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Amor sombrio
Fandom: Wednesday
Criado: 01/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoSombrioNoir GóticoEstudo de PersonagemAutomutilaçãoAbuso de ÁlcoolFantasiaDivergência
O Batismo das Cinzas e do Aço
O sol de Vermont nasceu como uma ferida aberta no horizonte, um tom de laranja doentio que não conseguia penetrar a névoa espessa que cercava o apartamento. Dentro do quarto, o ar estava estagnado, impregnado com o cheiro de antisséptico, ferro e o resquício do uísque que Tyler derramara. Wandinha não havia pregado o olho. Ela permanecia sentada em uma cadeira de madeira desconfortável ao lado da cama, observando o peito de Tyler subir e descer. Cada respiração dele era uma pequena vitória contra o niilismo que quase o consumira na noite anterior.
Ela observava as faixas brancas que envolviam o antebraço dele. O sangue não havia atravessado o curativo durante a madrugada, o que indicava que sua técnica de sutura, embora executada sob pressão emocional, fora impecável. O Mão estava empoleirado na cabeceira da cama, batendo os dedos de forma inquieta, um sinal claro de que ele também sentia a eletricidade estática que pairava no ambiente.
— Pare com isso — sibilou Wandinha para o Mão. — O ruído é desnecessário e irritante.
A mão decepada parou instantaneamente, encolhendo-se em um gesto de desculpas antes de deslizar para fora do quarto, provavelmente para buscar mais suprimentos ou simplesmente para evitar a aura gélida de sua mestre.
Tyler se mexeu. Um gemido baixo escapou de seus lábios, e seus olhos se abriram lentamente. Por um momento, eles estavam perdidos, nublados pela confusão do trauma e do álcool, mas logo encontraram o rosto de Wandinha. A clareza voltou, e com ela, a vergonha.
— Você ainda está aqui — disse ele, a voz rouca e seca.
— Eu disse que não tinha dado permissão para você morrer — respondeu Wandinha, levantando-se e aproximando-se da cama. — Eu raramente volto atrás em minhas ordens.
Tyler tentou se sentar, mas uma careta de dor atravessou seu rosto. Wandinha colocou a mão em seu ombro são, pressionando-o gentilmente de volta ao travesseiro.
— Não seja idiota. Você perdeu sangue suficiente para matar um cavalo de porte médio. Seus músculos estão em estado de choque.
Tyler soltou um suspiro pesado, olhando para o teto descascado.
— O Hyde... ele está quieto agora. Acho que o cheiro do meu próprio sangue o acalmou. — Ele deu um sorriso amargo, sem olhar para ela. — Ele gosta de destruição, mesmo que seja a minha.
— O Hyde é uma manifestação de poder descontrolado, Tyler. Ele se alimenta da sua instabilidade. O que você fez ontem à noite não foi um ato de controle, foi uma rendição — disse Wandinha, sua voz recuperando a cadência seca e analítica, embora seus olhos traíssem uma intensidade sombria.
Tyler finalmente virou a cabeça para encará-la. Seus olhos castanhos, geralmente tão hábeis em simular uma inocência sedutora, agora estavam despidos de qualquer artifício. Ele era um homem quebrado, e ele sabia que ela via cada estilhaço.
— Eu não sabia mais o que fazer, Wandinha. Eu sinto que estou desaparecendo. Às vezes, eu olho no espelho e não vejo o barista de Jericho ou o monstro da floresta. Eu vejo apenas um vácuo. E esse vácuo dói mais do que qualquer transformação.
Wandinha inclinou-se sobre ele, sua franja preta roçando levemente a testa dele. A proximidade era um tipo de tortura que ambos pareciam desejar.
— A dor é a prova de que o vácuo ainda não venceu — disse ela, o tom de voz baixando para um sussurro perigoso. — Você se sente um erro porque está tentando se medir pelos padrões de pessoas medíocres. Você não é um erro, Tyler. Você é uma arma. E armas não se auto-mutilam; elas esperam pelo momento certo para golpear.
Tyler estendeu a mão e tocou a ponta de uma das tranças de Wandinha. O gesto era carregado de uma ternura que contrastava violentamente com as palavras dela.
— Você fala como se eu fosse um projeto. Mas ontem à noite... no banheiro... você não parecia estar falando com uma arma.
Wandinha sentiu aquela pontada incômoda no peito novamente. A vulnerabilidade era uma doença que ela estava começando a contrair por exposição prolongada a ele.
— Ontem à noite foi uma anomalia biológica provocada pelo estresse — mentiu ela, embora soubesse que ele não acreditaria. — No entanto, as conclusões que tirei permanecem válidas. Você é essencial para os meus planos. E para o meu... bem-estar psíquico, por mais deplorável que seja admitir isso.
Tyler sorriu, um brilho de seu antigo charme manipulador surgindo por trás da dor.
— Você é péssima nisso, sabia? Em fingir que não se importa.
— E você é excelente em ser um fardo — rebateu ela, embora não tenha se afastado.
O Mão retornou ao quarto, carregando uma bandeja com uma xícara de chá fumegante e algumas torradas secas. Ele a depositou na mesa de cabeceira com um floreio dramático.
— Coma — ordenou Wandinha. — O chá contém erva-cidreira e um pouco de beladona para acalmar seus nervos. Não o suficiente para matá-lo, apenas para garantir que você não tente nenhuma outra manobra dramática nas próximas horas.
Tyler aceitou a xícara com a mão trêmula. Ele tomou um gole, o calor do líquido parecendo devolver um pouco de cor às suas bochechas pálidas.
— O que acontece agora? — perguntou ele, após um longo silêncio. — O Círculo de Sangue ainda está lá fora. A polícia de Vermont está procurando por nós. E eu ainda sou... o que eu sou.
Wandinha caminhou até a janela, observando a rua deserta. Sua mente já estava tecendo teias de conspiração e vingança.
— Agora, nós mudamos a estratégia. Se o mundo quer um monstro e uma Addams, nós daremos a eles algo muito pior. Nós daremos a eles uma consequência.
Ela se virou, e a luz cinzenta da manhã destacou a severidade de suas feições.
— Você vai aprender a controlar o Hyde, Tyler. Não através da supressão, mas através da aceitação. Você vai parar de lutar contra a besta e vai começar a dar ordens a ela. E eu estarei ao seu lado para garantir que, se você se perder, eu seja o farol que o trará de volta... ou a mão que o afogará na escuridão definitiva.
Tyler deixou a xícara de lado e sentou-se na beirada da cama, ignorando o protesto de seus músculos. Ele olhou para Wandinha com uma mistura de adoração e terror.
— Você realmente me ama, não é? Do seu jeito distorcido e aterrorizante.
Wandinha atravessou o quarto com passos rápidos e parou a centímetros dele. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, seus dedos frios contrastando com a febre que ainda emanava da pele dele.
— Eu amo o caos que você traz para a minha ordem — disse ela, a voz vibrando com uma paixão sombria. — Eu amo o fato de que você é o único ser neste planeta capaz de me fazer sentir algo além de desprezo. E se amar você significa caminhar pelo fogo, então eu espero que você goste de queimaduras, Tyler Galpin. Porque eu não pretendo parar.
Tyler puxou-a para um beijo. Tinha gosto de chá amargo e desespero, mas também de uma promessa antiga e inquebrável. Wandinha não recuou; em vez disso, ela aprofundou o contato, suas unhas cravando-se levemente na nuca dele, marcando-o como seu.
Quando se separaram, Tyler estava ofegante, um brilho novo em seus olhos. O monstro ainda estava lá, mas agora havia algo mais. Havia um propósito.
— O que você quer que eu faça? — perguntou ele, sua voz agora firme, sedutora e perigosa.
Wandinha deu um meio sorriso, o tipo de sorriso que precedia a queda de impérios.
— Primeiro, você vai se vestir. Depois, vamos queimar este apartamento e tudo o que nos liga ao passado. O Círculo de Sangue acha que nos encurralou. Eles não percebem que acabaram de nos dar o combustível de que precisávamos.
Ela caminhou até a escrivaninha e pegou um pequeno frasco de líquido negro, guardando-o no bolso do sobretudo.
— Mão, prepare as malas. Estamos partindo.
— Para onde vamos? — perguntou Tyler, levantando-se com esforço, mas com uma determinação renovada.
Wandinha olhou para ele, seus olhos negros brilhando com uma inteligência predatória.
— Para onde as sombras são mais profundas, Tyler. Vamos para casa. Não para Nevermore, nem para Jericho. Vamos para a Mansão Addams. Meu pai sempre disse que a família é o melhor lugar para esconder um corpo... ou para treinar um monstro.
Tyler riu, um som que desta vez não continha desespero, mas sim uma antecipação sombria.
— Acho que vou gostar de conhecer seus pais.
— Duvido — disse Wandinha, pegando sua mochila. — Minha mãe vai tentar analisar sua psique e meu pai vai querer duelar com você até a morte. Mas eles vão adorar o fato de você ser um pária procurado pela justiça. É o tipo de pedigree que eles respeitam.
Enquanto saíam do apartamento, deixando para trás os cacos de vidro e as manchas de sangue, Wandinha sentiu uma estranha sensação de paz. O caos lá fora era vasto, mas o vínculo entre ela e Tyler era uma âncora feita de ferro e espinhos.
Eles desceram as escadas decrépitas em silêncio, dois predadores movendo-se em sincronia. O vento de Vermont ainda sibilava, mas agora parecia um sussurro de boas-vindas.
— Wandinha? — chamou Tyler, quando estavam prestes a entrar no carro roubado que os levaria para o sul.
— Diga.
— Se o Hyde tentar assumir o controle no caminho... se eu esquecer quem você é por um segundo...
Wandinha parou com a mão na maçaneta da porta. Ela olhou para ele por cima do ombro, a expressão impenetrável.
— Eu tenho um canivete de prata no meu bolso e uma vontade férrea de ver você sofrer se me desapontar. Você não vai esquecer, Tyler. Eu sou o seu pesadelo favorito.
Tyler sorriu, um sorriso que era puramente Hyde em sua ferocidade.
— É por isso que eu nunca vou te deixar.
O carro arrancou, deixando para trás uma trilha de fumaça e o silêncio de uma vida que não pertencia mais a eles. À frente, a estrada se estendia como uma fita negra sob o céu cinzento. Wandinha Addams não acreditava em finais felizes; ela acreditava em finais sangrentos, em vinganças poéticas e em lealdades que transcendiam a razão.
E enquanto olhava para Tyler, que dirigia com a mão enfaixada firme no volante, ela soube que, pela primeira vez em sua vida, ela não estava apenas observando a escuridão. Ela era a escuridão. E ela tinha encontrado seu igual.
A guerra estava apenas começando, e Vermont era apenas o primeiro campo de batalha deixado em cinzas. O mundo ainda não sabia, mas Wandinha e Tyler eram o eclipse que apagaria o sol. E no frio daquela manhã, sob o olhar atento da Mão no banco de trás, eles selaram seu pacto não com palavras, mas com o silêncio compartilhado daqueles que sabem que o inferno é apenas outro nome para o lar, desde que estejam juntos.
Ela observava as faixas brancas que envolviam o antebraço dele. O sangue não havia atravessado o curativo durante a madrugada, o que indicava que sua técnica de sutura, embora executada sob pressão emocional, fora impecável. O Mão estava empoleirado na cabeceira da cama, batendo os dedos de forma inquieta, um sinal claro de que ele também sentia a eletricidade estática que pairava no ambiente.
— Pare com isso — sibilou Wandinha para o Mão. — O ruído é desnecessário e irritante.
A mão decepada parou instantaneamente, encolhendo-se em um gesto de desculpas antes de deslizar para fora do quarto, provavelmente para buscar mais suprimentos ou simplesmente para evitar a aura gélida de sua mestre.
Tyler se mexeu. Um gemido baixo escapou de seus lábios, e seus olhos se abriram lentamente. Por um momento, eles estavam perdidos, nublados pela confusão do trauma e do álcool, mas logo encontraram o rosto de Wandinha. A clareza voltou, e com ela, a vergonha.
— Você ainda está aqui — disse ele, a voz rouca e seca.
— Eu disse que não tinha dado permissão para você morrer — respondeu Wandinha, levantando-se e aproximando-se da cama. — Eu raramente volto atrás em minhas ordens.
Tyler tentou se sentar, mas uma careta de dor atravessou seu rosto. Wandinha colocou a mão em seu ombro são, pressionando-o gentilmente de volta ao travesseiro.
— Não seja idiota. Você perdeu sangue suficiente para matar um cavalo de porte médio. Seus músculos estão em estado de choque.
Tyler soltou um suspiro pesado, olhando para o teto descascado.
— O Hyde... ele está quieto agora. Acho que o cheiro do meu próprio sangue o acalmou. — Ele deu um sorriso amargo, sem olhar para ela. — Ele gosta de destruição, mesmo que seja a minha.
— O Hyde é uma manifestação de poder descontrolado, Tyler. Ele se alimenta da sua instabilidade. O que você fez ontem à noite não foi um ato de controle, foi uma rendição — disse Wandinha, sua voz recuperando a cadência seca e analítica, embora seus olhos traíssem uma intensidade sombria.
Tyler finalmente virou a cabeça para encará-la. Seus olhos castanhos, geralmente tão hábeis em simular uma inocência sedutora, agora estavam despidos de qualquer artifício. Ele era um homem quebrado, e ele sabia que ela via cada estilhaço.
— Eu não sabia mais o que fazer, Wandinha. Eu sinto que estou desaparecendo. Às vezes, eu olho no espelho e não vejo o barista de Jericho ou o monstro da floresta. Eu vejo apenas um vácuo. E esse vácuo dói mais do que qualquer transformação.
Wandinha inclinou-se sobre ele, sua franja preta roçando levemente a testa dele. A proximidade era um tipo de tortura que ambos pareciam desejar.
— A dor é a prova de que o vácuo ainda não venceu — disse ela, o tom de voz baixando para um sussurro perigoso. — Você se sente um erro porque está tentando se medir pelos padrões de pessoas medíocres. Você não é um erro, Tyler. Você é uma arma. E armas não se auto-mutilam; elas esperam pelo momento certo para golpear.
Tyler estendeu a mão e tocou a ponta de uma das tranças de Wandinha. O gesto era carregado de uma ternura que contrastava violentamente com as palavras dela.
— Você fala como se eu fosse um projeto. Mas ontem à noite... no banheiro... você não parecia estar falando com uma arma.
Wandinha sentiu aquela pontada incômoda no peito novamente. A vulnerabilidade era uma doença que ela estava começando a contrair por exposição prolongada a ele.
— Ontem à noite foi uma anomalia biológica provocada pelo estresse — mentiu ela, embora soubesse que ele não acreditaria. — No entanto, as conclusões que tirei permanecem válidas. Você é essencial para os meus planos. E para o meu... bem-estar psíquico, por mais deplorável que seja admitir isso.
Tyler sorriu, um brilho de seu antigo charme manipulador surgindo por trás da dor.
— Você é péssima nisso, sabia? Em fingir que não se importa.
— E você é excelente em ser um fardo — rebateu ela, embora não tenha se afastado.
O Mão retornou ao quarto, carregando uma bandeja com uma xícara de chá fumegante e algumas torradas secas. Ele a depositou na mesa de cabeceira com um floreio dramático.
— Coma — ordenou Wandinha. — O chá contém erva-cidreira e um pouco de beladona para acalmar seus nervos. Não o suficiente para matá-lo, apenas para garantir que você não tente nenhuma outra manobra dramática nas próximas horas.
Tyler aceitou a xícara com a mão trêmula. Ele tomou um gole, o calor do líquido parecendo devolver um pouco de cor às suas bochechas pálidas.
— O que acontece agora? — perguntou ele, após um longo silêncio. — O Círculo de Sangue ainda está lá fora. A polícia de Vermont está procurando por nós. E eu ainda sou... o que eu sou.
Wandinha caminhou até a janela, observando a rua deserta. Sua mente já estava tecendo teias de conspiração e vingança.
— Agora, nós mudamos a estratégia. Se o mundo quer um monstro e uma Addams, nós daremos a eles algo muito pior. Nós daremos a eles uma consequência.
Ela se virou, e a luz cinzenta da manhã destacou a severidade de suas feições.
— Você vai aprender a controlar o Hyde, Tyler. Não através da supressão, mas através da aceitação. Você vai parar de lutar contra a besta e vai começar a dar ordens a ela. E eu estarei ao seu lado para garantir que, se você se perder, eu seja o farol que o trará de volta... ou a mão que o afogará na escuridão definitiva.
Tyler deixou a xícara de lado e sentou-se na beirada da cama, ignorando o protesto de seus músculos. Ele olhou para Wandinha com uma mistura de adoração e terror.
— Você realmente me ama, não é? Do seu jeito distorcido e aterrorizante.
Wandinha atravessou o quarto com passos rápidos e parou a centímetros dele. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, seus dedos frios contrastando com a febre que ainda emanava da pele dele.
— Eu amo o caos que você traz para a minha ordem — disse ela, a voz vibrando com uma paixão sombria. — Eu amo o fato de que você é o único ser neste planeta capaz de me fazer sentir algo além de desprezo. E se amar você significa caminhar pelo fogo, então eu espero que você goste de queimaduras, Tyler Galpin. Porque eu não pretendo parar.
Tyler puxou-a para um beijo. Tinha gosto de chá amargo e desespero, mas também de uma promessa antiga e inquebrável. Wandinha não recuou; em vez disso, ela aprofundou o contato, suas unhas cravando-se levemente na nuca dele, marcando-o como seu.
Quando se separaram, Tyler estava ofegante, um brilho novo em seus olhos. O monstro ainda estava lá, mas agora havia algo mais. Havia um propósito.
— O que você quer que eu faça? — perguntou ele, sua voz agora firme, sedutora e perigosa.
Wandinha deu um meio sorriso, o tipo de sorriso que precedia a queda de impérios.
— Primeiro, você vai se vestir. Depois, vamos queimar este apartamento e tudo o que nos liga ao passado. O Círculo de Sangue acha que nos encurralou. Eles não percebem que acabaram de nos dar o combustível de que precisávamos.
Ela caminhou até a escrivaninha e pegou um pequeno frasco de líquido negro, guardando-o no bolso do sobretudo.
— Mão, prepare as malas. Estamos partindo.
— Para onde vamos? — perguntou Tyler, levantando-se com esforço, mas com uma determinação renovada.
Wandinha olhou para ele, seus olhos negros brilhando com uma inteligência predatória.
— Para onde as sombras são mais profundas, Tyler. Vamos para casa. Não para Nevermore, nem para Jericho. Vamos para a Mansão Addams. Meu pai sempre disse que a família é o melhor lugar para esconder um corpo... ou para treinar um monstro.
Tyler riu, um som que desta vez não continha desespero, mas sim uma antecipação sombria.
— Acho que vou gostar de conhecer seus pais.
— Duvido — disse Wandinha, pegando sua mochila. — Minha mãe vai tentar analisar sua psique e meu pai vai querer duelar com você até a morte. Mas eles vão adorar o fato de você ser um pária procurado pela justiça. É o tipo de pedigree que eles respeitam.
Enquanto saíam do apartamento, deixando para trás os cacos de vidro e as manchas de sangue, Wandinha sentiu uma estranha sensação de paz. O caos lá fora era vasto, mas o vínculo entre ela e Tyler era uma âncora feita de ferro e espinhos.
Eles desceram as escadas decrépitas em silêncio, dois predadores movendo-se em sincronia. O vento de Vermont ainda sibilava, mas agora parecia um sussurro de boas-vindas.
— Wandinha? — chamou Tyler, quando estavam prestes a entrar no carro roubado que os levaria para o sul.
— Diga.
— Se o Hyde tentar assumir o controle no caminho... se eu esquecer quem você é por um segundo...
Wandinha parou com a mão na maçaneta da porta. Ela olhou para ele por cima do ombro, a expressão impenetrável.
— Eu tenho um canivete de prata no meu bolso e uma vontade férrea de ver você sofrer se me desapontar. Você não vai esquecer, Tyler. Eu sou o seu pesadelo favorito.
Tyler sorriu, um sorriso que era puramente Hyde em sua ferocidade.
— É por isso que eu nunca vou te deixar.
O carro arrancou, deixando para trás uma trilha de fumaça e o silêncio de uma vida que não pertencia mais a eles. À frente, a estrada se estendia como uma fita negra sob o céu cinzento. Wandinha Addams não acreditava em finais felizes; ela acreditava em finais sangrentos, em vinganças poéticas e em lealdades que transcendiam a razão.
E enquanto olhava para Tyler, que dirigia com a mão enfaixada firme no volante, ela soube que, pela primeira vez em sua vida, ela não estava apenas observando a escuridão. Ela era a escuridão. E ela tinha encontrado seu igual.
A guerra estava apenas começando, e Vermont era apenas o primeiro campo de batalha deixado em cinzas. O mundo ainda não sabia, mas Wandinha e Tyler eram o eclipse que apagaria o sol. E no frio daquela manhã, sob o olhar atento da Mão no banco de trás, eles selaram seu pacto não com palavras, mas com o silêncio compartilhado daqueles que sabem que o inferno é apenas outro nome para o lar, desde que estejam juntos.
