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Dedos de guitarra, cara

Fandom: Boys of Tommen

Criado: 30/06/2026

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Acordes de Terra e Cereja

O silêncio na fazenda dos Feely nunca era realmente silencioso. Havia o farfalhar constante das árvores, o som distante de algum animal se movendo no curral e o vento que soprava do Atlântico, trazendo consigo o cheiro de grama úmida e liberdade. Mas, dentro do quarto de Patrick, o mundo parecia ter se reduzido a um espaço de poucos metros quadrados, aquecido pela luz suave de um abajur e pela presença vibrante de Rayssa.

Patrick estava sentado no chão, com as costas apoiadas na lateral da cama. Suas pernas longas estavam abertas, criando um refúgio seguro para Ray, que se aninhava entre elas. Ela estava de costas para o peito dele, a cabeça levemente inclinada para trás, o cabelo vermelho-cereja espalhado como uma mancha de cor viva contra a camiseta escura de Patrick. Ela usava um short curto e uma de suas camisas de flanela favoritas amarrada na altura da cintura, revelando a curva suave de sua pele morena clara, que Patrick não conseguia parar de observar.

Nas mãos de Patrick, a guitarra parecia quase pequena demais. Seus dedos, calosos pelo trabalho pesado na fazenda e pela rotina bruta do rugby, moviam-se com uma delicadeza que poucos conheciam. Ele estava dedilhando uma melodia lenta, algo que vinha compondo nos últimos dias, inspirado pelo jeito que a luz batia nos óculos de Ray ou pela forma como ela mordia o lábio inferior quando estava concentrada em um desenho.

— Você está sendo muito silencioso hoje, Paddy — comentou Rayssa, a voz suave quebrando o transe musical.

Ela moveu as mãos, que estavam ocupadas com um pequeno caderno de esboços, os dedos manchados de grafite traçando linhas rápidas.

— Estou apenas ouvindo — respondeu ele, a voz rouca vibrando contra as costas dela. — Gosto do som do seu lápis no papel.

Ray soltou uma risadinha baixa, um som que Patrick guardava em uma caixa mental de tesouros. Ela se virou um pouco, olhando-o por cima do ombro. Os olhos castanhos, profundos e curiosos, brilharam atrás das lentes metálicas.

— O som de um lápis não compete com essa música. O que você está tocando? Nunca ouvi essa antes.

Patrick parou o movimento das mãos, as cordas vibrando até morrerem em um sussurro. Ele olhou para baixo, encontrando o olhar dela. Seus olhos claros, geralmente tão analíticos e reservados, suavizaram-se instantaneamente.

— É nova. Não tem nome ainda. Só... me lembrou de você.

Rayssa sentiu o calor subir pelo pescoço. Mesmo depois de todo o tempo que passavam juntos, a honestidade direta de Patrick ainda desarmava suas defesas. Ele não era um garoto de muitas palavras, não como os outros meninos de Tommen que usavam o charme como arma. Patrick era sólido, real e, quando falava, cada palavra carregava o peso de uma verdade absoluta.

— De mim? — ela perguntou, fechando o caderno e deixando-o de lado no tapete. — É uma música caótica e cheia de cores, então?

Patrick sorriu, aquele sorriso raro que iluminava todo o seu rosto e fazia o estômago de Ray dar voltas. Ele deixou a guitarra de lado, encostando-a com cuidado na parede, e envolveu a cintura dela com os braços, puxando-a para mais perto, se é que isso era possível.

— Não é caótica. É... persistente. Como o jeito que você não desiste de uma costura até que fique perfeita. E é quente.

Ele enterrou o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o cheiro de tinta e do perfume de baunilha que ela sempre usava. Ray soltou um suspiro longo, relaxando contra o corpo forte dele. Ela sentia os ombros largos de Patrick como um escudo contra o resto do mundo, um lugar onde ela não precisava ser a "garota artística e excêntrica", mas apenas a Ray.

— Eu trouxe algo para você — disse ela, lembrando-se de repente. — Terminei hoje à tarde.

Ela se inclinou para a frente, pegando uma sacola de papel que estava perto de sua mochila. De dentro, tirou um cachecol de tricô, uma mistura de fios verdes profundos e cinzas, exatamente da cor dos olhos de Patrick em dias de chuva.

— Eu sei que você diz que não sente frio na fazenda, mas o inverno de Cork não brinca em serviço — explicou ela, entregando a peça para ele.

Patrick pegou o cachecol, sentindo a textura macia entre os dedos. Ele sabia o quanto de esforço ia em cada peça que ela fazia. Cada ponto era uma prova de afeto.

— É incrível, Ray. Obrigado.

— Experimenta — incentivou ela, os olhos brilhando de expectativa.

Patrick passou o cachecol pelo pescoço, e Ray se virou completamente para ele, ajoelhando-se entre suas pernas para ajustar o nó. Seus dedos, ágeis e delicados, roçaram a pele do pescoço dele, enviando descargas elétricas por sua coluna. Ele segurou os pulsos dela, parando o movimento, e o ar no quarto pareceu mudar de densidade.

— Ray — sussurrou ele, o tom de voz mudando de calmo para algo mais profundo, mais urgente.

— Sim? — Ela respondeu quase sem fôlego, observando a intensidade no olhar dele.

— Você sabe que eu não sou bom com discursos — começou ele, as mãos descendo dos pulsos dela para sua cintura, sentindo a pele nua ali onde a camisa de flanela estava amarrada. — Mas eu quero que você saiba que, de todas as coisas que já conquistei, de todos os jogos que ganhei ou de cada centímetro desta terra que eu cuido... nada se compara a ter você aqui.

Ray sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela estendeu a mão, acariciando o maxilar definido dele, o polegar traçando o lábio inferior que raramente sorria para os outros, mas que para ela estava sempre pronto para um beijo.

— Você é meu lugar seguro, Paddy. Onde quer que você esteja, é para onde eu quero voltar.

Ele a puxou para cima, fazendo-a sentar em seu colo. Rayssa envolveu o pescoço dele com os braços, sentindo o calor do cachecol novo entre eles. O beijo começou lento, um encontro de lábios que carregava a promessa de tudo o que haviam construído até ali. Tinha gosto de conforto e de uma paixão que crescia silenciosamente, como as raízes das árvores lá fora.

Patrick a segurou com firmeza, suas mãos grandes cobrindo as costas dela, sentindo a fragilidade aparente que escondia uma força que ele tanto admirava. Ele a afastou apenas um centímetro, testas encostadas, respirações misturadas.

— Eu estava pensando em hoje à noite — disse ele, a voz baixa. — Meus pais foram para a cidade, não voltam até amanhã.

Rayssa sentiu o coração disparar. Eles estavam juntos há algum tempo, construindo uma base de confiança que era rara na idade deles. Ela sabia o que ele estava perguntando, e sabia, no fundo de sua alma, que não havia mais ninguém no mundo com quem ela quisesse compartilhar aquele momento.

— Eu também estava pensando nisso — confessou ela, um sorriso tímido brincando em seus lábios. — Eu queria que fosse aqui. No seu lugar. Onde eu aprendi a conhecer o verdadeiro Patrick Feely.

Patrick soltou um suspiro de alívio, a tensão que ele nem sabia que estava carregando deixando seus ombros. Ele a beijou novamente, desta vez com mais entrega, guiando-a para cima da cama com uma reverência que mostrava o quanto ele a valorizava.

— Eu vou cuidar de você, Ray. Sempre.

— Eu sei que vai — respondeu ela, retirando os óculos e colocando-os na mesa de cabeceira, revelando os olhos castanhos cheios de uma vulnerabilidade corajosa. — Porque você é o meu Paddy.

Naquela noite, entre as paredes de madeira da fazenda e o som do vento que uivava do lado de fora, eles deixaram de ser apenas dois adolescentes de Ballylaggin. Eles se tornaram um só, em uma dança de descobertas e promessas silenciosas, onde a música de Patrick e as cores de Rayssa finalmente se fundiram em uma única melodia.

Horas depois, quando a lua já estava alta no céu, eles permaneciam abraçados sob os cobertores pesados. Ray tinha a cabeça apoiada no peito de Patrick, ouvindo a batida constante e forte de seu coração.

— Paddy? — chamou ela baixinho.

— Hum? — Ele respondeu, passando os dedos pelos fios vermelhos dela, desfazendo os nós que o tempo e a paixão haviam criado.

— Aquela música... agora eu sei como ela termina.

Patrick sorriu na escuridão, beijando o topo da cabeça dela.

— Como?

— Ela termina em silêncio — disse ela, fechando os olhos. — Mas é o tipo de silêncio que diz tudo o que precisa ser dito.

Ele a apertou mais contra si, sabendo que ela tinha razão. No mundo dos Boys of Tommen, onde tudo era barulhento, caótico e muitas vezes cruel, eles haviam encontrado seu próprio ritmo. E, enquanto estivessem juntos, a música nunca pararia de tocar.

— Eu te amo, Ray — sussurrou ele, as palavras saindo naturais, como se tivessem estado ali desde o primeiro dia em que a viu com seu caderno de desenhos e seu cabelo de cereja.

— Eu te amo, Patrick.

O sono os envolveu pouco depois, dois jovens cujas vidas estavam agora entrelaçadas de forma irremediável, prontos para enfrentar qualquer tempestade que o inverno de Cork decidisse enviar em sua direção. Naquela fazenda, o silêncio era, finalmente, perfeito.
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