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A Dama de Tarth
Fandom: Game of Thrones
Criado: 30/06/2026
Tags
RomanceFantasiaDramaUA (Universo Alternativo)Estudo de PersonagemAçãoRecontarDivergênciaCenário CanônicoDor/ConfortoConserto
A Pérola e a Safira
O sol de Tarth costumava ser gentil, mas para Brienne, ele apenas iluminava suas falhas. Aos dezesseis anos, ela já ultrapassava a maioria dos homens em altura, seus ombros eram largos demais para os vestidos de seda e suas mãos, grandes e calejadas, pareciam instrumentos de destruição em vez de delicadeza. O episódio com Sor Humfrey Wagstaff ainda ecoava nas fofocas do castelo. O cavaleiro, três vezes mais velho e com o dobro de arrogância, exigira que ela abandonasse a espada para aprender a ser uma "dama". O resultado foram três ossos quebrados e um orgulho que jamais cicatrizaria.
— Ele mereceu — Brienne murmurou para si mesma, golpeando o boneco de treino com sua espada de madeira. O impacto seco ressoou pelo pátio de armas. — Se querem que eu obedeça, que me vençam primeiro.
Lorde Selwyn Tarth observava a filha do alto da mureta, um suspiro pesado escapando de seu peito. Ele a amava, mas temia pelo seu futuro em um mundo que não tinha lugar para mulheres que preferiam o aço ao bordado. Sua melancolia, entretanto, foi interrompida por um grito vindo das torres de vigia.
— Velas no horizonte! — gritou o vigia. — Cascos escuros, velas verde-água! O Cavalo Marinho está entrando na baía!
Selwyn endireitou a postura, o coração acelerando. Ele conhecia aquelas cores. A Casa Velaryon de Derivamarca não costumava visitar as águas das Safiras sem motivo. E se os rumores fossem verdadeiros, o navio capitânia trazia o próprio "Fantasma do Mar".
Dois navios de guerra, imponentes e impecavelmente mantidos, deslizaram pelas águas cristalinas de Tarth como predadores silenciosos. Quando as âncoras foram lançadas e as pranchas baixadas, uma pequena comitiva desembarcou. À frente deles caminhava um jovem que parecia ter saído de uma lenda valiriana antiga.
Lucian Velaryon, aos dezoito anos, já carregava o peso de um título que conquistara no sangue e na estratégia. Com 1,84 de altura, ele era uma visão quase etérea. Sua pele era pálida como marfim, sem o bronzeado típico dos marinheiros, embora passasse meses sob o sol. Seus cabelos, longos até os quadris e lisos como seda perolada, balançavam suavemente com a brisa marinha, adornados com pequenas tranças e contas de coral e prata.
O que mais chamava a atenção, entretanto, eram seus olhos. Um tom estranho de rosa, como sangue diluído sobre gelo, que observavam tudo com uma precisão cirúrgica.
Lorde Selwyn desceu para recebê-los no cais, com Brienne logo atrás, ainda vestindo suas roupas de treino de couro batido, tentando se esconder nas sombras do pai.
— Lorde Velaryon — cumprimentou Selwyn, curvando-se levemente. — Tarth se sente honrada com sua presença. O que traz o Senhor das Marés e o terror dos piratas ao nosso porto?
Lucian sorriu, um gesto educado que não chegava a desarmar o brilho calculista em seus olhos rosados. Suas mãos, longas e finas como as de um escriba, repousavam sobre o cinto de couro onde uma espada de aço valiriano pendia com elegância.
— Apenas a necessidade, Lorde Tarth — respondeu Lucian, sua voz era suave, mas carregava a autoridade de quem comanda frotas. — Meus homens estão no mar há seis meses. Limpamos os Degraus de uma infestação de ratos que se autodenominavam comerciantes de escravos. Precisamos de água fresca, provisões e, se me permite a ousadia, um banho que não seja salgado.
— Naturalmente — disse Selwyn. — Meu castelo é seu. Teremos um banquete esta noite.
Enquanto os dois lordes caminhavam em direção à fortaleza, Lucian parou por um momento. Seus olhos vagaram pelo pátio de armas e pararam na figura alta e desajeitada que tentava passar despercebida. Brienne sentiu o olhar dele como uma pontada de calor.
— Seu escudeiro é notavelmente alto, Lorde Selwyn — comentou Lucian, inclinando a cabeça de lado, as tranças em seu cabelo tilintando suavemente. — E parece ter uma postura excelente para o combate.
Brienne sentiu o rosto queimar, as sardas parecendo se incendiar em suas bochechas.
— Não é um escudeiro, Milorde — Selwyn disse, com um tom de desculpas na voz. — É minha filha, Brienne.
Lucian parou de caminhar. Ele se virou completamente para encará-la. Diferente dos outros homens, que geralmente desviavam o olhar com desgosto ou soltavam uma risadinha abafada, Lucian a estudou. Ele viu a largura dos ombros, a força nos braços, a intensidade azul safira dos olhos dela que brilhavam com uma mistura de desafio e vergonha. Ele notou a espada de treino de madeira ainda presa à mão dela.
— Sua filha? — Lucian repetiu, sua voz ganhando um tom de curiosidade genuína.
Ele caminhou em direção a ela. Brienne ficou imóvel, sentindo-se como uma estátua de pedra diante de uma criatura de porcelana. Lucian era lindo demais, quase ofensivamente belo, com seus cílios brancos e sua aura de serenidade perigosa.
— Você treina com a espada, Lady Brienne? — perguntou ele, parando a uma distância respeitosa.
— Eu... sim, Milorde — respondeu ela, a voz saindo mais grossa do que gostaria. — Mas os mestres de armas dizem que é uma perda de tempo para uma dama.
Lucian soltou um riso curto, sarcástico e cortante.
— Os mestres de armas geralmente são homens de pouca imaginação que temem ser superados. — Ele estendeu uma de suas mãos macias e elegantes, tocando a ponta da espada de madeira dela. — Vi homens que se dizem cavaleiros segurarem uma arma com menos firmeza do que você.
Brienne piscou, confusa. Não havia escárnio no tom dele. Apenas uma observação técnica, cruelmente precisa.
— Gostaria de ver o quanto é capaz — continuou Lucian, os olhos rosados brilhando. — Mas primeiro, o banho prometido. O cheiro de sangue e sal me persegue há tempo demais.
***
Mais tarde, após o sol começar a mergulhar no Mar Estreito, o salão de Tarth estava devidamente preparado. Lucian apareceu vestindo túnicas de seda verde-água e prata, que realçavam sua palidez quase sobrenatural. Ele se sentou à mesa com uma elegância que fazia Selwyn parecer rústico.
Durante a refeição, Lucian revelou-se um estrategista nato. Falou sobre as correntes marítimas, sobre como o fogo grego era uma ferramenta perigosa e como ele preferia usar o clima a seu favor em vez de apenas força bruta.
— Dizem que o senhor não se queima, Lorde Lucian — comentou uma das primas de Tarth, tentando flertar com o jovem lorde.
Lucian girou a taça de vinho entre os dedos longos.
— O fogo me ama mais do que deveria — respondeu ele, de forma enigmática. — Minha linhagem Targaryen por parte de Rhaenys deixou traços... intensos. Mas o fogo é uma ferramenta, não um mestre.
Seu olhar, entretanto, voltava constantemente para a ponta da mesa, onde Brienne tentava se esconder em um vestido azul que claramente a apertava nos lugares errados. Ela parecia miserável.
— Lorde Selwyn — disse Lucian, interrompendo uma conversa sobre impostos portuários. — Sua filha me impressionou hoje cedo. Eu gostaria de um duelo com ela amanhã de manhã. Antes de partirmos.
O salão ficou em silêncio. Selwyn limpou a garganta, desconfortável.
— Milorde, Brienne é forte, mas ela não tem a técnica de um lorde treinado em...
— Eu não pedi a opinião sobre a técnica dela — interrompeu Lucian, com uma polidez gélida. — Eu fiz um pedido. Lady Brienne, você aceitaria cruzar espadas comigo? Prometo que não serei gentil.
Brienne ergueu o queixo. A honestidade dele a atingiu como um sopro de ar fresco. Ninguém nunca prometia "não ser gentil" com ela; eles apenas zombavam ou sentiam pena.
— Eu aceito, Milorde — disse ela firmemente.
***
O amanhecer trouxe uma luz dourada sobre o pátio. Lucian estava lá, vestindo apenas uma camisa de linho fina e calças de montaria. Ele não usava armadura. Em sua mão, ele carregava uma espada de treino, mas o peso com que a segurava mostrava que ele sabia exatamente o que fazer com ela.
Brienne estava pronta, vestida com seu couro de treino, o coração batendo forte contra as costelas.
— As regras são simples — disse Lucian, prendendo o longo cabelo perolado em um nó firme na nuca. — O primeiro que for desarmado ou derrubado perde. E não se contenha por eu ser "bonito", Lady Brienne. Eu garanto que sou muito mais perigoso do que pareço.
— Eu não me conteria nem se o senhor fosse um deus, Milorde — rebateu ela.
Lucian sorriu. Era o primeiro sorriso verdadeiro que ele dava desde que atracara.
— Ótimo.
O duelo começou como uma dança violenta. Brienne era a força, o impacto de uma tempestade. Seus golpes eram pesados, capazes de quebrar escudos. Lucian, por outro lado, era o mar. Ele não batia de frente; ele fluía. Ele se esquivava com uma agilidade sobre-humana, seus pés mal parecendo tocar o chão do pátio.
— Muito lenta na transição! — gritou ele, girando e acertando um golpe leve nas costelas dela.
Brienne rosnou, girando a espada com uma força renovada. Ela conseguiu encurralá-lo contra a parede do estábulo. Ela desferiu um golpe descendente que teria partido uma mesa ao meio. Lucian deslizou para o lado, a lâmina de madeira dela atingindo a viga com um estrondo.
Em um movimento fluido, Lucian usou a própria força de Brienne contra ela. Ele enganchou o pé atrás do calcanhar dela e, com um toque preciso no ombro, a fez perder o equilíbrio.
Brienne caiu de costas no chão, o ar saindo de seus pulmões. Antes que pudesse se levantar, a ponta da espada de madeira de Lucian estava encostada em sua garganta.
Ele estava ofegante, uma mecha de cabelo prateado caindo sobre os olhos rosados. Ele não parecia vitorioso; ele parecia... fascinado.
— Você é magnífica — disse ele, a voz baixa, para que apenas ela ouvisse.
Brienne olhou para cima, esperando ver o deboche. Mas os olhos de Lucian brilhavam com uma admiração que ela nunca vira na vida. Ele estendeu a mão para ajudá-la a levantar.
— Você me obrigou a usar movimentos que eu só uso contra comandantes de frota — ele continuou, puxando-a para cima com uma força surpreendente para alguém tão magro. — Você não é apenas uma dama que luta, Brienne de Tarth. Você é uma guerreira que o mundo ainda não merece.
Brienne limpou a poeira das calças, o coração ainda disparado.
— O senhor venceu — disse ela, recuperando o fôlego. — Como Sor Humfrey não conseguiu.
— Aquele velho tolo? — Lucian soltou um som de desdém. — Ele lutou com o ego. Eu lutei com o instinto.
Lucian virou-se para Lorde Selwyn, que se aproximava com uma expressão de surpresa. O lorde de Derivamarca limpou as mãos na túnica e endireitou a postura, assumindo sua aura de autoridade calculista.
— Lorde Selwyn — disse Lucian, sua voz projetando-se pelo pátio. — Eu vim a Tarth em busca de provisões. Mas parece que encontrei algo muito mais valioso.
Selwyn franziu a testa.
— O que quer dizer, Milorde?
Lucian olhou para Brienne, e pela primeira vez, a frieza estratégica em seu olhar foi substituída por uma determinação ardente.
— Eu sou o Senhor de Derivamarca. Minha linhagem é de reis e navegadores. Minha frota protege estes mares e meu nome é temido de Pentos a Asshai. — Ele fez uma pausa, dando um passo à frente. — Eu não busco uma esposa que saiba apenas bordar flores e tocar harpa. Eu busco uma companheira que possa defender meu castelo enquanto estou no mar, e que possa enfrentar o mundo ao meu lado.
Selwyn abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Brienne sentiu o mundo girar.
— Estou pedindo formalmente a mão de Lady Brienne em casamento — declarou Lucian. — Não por aliança política, embora Tarth e Derivamarca sejam parceiras naturais. Peço porque, em dezesseis anos, nunca vi nada tão impressionante quanto a força que sua filha carrega nos braços e nos olhos.
Brienne deu um passo à frente, a voz trêmula.
— O senhor... o senhor sabe quem eu sou? O que dizem de mim? Chamam-me de Brienne, a Bela, como um insulto! Dizem que sou uma aberração!
Lucian caminhou até ela. Ele era mais baixo que ela, mas sua presença preenchia o espaço. Ele pegou uma das mãos grandes e calejadas de Brienne e a levou aos lábios, beijando os nós dos dedos marcados pelo treino. Seus lábios eram quentes, uma temperatura quase febril que denunciava seu sangue valiriano.
— Que o mundo se afogue em sua própria cegueira — murmurou Lucian, os olhos rosados fixos nos azuis dela. — Eles veem uma dama que falhou em ser delicada. Eu vejo um diamante bruto que não precisa de polimento, apenas de um cenário digno de sua força.
Ele se virou para Selwyn novamente.
— Não preciso de dote. Na verdade, eu trarei dotes. Mas quero que ela aceite por vontade própria.
Brienne olhou para o jovem de cabelos de seda e olhos de sangue, o "Fantasma do Mar" que a olhava como se ela fosse o tesouro mais precioso dos sete reinos. Pela primeira vez na vida, Brienne de Tarth não se sentiu um erro.
— Eu nem sequer o conheço direito, Milorde — disse ela, embora seu coração já estivesse dando a resposta.
Lucian sorriu, um brilho sarcástico e charmoso voltando ao seu rosto.
— Temos o resto da vida para as apresentações, Lady Brienne. E prometo que, ao meu lado, ninguém nunca mais ousará rir de você. A menos que queiram descobrir se os tubarões de Derivamarca gostam de carne de fofoqueiros.
Brienne sentiu um sorriso genuíno, o primeiro em anos, surgir em seu rosto.
— Nesse caso... eu aceito o desafio, Lorde Velaryon.
O Senhor das Marés inclinou a cabeça, satisfeito. O destino de Tarth e Derivamarca acabara de ser selado sob o sol da manhã, entre o cheiro de suor, poeira e o início de algo que as canções um dia chamariam de a união da Pérola e da Safira.
— Ele mereceu — Brienne murmurou para si mesma, golpeando o boneco de treino com sua espada de madeira. O impacto seco ressoou pelo pátio de armas. — Se querem que eu obedeça, que me vençam primeiro.
Lorde Selwyn Tarth observava a filha do alto da mureta, um suspiro pesado escapando de seu peito. Ele a amava, mas temia pelo seu futuro em um mundo que não tinha lugar para mulheres que preferiam o aço ao bordado. Sua melancolia, entretanto, foi interrompida por um grito vindo das torres de vigia.
— Velas no horizonte! — gritou o vigia. — Cascos escuros, velas verde-água! O Cavalo Marinho está entrando na baía!
Selwyn endireitou a postura, o coração acelerando. Ele conhecia aquelas cores. A Casa Velaryon de Derivamarca não costumava visitar as águas das Safiras sem motivo. E se os rumores fossem verdadeiros, o navio capitânia trazia o próprio "Fantasma do Mar".
Dois navios de guerra, imponentes e impecavelmente mantidos, deslizaram pelas águas cristalinas de Tarth como predadores silenciosos. Quando as âncoras foram lançadas e as pranchas baixadas, uma pequena comitiva desembarcou. À frente deles caminhava um jovem que parecia ter saído de uma lenda valiriana antiga.
Lucian Velaryon, aos dezoito anos, já carregava o peso de um título que conquistara no sangue e na estratégia. Com 1,84 de altura, ele era uma visão quase etérea. Sua pele era pálida como marfim, sem o bronzeado típico dos marinheiros, embora passasse meses sob o sol. Seus cabelos, longos até os quadris e lisos como seda perolada, balançavam suavemente com a brisa marinha, adornados com pequenas tranças e contas de coral e prata.
O que mais chamava a atenção, entretanto, eram seus olhos. Um tom estranho de rosa, como sangue diluído sobre gelo, que observavam tudo com uma precisão cirúrgica.
Lorde Selwyn desceu para recebê-los no cais, com Brienne logo atrás, ainda vestindo suas roupas de treino de couro batido, tentando se esconder nas sombras do pai.
— Lorde Velaryon — cumprimentou Selwyn, curvando-se levemente. — Tarth se sente honrada com sua presença. O que traz o Senhor das Marés e o terror dos piratas ao nosso porto?
Lucian sorriu, um gesto educado que não chegava a desarmar o brilho calculista em seus olhos rosados. Suas mãos, longas e finas como as de um escriba, repousavam sobre o cinto de couro onde uma espada de aço valiriano pendia com elegância.
— Apenas a necessidade, Lorde Tarth — respondeu Lucian, sua voz era suave, mas carregava a autoridade de quem comanda frotas. — Meus homens estão no mar há seis meses. Limpamos os Degraus de uma infestação de ratos que se autodenominavam comerciantes de escravos. Precisamos de água fresca, provisões e, se me permite a ousadia, um banho que não seja salgado.
— Naturalmente — disse Selwyn. — Meu castelo é seu. Teremos um banquete esta noite.
Enquanto os dois lordes caminhavam em direção à fortaleza, Lucian parou por um momento. Seus olhos vagaram pelo pátio de armas e pararam na figura alta e desajeitada que tentava passar despercebida. Brienne sentiu o olhar dele como uma pontada de calor.
— Seu escudeiro é notavelmente alto, Lorde Selwyn — comentou Lucian, inclinando a cabeça de lado, as tranças em seu cabelo tilintando suavemente. — E parece ter uma postura excelente para o combate.
Brienne sentiu o rosto queimar, as sardas parecendo se incendiar em suas bochechas.
— Não é um escudeiro, Milorde — Selwyn disse, com um tom de desculpas na voz. — É minha filha, Brienne.
Lucian parou de caminhar. Ele se virou completamente para encará-la. Diferente dos outros homens, que geralmente desviavam o olhar com desgosto ou soltavam uma risadinha abafada, Lucian a estudou. Ele viu a largura dos ombros, a força nos braços, a intensidade azul safira dos olhos dela que brilhavam com uma mistura de desafio e vergonha. Ele notou a espada de treino de madeira ainda presa à mão dela.
— Sua filha? — Lucian repetiu, sua voz ganhando um tom de curiosidade genuína.
Ele caminhou em direção a ela. Brienne ficou imóvel, sentindo-se como uma estátua de pedra diante de uma criatura de porcelana. Lucian era lindo demais, quase ofensivamente belo, com seus cílios brancos e sua aura de serenidade perigosa.
— Você treina com a espada, Lady Brienne? — perguntou ele, parando a uma distância respeitosa.
— Eu... sim, Milorde — respondeu ela, a voz saindo mais grossa do que gostaria. — Mas os mestres de armas dizem que é uma perda de tempo para uma dama.
Lucian soltou um riso curto, sarcástico e cortante.
— Os mestres de armas geralmente são homens de pouca imaginação que temem ser superados. — Ele estendeu uma de suas mãos macias e elegantes, tocando a ponta da espada de madeira dela. — Vi homens que se dizem cavaleiros segurarem uma arma com menos firmeza do que você.
Brienne piscou, confusa. Não havia escárnio no tom dele. Apenas uma observação técnica, cruelmente precisa.
— Gostaria de ver o quanto é capaz — continuou Lucian, os olhos rosados brilhando. — Mas primeiro, o banho prometido. O cheiro de sangue e sal me persegue há tempo demais.
***
Mais tarde, após o sol começar a mergulhar no Mar Estreito, o salão de Tarth estava devidamente preparado. Lucian apareceu vestindo túnicas de seda verde-água e prata, que realçavam sua palidez quase sobrenatural. Ele se sentou à mesa com uma elegância que fazia Selwyn parecer rústico.
Durante a refeição, Lucian revelou-se um estrategista nato. Falou sobre as correntes marítimas, sobre como o fogo grego era uma ferramenta perigosa e como ele preferia usar o clima a seu favor em vez de apenas força bruta.
— Dizem que o senhor não se queima, Lorde Lucian — comentou uma das primas de Tarth, tentando flertar com o jovem lorde.
Lucian girou a taça de vinho entre os dedos longos.
— O fogo me ama mais do que deveria — respondeu ele, de forma enigmática. — Minha linhagem Targaryen por parte de Rhaenys deixou traços... intensos. Mas o fogo é uma ferramenta, não um mestre.
Seu olhar, entretanto, voltava constantemente para a ponta da mesa, onde Brienne tentava se esconder em um vestido azul que claramente a apertava nos lugares errados. Ela parecia miserável.
— Lorde Selwyn — disse Lucian, interrompendo uma conversa sobre impostos portuários. — Sua filha me impressionou hoje cedo. Eu gostaria de um duelo com ela amanhã de manhã. Antes de partirmos.
O salão ficou em silêncio. Selwyn limpou a garganta, desconfortável.
— Milorde, Brienne é forte, mas ela não tem a técnica de um lorde treinado em...
— Eu não pedi a opinião sobre a técnica dela — interrompeu Lucian, com uma polidez gélida. — Eu fiz um pedido. Lady Brienne, você aceitaria cruzar espadas comigo? Prometo que não serei gentil.
Brienne ergueu o queixo. A honestidade dele a atingiu como um sopro de ar fresco. Ninguém nunca prometia "não ser gentil" com ela; eles apenas zombavam ou sentiam pena.
— Eu aceito, Milorde — disse ela firmemente.
***
O amanhecer trouxe uma luz dourada sobre o pátio. Lucian estava lá, vestindo apenas uma camisa de linho fina e calças de montaria. Ele não usava armadura. Em sua mão, ele carregava uma espada de treino, mas o peso com que a segurava mostrava que ele sabia exatamente o que fazer com ela.
Brienne estava pronta, vestida com seu couro de treino, o coração batendo forte contra as costelas.
— As regras são simples — disse Lucian, prendendo o longo cabelo perolado em um nó firme na nuca. — O primeiro que for desarmado ou derrubado perde. E não se contenha por eu ser "bonito", Lady Brienne. Eu garanto que sou muito mais perigoso do que pareço.
— Eu não me conteria nem se o senhor fosse um deus, Milorde — rebateu ela.
Lucian sorriu. Era o primeiro sorriso verdadeiro que ele dava desde que atracara.
— Ótimo.
O duelo começou como uma dança violenta. Brienne era a força, o impacto de uma tempestade. Seus golpes eram pesados, capazes de quebrar escudos. Lucian, por outro lado, era o mar. Ele não batia de frente; ele fluía. Ele se esquivava com uma agilidade sobre-humana, seus pés mal parecendo tocar o chão do pátio.
— Muito lenta na transição! — gritou ele, girando e acertando um golpe leve nas costelas dela.
Brienne rosnou, girando a espada com uma força renovada. Ela conseguiu encurralá-lo contra a parede do estábulo. Ela desferiu um golpe descendente que teria partido uma mesa ao meio. Lucian deslizou para o lado, a lâmina de madeira dela atingindo a viga com um estrondo.
Em um movimento fluido, Lucian usou a própria força de Brienne contra ela. Ele enganchou o pé atrás do calcanhar dela e, com um toque preciso no ombro, a fez perder o equilíbrio.
Brienne caiu de costas no chão, o ar saindo de seus pulmões. Antes que pudesse se levantar, a ponta da espada de madeira de Lucian estava encostada em sua garganta.
Ele estava ofegante, uma mecha de cabelo prateado caindo sobre os olhos rosados. Ele não parecia vitorioso; ele parecia... fascinado.
— Você é magnífica — disse ele, a voz baixa, para que apenas ela ouvisse.
Brienne olhou para cima, esperando ver o deboche. Mas os olhos de Lucian brilhavam com uma admiração que ela nunca vira na vida. Ele estendeu a mão para ajudá-la a levantar.
— Você me obrigou a usar movimentos que eu só uso contra comandantes de frota — ele continuou, puxando-a para cima com uma força surpreendente para alguém tão magro. — Você não é apenas uma dama que luta, Brienne de Tarth. Você é uma guerreira que o mundo ainda não merece.
Brienne limpou a poeira das calças, o coração ainda disparado.
— O senhor venceu — disse ela, recuperando o fôlego. — Como Sor Humfrey não conseguiu.
— Aquele velho tolo? — Lucian soltou um som de desdém. — Ele lutou com o ego. Eu lutei com o instinto.
Lucian virou-se para Lorde Selwyn, que se aproximava com uma expressão de surpresa. O lorde de Derivamarca limpou as mãos na túnica e endireitou a postura, assumindo sua aura de autoridade calculista.
— Lorde Selwyn — disse Lucian, sua voz projetando-se pelo pátio. — Eu vim a Tarth em busca de provisões. Mas parece que encontrei algo muito mais valioso.
Selwyn franziu a testa.
— O que quer dizer, Milorde?
Lucian olhou para Brienne, e pela primeira vez, a frieza estratégica em seu olhar foi substituída por uma determinação ardente.
— Eu sou o Senhor de Derivamarca. Minha linhagem é de reis e navegadores. Minha frota protege estes mares e meu nome é temido de Pentos a Asshai. — Ele fez uma pausa, dando um passo à frente. — Eu não busco uma esposa que saiba apenas bordar flores e tocar harpa. Eu busco uma companheira que possa defender meu castelo enquanto estou no mar, e que possa enfrentar o mundo ao meu lado.
Selwyn abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Brienne sentiu o mundo girar.
— Estou pedindo formalmente a mão de Lady Brienne em casamento — declarou Lucian. — Não por aliança política, embora Tarth e Derivamarca sejam parceiras naturais. Peço porque, em dezesseis anos, nunca vi nada tão impressionante quanto a força que sua filha carrega nos braços e nos olhos.
Brienne deu um passo à frente, a voz trêmula.
— O senhor... o senhor sabe quem eu sou? O que dizem de mim? Chamam-me de Brienne, a Bela, como um insulto! Dizem que sou uma aberração!
Lucian caminhou até ela. Ele era mais baixo que ela, mas sua presença preenchia o espaço. Ele pegou uma das mãos grandes e calejadas de Brienne e a levou aos lábios, beijando os nós dos dedos marcados pelo treino. Seus lábios eram quentes, uma temperatura quase febril que denunciava seu sangue valiriano.
— Que o mundo se afogue em sua própria cegueira — murmurou Lucian, os olhos rosados fixos nos azuis dela. — Eles veem uma dama que falhou em ser delicada. Eu vejo um diamante bruto que não precisa de polimento, apenas de um cenário digno de sua força.
Ele se virou para Selwyn novamente.
— Não preciso de dote. Na verdade, eu trarei dotes. Mas quero que ela aceite por vontade própria.
Brienne olhou para o jovem de cabelos de seda e olhos de sangue, o "Fantasma do Mar" que a olhava como se ela fosse o tesouro mais precioso dos sete reinos. Pela primeira vez na vida, Brienne de Tarth não se sentiu um erro.
— Eu nem sequer o conheço direito, Milorde — disse ela, embora seu coração já estivesse dando a resposta.
Lucian sorriu, um brilho sarcástico e charmoso voltando ao seu rosto.
— Temos o resto da vida para as apresentações, Lady Brienne. E prometo que, ao meu lado, ninguém nunca mais ousará rir de você. A menos que queiram descobrir se os tubarões de Derivamarca gostam de carne de fofoqueiros.
Brienne sentiu um sorriso genuíno, o primeiro em anos, surgir em seu rosto.
— Nesse caso... eu aceito o desafio, Lorde Velaryon.
O Senhor das Marés inclinou a cabeça, satisfeito. O destino de Tarth e Derivamarca acabara de ser selado sob o sol da manhã, entre o cheiro de suor, poeira e o início de algo que as canções um dia chamariam de a união da Pérola e da Safira.
