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Pacto de sangue

Fandom: Boku no hero academia

Criado: 30/06/2026

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O Gosto Amargo da Sobrevivência

A lua estava alta, uma foice prateada cortando o céu de chumbo acima dos becos úmidos do Distrito de Musutafu. O cheiro de ozônio e ferro pairava no ar, um lembrete constante de que a noite pertencia aos predadores. Mas, naquela noite, o predador mais perigoso não estava caçando humanos comuns.

Dabi estava encostado contra uma parede de tijolos descascados, as sombras parecendo se curvar à sua vontade. Suas cicatrizes, presas por grampos metálicos que brilhavam sob a luz pálida, pareciam mais profundas no escuro. Ele observava, com olhos de um azul gélido e letal, a figura que pousava silenciosamente a poucos metros dele.

— Você está atrasado, passarinho — disse Dabi, sua voz um sussurro rouco que carregava um sarcasmo inerente.

Hawks sacudiu as grandes asas vermelhas, desprendendo algumas gotas de chuva. O sorriso em seu rosto era radiante, mas não alcançava seus olhos dourados, que escaneavam o ambiente com a precisão de um falcão. Ele guardou as lâminas de penas que segurava e relaxou a postura, embora Dabi soubesse que ele poderia atacar em um milésimo de segundo.

— O trânsito estava terrível, sabe como é — brincou Hawks, caminhando em direção ao vampiro com uma casualidade enganosa. — Alguns dos seus "primos" decidiram fazer um lanche tarde da noite em um beco próximo. Tive que dar um jeito neles.

Dabi soltou uma risada seca, sem humor.

— Eles não são meus parentes. São apenas animais famintos. Diferente de mim, eles não têm discernimento.

— E é por isso que estamos aqui, não é? — Hawks parou a uma distância segura, mas ainda assim íntima demais para dois inimigos naturais. — Porque você é um "sommelier" muito exigente.

O silêncio caiu entre eles, pesado e carregado de uma tensão que ia além da rivalidade histórica entre suas espécies. Por séculos, os caçadores da Comissão de Segurança Pública e os vampiros da linhagem de Dabi se massacraram. Mas a fome de Dabi era diferente. O sangue comum o deixava fraco, e o sangue sintético era como cinzas em sua boca. Somente quando ele sentiu o aroma de Hawks, meses atrás durante uma escaramuça, é que ele entendeu: o sangue do caçador alado era a única coisa que poderia mantê-lo vivo.

— O acordo ainda está de pé? — perguntou Dabi, desencostando-se da parede. Ele deu um passo à frente, e Hawks não recuou.

— Ajuda para derrubar o clã de Shigaraki em troca de... bem, de mim — Hawks deu de ombros, soltando um suspiro dramático. — É um preço alto, sabia? Eu sou um herói muito valioso.

— Você fala demais — rosnou Dabi. — Vamos logo com isso antes que eu perca a paciência e decida que suas asas ficam melhores arrancadas do que presas às suas costas.

Hawks riu, um som claro que parecia deslocado naquela atmosfera sombria.

— Quanta agressividade! É assim que você trata seu doador de sangue favorito?

Sem mais palavras, Hawks desabotoou os primeiros botões de sua jaqueta de aviador e inclinou o pescoço para o lado, expondo a pele clara e o pulsar rítmico da carótida. Era um gesto de vulnerabilidade extrema, algo que nenhum caçador em sã consciência faria diante do vampiro mais procurado do país.

Dabi se aproximou, seus movimentos fluidos e predatórios. Ele sentiu o calor emanando do corpo de Hawks. O cheiro do caçador era inebriante — uma mistura de vento, liberdade e algo metálico que despertava o monstro dentro dele. Suas presas se projetaram, uma dor aguda e familiar em suas gengivas.

— Não se mova — ordenou Dabi, segurando o ombro de Hawks com uma mão fria e firme.

— Não pretendo ir a lugar nenhum — sussurrou Hawks, sua voz perdendo um pouco da leveza habitual.

Dabi cravou os dentes.

O choque inicial fez Hawks tencionar os músculos, um gemido baixo escapando de seus lábios. Não era apenas a dor; era a invasão, a sensação de ter sua essência drenada por alguém que deveria ser seu maior inimigo. No entanto, conforme o sangue fluía, uma onda de calor estranha percorreu o corpo do caçador. O poder de Dabi era sombrio, mas havia uma conexão ali, um elo forjado em sangue que nenhum dos dois conseguia explicar.

Para Dabi, o mundo explodiu em cores. O sangue de Hawks era como fogo líquido, limpando a névoa de exaustão de sua mente e fortalecendo seus membros. Era puro, vibrante e cheio de uma vida que ele nunca teria. Ele bebeu com avidez, mas com um controle milimétrico, parando exatamente no ponto em que Hawks começaria a fraquejar.

Quando Dabi se afastou, seus lábios estavam manchados de vermelho, e seus olhos brilhavam com uma intensidade renovada. Ele limpou o canto da boca com as costas da mão, observando Hawks cambalear levemente.

— Você está bem, passarinho? — perguntou Dabi, o tom sarcástico retornando, embora houvesse uma nota imperceptível de algo mais profundo em sua voz.

— Sim... — Hawks respirou fundo, recuperando o equilíbrio. Ele pressionou um lenço contra o pescoço, o sorriso voltando lentamente ao rosto pálido. — Saboroso como sempre?

— Aceitável — mentiu Dabi.

— Mentirológico — Hawks riu, embora estivesse um pouco ofegante. — Agora, a sua parte do trato. Onde eles estão?

Dabi voltou para as sombras, o poder correndo por suas veias.

— Shigaraki está movendo o carregamento de "Nomus" pelo porto leste às duas da manhã. Eles acham que estão seguros porque subornaram a polícia local.

Hawks estreitou os olhos, a diversão desaparecendo instantaneamente, substituída pela mente estratégica que o tornara o caçador número dois da sua geração.

— O porto leste é um labirinto de containers. Se eles tiverem apoio pesado, vou precisar que você faça mais do que apenas observar das sombras.

— Eu disse que ajudaria, não disse? — Dabi acendeu uma pequena chama azul na palma da mão. O fogo não queimava sua pele, mas a luz lançava sombras grotescas nas paredes. — Eu quero Shigaraki tanto quanto você. Ele é um incômodo para os meus negócios.

— Seus "negócios" — Hawks repetiu, guardando o lenço ensanguentado no bolso. — Um dia você vai ter que me contar o que um vampiro independente como você realmente quer, Dabi.

— Não espere sentado — respondeu o vampiro, virando as costas. — E Hawks?

O caçador, que já estava prestes a abrir as asas para partir, parou.

— Sim?

— Não morra hoje à noite. Seria um desperdício de boa comida.

Hawks deu uma piscadela, um brilho de desafio em seus olhos dourados.

— Não se preocupe. Eu sou muito difícil de digerir.

Com um bater de asas poderoso, o caçador se lançou ao céu, desaparecendo entre as nuvens escuras. Dabi ficou para trás, observando a silhueta vermelha sumir no horizonte. Ele tocou o próprio pescoço, onde as cicatrizes eram mais sensíveis.

O pacto era perigoso. Ele sabia que a Comissão de Caçadores acabaria descobrindo a traição de Hawks, e que seus próprios "aliados" no submundo o veriam como um traidor por se alimentar de um humano que caçava os seus. Mas, enquanto o gosto do sangue de Hawks permanecesse em sua língua, Dabi sabia que não conseguiria parar.

Ele não era mais apenas um predador. Ele estava acorrentado ao seu alvo por algo muito mais forte do que a fome.

Dabi caminhou em direção ao porto, as chamas azuis dançando em seus dedos. A noite estava apenas começando, e o sangue ainda seria derramado em abundância antes do amanhecer. Mas, pela primeira vez em décadas, ele não se sentia sozinho na escuridão.

O silêncio do beco foi quebrado apenas pelo som distante das ondas batendo no cais. Dabi desapareceu nas sombras, um fantasma vingativo pronto para quebrar o mundo, um gole de sangue de cada vez.

Enquanto isso, nos céus, Hawks sentia o lugar onde Dabi o morderá latejar. Não era uma dor ruim; era um lembrete. Ele sabia que estava brincando com o fogo — literalmente. Dabi era frio, calculista e capaz de transformá-lo em cinzas num piscar de olhos. Mas havia algo naqueles olhos azuis, uma solidão que espelhava a sua própria, escondida sob camadas de sorrisos e piadas.

— No que eu me meti? — murmurou Hawks para o vento, enquanto as luzes do porto surgiam à frente.

Ele sabia a resposta. Ele havia se metido com o monstro mais fascinante que já conhecera. E, por algum motivo distorcido, ele mal podia esperar pela próxima vez que teria que pagar o preço do acordo.

A guerra entre vampiros e caçadores durava séculos, mas ali, entre as chamas azuis e as penas vermelhas, uma nova e perigosa história estava sendo escrita. Uma história onde as linhas entre o caçador e a presa não existiam mais, restando apenas dois seres quebrados tentando sobreviver em um mundo que os queria mortos.

Dabi chegou ao topo de um guindaste, observando a movimentação lá embaixo. Ele viu Hawks mergulhar como um cometa carmesim sobre os guardas de Shigaraki. O vampiro sorriu, um gesto raro que mostrava suas presas.

— Que comece o espetáculo, passarinho.
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