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Fandom: Nenhum

Criado: 29/06/2026

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Entre o Caos e o Carinho

O sol de sábado à tarde sobre o clube era impiedoso, refletindo intensamente nas águas da piscina e no gramado impecavelmente aparado do campo de futebol society. Emanuel estacionou o SUV preto na vaga privativa, sentindo o peso da semana nos ombros. Ser o dono de um império de estúdios de tatuagem e gerenciar investimentos diversificados exigia uma frieza que, às vezes, ele tinha dificuldade de desligar. Mas ali, dentro do carro, o conflito era de outra natureza: emocional.

Ao seu lado, no banco do passageiro, Sara retocava o batom vermelho vibrante no espelho do quebra-sol. Ela usava um conjunto de academia que parecia mais apropriado para um desfile de moda — um top minúsculo que realçava o silicone e uma calça legging branca tão justa que não deixava nada à imaginação. O perfume doce e forte dela preenchia o habitáculo.

No banco de trás, Eduarda parecia querer desaparecer entre os estofados de couro. Ela vestia um vestido de linho bege, leve e solto, com os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Segurava um livro de História da Arte contra o peito, como se fosse um escudo.

— Vamos, gente. Eu não vim aqui para ficar dentro de um carro ouvindo o ar-condicionado — Sara disse, guardando o batom com um estalo seco. — Emanuel, querido, vê se marca muitos gols hoje. Quero ter motivo para comemorar mais tarde.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Ele olhou pelo retrovisor, encontrando os olhos grandes e expressivos de Eduarda.

— Duda? Tudo bem? — perguntou ele, o tom de voz suavizando-se automaticamente.

— Tudo sim, Manu... — ela murmurou, com aquela voz mansa que sempre o desarmava. — Só estou com um pouco de sono.

— É porque você vive enfurnada naquela biblioteca da faculdade, gatinha — Sara comentou, abrindo a porta do carro e saindo com uma postura de quem era dona do mundo. — Precisa de mais vitamina D e menos poeira de livro velho.

Emanuel saiu do carro e deu a volta para abrir a porta para Eduarda. Ele estendeu a mão, ajudando-a a descer. Assim que ela ficou de pé, Eduarda se aproximou dele, segurando discretamente na barra de sua camiseta, buscando aquele contato físico que a fazia se sentir segura.

— Você sabe que eu queria que você já estivesse acordando na nossa casa, não sabe? — Emanuel disse em voz baixa, apenas para ela ouvir, enquanto caminhavam em direção às mesas próximas ao campo. — Não teria que dirigir até a casa dos seus pais para te buscar.

Eduarda baixou o olhar, sentindo as bochechas esquentarem.

— Eu sei, Manu. Mas meus pais... eles gostam de me ter por perto. E eu ainda não me sinto pronta para essa mudança toda. Por favor, não fica bravo.

— Eu não estou bravo, Duda. Eu estou impaciente — ele retrucou, a rigidez voltando à sua postura. — A Sara já está lá. A casa é grande. Eu quero minhas duas mulheres sob o meu teto. Controle, Eduarda. Eu preciso saber que vocês estão bem.

— Eu estou bem — ela sussurrou, apertando o braço dele.

Eles chegaram à área das mesas, onde as amigas de Sara já estavam instaladas. Eram três mulheres com o mesmo estilo de Sara: roupas de marca, vozes altas e risadas que atraíam olhares de todos ao redor.

— Finalmente! — exclamou Jéssica, uma das amigas de Sara, medindo Eduarda de cima a baixo com um olhar de desdém disfarçado. — Sentem aqui. A Sara estava contando que você vai abrir mais uma unidade em Londres, Emanuel? Que luxo!

— Estamos estudando o ponto — Emanuel respondeu de forma curta, sendo prático como sempre. — Meninas, cuidem da Eduarda. Eu vou me trocar para o jogo.

Ele deu um beijo rápido na testa de Eduarda — um gesto de proteção — e um beijo mais faminto no canto da boca de Sara, que o puxou pelo pescoço, marcando território diante das amigas.

Assim que Emanuel se afastou, a atmosfera na mesa mudou. Sara cruzou as pernas, chamando o garçom com um estalo de dedos.

— Um espumante geladíssimo, por favor. E traga um suco natural para a Duda, ela é sensível — Sara disse, dando um sorrisinho para Eduarda.

Sara não odiava Eduarda. Na verdade, ela achava a garota quase "fofa", da mesma forma que se olha para um bichinho de estimação. Para Sara, Eduarda era um passatempo de Emanuel, uma fase de "pureza" que ele precisava para equilibrar o estresse. Ela se sentia a rainha do castelo, a mulher que administrava a vida dele, enquanto Eduarda era apenas a menina que ele protegia.

— Então, Duda — começou Jéssica, girando o celular na mesa —, soube que você ainda mora com os seus pais. Com 20 anos? Eu com 18 já estava morando sozinha em Miami.

Eduarda sentiu um nó na garganta. Ela odiava ser o centro das atenções, especialmente com pessoas que falavam de forma tão agressiva.

— Eu gosto de morar com eles — Eduarda respondeu, a voz quase sumindo. — Meus pais são novos, a gente se dá muito bem. Eles são... modernos. Não me prendem.

— Modernos seriam se te jogassem no mundo, querida — Sara interveio, bebendo um gole do espumante que acabara de chegar. — O Emanuel fica possesso com isso. Ele quer te controlar, sabia? Ele tem esse complexo de salvador. Mas ele não consegue te salvar se você está na saia da mamãe.

— Eu não preciso ser salva — Eduarda disse, ganhando um pingo de coragem, embora suas mãos tremessem sob a mesa.

— Ah, precisa sim — Sara riu, uma risada anasalada. — Você é toda molinha, Duda. Se um vento soprar mais forte, você voa. Mas relaxa, enquanto eu estiver na casa, eu cuido das coisas chatas e você fica com a parte dos mimos. Só que facilita a vida do homem, né? Se muda logo. É um saco ele ter que ficar fazendo logística de transporte para te ver.

Eduarda não respondeu. Ela abriu seu livro de História da Arte, tentando se focar em uma gravura do Renascimento italiano, mas as palavras pareciam dançar diante de seus olhos. Ela se sentia deslocada. Aquelas mulheres falavam de procedimentos estéticos, festas caras e fofocas da alta sociedade de forma vulgar e barulhenta.

No campo, Emanuel corria com uma intensidade feroz. Ele usava o futebol para descarregar a tensão acumulada de gerenciar dezenas de funcionários e lidar com contratos milionários. Mas, entre um lance e outro, seus olhos buscavam a mesa.

Ele viu Sara rindo alto, gesticulando com a taça na mão, e viu Eduarda de cabeça baixa sobre o livro. Aquela imagem o irritou. Por que elas não podiam simplesmente ser amigas? Por que Eduarda não podia ser um pouco mais firme e Sara um pouco menos invasiva?

O jogo terminou e Emanuel caminhou em direção à mesa, suado, a camisa grudada no peito largo, as tatuagens nos braços brilhando sob o sol.

— E aí, quem ganhou? — perguntou Sara, levantando-se e passando a mão pelo abdômen dele.

— Empatamos — Emanuel respondeu, pegando a garrafa de água de Eduarda e bebendo metade de um gole só. — Duda, por que você está tão quieta?

— Eu estou lendo, Manu... — ela disse, fechando o livro devagar.

— Ela está sendo a Duda de sempre, Emanuel — Sara provocou, revirando os olhos. — Um tédio total. Estávamos tentando incentivar ela a ter um pouco de atitude e sair da casa dos pais, mas parece que a conversa não entra.

Emanuel sentiu a pressão subir. Ele odiava quando Sara tentava forçar a barra em assuntos que ele considerava de sua jurisdição.

— Sara, chega. Eu resolvo isso com ela — ele disse, o tom de voz ficando mais rígido.

— Resolve? — Sara arqueou uma sobrancelha, a confiança inabalável. — Você pede há meses e ela diz não. Parece que eu sou a única que realmente encara a realidade aqui. Se ela quer estar com você, tem que estar por inteiro. Ou será que ela tem vergonha de nós?

Eduarda sentiu os olhos encherem de lágrimas. A insegurança a atingiu como um soco.

— Não é vergonha... — Eduarda começou, a voz falhando. — É que... tudo é muito rápido. Vocês dois já têm uma dinâmica. Eu me sinto... sobrando às vezes.

Emanuel sentiu uma pontada no peito. O lado protetor dele gritou. Ele se sentou ao lado de Eduarda e passou o braço pesado pelos ombros dela, puxando-a para perto. O cheiro de suor e esforço físico dele a envolveu.

— Você nunca sobra, Eduarda. Eu já te disse isso.

— Mas ela age como se sobrasse! — Sara exclamou, perdendo a paciência com o que considerava "manhice". — Emanuel, para de passar a mão na cabeça dela. Ela tem 20 anos, não 10. Se ela não quer morar com a gente, talvez seja porque não gosta tanto assim da ideia de dividir você.

— E você gosta? — Emanuel disparou, olhando fixamente para Sara.

— Eu sou prática, querido. Eu sei o que eu quero e sei o que você precisa — Sara respondeu, sem desviar o olhar. — Eu não tenho medo de disputa.

O clima na mesa ficou tenso. As amigas de Sara ficaram em silêncio, observando o espetáculo. Emanuel estava no centro de um cabo de guerra emocional. De um lado, a paixão avassaladora e a parceria prática de Sara; do outro, a doçura e a necessidade de proteção de Eduarda, que despertava nele um instinto de cuidado que ele não tinha com mais ninguém.

— Chega de discussão por hoje — Emanuel decretou, levantando-se e puxando Eduarda junto com ele. — Vamos comer alguma coisa no restaurante do clube.

— Eu não vou — Sara disse, cruzando os braços, fazendo os seios saltarem no decote do top. — Vou ficar aqui com as meninas. A gente vai pedir uma porção de lagosta e continuar com o espumante. Pode levar sua "boneca de porcelana" para comer uma salada.

Emanuel cerrou os dentes. Ele odiava perder o controle da situação.

— Ótimo. Duda, vamos.

Ele começou a caminhar, mas Eduarda parou, segurando a mão dele. Ela olhou para Sara, que tinha um sorriso vitorioso e irônico nos lábios.

— Espera, Manu... — Eduarda pediu, a voz trêmula, mas decidida. — Sara, eu não sou uma boneca. Eu só... eu só preciso de tempo. E eu não moro com ele ainda porque eu quero que, quando eu for, seja porque eu me sinto em casa, e não porque eu fui pressionada.

Sara soltou uma risada curta.

— Pois o tempo passa, bonitinha. E o Emanuel não é um homem de esperar.

Emanuel não disse nada, mas apertou a mão de Eduarda com força. Ele a levou para longe da mesa, sentindo uma mistura de orgulho pela pequena defesa que ela fez e uma irritação profunda por ainda estar vivendo naquele impasse.

Enquanto caminhavam pelo deck de madeira, Eduarda se encostou no braço dele.

— Você está bravo comigo? — ela perguntou, manhosa, escondendo o rosto no ombro dele por um segundo.

— Estou cansado, Duda. Só isso — ele respondeu, embora o toque dela o fizesse relaxar um pouco. — Eu queria que tudo fosse mais simples.

— Nada com três pessoas é simples, Manu — ela murmurou de forma intuitiva. — Mas eu amo você.

Ele parou de caminhar e olhou para ela. A luz do fim da tarde deixava o rosto de Eduarda ainda mais suave. Ele a beijou com ternura, um contraste direto com a forma como lidava com Sara.

— Eu também amo você, pequena. Mas pensa no que eu te pedi. Meus pais viajam mês que vem. Seria a oportunidade perfeita para você passar um tempo direto lá em casa. Sem pressão. Só um teste.

Eduarda suspirou, sentindo o peso da decisão. Ela olhou para trás e viu Sara rindo alto com as amigas, sendo o centro das atenções, exalando uma confiança que ela nunca teria.

— Eu vou pensar... eu prometo — ela disse, buscando o abraço dele.

Emanuel a envolveu, olhando por cima da cabeça de Eduarda em direção à Sara. Ele tinha tudo o que um homem poderia querer: sucesso, dinheiro e duas mulheres fascinantes que, à sua maneira, o amavam. Mas, no fundo, ele sabia que o equilíbrio era frágil como o vidro. E, como um tatuador experiente, ele sabia que, se a mão tremesse apenas um milímetro, o desenho inteiro poderia se tornar uma cicatriz permanente.

Naquele momento, entre a brisa leve e o barulho das risadas vulgares de Sara ao fundo, Emanuel apenas fechou os olhos e aproveitou o silêncio momentâneo que a presença de Eduarda lhe proporcionava, antes que o caos da sua vida dupla o chamasse de volta para a realidade.
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