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Entre socos e resenhas
Fandom: Muay Thai
Criado: 29/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaFatias de VidaCiúmesRealismoEstudo de PersonagemAçãoLinguagem Explícita
Entre Luvas e Confissões
O cheiro de linimento e suor impregnava o ar do Centro de Treinamento no fundo da casa do Tio Júnior. Para qualquer outra pessoa, aquele odor seria insuportável, mas para mim, era o cheiro de casa. Eu estava terminando de enrolar as bandagens nas mãos, sentada no banco de madeira descascado, quando senti um peso sobre meus ombros. Não precisei olhar para saber quem era.
— De novo com essa cara de quem vai matar um, Babi? — Keven murmurou, apoiando o queixo no topo da minha cabeça.
— É concentração, idiota — respondi, dando um cotovelo leve nas costelas dele.
— Sei. Concentração no filho do mestre, né? — Ele riu, esquivando-se com a agilidade de quem passava metade do dia em cima de um ringue.
Keven era minha alma gêmea, mas não do jeito que as fofoqueiras da rua achavam. A gente se conhecia desde que eu me entendia por gente. Eu dormia na casa dele, comia a comida da mãe dele e sabia exatamente qual era a expressão que ele fazia quando estava prestes a levar um chute na linha de cintura. Todos juravam que éramos um casal, mas a verdade era que a nossa intimidade era pura, livre da tensão sexual que parecia rondar o resto do grupo.
— Cala a boca, Keven. O Matheus nem olhou para cá hoje — eu disse, embora soubesse que era mentira.
Matheus Kelvin, o filho do Tio Júnior, era o meu ponto fraco. Ele tinha aquele jeito marrento, um chute de esquerda que fazia o aparador estalar como um tiro e um sorriso que usava com parcimônia, mas que, quando direcionado a mim, me deixava com as pernas bambas. Ele até tinha criado um perfil no Instagram só para falar comigo, já que o Tio Júnior era rígido com o uso de celular durante os treinos. Às vezes, ele "roubava" o celular de algum aluno só para me mandar um "tá linda com esse protetor bucal".
— Ele não parou de te olhar desde que você cruzou o portão — uma voz mais grave soou atrás de nós.
Era Rhaver. Ele se aproximou com as luvas já calçadas, o semblante sempre um pouco mais sério quando Matheus estava por perto. Rhaver era meu melhor amigo de treinos, alguém com quem eu também tinha uma conexão profunda, mas havia uma tensão ali que eu fingia não notar. Ele me amava, eu sabia disso, mas meu coração já tinha dono, mesmo que esse dono fosse um teimoso filho de mestre.
— E aí, Rhaver. Vai treinar ou vai ficar cuidando da vida alheia? — Keven provocou.
— Vou treinar. E hoje a Babi faz dupla comigo — Rhaver afirmou, cruzando os braços.
— Nem pensar — Matheus Kelvin apareceu, saindo da área dos sacos de pancada. Ele estava sem camisa, o suor brilhando sobre os músculos definidos, e o olhar fixo em Rhaver. — Ela vai treinar comigo. Preciso ajustar o clinche dela.
— O clinche dela está ótimo, Matheus. Ela precisa é de velocidade nos chutes, e nisso eu sou melhor — Rhaver rebateu, dando um passo à frente.
Eu suspirei, revirando os olhos. Aquilo acontecia quase todos os dias. Era uma disputa silenciosa, uma guerra de egos onde eu era o troféu, mas eu odiava ser tratada assim.
— Chega! — Tio Júnior gritou do centro do tatame, batendo as palmas das mãos. — Parem de palhaçada! Matheus, vai para os aparadores com o Keven. Rhaver, você fica com a Bárbara. Agora!
Matheus bufou, lançando um olhar mortal para Rhaver antes de se afastar. Rhaver sorriu vitorioso para mim, mas eu apenas neguei com a cabeça.
O treino foi intenso. Rhaver não facilitava, e eu gostava disso. Cada soco que eu desferia contra as luvas dele era uma forma de extravasar a confusão que sentia. Entre um round e outro, eu via Matheus me observando enquanto fingia ouvir as instruções do pai.
Depois de duas horas de treino puxado, o CT começou a esvaziar. Keven já tinha ido tomar banho, dizendo que me esperaria em casa com pizza. Rhaver se despediu com um beijo demorado no topo da minha cabeça, sussurrando um "te vejo amanhã" que soou mais como uma promessa do que uma despedida.
Fiquei sozinha no fundo, retirando as bandagens. O silêncio da noite era quebrado apenas pelo som dos grilos e pelo barulho da água caindo no chuveiro da casa principal.
— Você sabe que ele faz de propósito, né? — A voz de Matheus ecoou no espaço vazio.
Ele estava encostado na pilastra, ainda com as calças de muay thai, a toalha pendurada no pescoço.
— O Rhaver? Ele só quer treinar, Matheus — respondi, tentando manter a voz firme.
— Ele quer você, Bárbara. Todo mundo vê. Até o Keven, que é seu "marido" de mentira, sabe disso.
— O Keven é meu irmão. E o Rhaver é meu amigo. Por que você sempre tem que transformar tudo em uma competição?
Matheus caminhou até mim, parando a poucos centímetros. O calor que emanava do corpo dele era quase palpável. Ele esticou a mão e tocou meu rosto, o polegar traçando a linha da minha mandíbula.
— Porque eu não suporto ver a mão de outro homem em você. Mesmo que seja para treinar.
— Você é possessivo demais — sussurrei, mas não me afastei.
— Eu sou louco por você. E você sabe disso.
Ele não esperou por uma resposta. Matheus selou nossos lábios em um beijo urgente, carregado de toda a frustração e desejo que tínhamos acumulado durante as horas de treino. Minhas mãos subiram para o pescoço dele, puxando-o para mais perto, sentindo a textura da sua pele quente contra a minha.
Ele me prensou contra a parede de tijolos aparentes do CT. O beijo se tornou mais profundo, as línguas dançando em um ritmo que nenhum mestre de muay thai poderia ensinar. Era cru, real e desesperado.
— Matheus... — gemi entre os beijos, sentindo as mãos dele descendo para minha cintura, apertando-me com força.
— Você é minha, Babi. Só minha.
— Eu não sou de ninguém — respondi, recuperando o fôlego por um segundo —, mas eu quero estar com você.
Ele sorriu, aquele sorriso raro que me desmontava, e me pegou no colo, me sentando em cima de um dos armários de equipamentos. O contraste do metal frio contra minhas coxas e o calor do corpo dele me fez estremecer.
— O seu pai... — comecei a dizer, preocupada.
— Ele saiu para comprar gelo. Temos dez minutos — Matheus interrompeu, voltando a atacar meu pescoço, deixando marcas que eu teria dificuldade em esconder no dia seguinte.
A urgência do momento nos consumia. Cada toque era uma confirmação do que sentíamos. Ele deslizou as mãos por baixo da minha regata de treino, encontrando a pele macia da minha cintura. Eu arqueei as costas, entregando-me àquela sensação. Não era apenas desejo; era a conexão de anos de convivência, de suor compartilhado e de olhares trocados por cima das luvas.
Quando terminamos, ambos ofegantes e com os corações disparados, ele encostou a testa na minha.
— Você vai para a casa do Keven agora? — ele perguntou, a voz rouca.
— Vou. Ele está me esperando com pizza.
— Amanhã eu vou pegar o celular do Rhaver e te mandar uma mensagem — ele brincou, embora houvesse um fundo de verdade na sua provocação.
— Não ouse. Use o seu perfil secreto.
Desci do armário, ajeitando a roupa e tentando recuperar a compostura. Saí do CT sentindo o corpo leve, apesar do cansaço físico.
Caminhei as duas quadras até a casa do Keven. Quando entrei, encontrei não só ele, mas Rhaver também, sentado no sofá com uma caixa de pizza aberta no colo.
— Demorou, hein? — Keven disse, me analisando com aquele olhar de quem sabia de tudo. — O treino com o "fantasma" do Matheus rendeu?
Senti minhas bochechas arderem. Rhaver me olhou, um brilho de tristeza cruzando seus olhos por um segundo antes dele forçar um sorriso.
— A pizza está esfriando, Babi. Vem comer — Rhaver chamou, batendo no espaço vazio ao lado dele no sofá.
Sentei-me entre os dois. Keven, meu porto seguro que sabia todos os meus segredos, e Rhaver, o amigo que me amava mais do que deveria. No fundo, eu sabia que aquela situação não duraria para sempre. O triângulo entre eu, Matheus e Rhaver estava prestes a explodir, e o Keven seria o único a recolher os cacos.
— Você está com o pescoço vermelho — Rhaver comentou, a voz baixa, quase inaudível.
Eu congelei com o pedaço de pizza na mão. Keven tossiu, tentando disfarçar o climão.
— Deve ter sido algum estrangulamento no treino, né Babi? — Keven interveio, me dando uma piscadela.
— É... foi isso. O Matheus pegou pesado no clinche hoje — respondi, sentindo o peso da mentira.
Rhaver não disse mais nada, mas o silêncio dele gritava. Ele sabia. Todos sabiam, de uma forma ou de outra. O muay thai nos ensinava a lutar, a bater e a receber golpes, mas ninguém nos ensinava como lidar com as feridas que não fechavam com gelo e spray de arnica.
Naquela noite, deitada no colchão extra no quarto do Keven, meu celular vibrou.
"Matheus Kelvin (Privado): Amanhã, depois do treino, no mesmo lugar. Sem interrupções."
Sorri para a tela, sentindo o frio na barriga. Eu amava o perigo, amava a luta e, acima de tudo, amava o jeito que Matheus me fazia sentir. Mas, ao olhar para o lado e ver Keven dormindo tranquilamente, senti uma pontada de culpa. Minha vida era um emaranhado de socos, chutes e corações entrelaçados.
A pergunta que não saía da minha cabeça era: até quando eu conseguiria manter a guarda alta antes de ser nocauteada por meus próprios sentimentos?
Fechei os olhos, o cheiro de Matheus ainda impregnado na minha pele, enquanto o som da respiração do meu "irmão" me trazia de volta para a realidade. Amanhã seria outro dia de treino, outro dia de disputas e, possivelmente, outro dia em que meu coração seria o ringue principal.
— Boa noite, Babi — Keven murmurou, sem abrir os olhos, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Tenta não se meter em muita confusão amanhã.
— Vou tentar, Kev. Vou tentar.
Mas nós dois sabíamos que, no mundo do muay thai e do amor, não existia luta sem riscos. E eu estava pronta para lutar todos os rounds.
— De novo com essa cara de quem vai matar um, Babi? — Keven murmurou, apoiando o queixo no topo da minha cabeça.
— É concentração, idiota — respondi, dando um cotovelo leve nas costelas dele.
— Sei. Concentração no filho do mestre, né? — Ele riu, esquivando-se com a agilidade de quem passava metade do dia em cima de um ringue.
Keven era minha alma gêmea, mas não do jeito que as fofoqueiras da rua achavam. A gente se conhecia desde que eu me entendia por gente. Eu dormia na casa dele, comia a comida da mãe dele e sabia exatamente qual era a expressão que ele fazia quando estava prestes a levar um chute na linha de cintura. Todos juravam que éramos um casal, mas a verdade era que a nossa intimidade era pura, livre da tensão sexual que parecia rondar o resto do grupo.
— Cala a boca, Keven. O Matheus nem olhou para cá hoje — eu disse, embora soubesse que era mentira.
Matheus Kelvin, o filho do Tio Júnior, era o meu ponto fraco. Ele tinha aquele jeito marrento, um chute de esquerda que fazia o aparador estalar como um tiro e um sorriso que usava com parcimônia, mas que, quando direcionado a mim, me deixava com as pernas bambas. Ele até tinha criado um perfil no Instagram só para falar comigo, já que o Tio Júnior era rígido com o uso de celular durante os treinos. Às vezes, ele "roubava" o celular de algum aluno só para me mandar um "tá linda com esse protetor bucal".
— Ele não parou de te olhar desde que você cruzou o portão — uma voz mais grave soou atrás de nós.
Era Rhaver. Ele se aproximou com as luvas já calçadas, o semblante sempre um pouco mais sério quando Matheus estava por perto. Rhaver era meu melhor amigo de treinos, alguém com quem eu também tinha uma conexão profunda, mas havia uma tensão ali que eu fingia não notar. Ele me amava, eu sabia disso, mas meu coração já tinha dono, mesmo que esse dono fosse um teimoso filho de mestre.
— E aí, Rhaver. Vai treinar ou vai ficar cuidando da vida alheia? — Keven provocou.
— Vou treinar. E hoje a Babi faz dupla comigo — Rhaver afirmou, cruzando os braços.
— Nem pensar — Matheus Kelvin apareceu, saindo da área dos sacos de pancada. Ele estava sem camisa, o suor brilhando sobre os músculos definidos, e o olhar fixo em Rhaver. — Ela vai treinar comigo. Preciso ajustar o clinche dela.
— O clinche dela está ótimo, Matheus. Ela precisa é de velocidade nos chutes, e nisso eu sou melhor — Rhaver rebateu, dando um passo à frente.
Eu suspirei, revirando os olhos. Aquilo acontecia quase todos os dias. Era uma disputa silenciosa, uma guerra de egos onde eu era o troféu, mas eu odiava ser tratada assim.
— Chega! — Tio Júnior gritou do centro do tatame, batendo as palmas das mãos. — Parem de palhaçada! Matheus, vai para os aparadores com o Keven. Rhaver, você fica com a Bárbara. Agora!
Matheus bufou, lançando um olhar mortal para Rhaver antes de se afastar. Rhaver sorriu vitorioso para mim, mas eu apenas neguei com a cabeça.
O treino foi intenso. Rhaver não facilitava, e eu gostava disso. Cada soco que eu desferia contra as luvas dele era uma forma de extravasar a confusão que sentia. Entre um round e outro, eu via Matheus me observando enquanto fingia ouvir as instruções do pai.
Depois de duas horas de treino puxado, o CT começou a esvaziar. Keven já tinha ido tomar banho, dizendo que me esperaria em casa com pizza. Rhaver se despediu com um beijo demorado no topo da minha cabeça, sussurrando um "te vejo amanhã" que soou mais como uma promessa do que uma despedida.
Fiquei sozinha no fundo, retirando as bandagens. O silêncio da noite era quebrado apenas pelo som dos grilos e pelo barulho da água caindo no chuveiro da casa principal.
— Você sabe que ele faz de propósito, né? — A voz de Matheus ecoou no espaço vazio.
Ele estava encostado na pilastra, ainda com as calças de muay thai, a toalha pendurada no pescoço.
— O Rhaver? Ele só quer treinar, Matheus — respondi, tentando manter a voz firme.
— Ele quer você, Bárbara. Todo mundo vê. Até o Keven, que é seu "marido" de mentira, sabe disso.
— O Keven é meu irmão. E o Rhaver é meu amigo. Por que você sempre tem que transformar tudo em uma competição?
Matheus caminhou até mim, parando a poucos centímetros. O calor que emanava do corpo dele era quase palpável. Ele esticou a mão e tocou meu rosto, o polegar traçando a linha da minha mandíbula.
— Porque eu não suporto ver a mão de outro homem em você. Mesmo que seja para treinar.
— Você é possessivo demais — sussurrei, mas não me afastei.
— Eu sou louco por você. E você sabe disso.
Ele não esperou por uma resposta. Matheus selou nossos lábios em um beijo urgente, carregado de toda a frustração e desejo que tínhamos acumulado durante as horas de treino. Minhas mãos subiram para o pescoço dele, puxando-o para mais perto, sentindo a textura da sua pele quente contra a minha.
Ele me prensou contra a parede de tijolos aparentes do CT. O beijo se tornou mais profundo, as línguas dançando em um ritmo que nenhum mestre de muay thai poderia ensinar. Era cru, real e desesperado.
— Matheus... — gemi entre os beijos, sentindo as mãos dele descendo para minha cintura, apertando-me com força.
— Você é minha, Babi. Só minha.
— Eu não sou de ninguém — respondi, recuperando o fôlego por um segundo —, mas eu quero estar com você.
Ele sorriu, aquele sorriso raro que me desmontava, e me pegou no colo, me sentando em cima de um dos armários de equipamentos. O contraste do metal frio contra minhas coxas e o calor do corpo dele me fez estremecer.
— O seu pai... — comecei a dizer, preocupada.
— Ele saiu para comprar gelo. Temos dez minutos — Matheus interrompeu, voltando a atacar meu pescoço, deixando marcas que eu teria dificuldade em esconder no dia seguinte.
A urgência do momento nos consumia. Cada toque era uma confirmação do que sentíamos. Ele deslizou as mãos por baixo da minha regata de treino, encontrando a pele macia da minha cintura. Eu arqueei as costas, entregando-me àquela sensação. Não era apenas desejo; era a conexão de anos de convivência, de suor compartilhado e de olhares trocados por cima das luvas.
Quando terminamos, ambos ofegantes e com os corações disparados, ele encostou a testa na minha.
— Você vai para a casa do Keven agora? — ele perguntou, a voz rouca.
— Vou. Ele está me esperando com pizza.
— Amanhã eu vou pegar o celular do Rhaver e te mandar uma mensagem — ele brincou, embora houvesse um fundo de verdade na sua provocação.
— Não ouse. Use o seu perfil secreto.
Desci do armário, ajeitando a roupa e tentando recuperar a compostura. Saí do CT sentindo o corpo leve, apesar do cansaço físico.
Caminhei as duas quadras até a casa do Keven. Quando entrei, encontrei não só ele, mas Rhaver também, sentado no sofá com uma caixa de pizza aberta no colo.
— Demorou, hein? — Keven disse, me analisando com aquele olhar de quem sabia de tudo. — O treino com o "fantasma" do Matheus rendeu?
Senti minhas bochechas arderem. Rhaver me olhou, um brilho de tristeza cruzando seus olhos por um segundo antes dele forçar um sorriso.
— A pizza está esfriando, Babi. Vem comer — Rhaver chamou, batendo no espaço vazio ao lado dele no sofá.
Sentei-me entre os dois. Keven, meu porto seguro que sabia todos os meus segredos, e Rhaver, o amigo que me amava mais do que deveria. No fundo, eu sabia que aquela situação não duraria para sempre. O triângulo entre eu, Matheus e Rhaver estava prestes a explodir, e o Keven seria o único a recolher os cacos.
— Você está com o pescoço vermelho — Rhaver comentou, a voz baixa, quase inaudível.
Eu congelei com o pedaço de pizza na mão. Keven tossiu, tentando disfarçar o climão.
— Deve ter sido algum estrangulamento no treino, né Babi? — Keven interveio, me dando uma piscadela.
— É... foi isso. O Matheus pegou pesado no clinche hoje — respondi, sentindo o peso da mentira.
Rhaver não disse mais nada, mas o silêncio dele gritava. Ele sabia. Todos sabiam, de uma forma ou de outra. O muay thai nos ensinava a lutar, a bater e a receber golpes, mas ninguém nos ensinava como lidar com as feridas que não fechavam com gelo e spray de arnica.
Naquela noite, deitada no colchão extra no quarto do Keven, meu celular vibrou.
"Matheus Kelvin (Privado): Amanhã, depois do treino, no mesmo lugar. Sem interrupções."
Sorri para a tela, sentindo o frio na barriga. Eu amava o perigo, amava a luta e, acima de tudo, amava o jeito que Matheus me fazia sentir. Mas, ao olhar para o lado e ver Keven dormindo tranquilamente, senti uma pontada de culpa. Minha vida era um emaranhado de socos, chutes e corações entrelaçados.
A pergunta que não saía da minha cabeça era: até quando eu conseguiria manter a guarda alta antes de ser nocauteada por meus próprios sentimentos?
Fechei os olhos, o cheiro de Matheus ainda impregnado na minha pele, enquanto o som da respiração do meu "irmão" me trazia de volta para a realidade. Amanhã seria outro dia de treino, outro dia de disputas e, possivelmente, outro dia em que meu coração seria o ringue principal.
— Boa noite, Babi — Keven murmurou, sem abrir os olhos, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Tenta não se meter em muita confusão amanhã.
— Vou tentar, Kev. Vou tentar.
Mas nós dois sabíamos que, no mundo do muay thai e do amor, não existia luta sem riscos. E eu estava pronta para lutar todos os rounds.
