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Sombras
Fandom: Wednesday
Criado: 30/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoSombrioEstudo de PersonagemNoir GóticoCenário CanônicoMistérioDivergênciaSuspenseFantasiaAçãoHorrorViolência GráficaExperimentação HumanaUA (Universo Alternativo)Aventura
A Anatomia do Expurgo
O silêncio que se seguiu à confissão de Tyler não era pacífico; era um vácuo preenchido pelos fantasmas que ele acabara de libertar. Wandinha observava-o, e pela primeira vez, sua mente analítica falhou em encontrar uma solução lógica para a dor que emanava dele. Tyler não estava apenas lembrando; ele estava revivendo. Seus olhos estavam fixos em um ponto invisível no chão, as pupilas dilatadas, e sua respiração começou a falhar, transformando-se em pequenos silvos desesperados.
— Eu sinto o cheiro dela, Wandinha — sussurrou ele, os dedos cravando-se no estofado do sofá até as costuras cederem. — O perfume de lírios podres e aquele hálito de menta. Eu sinto as mãos dela... como se ela ainda estivesse aqui, reivindicando o que ela dizia que era dela. Eu nunca vou estar limpo, não é?
O pânico começou a se manifestar fisicamente. O corpo de Tyler tencionou, as veias do pescoço saltando, e um tremor violento percorreu seus ombros. Ele estava voltando para aquele quarto escuro, para a submissão forçada, para o momento em que sua humanidade fora sacrificada no altar da obsessão de Laurel Gates. A memória daquela "primeira vez" com sua mestre era uma ferida aberta, suja e infectada, que drenava sua vontade de viver.
Wandinha sabia que palavras não seriam suficientes. Ela desprezava o sentimentalismo, mas reconhecia uma emergência espiritual quando a via. Se Tyler permanecesse preso naquela memória, o Hyde acabaria assumindo o controle apenas para destruir a dor, e Jericho queimaria no processo.
Ela se aproximou, não com hesitação, mas com a precisão de um cirurgião decidindo o ponto exato da incisão. Segurou o rosto dele com as duas mãos, forçandoo a olhar para ela.
— Tyler, olhe para mim — ordenou ela, mas a mente dele estava a quilômetros dali, perdida nos abusos do passado.
Sem aviso, Wandinha inclinou-se e selou os lábios dele com os seus.
Não foi um beijo de conforto. Foi uma invasão. Foi o choque térmico necessário para interromper o curto-circuito de sua mente. Tyler estancou, o corpo rígido como pedra, enquanto a frieza dos lábios de Wandinha agia como um sedativo amargo. Lentamente, o tremor dele diminuiu. O cheiro de lírios foi substituído pelo aroma de ozônio e tinta de escrever que sempre acompanhava Wandinha.
Quando ela se afastou alguns milímetros, seus olhos escuros estavam fixos nos dele, profundos como abismos.
— Eu não permitirei que aquela mulher morta continue a habitar este espaço — disse ela, a voz baixa e possessiva. — Se você precisa de uma âncora para este mundo, que seja eu. Se você precisa de uma memória para substituir o que ela fez, nós a criaremos agora. De verdade.
— Wandinha... o que você está fazendo? — Tyler perguntou, a voz rouca, o pânico dando lugar a uma confusão inebriante.
— Estou reivindicando o que é meu por direito de conquista — respondeu ela, seus dedos descendo para a gola da camisa dele. — Você disse que aquela noite foi um borrão. Pois bem. Esta não será. Eu quero que você sinta cada segundo. Quero que a minha marca apague a dela.
Wandinha começou a desabotoar a própria camisa preta com uma calma que beirava o ritualístico. Tyler observava, hipnotizado, enquanto a pele pálida dela era revelada à luz fraca da garagem. Ela era pequena, mas exalava uma autoridade que o fazia querer se ajoelhar.
— Tem certeza? — Tyler sussurrou, a mão tremendo ao tocar a cintura dela. — Eu não quero que seja outro erro. Eu não quero te machucar.
— Erros são acidentais, Tyler. Isso é uma escolha deliberada — disse ela, puxando-o para outro beijo, desta vez mais profundo, permitindo que a língua dele explorasse a sua com uma urgência que agora era movida pelo desejo, não pelo trauma.
Eles se moveram para a cama pequena no canto do quarto. O som da chuva lá fora parecia abafado, como se o resto do mundo tivesse deixado de existir. Wandinha despiu-o com uma eficiência silenciosa, seus olhos escaneando as cicatrizes no peito dele. Ela beijou a marca do tapa que dera nele minutos antes, um pedido de desculpas silencioso que ele aceitou com um suspiro quebrado.
Quando Tyler se posicionou sobre ela, a diferença de tamanho era gritante, mas era Wandinha quem ditava o ritmo. Ela o puxou para perto, suas pernas envolvendo a cintura dele, os dedos cravando-se em suas costas.
— Agora — sussurrou ela. — Sem substâncias. Sem amnésia. Apenas nós.
Tyler entrou nela com uma lentidão quase dolorosa, temendo quebrá-la. Wandinha sentiu uma pontada aguda e repentina, uma sensação de estiramento e pressão que a fez arquear as costas e soltar um gemido curto e contido entre os dentes cerrados.
— Wandinha? — Ele parou imediatamente, a preocupação gravada em cada linha de seu rosto, o corpo tenso sobre o dela. — Eu te machuquei? Eu paro, se você quiser.
— Continue — ordenou ela, as unhas enterrando-se nos ombros dele, os olhos fixos nos dele, desafiadores. — A dor é apenas um sinal de que o corpo está vivo. É o batismo da realidade. Não pare, Tyler.
Tyler continuou, movendo-se com uma reverência que beirava o sagrado. Ele observava o rosto dela, cada expressão de desconforto que se transformava em um prazer sombrio e intenso sob a superfície de sua máscara gélida. Wandinha não fechou os olhos; ela queria ver o monstro se tornando homem, queria ver o brilho de humanidade nos olhos dele substituir o vazio do Hyde.
O ato foi visceral, uma colisão de duas sombras que se recusavam a ser consumidas pela luz. Era pesado, carregado de uma intensidade que fazia o ar no quarto parecer denso e elétrico. Tyler gemia o nome dela como uma prece, enquanto Wandinha o guiava, suas mãos explorando cada músculo dele, gravando a textura de sua pele em sua memória sensorial.
Para Tyler, era a purificação. Cada movimento para dentro dela parecia queimar um pedaço da influência maligna de Laurel. Onde antes havia o sentimento de ser um objeto ou uma arma, agora havia a sensação de ser um parceiro. Ele não estava sendo usado; ele estava sendo acolhido pela única pessoa que conhecia sua escuridão e não a temia.
Quando o ápice chegou, foi um colapso conjunto. Tyler desabou contra o peito dela, a respiração pesada e errática, enquanto Wandinha o abraçava com uma força que surpreenderia qualquer um que conhecesse sua aversão ao afeto físico. Eles ficaram assim por um longo tempo, o silêncio da noite sendo a única testemunha de que, naquele momento, as feridas do passado haviam sido cauterizadas pelo calor do presente.
Lentamente, Tyler se afastou para olhar para ela, mas ao descer o olhar, seu rosto empalideceu e a respiração travou.
— Wandinha... você está sangrando.
Ele apontou para o lençol cinza abaixo deles, onde uma mancha pequena, mas vívida de sangue escarlate começava a se espalhar, contrastando com a palidez da pele dela.
Wandinha olhou para a mancha com uma curiosidade clínica, embora sentisse um desconforto latejante e uma queimação em seu baixo ventre.
— Uma reação fisiológica esperada para uma... — ela fez uma pausa, buscando o termo — ...primeira vez legítima e não induzida por agentes químicos. O corpo humano é irritantemente frágil em seus processos de transição.
— Eu fui muito bruto? — Tyler estava visivelmente abalado, a culpa tentando encontrar um caminho de volta para sua mente, ameaçando trazer as sombras de volta.
— Pelo contrário — disse ela, tentando se sentar, mas sentindo uma pontada que a fez hesitar por um breve segundo. — Você foi surpreendentemente cuidadoso para alguém que costuma rasgar troncos de árvores com as mãos nuas. Não ouse se culpar por isso.
Tyler não disse nada, mas sua expressão era de uma devoção culposa. Ele se levantou e caminhou até o pequeno banheiro anexo. Wandinha ouviu o som da água correndo e o vapor começando a escapar pela fresta da porta. Momentos depois, ele voltou e estendeu a mão para ela.
— Venha. Eu preparei a banheira. Você precisa se limpar e descansar esses músculos.
Wandinha olhou para a mão dele. Normalmente, ela recusaria qualquer oferta de assistência, mas a fadiga e a dor persistente a fizeram aceitar. Tyler a pegou no colo com uma facilidade impressionante, carregando-a para o banheiro pequeno e úmido.
A banheira de ferro estava cheia de água quente. Tyler a colocou lá dentro com uma delicadeza infinita, como se ela fosse feita de vidro soprado. O calor da água fez Wandinha soltar um suspiro de alívio, embora o sangue na água criasse pequenos redemoinhos rosados que ela achou esteticamente interessantes, quase como uma pintura abstrata de um crime.
Tyler ajoelhou-se ao lado da banheira, ignorando o próprio cansaço. Ele pegou uma esponja e começou a lavar as costas dela, seus movimentos sendo lentos, rítmicos e carregados de um carinho que Wandinha não sabia como processar.
— Eu nunca imaginei que acabaria assim — disse ele, a voz baixa e rouca. — Cuidando de Wandinha Addams em uma banheira de garagem após... bem, após isso.
— A vida é cheia de tragédias irônicas — respondeu ela, fechando os olhos enquanto sentia a água quente relaxar sua pele e diminuir a cólica em seu ventre. — Mas admito que esta é preferível a ser estripada por um Hyde em uma floresta escura ou ser usada como sacrifício por um ancestral fanático.
Tyler parou o movimento da esponja por um segundo, olhando para a nuca dela.
— Você me salvou hoje, Wandinha. Não apenas daquelas memórias de Laurel... mas de mim mesmo. Você me deu algo que era só meu.
— Não se acostume com atos de caridade, Tyler. Eu apenas protegi meu investimento e garanti que o espécime estivesse em condições mentais de continuar nossa aliança — disse ela, embora ambos soubessem que aquela era uma mentira conveniente para proteger o que restava de sua frieza.
Ele continuou a lavá-la, limpando o sangue de suas coxas com uma ternura que fazia Wandinha se sentir estranhamente exposta. Não era a nudez física que a incomodava, mas a nudez da alma que ele agora parecia capaz de enxergar através de todas as suas camadas de sarcasmo e preto.
— O que acontece amanhã? — perguntou Tyler, enquanto a ajudava a sair da banheira e a envolvia em uma toalha grande e áspera que cheirava a detergente barato.
Wandinha olhou para ele, o cabelo molhado grudado no rosto, os olhos mais escuros do que nunca, refletindo a luz fraca do banheiro.
— Amanhã, continuaremos a ser os monstros que o mundo teme — disse ela com uma firmeza absoluta. — Mas agora, ambos sabemos que as sombras que compartilhamos são mais fortes do que as que tentaram nos destruir. A marca de Laurel foi apagada, Tyler. Agora, o que resta é apenas o que nós decidirmos ser.
Ela caminhou de volta para o quarto, vestindo uma camisa preta dele que ficava enorme em seu corpo pequeno, cobrindo-a até o meio das coxas. Tyler deitou-se ao lado dela, e Wandinha, contra todos os seus instintos de isolamento e autossuficiência, permitiu que ele a puxasse para perto, sentindo o calor do corpo dele contra as suas costas.
Enquanto o sono começava a tomá-la, Wandinha sentiu o latejar da dor diminuir, substituído por uma calma gélida e satisfatória. O sangue no lençol fora um preço pequeno a pagar pela destruição definitiva do fantasma de Laurel Gates e pela posse completa da lealdade de Tyler.
Ela era Wandinha Addams, e ele era o seu Hyde. E naquela noite, no silêncio de Jericho, eles haviam finalmente encontrado a única forma de redenção que importava para pessoas como eles: a que é escrita com sangue, suor e a coragem de abraçar o próprio abismo, um no outro.
— Eu sinto o cheiro dela, Wandinha — sussurrou ele, os dedos cravando-se no estofado do sofá até as costuras cederem. — O perfume de lírios podres e aquele hálito de menta. Eu sinto as mãos dela... como se ela ainda estivesse aqui, reivindicando o que ela dizia que era dela. Eu nunca vou estar limpo, não é?
O pânico começou a se manifestar fisicamente. O corpo de Tyler tencionou, as veias do pescoço saltando, e um tremor violento percorreu seus ombros. Ele estava voltando para aquele quarto escuro, para a submissão forçada, para o momento em que sua humanidade fora sacrificada no altar da obsessão de Laurel Gates. A memória daquela "primeira vez" com sua mestre era uma ferida aberta, suja e infectada, que drenava sua vontade de viver.
Wandinha sabia que palavras não seriam suficientes. Ela desprezava o sentimentalismo, mas reconhecia uma emergência espiritual quando a via. Se Tyler permanecesse preso naquela memória, o Hyde acabaria assumindo o controle apenas para destruir a dor, e Jericho queimaria no processo.
Ela se aproximou, não com hesitação, mas com a precisão de um cirurgião decidindo o ponto exato da incisão. Segurou o rosto dele com as duas mãos, forçandoo a olhar para ela.
— Tyler, olhe para mim — ordenou ela, mas a mente dele estava a quilômetros dali, perdida nos abusos do passado.
Sem aviso, Wandinha inclinou-se e selou os lábios dele com os seus.
Não foi um beijo de conforto. Foi uma invasão. Foi o choque térmico necessário para interromper o curto-circuito de sua mente. Tyler estancou, o corpo rígido como pedra, enquanto a frieza dos lábios de Wandinha agia como um sedativo amargo. Lentamente, o tremor dele diminuiu. O cheiro de lírios foi substituído pelo aroma de ozônio e tinta de escrever que sempre acompanhava Wandinha.
Quando ela se afastou alguns milímetros, seus olhos escuros estavam fixos nos dele, profundos como abismos.
— Eu não permitirei que aquela mulher morta continue a habitar este espaço — disse ela, a voz baixa e possessiva. — Se você precisa de uma âncora para este mundo, que seja eu. Se você precisa de uma memória para substituir o que ela fez, nós a criaremos agora. De verdade.
— Wandinha... o que você está fazendo? — Tyler perguntou, a voz rouca, o pânico dando lugar a uma confusão inebriante.
— Estou reivindicando o que é meu por direito de conquista — respondeu ela, seus dedos descendo para a gola da camisa dele. — Você disse que aquela noite foi um borrão. Pois bem. Esta não será. Eu quero que você sinta cada segundo. Quero que a minha marca apague a dela.
Wandinha começou a desabotoar a própria camisa preta com uma calma que beirava o ritualístico. Tyler observava, hipnotizado, enquanto a pele pálida dela era revelada à luz fraca da garagem. Ela era pequena, mas exalava uma autoridade que o fazia querer se ajoelhar.
— Tem certeza? — Tyler sussurrou, a mão tremendo ao tocar a cintura dela. — Eu não quero que seja outro erro. Eu não quero te machucar.
— Erros são acidentais, Tyler. Isso é uma escolha deliberada — disse ela, puxando-o para outro beijo, desta vez mais profundo, permitindo que a língua dele explorasse a sua com uma urgência que agora era movida pelo desejo, não pelo trauma.
Eles se moveram para a cama pequena no canto do quarto. O som da chuva lá fora parecia abafado, como se o resto do mundo tivesse deixado de existir. Wandinha despiu-o com uma eficiência silenciosa, seus olhos escaneando as cicatrizes no peito dele. Ela beijou a marca do tapa que dera nele minutos antes, um pedido de desculpas silencioso que ele aceitou com um suspiro quebrado.
Quando Tyler se posicionou sobre ela, a diferença de tamanho era gritante, mas era Wandinha quem ditava o ritmo. Ela o puxou para perto, suas pernas envolvendo a cintura dele, os dedos cravando-se em suas costas.
— Agora — sussurrou ela. — Sem substâncias. Sem amnésia. Apenas nós.
Tyler entrou nela com uma lentidão quase dolorosa, temendo quebrá-la. Wandinha sentiu uma pontada aguda e repentina, uma sensação de estiramento e pressão que a fez arquear as costas e soltar um gemido curto e contido entre os dentes cerrados.
— Wandinha? — Ele parou imediatamente, a preocupação gravada em cada linha de seu rosto, o corpo tenso sobre o dela. — Eu te machuquei? Eu paro, se você quiser.
— Continue — ordenou ela, as unhas enterrando-se nos ombros dele, os olhos fixos nos dele, desafiadores. — A dor é apenas um sinal de que o corpo está vivo. É o batismo da realidade. Não pare, Tyler.
Tyler continuou, movendo-se com uma reverência que beirava o sagrado. Ele observava o rosto dela, cada expressão de desconforto que se transformava em um prazer sombrio e intenso sob a superfície de sua máscara gélida. Wandinha não fechou os olhos; ela queria ver o monstro se tornando homem, queria ver o brilho de humanidade nos olhos dele substituir o vazio do Hyde.
O ato foi visceral, uma colisão de duas sombras que se recusavam a ser consumidas pela luz. Era pesado, carregado de uma intensidade que fazia o ar no quarto parecer denso e elétrico. Tyler gemia o nome dela como uma prece, enquanto Wandinha o guiava, suas mãos explorando cada músculo dele, gravando a textura de sua pele em sua memória sensorial.
Para Tyler, era a purificação. Cada movimento para dentro dela parecia queimar um pedaço da influência maligna de Laurel. Onde antes havia o sentimento de ser um objeto ou uma arma, agora havia a sensação de ser um parceiro. Ele não estava sendo usado; ele estava sendo acolhido pela única pessoa que conhecia sua escuridão e não a temia.
Quando o ápice chegou, foi um colapso conjunto. Tyler desabou contra o peito dela, a respiração pesada e errática, enquanto Wandinha o abraçava com uma força que surpreenderia qualquer um que conhecesse sua aversão ao afeto físico. Eles ficaram assim por um longo tempo, o silêncio da noite sendo a única testemunha de que, naquele momento, as feridas do passado haviam sido cauterizadas pelo calor do presente.
Lentamente, Tyler se afastou para olhar para ela, mas ao descer o olhar, seu rosto empalideceu e a respiração travou.
— Wandinha... você está sangrando.
Ele apontou para o lençol cinza abaixo deles, onde uma mancha pequena, mas vívida de sangue escarlate começava a se espalhar, contrastando com a palidez da pele dela.
Wandinha olhou para a mancha com uma curiosidade clínica, embora sentisse um desconforto latejante e uma queimação em seu baixo ventre.
— Uma reação fisiológica esperada para uma... — ela fez uma pausa, buscando o termo — ...primeira vez legítima e não induzida por agentes químicos. O corpo humano é irritantemente frágil em seus processos de transição.
— Eu fui muito bruto? — Tyler estava visivelmente abalado, a culpa tentando encontrar um caminho de volta para sua mente, ameaçando trazer as sombras de volta.
— Pelo contrário — disse ela, tentando se sentar, mas sentindo uma pontada que a fez hesitar por um breve segundo. — Você foi surpreendentemente cuidadoso para alguém que costuma rasgar troncos de árvores com as mãos nuas. Não ouse se culpar por isso.
Tyler não disse nada, mas sua expressão era de uma devoção culposa. Ele se levantou e caminhou até o pequeno banheiro anexo. Wandinha ouviu o som da água correndo e o vapor começando a escapar pela fresta da porta. Momentos depois, ele voltou e estendeu a mão para ela.
— Venha. Eu preparei a banheira. Você precisa se limpar e descansar esses músculos.
Wandinha olhou para a mão dele. Normalmente, ela recusaria qualquer oferta de assistência, mas a fadiga e a dor persistente a fizeram aceitar. Tyler a pegou no colo com uma facilidade impressionante, carregando-a para o banheiro pequeno e úmido.
A banheira de ferro estava cheia de água quente. Tyler a colocou lá dentro com uma delicadeza infinita, como se ela fosse feita de vidro soprado. O calor da água fez Wandinha soltar um suspiro de alívio, embora o sangue na água criasse pequenos redemoinhos rosados que ela achou esteticamente interessantes, quase como uma pintura abstrata de um crime.
Tyler ajoelhou-se ao lado da banheira, ignorando o próprio cansaço. Ele pegou uma esponja e começou a lavar as costas dela, seus movimentos sendo lentos, rítmicos e carregados de um carinho que Wandinha não sabia como processar.
— Eu nunca imaginei que acabaria assim — disse ele, a voz baixa e rouca. — Cuidando de Wandinha Addams em uma banheira de garagem após... bem, após isso.
— A vida é cheia de tragédias irônicas — respondeu ela, fechando os olhos enquanto sentia a água quente relaxar sua pele e diminuir a cólica em seu ventre. — Mas admito que esta é preferível a ser estripada por um Hyde em uma floresta escura ou ser usada como sacrifício por um ancestral fanático.
Tyler parou o movimento da esponja por um segundo, olhando para a nuca dela.
— Você me salvou hoje, Wandinha. Não apenas daquelas memórias de Laurel... mas de mim mesmo. Você me deu algo que era só meu.
— Não se acostume com atos de caridade, Tyler. Eu apenas protegi meu investimento e garanti que o espécime estivesse em condições mentais de continuar nossa aliança — disse ela, embora ambos soubessem que aquela era uma mentira conveniente para proteger o que restava de sua frieza.
Ele continuou a lavá-la, limpando o sangue de suas coxas com uma ternura que fazia Wandinha se sentir estranhamente exposta. Não era a nudez física que a incomodava, mas a nudez da alma que ele agora parecia capaz de enxergar através de todas as suas camadas de sarcasmo e preto.
— O que acontece amanhã? — perguntou Tyler, enquanto a ajudava a sair da banheira e a envolvia em uma toalha grande e áspera que cheirava a detergente barato.
Wandinha olhou para ele, o cabelo molhado grudado no rosto, os olhos mais escuros do que nunca, refletindo a luz fraca do banheiro.
— Amanhã, continuaremos a ser os monstros que o mundo teme — disse ela com uma firmeza absoluta. — Mas agora, ambos sabemos que as sombras que compartilhamos são mais fortes do que as que tentaram nos destruir. A marca de Laurel foi apagada, Tyler. Agora, o que resta é apenas o que nós decidirmos ser.
Ela caminhou de volta para o quarto, vestindo uma camisa preta dele que ficava enorme em seu corpo pequeno, cobrindo-a até o meio das coxas. Tyler deitou-se ao lado dela, e Wandinha, contra todos os seus instintos de isolamento e autossuficiência, permitiu que ele a puxasse para perto, sentindo o calor do corpo dele contra as suas costas.
Enquanto o sono começava a tomá-la, Wandinha sentiu o latejar da dor diminuir, substituído por uma calma gélida e satisfatória. O sangue no lençol fora um preço pequeno a pagar pela destruição definitiva do fantasma de Laurel Gates e pela posse completa da lealdade de Tyler.
Ela era Wandinha Addams, e ele era o seu Hyde. E naquela noite, no silêncio de Jericho, eles haviam finalmente encontrado a única forma de redenção que importava para pessoas como eles: a que é escrita com sangue, suor e a coragem de abraçar o próprio abismo, um no outro.
