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Fernanda Spitzer

Fandom: Musica

Criado: 29/06/2026

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Sinfonia de um Acaso Barulhento

A chuva de São Paulo não pedia licença; ela simplesmente desabava, transformando o asfalto cinza em um espelho distorcido das luzes de neon da Augusta. Raul apertava o passo, amaldiçoando mentalmente o fato de ter esquecido o guarda-chuva no estúdio. Ele era um homem de contrastes: a estatura baixa era compensada por uma presença densa, marcada pelo cabelo preto rebelde que insistia em cair sobre os olhos e um cavanhaque meticulosamente aparado que lhe dava um ar de vilão de cinema antigo ou de um baixista de jazz amargurado.

Ele estava atrasado para o ensaio, carregando o peso do mundo e de uma mochila cheia de cabos e pedais, quando o destino decidiu intervir na forma de uma calçada escorregadia e uma esquina apressada.

O impacto foi seco. Raul sentiu algo pequeno, mas sólido, colidir contra seu peito.

— Ei! Cuidado por onde anda! — exclamou ele, tentando equilibrar o peso do corpo enquanto estendia a mão instintivamente para segurar a pessoa que quase fora ao chão.

— Eu que diga! Você parece um trator na contramão — rebateu uma voz feminina, aguda e carregada de uma indignação vibrante.

Raul piscou, limpando as gotas de chuva dos cílios. À sua frente, uma mulher baixa, com cabelos loiros que brilhavam mesmo sob o céu nublado, tentava resgatar um caderno de partituras que havia caído em uma poça. Ela era pequena, mas a energia que emanava dela parecia ocupar todo o quarteirão.

— Deixa que eu pego — disse Raul, agachando-se rapidamente. — Desculpe, eu estou realmente com pressa e essa chuva não ajuda.

— É, eu percebi. — Ela aceitou o caderno, agora levemente manchado nas bordas. Quando seus olhos se encontraram, o tempo pareceu sofrer um pequeno atraso, como um compasso deslocado em uma música complexa. Os olhos dela eram intensos, e Raul sentiu um soco no estômago que não tinha nada a ver com o esbarrão.

— Sou o Raul — disse ele, esquecendo por um segundo que o ensaio começaria em dez minutos.

— Fernanda — respondeu ela, ajeitando uma mecha loira molhada atrás da orelha. O tom defensivo suavizou para algo mais curioso. — Você é músico? Vi os cabos saindo da mochila.

— Baixista. E você, pelo visto, escreve o que eu tento tocar.

Fernanda deu um sorriso de canto, um gesto que fez o coração de Raul errar a batida.

— Eu sou maestrina e arranjadora. E, se você toca baixo como caminha, deve destruir o palco.

— Isso foi um elogio ou um insulto? — perguntou ele, soltando uma risada curta.

— Depende do seu ritmo — respondeu ela, os olhos brilhando com um desafio silencioso. — Olha, eu moro logo ali, naquele prédio de tijolinhos. Se não quiser que suas partituras virem sopa e se quiser um café para compensar o atropelamento...

Raul olhou para o relógio. O ensaio podia esperar. A música que estava começando a soar entre os dois era muito mais interessante.

— O café parece uma ideia excelente, Fernanda.

O apartamento de Fernanda era exatamente como Raul imaginara: organizado dentro de um caos criativo. Havia um piano de cauda ocupando metade da sala, estantes transbordando de livros e um cheiro inebriante de sândalo e papel antigo. A chuva batia contra as janelas de vidro grande, criando uma melodia rítmica que preenchia o silêncio enquanto Fernanda buscava duas toalhas.

— Aqui, seque esse cabelo antes que você pegue uma pneumonia e coloque a culpa em mim — disse ela, jogando a toalha branca para ele.

Raul a pegou no ar, observando-a. Fernanda, mesmo molhada e descabelada, possuía uma elegância natural. Ela tirou o casaco encharcado, revelando uma blusa de seda que aderia ao corpo, delineando as curvas sutis de sua estatura pequena.

— Você mora em um conservatório particular? — brincou Raul, passando a toalha pelo rosto e pelo cavanhaque.

— Gosto de estar cercada de som — explicou ela, aproximando-se. — O silêncio me deixa ansiosa.

Ela parou a poucos centímetros dele para pegar a toalha de suas mãos. A proximidade elétrica era palpável. Raul podia sentir o calor que emanava da pele dela, o cheiro de chuva misturado a um perfume floral doce. Ele não recuou. Em vez disso, deu um passo à frente, fechando o pouco espaço que restava.

— E agora? — sussurrou ele, a voz descendo uma oitava, tornando-se o som grave e vibrante de uma corda de baixo. — Está ouvindo algum som agora?

Fernanda olhou para cima, sustentando o olhar dele. Ela levou a mão ao peito de Raul, sentindo o coração dele martelar contra as costelas.

— Ouço um metrônomo bem acelerado aqui dentro — disse ela, com um sorriso audacioso.

Raul não esperou por mais nenhum sinal. Ele inclinou a cabeça e tomou os lábios dela nos seus. O beijo começou como o encontro de duas tempestades: urgente, faminto e carregado de uma necessidade que nenhum dos dois sabia que tinha até aquele momento. Fernanda entrelaçou os dedos nos cabelos pretos e úmidos de Raul, puxando-o para mais perto, enquanto ele envolvia a cintura dela, sentindo como ela se encaixava perfeitamente em seus braços.

O desejo explodiu entre eles como um acorde final de uma sinfonia de rock. Raul a ergueu com facilidade, as pernas de Fernanda circulando sua cintura enquanto ele a levava em direção ao sofá largo de couro. Eles se desfizeram das roupas com uma pressa febril, cada toque revelando uma nova nota de prazer.

A pele de Fernanda era fria por causa da chuva, mas o toque de Raul era puro fogo. Ele desceu os beijos pelo pescoço dela, sentindo-a arquear o corpo sob ele.

— Raul... — o nome dele saiu como um suspiro rendido.

— Você é uma melodia difícil de tirar da cabeça, Fernanda — murmurou ele contra a pele dela.

Ele a possuiu com uma intensidade que refletia a paixão de ambos pela música: rítmica, profunda e avassaladora. Cada movimento era sincronizado, uma improvisação perfeita onde os corpos sabiam exatamente o que o outro pedia. O som da chuva lá fora era o único acompanhamento para os gemidos abafados e o som da pele batendo contra a pele. Raul a conduzia com a precisão de quem conhece cada traste de seu instrumento, e Fernanda respondia como uma maestrina que exige a perfeição de cada nota, entregando-se ao clímax com uma intensidade que os deixou ambos exaustos e trêmulos.

Minutos depois, ou talvez horas — o tempo não tinha mais significado ali —, eles estavam deitados no tapete felpudo da sala, cobertos por uma manta que Fernanda puxara do sofá. A luz da rua filtrava-se pela janela, banhando-os em tons de âmbar.

Raul brincava com uma mecha do cabelo loiro dela, agora seco.

— Acho que perdi o ensaio — disse ele, sem o menor traço de arrependimento na voz.

Fernanda soltou uma risada baixa, encostando a cabeça no ombro dele.

— Acho que você encontrou um ritmo melhor aqui.

— Com certeza. — Raul virou-se um pouco, beijando o topo da cabeça dela. — O que uma maestrina faz com um baixista que tropeça nela na rua?

Fernanda olhou para ele, os olhos brilhando com uma promessa de muitos outros encontros.

— Ela o ensina a não perder o tempo... e talvez escreva um concerto inteiro só para ele.

Raul sorriu, puxando-a para mais perto enquanto o som da chuva finalmente começava a estiar, deixando apenas a sinfonia suave da respiração dos dois preenchendo o apartamento. O acaso, afinal, tinha o melhor ouvido musical de todos.
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