber o vinho mais caro.
Qin soltou uma risada curta, a primeira risada verdadeira em muito tempo.
— Então é melhor irmos. Eu não posso deixar que um deus menor como ele termine com o estoque real.
Enquanto caminhavam lado a lado para fora da biblioteca, o contraste era evidente: o ouro vibrante de Qin e o roxo profundo e nobre de Hades. Dois governantes, dois inimigos, mas, naquele momento, dois pilares que encontraram, um no outro, o apoio necessário para continuar carregando o mundo nas costas.
Ao cruzarem as portas e retornarem ao olhar do público, Qin Shi Huang ergueu o queixo, o sorriso confiante e a aura de superioridade de volta ao lugar. Ninguém ousou mencionar seus olhos vermelhos. Ninguém ousou questionar sua força.
Pois agora, o Imperador sabia que, mesmo no reino das sombras, ele não estava mais sozinho. E Hades, observando-o de relance, sentia-se satisfeito. Afinal, um rei sempre deve cuidar do que é precioso, e a vontade de Ying Zheng era, sem dúvida, a joia mais rara que ele já encontrara em toda a sua eternidade.
