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AETHER
Fandom: K-POP
Criado: 28/06/2026
Tags
DramaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraSobrevivênciaEstudo de PersonagemCenário CanônicoSongficRealismo
O Ritmo do Caos e o Silêncio das Notas
A luz neon azul do corredor da JYP Entertainment refletia no piso de linóleo impecavelmente limpo, criando uma atmosfera que oscilava entre o futurismo e a ansiedade pura. Para os quarenta trainees selecionados para o "Global Star Project", aquele prédio em Seul não era apenas um centro de treinamento; era um coliseu moderno.
David Alexander Bannerman Alexandrino ajustou o boné, tentando esconder os olhos cansados. Ele estava na Coréia há pouco tempo, mas o ritmo de treino já havia se tornado seu oxigênio. Nascido no Brasil, com o sangue suíço correndo nas veias e uma herança brasileira que o tornava naturalmente rítmico, ele ainda se sentia um impostor.
— Você está fazendo aquele buraco no chão com o olhar de novo — uma voz vibrante ecoou atrás dele.
David deu um pulo, quase perdendo o equilíbrio. Deva Harvey Acharya estava parada ali, com os braços cruzados e um sorriso que poderia iluminar todo o distrito de Gangnam. A ganense-americana exalava uma confiança que David invejava profundamente.
— Eu estava apenas... revisando a letra na cabeça — mentiu David, coçando a nuca. — O Rap Camp é mais difícil do que eu pensei. Escrever em coreano e inglês ao mesmo tempo... minha cabeça vai explodir.
— Relaxa, Alex! — Deva riu, usando o apelido que só ela tinha coragem de usar. — Você é o melhor dançarino que já vi e seu flow é natural. Se você parar de se cobrar como se o mundo fosse acabar amanhã, vai perceber que já é o favorito de metade da equipe de produção.
— Favorito? Eu sou um desastre, Deva. Ontem eu quase tropecei no cabo do microfone durante o ensaio — ele murmurou, a baixa autoestima falando mais alto que qualquer elogio.
— Mas você recuperou o equilíbrio com um mortal para trás que parecia coreografado! — Daniel Mateo Laforteza Mendez surgiu do nada, deslizando pelo corredor como se estivesse em um videoclipe. O cubano-americano era o epítome do carisma. — Se eu fizesse aquilo, estaria no hospital agora.
— Daniel! Você não deveria estar no Vocal Camp agora? — perguntou David, abrindo um sorriso. Era impossível ficar sério perto de Daniel.
— O professor nos deu dez minutos para "conectar com nossas emoções" — Daniel fez aspas no ar, revirando os olhos. — Eu decidi que minha emoção atual é fome. Alguém viu a Yna?
Como se fosse invocada, Yna Elizabeth Manrique apareceu virando a esquina, carregando uma pequena lancheira térmica. A filipina tinha um olhar sereno que contrastava com o caos que Daniel e David costumavam instaurar.
— Se você está procurando comida, Daniel, saiba que isso aqui é para a NaYoung — disse Yna, com uma voz doce, mas firme. — Ela não comeu nada desde o treino da manhã. Está trancada na sala de prática 4 tentando acertar a pronúncia do verso dela.
— A NaYoung é muito esforçada — comentou David, seu tom suavizando. — Mas ela é tão tímida que às vezes esqueço que ela está na mesma sala que eu.
— Ela só precisa de tempo — defendeu Deva. — O inglês dela está melhorando, e quando ela faz rap, parece que outra pessoa assume o corpo dela. É assustador e incrível.
O quinteto se moveu em direção às salas de prática. Eles eram um grupo improvável: um brasileiro-suíço perfeccionista, uma americana de raízes ganenses explosiva, uma filipina que era o coração do grupo, um cubano sedutor e uma coreana prodígio. Naquele primeiro ano de competição, o objetivo era sobreviver. Dos quarenta, apenas vinte restariam. O medo da eliminação pairava sobre eles como uma nuvem cinzenta, mas a amizade que florescia entre as avaliações mensais era o que os mantinha sãos.
Ao entrarem na sala 4, encontraram Shin NaYoung sentada no chão, com os fones de ouvido caídos no pescoço e um papel amassado nas mãos. Seus olhos estavam marejados.
— NaYoung-ah? — chamou Yna, aproximando-se lentamente.
A menina levantou o rosto, tentando limpar as lágrimas rapidamente.
— Eu... eu não consigo — sussurrou NaYoung em um inglês hesitante. — O ritmo é muito rápido. As palavras... elas não saem.
David se ajoelhou ao lado dela. Ele sabia exatamente como era aquela sensação. A sensação de que, não importa o quanto você se esforce, o talento dos outros parece sempre um degrau acima.
— Ei, olha para mim — disse David, com uma suavidade que raramente mostrava. — Eu cheguei aqui sem saber fazer um rap sequer. Eu era só um cara que gostava de dançar no quarto. Você tem o talento, NaYoung. A técnica a gente constrói.
— Mas a avaliação mensal é em três dias — soluçou ela. — E se eu for para a zona de eliminação?
— Não vai — afirmou Deva, sentando-se do outro lado. — Porque nós vamos ajudar você. Daniel e Yna podem ajudar com a melodia de fundo, e eu e o David vamos quebrar esse rap em sílabas até você conseguir falar dormindo.
— Mas vocês são do Rap Camp e eles do Vocal — lembrou NaYoung. — Os instrutores disseram que devemos focar nos nossos acampamentos.
— As regras dizem que a avaliação é individual ou em grupo por escolha nossa — Daniel interveio, sentando-se de pernas cruzadas. — Quem disse que um grupo de rap não pode ter harmonias vocais? Vamos criar algo que os jurados nunca viram. Uma colaboração entre os campos.
— Isso é permitido? — perguntou Yna, interessada.
— Não é proibido — David sorriu, seu lado "crackhead" começando a emergir. — E se criarmos um mashup? Uma música que comece com o vocal suave da Yna e do Daniel, e depois a gente entra com um trio de rap pesado? Eu, Deva e NaYoung.
— Isso seria épico! — Deva exclamou, batendo palmas. — Imagina a cara do J.Y. Park vendo a gente misturar tudo.
O clima na sala mudou instantaneamente. A tristeza de NaYoung foi substituída por uma curiosidade cautelosa. Pelas próximas três horas, o grupo esqueceu as classificações de "#1 vocal" ou "#14 rap". Eles eram apenas cinco jovens apaixonados pela música.
David assumiu a liderança de forma natural. Ele organizava os tempos, sugeria mudanças na batida e incentivava NaYoung a cada pequena vitória na pronúncia.
— Tente assim — disse David, demonstrando um flow mais sincopado. — Não lute contra a batida, deixe ela te carregar. É como dançar, mas com a língua.
— Como dançar com a língua? — Daniel começou a rir. — Cara, você diz as coisas mais estranhas do mundo.
— Você entendeu o que eu quis dizer! — David jogou uma toalha de rosto em Daniel, rindo também. — É sobre fluidez.
— Eu acho que entendi — disse NaYoung, respirando fundo. Ela tentou o verso novamente. Desta vez, as palavras saíram cortantes, encaixando-se perfeitamente no espaço entre o bumbo e a caixa da bateria.
— ISSO! — Deva deu um grito que provavelmente foi ouvido no andar de cima. — Viu só? Você é uma monstra no microfone!
Yna, que estava quieta observando, abriu a lancheira.
— Agora que a NaYoung arrasou, todos precisam comer. Fiz kimbap e alguns lanches filipinos.
Enquanto comiam sentados no chão da sala de espelhos, o peso da competição parecia mais leve.
— Vocês já pararam para pensar — começou Daniel, com a boca cheia — que daqui a um ano, metade de nós pode não estar mais aqui?
O silêncio caiu sobre o grupo. Era a realidade que todos tentavam ignorar. O Global Star Project era cruel. A cada mês, o ranking mudava. A cada mês, o risco de voltar para casa aumentava.
— Não pense nisso agora, Dani — disse Yna, tocando o ombro dele. — O que importa é que estamos aprendendo. Se eu for eliminada amanhã, pelo menos vou saber que cantei com os melhores amigos que eu poderia ter feito.
— Eu não vou deixar ninguém ser eliminado — David disse, com uma seriedade repentina. — Se a gente se ajudar, todos subimos no ranking. O objetivo do JYP não é só achar talentos individuais, é formar um grupo. E um grupo cuida um do outro.
— O líder falou — brincou Deva, mas seus olhos mostravam respeito. — Você realmente leva jeito para isso, David. Mesmo sendo um desastrado que se acha feio, você tem o espírito.
— Eu não me acho feio! — protestou David, ficando vermelho. — Eu só... sou normal.
— Normal? — Daniel gargalhou. — Cara, as trainees do Girl Group Camp ficam suspirando toda vez que você passa no refeitório. Você é o "visual" desse lugar e nem percebe.
— Parem com isso! — David cobriu o rosto com as mãos, enquanto os outros riam da sua timidez.
A noite avançou e o cansaço começou a cobrar seu preço. NaYoung acabou dormindo encostada no ombro de Yna. Deva e Daniel discutiam sobre qual era a melhor música do Stray Kids para usar como referência de coreografia.
David, no entanto, levantou-se e foi até o espelho. Ele observou seu reflexo. Ele via o esforço, as olheiras, mas também via algo que não tinha quando saiu do Brasil: propósito.
— David? — Deva chamou baixinho.
— Oi?
— Você está se cobrando de novo, não está? — Ela se aproximou, ficando ao lado dele. — Eu consigo ver as engrenagens da sua cabeça girando.
— Eu só quero que seja perfeito, Deva. Para todos nós. Eu sinto que, se eu falhar na minha parte, eu prejudico vocês.
— Isso é altruísmo ou é egoísmo, Alex? — Ela perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Achar que você sozinho tem o poder de nos derrubar? Somos um time. Se um cair, os outros quatro seguram. É assim que funciona.
David relaxou os ombros.
— Você tem razão. É que... eu nunca quis tanto uma coisa na minha vida.
— Todos nós queremos. E é por isso que vamos conseguir.
Três dias depois, o auditório da JYP estava lotado de câmeras e jurados. O ar estava carregado de eletricidade. Quando os "Cinco Caóticos" — como o staff começou a chamá-los — subiram ao palco para a avaliação mensal, houve um burburinho. Era incomum ver trainees de campos diferentes se unindo de forma tão orgânica para uma apresentação que deveria ser focada em habilidades específicas.
A música começou. Yna abriu com uma nota límpida e angelical, seguida pela voz aveludada de Daniel, que flertava com a câmera a cada verso. Então, a batida caiu.
David deu um passo à frente, sua energia mudando instantaneamente. Ele não era mais o garoto tímido e inseguro do corredor; ele era um furacão. Seu rap era rápido, preciso e carregado de uma emoção que transcendia a barreira da língua. Deva entrou em seguida, trazendo o fogo e a atitude americana, dominando o palco com cada gesto.
Mas o momento de maior tensão foi o verso de NaYoung. David se posicionou logo atrás dela, dando-lhe o apoio visual que precisava. Quando ela começou, sua voz não tremeu. Ela entregou cada sílaba com uma confiança que deixou os jurados boquiabertos.
Ao final da performance, o silêncio no auditório foi absoluto por alguns segundos, antes de ser quebrado pelos aplausos rítmicos dos produtores.
— Isso — disse um dos jurados, ajustando os óculos — foi um risco. Vocês misturaram vocal e rap de uma forma que não pedimos.
O coração de David disparou. Ele olhou para os amigos.
— No entanto — continuou o jurado —, foi a performance mais sólida que vimos hoje. David, sua liderança na construção dessa dinâmica foi evidente. NaYoung, sua evolução em apenas um mês é assustadora. Vocês entenderam o que significa ser um grupo global.
Ao saírem do palco, os cinco se amontoaram em um abraço coletivo nos bastidores, pulando e gritando, esquecendo completamente a pose de idols.
— Nós conseguimos! — gritou Daniel. — Eu juro que vi o JYP balançando a cabeça no ritmo!
— David, você foi incrível — NaYoung disse, abraçando-o com força. — Obrigada por não desistir de mim.
David sorriu, sentindo uma confiança genuína pela primeira vez em meses. Ele ainda tinha muito a aprender, ainda se cobraria demais e ainda teria momentos de dúvida, mas ali, cercado por aquelas quatro pessoas, ele sabia que o caminho de dois anos não parecia mais tão assustador.
O "Global Star Project" estava apenas começando, e os 40 trainees ainda seriam reduzidos a 20. Mas, para David, Deva, Yna, Daniel e NaYoung, a primeira batalha tinha sido vencida não contra os outros, mas contra seus próprios medos.
— Próxima parada: refeitório! — anunciou Deva. — E desta vez, o David paga os sucos, porque ele é o líder oficial agora!
— O quê? Por que eu? — David riu, sendo empurrado pelos amigos pelo corredor.
— Regras do caos, Alex — Daniel piscou. — Regras do caos.
Enquanto caminhavam, a luz azul do corredor parecia agora muito mais brilhante. O sonho estava vivo, pulsante e, acima de tudo, compartilhado. Eles eram mais do que competidores; eram uma promessa de algo grandioso que o mundo ainda iria conhecer.
David Alexander Bannerman Alexandrino ajustou o boné, tentando esconder os olhos cansados. Ele estava na Coréia há pouco tempo, mas o ritmo de treino já havia se tornado seu oxigênio. Nascido no Brasil, com o sangue suíço correndo nas veias e uma herança brasileira que o tornava naturalmente rítmico, ele ainda se sentia um impostor.
— Você está fazendo aquele buraco no chão com o olhar de novo — uma voz vibrante ecoou atrás dele.
David deu um pulo, quase perdendo o equilíbrio. Deva Harvey Acharya estava parada ali, com os braços cruzados e um sorriso que poderia iluminar todo o distrito de Gangnam. A ganense-americana exalava uma confiança que David invejava profundamente.
— Eu estava apenas... revisando a letra na cabeça — mentiu David, coçando a nuca. — O Rap Camp é mais difícil do que eu pensei. Escrever em coreano e inglês ao mesmo tempo... minha cabeça vai explodir.
— Relaxa, Alex! — Deva riu, usando o apelido que só ela tinha coragem de usar. — Você é o melhor dançarino que já vi e seu flow é natural. Se você parar de se cobrar como se o mundo fosse acabar amanhã, vai perceber que já é o favorito de metade da equipe de produção.
— Favorito? Eu sou um desastre, Deva. Ontem eu quase tropecei no cabo do microfone durante o ensaio — ele murmurou, a baixa autoestima falando mais alto que qualquer elogio.
— Mas você recuperou o equilíbrio com um mortal para trás que parecia coreografado! — Daniel Mateo Laforteza Mendez surgiu do nada, deslizando pelo corredor como se estivesse em um videoclipe. O cubano-americano era o epítome do carisma. — Se eu fizesse aquilo, estaria no hospital agora.
— Daniel! Você não deveria estar no Vocal Camp agora? — perguntou David, abrindo um sorriso. Era impossível ficar sério perto de Daniel.
— O professor nos deu dez minutos para "conectar com nossas emoções" — Daniel fez aspas no ar, revirando os olhos. — Eu decidi que minha emoção atual é fome. Alguém viu a Yna?
Como se fosse invocada, Yna Elizabeth Manrique apareceu virando a esquina, carregando uma pequena lancheira térmica. A filipina tinha um olhar sereno que contrastava com o caos que Daniel e David costumavam instaurar.
— Se você está procurando comida, Daniel, saiba que isso aqui é para a NaYoung — disse Yna, com uma voz doce, mas firme. — Ela não comeu nada desde o treino da manhã. Está trancada na sala de prática 4 tentando acertar a pronúncia do verso dela.
— A NaYoung é muito esforçada — comentou David, seu tom suavizando. — Mas ela é tão tímida que às vezes esqueço que ela está na mesma sala que eu.
— Ela só precisa de tempo — defendeu Deva. — O inglês dela está melhorando, e quando ela faz rap, parece que outra pessoa assume o corpo dela. É assustador e incrível.
O quinteto se moveu em direção às salas de prática. Eles eram um grupo improvável: um brasileiro-suíço perfeccionista, uma americana de raízes ganenses explosiva, uma filipina que era o coração do grupo, um cubano sedutor e uma coreana prodígio. Naquele primeiro ano de competição, o objetivo era sobreviver. Dos quarenta, apenas vinte restariam. O medo da eliminação pairava sobre eles como uma nuvem cinzenta, mas a amizade que florescia entre as avaliações mensais era o que os mantinha sãos.
Ao entrarem na sala 4, encontraram Shin NaYoung sentada no chão, com os fones de ouvido caídos no pescoço e um papel amassado nas mãos. Seus olhos estavam marejados.
— NaYoung-ah? — chamou Yna, aproximando-se lentamente.
A menina levantou o rosto, tentando limpar as lágrimas rapidamente.
— Eu... eu não consigo — sussurrou NaYoung em um inglês hesitante. — O ritmo é muito rápido. As palavras... elas não saem.
David se ajoelhou ao lado dela. Ele sabia exatamente como era aquela sensação. A sensação de que, não importa o quanto você se esforce, o talento dos outros parece sempre um degrau acima.
— Ei, olha para mim — disse David, com uma suavidade que raramente mostrava. — Eu cheguei aqui sem saber fazer um rap sequer. Eu era só um cara que gostava de dançar no quarto. Você tem o talento, NaYoung. A técnica a gente constrói.
— Mas a avaliação mensal é em três dias — soluçou ela. — E se eu for para a zona de eliminação?
— Não vai — afirmou Deva, sentando-se do outro lado. — Porque nós vamos ajudar você. Daniel e Yna podem ajudar com a melodia de fundo, e eu e o David vamos quebrar esse rap em sílabas até você conseguir falar dormindo.
— Mas vocês são do Rap Camp e eles do Vocal — lembrou NaYoung. — Os instrutores disseram que devemos focar nos nossos acampamentos.
— As regras dizem que a avaliação é individual ou em grupo por escolha nossa — Daniel interveio, sentando-se de pernas cruzadas. — Quem disse que um grupo de rap não pode ter harmonias vocais? Vamos criar algo que os jurados nunca viram. Uma colaboração entre os campos.
— Isso é permitido? — perguntou Yna, interessada.
— Não é proibido — David sorriu, seu lado "crackhead" começando a emergir. — E se criarmos um mashup? Uma música que comece com o vocal suave da Yna e do Daniel, e depois a gente entra com um trio de rap pesado? Eu, Deva e NaYoung.
— Isso seria épico! — Deva exclamou, batendo palmas. — Imagina a cara do J.Y. Park vendo a gente misturar tudo.
O clima na sala mudou instantaneamente. A tristeza de NaYoung foi substituída por uma curiosidade cautelosa. Pelas próximas três horas, o grupo esqueceu as classificações de "#1 vocal" ou "#14 rap". Eles eram apenas cinco jovens apaixonados pela música.
David assumiu a liderança de forma natural. Ele organizava os tempos, sugeria mudanças na batida e incentivava NaYoung a cada pequena vitória na pronúncia.
— Tente assim — disse David, demonstrando um flow mais sincopado. — Não lute contra a batida, deixe ela te carregar. É como dançar, mas com a língua.
— Como dançar com a língua? — Daniel começou a rir. — Cara, você diz as coisas mais estranhas do mundo.
— Você entendeu o que eu quis dizer! — David jogou uma toalha de rosto em Daniel, rindo também. — É sobre fluidez.
— Eu acho que entendi — disse NaYoung, respirando fundo. Ela tentou o verso novamente. Desta vez, as palavras saíram cortantes, encaixando-se perfeitamente no espaço entre o bumbo e a caixa da bateria.
— ISSO! — Deva deu um grito que provavelmente foi ouvido no andar de cima. — Viu só? Você é uma monstra no microfone!
Yna, que estava quieta observando, abriu a lancheira.
— Agora que a NaYoung arrasou, todos precisam comer. Fiz kimbap e alguns lanches filipinos.
Enquanto comiam sentados no chão da sala de espelhos, o peso da competição parecia mais leve.
— Vocês já pararam para pensar — começou Daniel, com a boca cheia — que daqui a um ano, metade de nós pode não estar mais aqui?
O silêncio caiu sobre o grupo. Era a realidade que todos tentavam ignorar. O Global Star Project era cruel. A cada mês, o ranking mudava. A cada mês, o risco de voltar para casa aumentava.
— Não pense nisso agora, Dani — disse Yna, tocando o ombro dele. — O que importa é que estamos aprendendo. Se eu for eliminada amanhã, pelo menos vou saber que cantei com os melhores amigos que eu poderia ter feito.
— Eu não vou deixar ninguém ser eliminado — David disse, com uma seriedade repentina. — Se a gente se ajudar, todos subimos no ranking. O objetivo do JYP não é só achar talentos individuais, é formar um grupo. E um grupo cuida um do outro.
— O líder falou — brincou Deva, mas seus olhos mostravam respeito. — Você realmente leva jeito para isso, David. Mesmo sendo um desastrado que se acha feio, você tem o espírito.
— Eu não me acho feio! — protestou David, ficando vermelho. — Eu só... sou normal.
— Normal? — Daniel gargalhou. — Cara, as trainees do Girl Group Camp ficam suspirando toda vez que você passa no refeitório. Você é o "visual" desse lugar e nem percebe.
— Parem com isso! — David cobriu o rosto com as mãos, enquanto os outros riam da sua timidez.
A noite avançou e o cansaço começou a cobrar seu preço. NaYoung acabou dormindo encostada no ombro de Yna. Deva e Daniel discutiam sobre qual era a melhor música do Stray Kids para usar como referência de coreografia.
David, no entanto, levantou-se e foi até o espelho. Ele observou seu reflexo. Ele via o esforço, as olheiras, mas também via algo que não tinha quando saiu do Brasil: propósito.
— David? — Deva chamou baixinho.
— Oi?
— Você está se cobrando de novo, não está? — Ela se aproximou, ficando ao lado dele. — Eu consigo ver as engrenagens da sua cabeça girando.
— Eu só quero que seja perfeito, Deva. Para todos nós. Eu sinto que, se eu falhar na minha parte, eu prejudico vocês.
— Isso é altruísmo ou é egoísmo, Alex? — Ela perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Achar que você sozinho tem o poder de nos derrubar? Somos um time. Se um cair, os outros quatro seguram. É assim que funciona.
David relaxou os ombros.
— Você tem razão. É que... eu nunca quis tanto uma coisa na minha vida.
— Todos nós queremos. E é por isso que vamos conseguir.
Três dias depois, o auditório da JYP estava lotado de câmeras e jurados. O ar estava carregado de eletricidade. Quando os "Cinco Caóticos" — como o staff começou a chamá-los — subiram ao palco para a avaliação mensal, houve um burburinho. Era incomum ver trainees de campos diferentes se unindo de forma tão orgânica para uma apresentação que deveria ser focada em habilidades específicas.
A música começou. Yna abriu com uma nota límpida e angelical, seguida pela voz aveludada de Daniel, que flertava com a câmera a cada verso. Então, a batida caiu.
David deu um passo à frente, sua energia mudando instantaneamente. Ele não era mais o garoto tímido e inseguro do corredor; ele era um furacão. Seu rap era rápido, preciso e carregado de uma emoção que transcendia a barreira da língua. Deva entrou em seguida, trazendo o fogo e a atitude americana, dominando o palco com cada gesto.
Mas o momento de maior tensão foi o verso de NaYoung. David se posicionou logo atrás dela, dando-lhe o apoio visual que precisava. Quando ela começou, sua voz não tremeu. Ela entregou cada sílaba com uma confiança que deixou os jurados boquiabertos.
Ao final da performance, o silêncio no auditório foi absoluto por alguns segundos, antes de ser quebrado pelos aplausos rítmicos dos produtores.
— Isso — disse um dos jurados, ajustando os óculos — foi um risco. Vocês misturaram vocal e rap de uma forma que não pedimos.
O coração de David disparou. Ele olhou para os amigos.
— No entanto — continuou o jurado —, foi a performance mais sólida que vimos hoje. David, sua liderança na construção dessa dinâmica foi evidente. NaYoung, sua evolução em apenas um mês é assustadora. Vocês entenderam o que significa ser um grupo global.
Ao saírem do palco, os cinco se amontoaram em um abraço coletivo nos bastidores, pulando e gritando, esquecendo completamente a pose de idols.
— Nós conseguimos! — gritou Daniel. — Eu juro que vi o JYP balançando a cabeça no ritmo!
— David, você foi incrível — NaYoung disse, abraçando-o com força. — Obrigada por não desistir de mim.
David sorriu, sentindo uma confiança genuína pela primeira vez em meses. Ele ainda tinha muito a aprender, ainda se cobraria demais e ainda teria momentos de dúvida, mas ali, cercado por aquelas quatro pessoas, ele sabia que o caminho de dois anos não parecia mais tão assustador.
O "Global Star Project" estava apenas começando, e os 40 trainees ainda seriam reduzidos a 20. Mas, para David, Deva, Yna, Daniel e NaYoung, a primeira batalha tinha sido vencida não contra os outros, mas contra seus próprios medos.
— Próxima parada: refeitório! — anunciou Deva. — E desta vez, o David paga os sucos, porque ele é o líder oficial agora!
— O quê? Por que eu? — David riu, sendo empurrado pelos amigos pelo corredor.
— Regras do caos, Alex — Daniel piscou. — Regras do caos.
Enquanto caminhavam, a luz azul do corredor parecia agora muito mais brilhante. O sonho estava vivo, pulsante e, acima de tudo, compartilhado. Eles eram mais do que competidores; eram uma promessa de algo grandioso que o mundo ainda iria conhecer.
