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D59

Fandom: Record of ragnarok

Criado: 01/07/2026

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O Banquete dos Reis e a Fome do Imperador

A arena do Valhalla estava silenciosa, mas os corredores dos alojamentos fervilhavam com um tipo diferente de tensão: a fofoca. Não era todo dia que o Rei do Submundo, o estóico e digno Hades, era visto convidando formalmente o Primeiro Imperador da China, Qin Shi Huang, para um jantar privado em um dos restaurantes mais luxuosos das dimensões divinas.

A cena do convite fora digna de uma pintura. Hades, com sua elegância habitual e postura de um monarca que carrega o peso de Helheim nos ombros, aproximou-se de Qin enquanto este descansava em um trono improvisado no meio do corredor. Sem hesitação, o deus ofereceu o convite. Qin, com seu sorriso audaz e a venda cobrindo os olhos, aceitou com a arrogância de quem acredita que o mundo inteiro é sua sala de jantar.

Naturalmente, a discrição não era o forte daquele grupo. Escondidos atrás de colunas e tapeçarias, uma audiência eclética observava. Zeus cutucava Hermes com um sorriso malicioso; Thor mantinha seu olhar fixo e impassível, embora Mjölnir parecesse vibrar de curiosidade; Jack, o Estripador, bebericava seu chá enquanto comentava com Héracles sobre a etiqueta de tal encontro; e até mesmo o rebelde Buda mastigava um pirulito, achando a situação mais divertida que qualquer luta na arena.

Horas se passaram. O sol se pôs sobre o Valhalla, e a expectativa só crescia.

Quando as portas da ala dos humanos finalmente se abriram, Qin Shi Huang entrou. Sua postura ainda era majestosa, o passo firme, mas havia algo diferente. Ele não parou para cumprimentar ninguém. Ele passou direto por Brunhilde, ignorou um comentário sarcástico de Leônidas e seguiu em linha reta para a cozinha comunitária.

— Ele parece... apressado? — comentou Nikola Tesla, ajustando seus óculos enquanto observava a trajetória do imperador.

— Apressado não — corrigiu Sasaki Kojiro, aguçando seus sentidos. — Ele está faminto.

O grupo, movido por uma curiosidade incontrolável, seguiu o imperador até a cozinha. Qin já estava lá, atacando uma travessa de bolinhos cozidos e uma coxa de frango assada com uma voracidade que desafiava sua imagem de realeza.

— Ora, ora, se não é o nosso grande Imperador — zombou Raiden Tameemon, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta. — Achei que o jantar com o Rei do Submundo seria um banquete digno de deuses.

Qin não parou de mastigar. Ele apenas levantou um dedo, pedindo um momento, antes de engolir e virar uma taça de vinho de uma só vez.

— Aquele homem... — Qin finalmente falou, limpando o canto da boca com as costas da mão, sua voz carregada de uma mistura de exaustão e satisfação. — Ele tem muito bom gosto para vinhos, mas a etiqueta dele é exaustiva. E as porções? Eram minúsculas! Onde eu sento é o meu trono, mas aparentemente, no restaurante de Hades, o trono não vem com comida de verdade, apenas com "experiências gastronômicas".

— Você quer dizer que saiu para jantar com um deus e voltou com fome? — gargalhou Okita Soji, pulando sobre a mesa. — Que tipo de encontro foi esse, Qin?

— Um encontro de reis — respondeu Qin, recuperando sua aura de superioridade, embora ainda estivesse com um bolinho na mão. — Nós discutimos política, o destino das almas e a curvatura das estrelas. Mas o estômago de um imperador não se alimenta de estrelas.

— Parece que o grande Hades é pão-duro — provocou Adão, com um meio sorriso, enquanto observava o "filho" se banquetear.

— Não é isso — Qin retrucou, ajeitando sua túnica que parecia levemente desalinhada. — Ele é apenas... intenso.

Nesse momento, Qin se virou para pegar mais uma travessa de comida, e a luz das tochas da cozinha incidiu diretamente em seu pescoço. A venda de seus olhos estava ligeiramente torta, mas o que chamou a atenção de todos não foi seu rosto.

— Espera aí... — Simo Häyhä, que raramente falava, apontou com o cano de seu rifle descarregado.

Havia uma marca arroxeada e circular, perfeitamente visível, logo abaixo da mandíbula de Qin. Um chupão. Um muito óbvio e recente.

Um silêncio sepulcral caiu sobre a cozinha. Até mesmo Lu Bu, que parecia desinteressado em qualquer coisa que não fosse combate, semicerrou os olhos para a marca.

— Qin — disse Brunhilde, aparecendo entre os guerreiros com uma veia saltando na testa —, você se importa em explicar o que é isso no seu pescoço?

Qin tocou o local, sentindo a leve ardência. Devido à sua sinestesia, ele ainda podia sentir o eco da pressão que gerara aquela marca, um formigamento que não era exatamente doloroso, mas sim... persistente.

— Isso? — Qin sorriu, aquele sorriso audacioso que irritava deuses e humanos. — É apenas a prova de que o Rei do Submundo sabe como marcar seu território. Eu disse a ele que tudo o que eu via era meu, e ele decidiu me mostrar que, em Helheim, as regras são um pouco diferentes.

Antes que qualquer um pudesse disparar outra piada ou pergunta, passos pesados e rítmicos ecoaram pelo corredor externo. A presença era esmagadora, emanando uma nobreza que fazia o ar parecer mais pesado.

Hades surgiu na entrada da cozinha.

Se Qin parecia apenas faminto, Hades parecia ter passado por um furacão elegante. Sua capa estava jogada sobre um dos ombros de forma descuidada, os botões superiores de sua túnica estavam abertos, e o cabelo, geralmente impecável, estava levemente despenteado. Mas o mais chocante eram as marcas de batom e pequenas manchas avermelhadas que adornavam seu pescoço e a linha da mandíbula.

Beelzebub, que observava de longe, soltou um suspiro de descrença. Poseidon, se estivesse ali, provavelmente teria tentado perfurar alguém de pura vergonha pelo irmão.

— Qin — chamou Hades, ignorando completamente a plateia de humanos e deuses que os cercava. Sua voz era calma, mas havia um brilho de divertimento em seus olhos. — Você esqueceu isso no restaurante.

Ele estendeu a mão, segurando o protetor de dedos dourado que Qin costumava usar.

O Imperador da China caminhou até o Deus do Submundo com a graça de um felino. Ele pegou o objeto, mas não recuou. Em vez disso, aproximou-se o suficiente para que suas testas quase se tocassem.

— Eu não esqueci, Hades — sussurrou Qin, alto o suficiente para que todos ouvissem. — Eu deixei para que você tivesse um motivo para vir me ver antes de eu dormir.

Hades soltou uma risada curta e anasalada, uma raridade absoluta.

— Você é um homem audacioso, Qin Shi Huang.

— Eu sou o Rei onde quer que eu esteja — Qin rebateu, ajeitando a gola da túnica bagunçada de Hades com uma familiaridade desconcertante. — E parece que você também se divertiu um pouco demais na "experiência gastronômica".

Zeus, que estava assistindo a tudo de trás de um barril, não aguentou e explodiu em gargalhadas.

— Hahaha! Meu irmão, você parece que lutou contra um exército de gatos selvagens! E você, humano, parece que não come há três encarnações! Que tipo de encontro termina com um faminto e o outro desarrumado?

Hades finalmente desviou o olhar para seu irmão mais novo, recuperando instantaneamente sua postura de soberano, embora as marcas em seu pescoço contassem uma história diferente.

— O tipo de encontro onde dois reis se reconhecem, Zeus — respondeu Hades com dignidade absoluta. — Qin é um convidado fascinante. Ele exige muito... de tudo.

— Especialmente de comida! — gritou Raiden, fazendo os outros humanos rirem.

Qin Shi Huang voltou-se para seus companheiros, cruzando os braços e erguendo o queixo.

— Riam o quanto quiserem. Enquanto vocês estavam aqui discutindo estratégias e polindo armas, eu estava negociando os termos da minha supremacia sobre o Submundo.

— Negociando? — provocou Jack, o Estripador, ajustando o monóculo. — Parecia mais uma batalha de vontades... e dentes, se me permite a observação, querido Imperador.

Qin sentiu a pontada de dor refletida no pescoço de Hades e a sua própria, um eco doce da intensidade do encontro. Ele sorriu, um sorriso que não era apenas para esconder seus traumas de infância ou sua dor, mas um sorriso de genuíno contentamento.

— Hades — disse Qin, voltando-se para o deus —, da próxima vez, eu escolho o lugar. E haverá muito mais do que apenas vinhos caros e petiscos.

— Estarei esperando, Imperador — respondeu Hades, fazendo uma leve reverência com a cabeça antes de se virar para sair.

Enquanto o Deus do Submundo se afastava, com sua roupa amassada e sua honra intacta, os humanos cercaram Qin.

— Certo, certo, agora desembucha — disse Buda, oferecendo um pirulito a Qin. — Como é que o cara mais sério do universo acabou todo marcado desse jeito?

Qin Shi Huang pegou o pirulito, removeu a venda por um momento para olhar seus companheiros com seus olhos claros e profundos, e deu de ombros com uma arrogância encantadora.

— Eu já disse. Onde eu sento é o meu trono. E hoje, eu decidi que o Rei do Submundo seria o meu assento favorito.

O coro de "ohhh" e as vaias brincalhonas ecoaram pela cozinha. Qin voltou a comer, sentindo-se mais vivo do que nunca. Ele era o Imperador que unificou a China, o homem que sentia a dor do mundo, mas naquela noite, ele era simplesmente um homem que tinha encontrado alguém cujo orgulho era tão vasto quanto o seu.

E, claro, ele ainda estava com muita, muita fome.

— Alguém me passe aqueles pãezinhos de porco — ordenou Qin, rindo enquanto a tensão do Ragnarok parecia desaparecer, pelo menos por algumas horas, sob o peso de um encontro que ninguém jamais esqueceria.
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