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Primordiais
Fandom: Eu
Criado: 29/06/2026
Tags
FantasiaDramaAngústiaDor/ConfortoEstudo de PersonagemConsertoLirismoPsicológicoTragédia
O Eco do Primeiro Vínculo
O salão da Existência não possuía teto, pois as estrelas eram suas luminárias naturais, e o chão era feito de uma substância que lembrava água estagnada, refletindo não o rosto de quem caminhava sobre ela, mas o estado de sua alma. Ali, onde o tempo era apenas uma sugestão e o espaço uma cortesia, os Primordiais se reuniam.
Amor estava sentado à beira do abismo de vidro, observando o nascimento de uma nebulosa distante. Ele sorria, mas era um sorriso que carregava o peso de um milhão de despedidas. Seus traços, naquele momento, eram suaves e juvenis, lembrando um primeiro namorado para quem olhasse de soslaio, mas mudavam para a fisionomia de um pai acolhedor se alguém piscasse.
— Você está fazendo de novo — uma voz ríspida e profunda cortou o silêncio.
Amor não precisou se virar para saber quem era. O ar ao seu redor subitamente se tornou mais denso, carregado com o cheiro de ozônio e cinzas. Ódio aproximou-se, seus passos pesados ecoando como o bater de um tambor de guerra. Seus olhos, intensos e severos, fixaram-se nas costas do irmão.
— Fazendo o quê, meu irmão? — perguntou Amor, sua voz soando como uma melodia de ninar.
— Carregando o que não é seu — Ódio parou ao lado dele, as sombras de sua capa se agitando como chamas negras. — Eu sinto daqui, Amor. O gosto metálico do ressentimento, o cheiro de podre das promessas quebradas lá embaixo. Por que você insiste em filtrar tudo isso? Deixe que eles se afoguem no que criaram.
Amor finalmente olhou para o gêmeo. Naquele instante, seus olhos refletiram uma dor tão vasta que até Ódio, a Chama da Ruptura, desviou o olhar por um breve segundo.
— Se eu não sentir por eles, a dor se tornará absoluta — explicou Amor calmamente. — E se a dor for absoluta, não sobrará espaço para mais nada. Nem para você.
Ódio soltou um bufo desdenhoso, embora tenha se sentado ao lado do irmão, mantendo uma distância que era, ao mesmo tempo, um abismo e um abraço.
— Eu não preciso de espaço. Eu prospero no aperto.
— Mentira — uma terceira voz interveio.
Medo surgiu das sombras de uma coluna, movendo-se com a elegância de um predador que não deseja ser notado. Sua pele pálida quase brilhava sob a luz das estrelas, e seus olhos atentos escaneavam cada centímetro do salão antes de ele se permitir relaxar.
— Você não prospera no aperto, Ódio — continuou Medo, a voz baixa e analítica. — Você se expande para proteger o que sobrou. O ódio é a sentinela de um território que já foi invadido. Eu sei disso porque eu estava lá quando você nasceu. Eu sou o que impede que a invasão seja total.
— Ninguém chamou o paranoico para a conversa — resmungou Ódio, embora houvesse um respeito relutante em seu tom.
— Eu não sou paranoico — disse Medo, aproximando-se do precipício. — Sou prudente. Amor está pálido. Mais pálido que o normal. O ciclo está se fechando, não está?
Um silêncio pesado caiu sobre o trio. Amor desviou os olhos para as mãos, que tremiam quase imperceptivelmente. O segredo que ele guardara por eras — de que ele morria e renascia com o fluxo dos afetos do mundo — era uma ferida aberta que apenas Esperança e, recentemente, os outros, haviam começado a compreender.
— Ainda não — mentiu Amor, oferecendo um sorriso que não alcançou seus olhos mutáveis.
— Não minta para quem conhece a anatomia da mentira — disse uma voz suave vinda de trás deles.
Tristeza caminhava devagar, arrastando suas vestes escuras que pareciam feitas de neblina e lágrimas antigas. Em seus braços, ela apertava o grande livro de registros, onde cada nome de quem já partiu estava escrito em tinta indelével. Ela se aproximou de Amor e colocou uma mão fria e delicada sobre o ombro dele.
— Eu sinto o peso nos seus ombros, meu irmão. As histórias que você me entrega para guardar estão ficando mais curtas. Mais trágicas. Você está se desgastando.
— É apenas uma fase — insistiu Amor. — O mundo está passando por transformações. Há muita incompreensão, muita distância...
— E muita solidão — completou Solidão, surgindo como se sempre estivesse ali, mas apenas agora tivesse decidido se tornar visível. Sua aparência translúcida refletia a luz da lua, e sua presença trouxe uma paz imediata, embora melancólica, ao grupo. — Eles estão se isolando. Estão esquecendo que o espaço entre eles não é um muro, mas uma ponte que eu guardo. Quando eles param de atravessar a ponte, você enfraquece, Amor.
— E é por isso que precisamos agir — declarou uma voz firme.
Coragem caminhou até o centro do círculo. Ela não usava armadura, mas sua postura era tão ereta e sua expressão tão decidida que parecia protegida por algo mais forte que o aço. Ao seu lado, Alegria saltitava, embora seu brilho estivesse um pouco fosco, como uma estrela coberta por uma fumaça leve.
— Agir como? — perguntou Medo, cruzando os braços. — Não podemos interferir no livre arbítrio. Somos as emoções, não os mestres delas.
— Não precisamos de interferência — disse Coragem, olhando diretamente para Amor. — Precisamos de sustento. Amor, você está se doando até não sobrar nada. Você acha que nos protege escondendo sua agonia, mas sua ausência é o que nos destrói.
Alegria aproximou-se de Amor e pegou sua mão.
— Da última vez que você se foi por cem anos... — a voz de Alegria falhou, algo raro para a Senhora dos Primeiros Risos. — As estrelas não dançaram. Eu tentei, Amor. Eu juro que tentei fazer as crianças rirem e os amantes sorrirem, mas sem o seu Elo, meus risos soavam como vidro quebrando. Eu não quero ser apenas um barulho oco de novo.
Amor sentiu o aperto no peito. Ele olhou para cada um de seus irmãos. O Ódio, que fingia olhar para o horizonte mas cujos punhos estavam cerrados em pura angústia. O Medo, que calculava mil maneiras de salvá-lo. A Tristeza, que já preparava uma página em branco para quando ele partisse. A Solidão, que compreendia o que ele não conseguia dizer. A Coragem, que o desafiava a ser vulnerável. E a Alegria, que era sua bússola.
— Eu não escolho partir — sussurrou Amor. — É o mundo que me expulsa quando deixa de acreditar.
— Então daremos a eles um motivo para não esquecer — disse uma voz que brilhava como o primeiro raio de sol.
Esperança, a Última Luz do Amanhã, atravessou o salão. Sua presença era tão reconfortante que até Ódio relaxou os ombros. Ela se ajoelhou diante de Amor e tomou seu rosto entre as mãos.
— Você é o Coração da Existência — disse ela. — Mas até o coração precisa que o sangue retorne a ele. Você tem tentado carregar o amor do universo sozinho, esquecendo que nós somos seus ramos.
— Eu não queria que vocês sentissem o que eu sinto — confessou Amor, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto, que agora assumia a forma de alguém que sofreu uma perda recente. — A dor de cada fim... é insuportável.
— Insuportável para um — disse Ódio, aproximando-se e colocando sua mão pesada sobre a de Esperança, que ainda segurava o rosto de Amor. — Mas nós somos oito.
Amor olhou para o irmão gêmeo, surpreso.
— Ódio?
— Não me olhe assim — rosnou o gêmeo, embora seus olhos estivessem úmidos. — Se você apagar, eu perco meu propósito. O que é o ódio senão o luto por algo que deveria ter sido amado? Se você não existir, eu serei apenas um vazio sem sentido. E eu me recuso a ser insignificante.
Um a um, os Primordiais se aproximaram. Medo tocou o braço de Amor, oferecendo a cautela que preserva a vida. Tristeza encostou sua testa na dele, compartilhando o fardo das memórias. Solidão envolveu a todos em seu manto de silêncio, criando um santuário onde o tempo não podia entrar. Coragem ofereceu sua força para o próximo passo, e Alegria soprou um brilho dourado sobre o grupo.
No centro daquele abraço cósmico, Amor sentiu algo que raramente experimentava: ele se sentiu amado. Não o amor dos mortais, que era volátil e muitas vezes egoísta, mas o amor primordial, a força que unia os próprios fundamentos da realidade.
— O Elo Entre Todas as Coisas — entoou Esperança — não pode ser quebrado enquanto houver um de nós de pé.
Por um momento, o salão da Existência brilhou com uma intensidade que cegaria qualquer deus menor. A conexão entre os irmãos criou uma ressonância que viajou através das dimensões, alcançando cada coração partido na Terra, cada alma solitária em galáxias distantes, cada soldado hesitante e cada criança esperançosa.
Amor sentiu sua forma se estabilizar. Seu rosto parou de oscilar violentamente e acalmou-se em uma beleza serena, uma mistura de todas as faces e de nenhuma. O cansaço mortal que ameaçava levá-lo para o próximo ciclo de renascimento recuou, repelido pela vontade coletiva de seus irmãos.
Quando o brilho diminuiu, eles ainda estavam lá, em círculo, no limite da criação.
— Isso foi... desnecessariamente sentimental — resmungou Ódio, afastando-se bruscamente e limpando uma mancha imaginária em sua túnica negra. — Se alguém mencionar isso para os deuses menores, eu vou pessoalmente garantir que seus pesadelos tenham trilha sonora.
Medo soltou um suspiro de alívio, ajeitando os cabelos desalinhados.
— As probabilidades de colapso espiritual diminuíram em 84%. É um começo aceitável.
Alegria deu uma pirueta, suas vestes mudando para um tom de laranja vibrante.
— Eu sinto! O mundo está... respirando de novo! Amor, você viu? Aquele casal em uma pequena cidade azul... eles acabaram de decidir tentar mais uma vez.
Amor sorriu, e desta vez o sorriso era real. Ele se levantou, sentindo a energia fluir por seu ser.
— Obrigado — disse ele, a voz firme e envolvente. — Eu achei que meu dever era ser o escudo de vocês contra a dor do mundo.
— Seu dever é ser o nosso irmão — corrigiu Coragem, batendo levemente em seu ombro. — Nós cuidamos da dor. Você cuida do vínculo.
Tristeza fechou seu livro com um estalo suave.
— Eu registrei este momento — disse ela com um brilho de sabedoria nos olhos. — "O dia em que o Amor foi salvo por si mesmo".
Solidão, que já começava a se tornar etérea novamente, olhou para o horizonte.
— Eles nunca estão sozinhos, não é? — perguntou ela, mais para si mesma do que para os outros. — Enquanto nós estivermos aqui, cada emoção deles tem um lar.
Esperança caminhou até a borda do abismo ao lado de Amor.
— O que você vê agora? — perguntou ela.
Amor olhou para a vastidão da Existência. Ele viu as guerras, as traições e o ódio que seu irmão personificava. Viu o medo que paralisava e a tristeza que afogava. Mas, entrelaçado a tudo isso, ele viu os fios dourados que ele mesmo tecia. Viu a coragem de quem pedia perdão, a alegria de um reencontro e a esperança que brilhava como uma pequena chama em cavernas profundas.
— Eu vejo que vale a pena — respondeu Amor. — Mesmo com a dor. Mesmo com o fim.
Ódio, que já estava a alguns metros de distância, parou e olhou por cima do ombro.
— É claro que vale a pena, seu idiota. Se não valesse, eu não estaria aqui para reclamar disso.
Amor riu, um som que ecoou pelas estrelas, fazendo com que, em algum lugar do universo, alguém que estava prestes a desistir sentisse um calor repentino no peito, como se tivesse acabado de voltar para casa depois de uma longa jornada.
Os Primordiais se dispersaram, voltando para suas funções silenciosas de observar e ser. Mas o vínculo entre eles, o Elo que Amor tanto protegia, estava agora mais forte do que nunca. Pois eles haviam aprendido que nem mesmo as forças que regem o sentir podem sobreviver se não se permitirem, ao menos uma vez, sentir umas pelas outras.
E Amor, o Primeiro dos Gêmeos, continuou ali por mais um momento, observando as luzes do amanhecer que Esperança deixava para trás. Ele não sabia quem era quando ninguém o observava, mas naquele momento, rodeado pelo eco da presença de seus irmãos, ele finalmente entendeu que não precisava de um rosto próprio.
Ele era o rosto de tudo o que importava. E isso era o suficiente para continuar sorrindo, para o mundo e por ele.
Amor estava sentado à beira do abismo de vidro, observando o nascimento de uma nebulosa distante. Ele sorria, mas era um sorriso que carregava o peso de um milhão de despedidas. Seus traços, naquele momento, eram suaves e juvenis, lembrando um primeiro namorado para quem olhasse de soslaio, mas mudavam para a fisionomia de um pai acolhedor se alguém piscasse.
— Você está fazendo de novo — uma voz ríspida e profunda cortou o silêncio.
Amor não precisou se virar para saber quem era. O ar ao seu redor subitamente se tornou mais denso, carregado com o cheiro de ozônio e cinzas. Ódio aproximou-se, seus passos pesados ecoando como o bater de um tambor de guerra. Seus olhos, intensos e severos, fixaram-se nas costas do irmão.
— Fazendo o quê, meu irmão? — perguntou Amor, sua voz soando como uma melodia de ninar.
— Carregando o que não é seu — Ódio parou ao lado dele, as sombras de sua capa se agitando como chamas negras. — Eu sinto daqui, Amor. O gosto metálico do ressentimento, o cheiro de podre das promessas quebradas lá embaixo. Por que você insiste em filtrar tudo isso? Deixe que eles se afoguem no que criaram.
Amor finalmente olhou para o gêmeo. Naquele instante, seus olhos refletiram uma dor tão vasta que até Ódio, a Chama da Ruptura, desviou o olhar por um breve segundo.
— Se eu não sentir por eles, a dor se tornará absoluta — explicou Amor calmamente. — E se a dor for absoluta, não sobrará espaço para mais nada. Nem para você.
Ódio soltou um bufo desdenhoso, embora tenha se sentado ao lado do irmão, mantendo uma distância que era, ao mesmo tempo, um abismo e um abraço.
— Eu não preciso de espaço. Eu prospero no aperto.
— Mentira — uma terceira voz interveio.
Medo surgiu das sombras de uma coluna, movendo-se com a elegância de um predador que não deseja ser notado. Sua pele pálida quase brilhava sob a luz das estrelas, e seus olhos atentos escaneavam cada centímetro do salão antes de ele se permitir relaxar.
— Você não prospera no aperto, Ódio — continuou Medo, a voz baixa e analítica. — Você se expande para proteger o que sobrou. O ódio é a sentinela de um território que já foi invadido. Eu sei disso porque eu estava lá quando você nasceu. Eu sou o que impede que a invasão seja total.
— Ninguém chamou o paranoico para a conversa — resmungou Ódio, embora houvesse um respeito relutante em seu tom.
— Eu não sou paranoico — disse Medo, aproximando-se do precipício. — Sou prudente. Amor está pálido. Mais pálido que o normal. O ciclo está se fechando, não está?
Um silêncio pesado caiu sobre o trio. Amor desviou os olhos para as mãos, que tremiam quase imperceptivelmente. O segredo que ele guardara por eras — de que ele morria e renascia com o fluxo dos afetos do mundo — era uma ferida aberta que apenas Esperança e, recentemente, os outros, haviam começado a compreender.
— Ainda não — mentiu Amor, oferecendo um sorriso que não alcançou seus olhos mutáveis.
— Não minta para quem conhece a anatomia da mentira — disse uma voz suave vinda de trás deles.
Tristeza caminhava devagar, arrastando suas vestes escuras que pareciam feitas de neblina e lágrimas antigas. Em seus braços, ela apertava o grande livro de registros, onde cada nome de quem já partiu estava escrito em tinta indelével. Ela se aproximou de Amor e colocou uma mão fria e delicada sobre o ombro dele.
— Eu sinto o peso nos seus ombros, meu irmão. As histórias que você me entrega para guardar estão ficando mais curtas. Mais trágicas. Você está se desgastando.
— É apenas uma fase — insistiu Amor. — O mundo está passando por transformações. Há muita incompreensão, muita distância...
— E muita solidão — completou Solidão, surgindo como se sempre estivesse ali, mas apenas agora tivesse decidido se tornar visível. Sua aparência translúcida refletia a luz da lua, e sua presença trouxe uma paz imediata, embora melancólica, ao grupo. — Eles estão se isolando. Estão esquecendo que o espaço entre eles não é um muro, mas uma ponte que eu guardo. Quando eles param de atravessar a ponte, você enfraquece, Amor.
— E é por isso que precisamos agir — declarou uma voz firme.
Coragem caminhou até o centro do círculo. Ela não usava armadura, mas sua postura era tão ereta e sua expressão tão decidida que parecia protegida por algo mais forte que o aço. Ao seu lado, Alegria saltitava, embora seu brilho estivesse um pouco fosco, como uma estrela coberta por uma fumaça leve.
— Agir como? — perguntou Medo, cruzando os braços. — Não podemos interferir no livre arbítrio. Somos as emoções, não os mestres delas.
— Não precisamos de interferência — disse Coragem, olhando diretamente para Amor. — Precisamos de sustento. Amor, você está se doando até não sobrar nada. Você acha que nos protege escondendo sua agonia, mas sua ausência é o que nos destrói.
Alegria aproximou-se de Amor e pegou sua mão.
— Da última vez que você se foi por cem anos... — a voz de Alegria falhou, algo raro para a Senhora dos Primeiros Risos. — As estrelas não dançaram. Eu tentei, Amor. Eu juro que tentei fazer as crianças rirem e os amantes sorrirem, mas sem o seu Elo, meus risos soavam como vidro quebrando. Eu não quero ser apenas um barulho oco de novo.
Amor sentiu o aperto no peito. Ele olhou para cada um de seus irmãos. O Ódio, que fingia olhar para o horizonte mas cujos punhos estavam cerrados em pura angústia. O Medo, que calculava mil maneiras de salvá-lo. A Tristeza, que já preparava uma página em branco para quando ele partisse. A Solidão, que compreendia o que ele não conseguia dizer. A Coragem, que o desafiava a ser vulnerável. E a Alegria, que era sua bússola.
— Eu não escolho partir — sussurrou Amor. — É o mundo que me expulsa quando deixa de acreditar.
— Então daremos a eles um motivo para não esquecer — disse uma voz que brilhava como o primeiro raio de sol.
Esperança, a Última Luz do Amanhã, atravessou o salão. Sua presença era tão reconfortante que até Ódio relaxou os ombros. Ela se ajoelhou diante de Amor e tomou seu rosto entre as mãos.
— Você é o Coração da Existência — disse ela. — Mas até o coração precisa que o sangue retorne a ele. Você tem tentado carregar o amor do universo sozinho, esquecendo que nós somos seus ramos.
— Eu não queria que vocês sentissem o que eu sinto — confessou Amor, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto, que agora assumia a forma de alguém que sofreu uma perda recente. — A dor de cada fim... é insuportável.
— Insuportável para um — disse Ódio, aproximando-se e colocando sua mão pesada sobre a de Esperança, que ainda segurava o rosto de Amor. — Mas nós somos oito.
Amor olhou para o irmão gêmeo, surpreso.
— Ódio?
— Não me olhe assim — rosnou o gêmeo, embora seus olhos estivessem úmidos. — Se você apagar, eu perco meu propósito. O que é o ódio senão o luto por algo que deveria ter sido amado? Se você não existir, eu serei apenas um vazio sem sentido. E eu me recuso a ser insignificante.
Um a um, os Primordiais se aproximaram. Medo tocou o braço de Amor, oferecendo a cautela que preserva a vida. Tristeza encostou sua testa na dele, compartilhando o fardo das memórias. Solidão envolveu a todos em seu manto de silêncio, criando um santuário onde o tempo não podia entrar. Coragem ofereceu sua força para o próximo passo, e Alegria soprou um brilho dourado sobre o grupo.
No centro daquele abraço cósmico, Amor sentiu algo que raramente experimentava: ele se sentiu amado. Não o amor dos mortais, que era volátil e muitas vezes egoísta, mas o amor primordial, a força que unia os próprios fundamentos da realidade.
— O Elo Entre Todas as Coisas — entoou Esperança — não pode ser quebrado enquanto houver um de nós de pé.
Por um momento, o salão da Existência brilhou com uma intensidade que cegaria qualquer deus menor. A conexão entre os irmãos criou uma ressonância que viajou através das dimensões, alcançando cada coração partido na Terra, cada alma solitária em galáxias distantes, cada soldado hesitante e cada criança esperançosa.
Amor sentiu sua forma se estabilizar. Seu rosto parou de oscilar violentamente e acalmou-se em uma beleza serena, uma mistura de todas as faces e de nenhuma. O cansaço mortal que ameaçava levá-lo para o próximo ciclo de renascimento recuou, repelido pela vontade coletiva de seus irmãos.
Quando o brilho diminuiu, eles ainda estavam lá, em círculo, no limite da criação.
— Isso foi... desnecessariamente sentimental — resmungou Ódio, afastando-se bruscamente e limpando uma mancha imaginária em sua túnica negra. — Se alguém mencionar isso para os deuses menores, eu vou pessoalmente garantir que seus pesadelos tenham trilha sonora.
Medo soltou um suspiro de alívio, ajeitando os cabelos desalinhados.
— As probabilidades de colapso espiritual diminuíram em 84%. É um começo aceitável.
Alegria deu uma pirueta, suas vestes mudando para um tom de laranja vibrante.
— Eu sinto! O mundo está... respirando de novo! Amor, você viu? Aquele casal em uma pequena cidade azul... eles acabaram de decidir tentar mais uma vez.
Amor sorriu, e desta vez o sorriso era real. Ele se levantou, sentindo a energia fluir por seu ser.
— Obrigado — disse ele, a voz firme e envolvente. — Eu achei que meu dever era ser o escudo de vocês contra a dor do mundo.
— Seu dever é ser o nosso irmão — corrigiu Coragem, batendo levemente em seu ombro. — Nós cuidamos da dor. Você cuida do vínculo.
Tristeza fechou seu livro com um estalo suave.
— Eu registrei este momento — disse ela com um brilho de sabedoria nos olhos. — "O dia em que o Amor foi salvo por si mesmo".
Solidão, que já começava a se tornar etérea novamente, olhou para o horizonte.
— Eles nunca estão sozinhos, não é? — perguntou ela, mais para si mesma do que para os outros. — Enquanto nós estivermos aqui, cada emoção deles tem um lar.
Esperança caminhou até a borda do abismo ao lado de Amor.
— O que você vê agora? — perguntou ela.
Amor olhou para a vastidão da Existência. Ele viu as guerras, as traições e o ódio que seu irmão personificava. Viu o medo que paralisava e a tristeza que afogava. Mas, entrelaçado a tudo isso, ele viu os fios dourados que ele mesmo tecia. Viu a coragem de quem pedia perdão, a alegria de um reencontro e a esperança que brilhava como uma pequena chama em cavernas profundas.
— Eu vejo que vale a pena — respondeu Amor. — Mesmo com a dor. Mesmo com o fim.
Ódio, que já estava a alguns metros de distância, parou e olhou por cima do ombro.
— É claro que vale a pena, seu idiota. Se não valesse, eu não estaria aqui para reclamar disso.
Amor riu, um som que ecoou pelas estrelas, fazendo com que, em algum lugar do universo, alguém que estava prestes a desistir sentisse um calor repentino no peito, como se tivesse acabado de voltar para casa depois de uma longa jornada.
Os Primordiais se dispersaram, voltando para suas funções silenciosas de observar e ser. Mas o vínculo entre eles, o Elo que Amor tanto protegia, estava agora mais forte do que nunca. Pois eles haviam aprendido que nem mesmo as forças que regem o sentir podem sobreviver se não se permitirem, ao menos uma vez, sentir umas pelas outras.
E Amor, o Primeiro dos Gêmeos, continuou ali por mais um momento, observando as luzes do amanhecer que Esperança deixava para trás. Ele não sabia quem era quando ninguém o observava, mas naquele momento, rodeado pelo eco da presença de seus irmãos, ele finalmente entendeu que não precisava de um rosto próprio.
Ele era o rosto de tudo o que importava. E isso era o suficiente para continuar sorrindo, para o mundo e por ele.
