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A vida é um romance

Fandom: A vida de Giovanna

Criado: 29/06/2026

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O Perfume das Gardênias e o Ritmo do Coração

O sol da tarde filtrava-se pelas janelas altas da biblioteca da escola, criando padrões geométricos de luz sobre as mesas de madeira escura. Giovanna estava sentada em seu canto habitual, cercada por pilhas de livros de literatura e biologia. Seus cabelos cacheados, volumosos e perfeitamente definidos, moldavam seu rosto de traços delicados, enquanto ela tentava, sem muito sucesso, se concentrar nas anotações sobre mitose e meiose.

A verdade era que o foco de Giovanna estava a exatos três metros de distância, na mesa à frente, onde Hadassa discutia animadamente algum detalhe de um projeto de artes com Lucas, um colega de classe.

Giovanna sentiu o rosto esquentar apenas ao olhar para o perfil de Hadassa. A pele parda da garota parecia brilhar sob a luz solar, e seus cabelos ondulados caíam sobre os ombros de forma tão natural que parecia uma moldura artística. Hadassa soltou uma risada cristalina, e Giovanna rapidamente baixou os olhos para o caderno, fingindo uma súbita e profunda obsessão pela divisão celular.

— Você vai acabar furando o papel se continuar apertando a caneta desse jeito, Gio — sussurrou uma voz divertida ao seu lado.

Giovanna deu um pulo na cadeira, o coração disparado. Era Beatriz, sua melhor amiga e a única que conhecia o segredo que fazia as mãos de Giovanna tremerem toda vez que o sinal batia.

— Bia! Que susto! — Giovanna murmurou, a voz saindo mais fina do que o planejado.

— O susto é o seu estado natural quando a Hadassa está no mesmo raio de dez metros — zombou Beatriz, sentando-se e apoiando o queixo na mão. — Por que você não vai lá falar com ela? Ela vive te olhando, sabia?

Giovanna sentiu o sangue subir para as bochechas, atingindo um tom que ela tinha certeza ser visível até da Lua.

— Ela não me olha, Bia. Ela é apenas... gentil. E extrovertida. Ela sorri para todo mundo. — Giovanna ajeitou os óculos, tentando esconder o olhar. — E eu sou só a Giovanna. A garota que gagueja quando perguntam as horas.

— Você é a Giovanna: inteligente, linda e com o cabelo mais incrível dessa escola — corrigiu a amiga. — E se você não tomar uma atitude, eu vou acabar contando para ela que você tem uma playlist dedicada só aos "momentos em que Hadassa prende o cabelo".

— Você não ousaria! — Giovanna arregalou os olhos, a vergonha agora sendo substituída por um leve pânico cômico.

Do outro lado da sala, Hadassa não estava prestando atenção em Lucas. Seus olhos castanhos buscavam, entre uma frase e outra, a figura curvada de Giovanna. Ela sentia um frio na barriga toda vez que via a timidez da outra garota. Para Hadassa, a quietude de Giovanna era como um mistério que ela morria de vontade de desvendar. Ela amava o jeito como Giovanna enrolava uma mecha de cabelo no dedo quando estava nervosa, ou como seus olhos brilhavam quando ela falava sobre algo que realmente gostava.

Hadassa respirou fundo. Hoje era o dia. Ela tinha ensaiado no espelho, conversado com suas plantas e até escrito um rascunho em seu diário. Ela ia se declarar.

— Lucas, eu preciso resolver uma coisa — disse Hadassa, interrompendo o colega no meio de uma frase sobre pincéis de cerdas sintéticas.

— Agora? Mas a gente nem terminou o... — Lucas começou, mas Hadassa já estava de pé, ajeitando a alça da mochila.

Ela caminhou em direção à mesa de Giovanna. Cada passo parecia ecoar na biblioteca silenciosa. Giovanna, percebendo a aproximação pelo canto do olho, sentiu o mundo girar. Ela enterrou o rosto no livro de biologia, lendo a mesma frase pela décima vez sem entender uma única palavra.

— Oi, Gio. Oi, Bia — disse Hadassa, parando ao lado delas. Sua voz era doce, mas havia um leve tremor que só alguém muito atento notaria.

— Oi, Hada! — Beatriz respondeu com um sorriso cúmplice, já começando a juntar suas coisas. — Eu estava de saída. Lembrei que tenho um... compromisso urgente com a minha cama. Tchau, gente!

Antes que Giovanna pudesse protestar ou implorar para a amiga ficar, Beatriz desapareceu entre as estantes. Giovanna ficou sozinha, sentindo-se como um cervo diante dos faróis de um carro.

— Oi, Hadassa — Giovanna finalmente conseguiu dizer, fechando o livro com um estalo seco. Ela olhou para as próprias mãos, subitamente achando suas unhas a coisa mais interessante do universo.

— O dia está bonito, não está? — Hadassa tentou puxar assunto, sentando-se na cadeira que Beatriz acabara de vagar.

— Sim... está. Muito sol. Ótimo para a fotossíntese — respondeu Giovanna, e imediatamente quis se enfiar debaixo da mesa. — Quer dizer... sim, está lindo.

Hadassa soltou uma risadinha fofa, o que fez Giovanna corar ainda mais.

— Você é tão fofa quando fica nervosa, Gio.

O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade. Giovanna sentiu que poderia desmaiar a qualquer momento. Ela finalmente criou coragem e levantou os olhos, encontrando o olhar caloroso de Hadassa.

— Eu não estou nervosa — mentiu Giovanna, a voz falhando miseravelmente.

— Ah, não? — Hadassa inclinou-se um pouco para frente, diminuindo a distância entre elas. O perfume de gardênias que emanava de Hadassa envolveu os sentidos de Giovanna. — Então por que suas mãos estão tremendo?

Giovanna escondeu as mãos sob as coxas, apertando os lábios.

— É o café. Eu tomei muito café hoje.

— Entendi — Hadassa sorriu, um sorriso que não chegava a ser cético, mas sim acolhedor. — Gio, eu vim aqui porque queria te dar uma coisa. E queria te falar uma coisa também.

Hadassa enfiou a mão na mochila e tirou um pequeno envelope decorado com adesivos de flores e estrelas. Ela o estendeu para Giovanna.

— O que é isso? — perguntou a cacheada, pegando o papel com as pontas dos dedos, como se fosse um tesouro frágil.

— É uma carta. Mas não abre agora! — pediu Hadassa, as bochechas pálidas ganhando um tom rosado. — Eu sou melhor escrevendo do que falando, embora eu fale muito. Mas a questão é... eu gosto de você, Giovanna. E não é do jeito que eu gosto do Lucas ou da Bia.

O coração de Giovanna deu um salto, depois pareceu parar. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu. Seus olhos estavam arregalados, e a vergonha que sentia antes foi substituída por um choque doce e avassalador.

— Você... você gosta de mim? — gaguejou ela, a voz quase um sussurro. — Mas eu sou tão... quieta. E você é tão incrível.

— Você é a pessoa mais incrível que eu conheço — rebateu Hadassa, com uma seriedade que fez Giovanna estremecer. — Eu adoro o seu silêncio, Gio. Eu adoro como você observa o mundo. E eu adoro como você fica vermelha quando eu chego perto.

Giovanna cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido abafado de timidez.

— Ai meu Deus, você percebe tudo.

— Percebo. E acho a coisa mais linda do mundo — Hadassa esticou a mão e, com delicadeza, tocou os dedos de Giovanna, afastando-os do rosto dela. — Não se esconda de mim.

O toque fez uma corrente elétrica percorrer o corpo de Giovanna. Ela olhou para Hadassa e, pela primeira vez, não desviou o olhar. A coragem, vinda de algum lugar profundo sob sua timidez, começou a florescer.

— Eu também gosto de você, Hadassa — admitiu Giovanna, a voz ganhando firmeza apesar da vermelhidão nas bochechas. — Há muito tempo. Eu só... eu achei que nunca teria chance.

Hadassa sorriu de orelha a orelha, seus olhos brilhando de alegria pura.

— Então a gente está no mesmo barco?

— Acho que sim — respondeu Giovanna, permitindo-se um sorriso pequeno e tímido.

— Ótimo. Porque na carta eu te convidei para tomar um sorvete no sábado. Mas como eu já falei, você pode me dar a resposta agora.

Giovanna sentiu que poderia flutuar. A vergonha ainda estava lá, uma companheira constante, mas agora era acompanhada por uma felicidade vibrante que aquecia seu peito.

— Eu aceito. Eu adoraria tomar sorvete com você.

Hadassa apertou a mão de Giovanna suavemente.

— Então é um encontro?

Giovanna sentiu o rosto queimar mais uma vez, mas desta vez, ela não tentou se esconder.

— Sim — disse ela, a voz firme. — É um encontro.

Nesse momento, o bibliotecário passou fazendo sinal de silêncio, e as duas soltaram risadinhas abafadas. Giovanna olhou para o envelope em sua mão e depois para a garota à sua frente. O mundo lá fora continuava o mesmo, mas dentro daquela biblioteca, entre livros de biologia e o perfume de gardênias, tudo tinha mudado.

— Você quer que eu te ajude com a mitose? — perguntou Hadassa, apontando para o livro.

— Eu acho que agora eu entendo bem melhor como as coisas se conectam — brincou Giovanna, e a risada de Hadassa foi o som mais bonito que ela já tinha ouvido.

Elas passaram o resto da tarde estudando juntas, ou melhor, tentando estudar. Mas entre trocas de olhares, mãos que se esbarravam "acidentalmente" e sorrisos contidos, Giovanna percebeu que sua timidez não era um muro, mas apenas uma porta que Hadassa tinha acabado de abrir. E, pela primeira vez na vida, ela não tinha medo de atravessar.

Ao saírem da escola, o sol já estava se pondo, pintando o céu de tons de rosa e laranja, quase da cor das bochechas de Giovanna quando Hadassa lhe deu um beijo rápido na bochecha antes de ir embora.

— Até sábado, Gio! — gritou Hadassa, acenando enquanto se afastava.

Giovanna ficou parada por um momento, a mão tocando o lugar onde os lábios de Hadassa haviam encostado. Ela suspirou, um sorriso bobo no rosto, e começou a caminhar para casa. Ela ainda era a Giovanna tímida e fofa, mas agora, ela era a Giovanna que tinha um encontro no sábado com a garota dos seus sonhos. E isso mudava tudo.
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