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Euphoria
Fandom: E
Criado: 29/06/2026
Tags
DramaAngústiaPsicológicoSombrioEstudo de PersonagemNoirCrimeAbuso de ÁlcoolUso de DrogasLinguagem Explícita
O Peso do Vidro e o Som do Metal
O ar dentro da boate tinha a densidade de um pântano. Era uma mistura de suor, fumaça de cigarro eletrônico, aromatizantes de baunilha baratos e o cheiro metálico de desespero. Rue estava sentada na ponta de um estofado de couro encardido, o material rangendo sob seu peso mínimo sempre que ela se movia. A área era um ponto cego da iluminação estroboscópica, um canto onde as sombras eram espessas o suficiente para esconder quem não queria ser encontrado.
Ela vestia uma blusa social preta de mangas curtas. O tecido era fino, mas de boa qualidade, contrastando com a sujeira do ambiente. Os três primeiros botões estavam abertos, revelando o início das tatuagens em blackwork que subiam como trepadeiras escuras por seu pescoço, desaparecendo sob a linha do maxilar. Rue não estava tensa. Ela estava relaxada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos caídas entre as pernas, girando um isqueiro Zippo apagado entre os dedos. O clique-claque do metal era o único som que ela realmente ouvia acima do grave ensurdecedor que fazia o líquido nos copos das mesas próximas vibrar.
Seus olhos, pesados e apáticos, varriam o salão. Rue via o mundo em frames, como uma película de filme velha e desgastada. Ali, na pista, um grupo de universitários tentava, sem sucesso, projetar uma aura de confiança que desmoronava a cada vez que checavam o saldo no celular após pedirem um combo de vodka. Mais perto do bar, os engravatados. Homens de meia-idade com o nó da gravata frouxo e o hálito podre de uísque caro e mentiras domésticas. Eles olhavam para as garotas como se estivessem escolhendo um corte de carne no açougue, mas havia um medo latente em seus olhos — o medo de que, se as luzes se apagassem, eles não seriam ninguém.
Rue sentia um tédio profundo. Para ela, aquelas pessoas eram insetos presos em um frasco de vidro, batendo as asas freneticamente contra as paredes invisíveis enquanto o oxigênio acabava. Ela já havia terminado seu trabalho. Marco já tinha a remessa, o dinheiro estava devidamente coletado e as garotas do vestiário já tinham recebido suas doses de anestesia química para suportar o resto da madrugada. O caminho de volta para casa, para o silêncio e para a escuridão do seu próprio quarto, era o lógico. Mas ela continuava ali.
Inconscientemente, seus olhos começaram a filtrar a multidão. Ela não estava procurando por Marco, nem por potenciais problemas. Ela estava procurando por Jennifer.
Varreu o palco principal, onde os corpos se contorciam sob luzes roxas. Nada. Olhou para o bar, para as mesas VIP protegidas por seguranças de braços cruzados. Nada. Uma irritação sutil, um nó quase imperceptível na base do seu estômago, começou a se formar. Rue odiava procurar coisas. Odiava precisar de um estímulo visual específico para se sentir ancorada.
Seu olhar se deslocou para o corredor ao fundo, uma zona de penumbra que levava às cabines privadas. Era ali que o teatro da sedução terminava e o comércio bruto acontecia. A porta de uma das cabines se abriu, deixando escapar um feixe de luz amarelada e o som abafado de uma risada nervosa.
Primeiro, saiu o cliente.
Rue o observou com uma curiosidade clínica. Ele era a definição da mediocridade. Um homem de uns cinquenta anos, com a pele flácida que parecia derreter sobre o colarinho da camisa social amassada. O rosto estava vermelho, uma mistura de esforço físico e álcool, e o pouco cabelo que lhe restava estava grudado na testa pelo suor. Ele abotoava a calça com mãos trêmulas, mas ostentava um sorriso ridículo e vitorioso, a postura de quem acredita ter conquistado algo que, na verdade, apenas alugou por sessenta minutos. Ele caminhou pelo corredor com uma arrogância frouxa, sentindo-se o rei de um império de papelão.
Logo atrás dele, Jennifer apareceu.
A transição foi violenta para os sentidos de Rue. Jennifer saiu da cabine e o mundo ao redor dela pareceu perder a saturação. Ela estava impecável. O cabelo castanho escuro caía perfeitamente sobre os ombros, sem um fio fora do lugar. A maquiagem, pesada e geométrica, não tinha um borrão sequer. O vestido de cetim abraçava seu corpo como uma armadura reluzente. Ela caminhava com a coluna tão ereta que parecia flutuar acima da sujeira do carpete.
No entanto, Jennifer não viu Rue de imediato. E foi nesse breve hiato, no corredor mal iluminado, que a máscara vacilou.
Rue viu. Viu as pálpebras de Jennifer pesarem por um segundo. Viu o canto da boca dela cair em um vinco de nojo gélido enquanto ela olhava para as costas do homem que acabara de sair. Ela levou a mão ao ombro, ajustando a alça do vestido com um gesto mecânico e desdenhoso, como se estivesse limpando uma mancha de graxa de uma superfície de vidro. Não havia trauma ali, nem a fragilidade de uma vítima. O que Rue via era o cansaço absoluto de uma profissional que acabara de tolerar algo profundamente repulsivo apenas porque o valor pago compensava o esforço de não sentir nada.
Jennifer respirou fundo, uma única vez, e a máscara voltou ao lugar. O brilho predatório retornou aos olhos, a postura de rainha intocável foi restaurada. Ela começou a caminhar em direção ao salão principal, mas parou abruptamente quando percebeu a presença nas sombras.
Rue não se mexeu. Ela continuou na ponta do estofado, o isqueiro agora imóvel entre os dedos, o olhar fixo em Jennifer. Não havia julgamento no rosto de Rue. Não havia a raiva possessiva que os outros homens sentiam por Jennifer, nem a piedade barata que as outras garotas às vezes demonstravam. Havia apenas reconhecimento.
Jennifer sustentou o olhar. Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos azuis faiscando sob a luz neon que vazava do salão. Ela viu Rue — a única pessoa naquele prédio que não queria usar o seu corpo, a única que não estava ali para comprar uma fantasia ou vender uma mentira.
Rue levantou uma sobrancelha, um gesto quase imperceptível, um convite silencioso para o vazio que ambas compartilhavam.
Jennifer caminhou até ela. Não com o rebolado calculado que usava para atrair gorjetas, mas com um passo pesado, humano. Ela parou diante de Rue, o perfume doce e caro lutando contra o cheiro de cigarro que emanava do moletom de Rue.
— Você ainda está aqui — disse Jennifer. Sua voz era baixa, desprovida da rouquidão sedutora de palco. Era apenas uma constatação cansada.
— O sofá é confortável — mentiu Rue, a voz grave e arrastada.
Jennifer olhou para o estofado remendado com fita isolante e deu um sorriso de canto, o primeiro sorriso genuíno que Rue vira naquela noite. Ela se sentou ao lado de Rue, mantendo uma distância de alguns centímetros, mas o calor que emanava dela era palpável.
— Marco disse que você já tinha ido — comentou Jennifer, fechando os olhos por um momento e encostando a cabeça na parede atrás do sofá.
— Marco fala demais.
Rue tirou um maço de cigarros amassado do bolso da blusa. Tirou um, colocou entre os lábios e, com um movimento fluido, acendeu o Zippo. A chama iluminou o rosto das duas por um segundo — a perfeição artificial de Jennifer e as olheiras profundas e reais de Rue. Rue deu uma tragada longa, sentindo o fumo queimar seus pulmões, e então ofereceu o cigarro para Jennifer.
Jennifer pegou. Seus dedos, finos e com unhas perfeitamente pintadas, roçaram a mão de Rue. A pele de Jennifer estava fria, como mármore. Ela tragou com vontade, soltando a fumaça lentamente para cima, observando-a se dissipar nas vigas do teto.
— Aquele cara — começou Rue, sem olhar para ela —, ele cheirava a talco e desespero.
Jennifer soltou uma risada curta e seca.
— E a queijo processado. Você não tem ideia.
— Eu tenho uma ideia — retrucou Rue, finalmente virando o rosto para encará-la. — Eu vejo eles entrando. Vejo o jeito que eles olham para a porta antes de sair. Eles acham que limparam a alma aqui dentro.
— Eles não limpam nada. Eles só deixam a sujeira deles em cima de mim e pagam para eu fingir que gosto. — Jennifer devolveu o cigarro para Rue. — Mas o dinheiro dele vai pagar meu aluguel e o conserto do meu carro. Então, no fim das contas, quem é o idiota?
Rue deu de ombros.
— Todo mundo aqui é idiota, Jennifer. É só uma questão de quanto custa a sua idiotice.
O silêncio se instalou entre elas, um silêncio que não era desconfortável. Ao redor, a boate continuava seu ritmo frenético de autodestruição, mas ali naquele canto, o tempo parecia ter desacelerado. Rue observou o perfil de Jennifer. Mesmo sem a maquiagem, ela sabia que Jennifer seria magnética, mas era essa versão dela, exausta e cínica, que Rue achava mais suportável.
— Por que você fica? — perguntou Jennifer, de repente, virando-se para Rue. — Você não bebe, você não dança, você não transa com ninguém por aqui. Você entrega suas coisas para o Marco e fica sentada no escuro como um gárgula.
Rue girou o isqueiro novamente. Clique. Claque.
— Gosto da vista — respondeu ela, simples.
Jennifer estreitou os olhos, analisando-a.
— Você é estranha, Rue.
— É o que dizem.
— Não é um insulto. É só que... — Jennifer fez um gesto vago para o salão — ...todo mundo aqui quer alguma coisa de mim. O tempo todo. Meus lábios, minhas pernas, meu tempo, minha atenção. Você é a única que senta aqui e não pede nada.
— Talvez eu só não tenha nada para te dar em troca — disse Rue, embora soubesse que não era verdade.
— Ou talvez você seja a única que entende que eu não tenho nada para dar que não tenha um preço fixado na tabela do Marco.
Rue não respondeu. Ela não precisava. Ela estendeu a mão e, com o polegar, limpou um pequeno borrão de batom no canto da boca de Jennifer que ela não havia percebido. Foi um gesto rápido, quase clínico, mas que fez Jennifer prender a respiração por um milissegundo.
— Você esqueceu um ponto — murmurou Rue.
Jennifer não se afastou. Ela permaneceu imóvel, o olhar fixo no de Rue, uma tensão nova e silenciosa vibrando entre as duas. Não era a tensão sexual barata que Jennifer vendia todas as noites. Era algo mais denso, algo que envolvia a aceitação mútua de suas naturezas quebradas.
— Você vai embora agora? — perguntou Jennifer, sua voz quase um sussurro.
Rue guardou o isqueiro no bolso e levantou-se com sua habitual lentidão.
— Vou. O ar aqui dentro está ficando muito limpo para o meu gosto.
Jennifer soltou um suspiro que era metade risada, metade alívio.
— Te vejo amanhã, gárgula?
Rue parou, olhou por cima do ombro e deu aquele leve levantar de sobrancelha que era sua marca registrada.
— Se o sofá ainda estiver aqui.
Ela caminhou em direção à saída, sua silhueta negra sendo engolida pelas luzes da pista de dança até desaparecer. Jennifer ficou para trás, sentada no couro encardido, sentindo o lugar onde Rue estivera ainda levemente quente. Pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu pressa de voltar para o camarim. Ela apenas ficou ali, no escuro, respirando o resto da fumaça do cigarro de Rue.
Ela vestia uma blusa social preta de mangas curtas. O tecido era fino, mas de boa qualidade, contrastando com a sujeira do ambiente. Os três primeiros botões estavam abertos, revelando o início das tatuagens em blackwork que subiam como trepadeiras escuras por seu pescoço, desaparecendo sob a linha do maxilar. Rue não estava tensa. Ela estava relaxada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos caídas entre as pernas, girando um isqueiro Zippo apagado entre os dedos. O clique-claque do metal era o único som que ela realmente ouvia acima do grave ensurdecedor que fazia o líquido nos copos das mesas próximas vibrar.
Seus olhos, pesados e apáticos, varriam o salão. Rue via o mundo em frames, como uma película de filme velha e desgastada. Ali, na pista, um grupo de universitários tentava, sem sucesso, projetar uma aura de confiança que desmoronava a cada vez que checavam o saldo no celular após pedirem um combo de vodka. Mais perto do bar, os engravatados. Homens de meia-idade com o nó da gravata frouxo e o hálito podre de uísque caro e mentiras domésticas. Eles olhavam para as garotas como se estivessem escolhendo um corte de carne no açougue, mas havia um medo latente em seus olhos — o medo de que, se as luzes se apagassem, eles não seriam ninguém.
Rue sentia um tédio profundo. Para ela, aquelas pessoas eram insetos presos em um frasco de vidro, batendo as asas freneticamente contra as paredes invisíveis enquanto o oxigênio acabava. Ela já havia terminado seu trabalho. Marco já tinha a remessa, o dinheiro estava devidamente coletado e as garotas do vestiário já tinham recebido suas doses de anestesia química para suportar o resto da madrugada. O caminho de volta para casa, para o silêncio e para a escuridão do seu próprio quarto, era o lógico. Mas ela continuava ali.
Inconscientemente, seus olhos começaram a filtrar a multidão. Ela não estava procurando por Marco, nem por potenciais problemas. Ela estava procurando por Jennifer.
Varreu o palco principal, onde os corpos se contorciam sob luzes roxas. Nada. Olhou para o bar, para as mesas VIP protegidas por seguranças de braços cruzados. Nada. Uma irritação sutil, um nó quase imperceptível na base do seu estômago, começou a se formar. Rue odiava procurar coisas. Odiava precisar de um estímulo visual específico para se sentir ancorada.
Seu olhar se deslocou para o corredor ao fundo, uma zona de penumbra que levava às cabines privadas. Era ali que o teatro da sedução terminava e o comércio bruto acontecia. A porta de uma das cabines se abriu, deixando escapar um feixe de luz amarelada e o som abafado de uma risada nervosa.
Primeiro, saiu o cliente.
Rue o observou com uma curiosidade clínica. Ele era a definição da mediocridade. Um homem de uns cinquenta anos, com a pele flácida que parecia derreter sobre o colarinho da camisa social amassada. O rosto estava vermelho, uma mistura de esforço físico e álcool, e o pouco cabelo que lhe restava estava grudado na testa pelo suor. Ele abotoava a calça com mãos trêmulas, mas ostentava um sorriso ridículo e vitorioso, a postura de quem acredita ter conquistado algo que, na verdade, apenas alugou por sessenta minutos. Ele caminhou pelo corredor com uma arrogância frouxa, sentindo-se o rei de um império de papelão.
Logo atrás dele, Jennifer apareceu.
A transição foi violenta para os sentidos de Rue. Jennifer saiu da cabine e o mundo ao redor dela pareceu perder a saturação. Ela estava impecável. O cabelo castanho escuro caía perfeitamente sobre os ombros, sem um fio fora do lugar. A maquiagem, pesada e geométrica, não tinha um borrão sequer. O vestido de cetim abraçava seu corpo como uma armadura reluzente. Ela caminhava com a coluna tão ereta que parecia flutuar acima da sujeira do carpete.
No entanto, Jennifer não viu Rue de imediato. E foi nesse breve hiato, no corredor mal iluminado, que a máscara vacilou.
Rue viu. Viu as pálpebras de Jennifer pesarem por um segundo. Viu o canto da boca dela cair em um vinco de nojo gélido enquanto ela olhava para as costas do homem que acabara de sair. Ela levou a mão ao ombro, ajustando a alça do vestido com um gesto mecânico e desdenhoso, como se estivesse limpando uma mancha de graxa de uma superfície de vidro. Não havia trauma ali, nem a fragilidade de uma vítima. O que Rue via era o cansaço absoluto de uma profissional que acabara de tolerar algo profundamente repulsivo apenas porque o valor pago compensava o esforço de não sentir nada.
Jennifer respirou fundo, uma única vez, e a máscara voltou ao lugar. O brilho predatório retornou aos olhos, a postura de rainha intocável foi restaurada. Ela começou a caminhar em direção ao salão principal, mas parou abruptamente quando percebeu a presença nas sombras.
Rue não se mexeu. Ela continuou na ponta do estofado, o isqueiro agora imóvel entre os dedos, o olhar fixo em Jennifer. Não havia julgamento no rosto de Rue. Não havia a raiva possessiva que os outros homens sentiam por Jennifer, nem a piedade barata que as outras garotas às vezes demonstravam. Havia apenas reconhecimento.
Jennifer sustentou o olhar. Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos azuis faiscando sob a luz neon que vazava do salão. Ela viu Rue — a única pessoa naquele prédio que não queria usar o seu corpo, a única que não estava ali para comprar uma fantasia ou vender uma mentira.
Rue levantou uma sobrancelha, um gesto quase imperceptível, um convite silencioso para o vazio que ambas compartilhavam.
Jennifer caminhou até ela. Não com o rebolado calculado que usava para atrair gorjetas, mas com um passo pesado, humano. Ela parou diante de Rue, o perfume doce e caro lutando contra o cheiro de cigarro que emanava do moletom de Rue.
— Você ainda está aqui — disse Jennifer. Sua voz era baixa, desprovida da rouquidão sedutora de palco. Era apenas uma constatação cansada.
— O sofá é confortável — mentiu Rue, a voz grave e arrastada.
Jennifer olhou para o estofado remendado com fita isolante e deu um sorriso de canto, o primeiro sorriso genuíno que Rue vira naquela noite. Ela se sentou ao lado de Rue, mantendo uma distância de alguns centímetros, mas o calor que emanava dela era palpável.
— Marco disse que você já tinha ido — comentou Jennifer, fechando os olhos por um momento e encostando a cabeça na parede atrás do sofá.
— Marco fala demais.
Rue tirou um maço de cigarros amassado do bolso da blusa. Tirou um, colocou entre os lábios e, com um movimento fluido, acendeu o Zippo. A chama iluminou o rosto das duas por um segundo — a perfeição artificial de Jennifer e as olheiras profundas e reais de Rue. Rue deu uma tragada longa, sentindo o fumo queimar seus pulmões, e então ofereceu o cigarro para Jennifer.
Jennifer pegou. Seus dedos, finos e com unhas perfeitamente pintadas, roçaram a mão de Rue. A pele de Jennifer estava fria, como mármore. Ela tragou com vontade, soltando a fumaça lentamente para cima, observando-a se dissipar nas vigas do teto.
— Aquele cara — começou Rue, sem olhar para ela —, ele cheirava a talco e desespero.
Jennifer soltou uma risada curta e seca.
— E a queijo processado. Você não tem ideia.
— Eu tenho uma ideia — retrucou Rue, finalmente virando o rosto para encará-la. — Eu vejo eles entrando. Vejo o jeito que eles olham para a porta antes de sair. Eles acham que limparam a alma aqui dentro.
— Eles não limpam nada. Eles só deixam a sujeira deles em cima de mim e pagam para eu fingir que gosto. — Jennifer devolveu o cigarro para Rue. — Mas o dinheiro dele vai pagar meu aluguel e o conserto do meu carro. Então, no fim das contas, quem é o idiota?
Rue deu de ombros.
— Todo mundo aqui é idiota, Jennifer. É só uma questão de quanto custa a sua idiotice.
O silêncio se instalou entre elas, um silêncio que não era desconfortável. Ao redor, a boate continuava seu ritmo frenético de autodestruição, mas ali naquele canto, o tempo parecia ter desacelerado. Rue observou o perfil de Jennifer. Mesmo sem a maquiagem, ela sabia que Jennifer seria magnética, mas era essa versão dela, exausta e cínica, que Rue achava mais suportável.
— Por que você fica? — perguntou Jennifer, de repente, virando-se para Rue. — Você não bebe, você não dança, você não transa com ninguém por aqui. Você entrega suas coisas para o Marco e fica sentada no escuro como um gárgula.
Rue girou o isqueiro novamente. Clique. Claque.
— Gosto da vista — respondeu ela, simples.
Jennifer estreitou os olhos, analisando-a.
— Você é estranha, Rue.
— É o que dizem.
— Não é um insulto. É só que... — Jennifer fez um gesto vago para o salão — ...todo mundo aqui quer alguma coisa de mim. O tempo todo. Meus lábios, minhas pernas, meu tempo, minha atenção. Você é a única que senta aqui e não pede nada.
— Talvez eu só não tenha nada para te dar em troca — disse Rue, embora soubesse que não era verdade.
— Ou talvez você seja a única que entende que eu não tenho nada para dar que não tenha um preço fixado na tabela do Marco.
Rue não respondeu. Ela não precisava. Ela estendeu a mão e, com o polegar, limpou um pequeno borrão de batom no canto da boca de Jennifer que ela não havia percebido. Foi um gesto rápido, quase clínico, mas que fez Jennifer prender a respiração por um milissegundo.
— Você esqueceu um ponto — murmurou Rue.
Jennifer não se afastou. Ela permaneceu imóvel, o olhar fixo no de Rue, uma tensão nova e silenciosa vibrando entre as duas. Não era a tensão sexual barata que Jennifer vendia todas as noites. Era algo mais denso, algo que envolvia a aceitação mútua de suas naturezas quebradas.
— Você vai embora agora? — perguntou Jennifer, sua voz quase um sussurro.
Rue guardou o isqueiro no bolso e levantou-se com sua habitual lentidão.
— Vou. O ar aqui dentro está ficando muito limpo para o meu gosto.
Jennifer soltou um suspiro que era metade risada, metade alívio.
— Te vejo amanhã, gárgula?
Rue parou, olhou por cima do ombro e deu aquele leve levantar de sobrancelha que era sua marca registrada.
— Se o sofá ainda estiver aqui.
Ela caminhou em direção à saída, sua silhueta negra sendo engolida pelas luzes da pista de dança até desaparecer. Jennifer ficou para trás, sentada no couro encardido, sentindo o lugar onde Rue estivera ainda levemente quente. Pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu pressa de voltar para o camarim. Ela apenas ficou ali, no escuro, respirando o resto da fumaça do cigarro de Rue.
