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On my block
Fandom: On my block
Criado: 01/07/2026
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DramaAngústiaPsicológicoSombrioSuspenseEstudo de PersonagemCrimeCiúmesNoirAbuso de ÁlcoolUso de Drogas
Sombras sob o Sol de Freeridge
A luz do sol em Freeridge sempre pareceu ter uma tonalidade diferente, um dourado que tentava, a todo custo, camuflar as rachaduras no asfalto e as marcas de balas nos muros. Para Mia, essa luz era sua melhor aliada. Com seus cabelos loiros ondulados que pareciam capturar cada raio solar e olhos azuis que brilhavam com uma gentileza quase angelical, ela era o que todos chamavam de "o raio de sol do bairro". Aos quinze anos, Mia era a personificação da doçura; um sorriso que desarmava os mais brutos e uma voz que soava como uma melodia suave em meio ao caos das sirenes constantes.
Mas a luz de Mia era um reflexo enganoso. Por trás da fachada de garota perfeita, meiga e sorridente, existia um abismo de silêncio que ela vinha cavando desde os dez anos de idade.
Naquela tarde de terça-feira, ela caminhava em direção à casa dos Diaz. Ruby, seu melhor amigo de infância, provavelmente estaria reclamando de algum drama familiar ou planejando uma nova estratégia para conquistar Jasmine. Mia gostava de ouvir Ruby. A tagarelice dele era um ruído branco que abafava os gritos internos que ela nunca permitiu que escapassem.
— Mia! Graças a Deus você chegou! — Ruby exclamou, abrindo a porta antes mesmo que ela batesse. — Minha mãe está fazendo tamales e o cheiro está me deixando louco, e o Jamal ainda não atendeu o celular. Aquele garoto está obcecado com o RollerWorld de novo.
Mia riu, um som cristalino que parecia iluminar a varanda empoeirada.
— Oi, Ruby. Deixa o Jamal, você sabe que ele não consegue evitar um mistério. — Ela entrou, sentindo o calor familiar da casa. — Onde está a Abuelita?
— No quintal, provavelmente fumando escondido e fingindo que está rezando — Ruby revirou os olhos, mas sorriu. — Entra, vamos para o meu quarto. Preciso da sua ajuda com o dever de álgebra.
Mia o seguiu, mas seus passos vacilaram por um segundo quando ela passou pelo corredor. O ambiente parecia subitamente mais frio. Havia uma tensão no ar que ela não conseguia explicar, um cheiro de fumaça e couro que não pertencia a Ruby.
— Está tudo bem? — Ruby perguntou, parando na porta do quarto.
— Sim, claro — Mia forçou um sorriso, o mesmo que usava há cinco anos. — Só tive uma tontura leve. Acho que não bebi água o suficiente hoje.
— Você precisa se cuidar, loirinha. O que seríamos de nós sem o nosso amuleto da sorte?
Eles se sentaram na cama de Ruby, cercados por livros e cadernos. Por quase uma hora, Mia fingiu estar concentrada nas equações lineares, enquanto seu coração batia num ritmo frenético e descompassado. Ela sentia que algo estava errado. O universo tinha uma maneira cruel de cobrar dívidas, e Mia sabia que a sua era impagável.
O som da porta da frente abrindo ecoou pela casa. Não era o passo leve da Sra. Diaz, nem o caminhar apressado de Cesar. Eram passos pesados, deliberados. Botas batendo contra o piso de madeira com uma autoridade que fez o sangue de Mia congelar nas veias.
— Ruby? — Uma voz grave, rouca e carregada de uma familiaridade aterrorizante chamou da sala. — Onde está todo mundo?
Ruby saltou da cama, os olhos arregalados de surpresa e, por um breve momento, alegria.
— Não pode ser... — ele sussurrou. — Oscar?
Mia sentiu o mundo girar. O nome "Oscar" era uma sentença de morte para a sua paz. Ela se encolheu, sentindo-se subitamente como a menina de dez anos que fora encurralada em um beco escuro, onde a inocência foi trocada pelo medo eterno. Oscar Diaz, o Spooky, o líder dos Santos, estava em casa. Ele estava livre.
— Mia, vem! Meu irmão saiu da prisão! — Ruby a puxou pelo pulso, sem notar que a mão dela estava gelada como o gelo.
Ela não teve escolha. Suas pernas se moveram mecanicamente, seguindo Ruby até a sala de estar. Lá, parado no centro do cômodo, estava o monstro de seus pesadelos. Oscar parecia maior do que ela se lembrava. As tatuagens em seu pescoço e cabeça pareciam mais nítidas, a aura de perigo que emanava dele era quase palpável.
Quando os olhos de Oscar encontraram os de Mia, o tempo parou.
— Olha só quem está aqui — disse Oscar, com um sorriso lento e predatório que não chegava aos olhos. — A pequena Mia.
— Oscar! — Ruby o abraçou, embora o irmão mais velho mal tenha retribuído, mantendo o olhar fixo na garota loira. — Por que não avisou que sairia hoje? Nós teríamos preparado uma festa!
— Não queria festa, homie — respondeu Oscar, sua voz vibrando no peito de Mia de uma forma que a fazia querer vomitar. — Queria apenas voltar para o que é meu.
Mia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O duplo sentido naquelas palavras era uma faca afiada contra sua garganta. Ela tentou manter a expressão neutra, a máscara de doçura que era sua única proteção.
— Oi, Oscar — disse ela, sua voz saindo mais estável do que esperava. — É bom ver que você está de volta.
Oscar deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ruby, em sua inocência, apenas sorria, feliz por ter a "família" reunida.
— É mesmo, Mia? — Oscar inclinou a cabeça, observando-a como um gato observa um passarinho ferido. — Você cresceu. Está... diferente. Mais bonita.
— Ela é a nossa melhor aluna, Oscar! — Ruby interveio, orgulhoso. — Mia ajuda todo mundo. Ela é como um anjo aqui no bairro.
— Um anjo — Oscar repetiu a palavra como se fosse uma piada interna. — Sim, ela sempre teve essa cara de quem nunca quebrou um prato. Mas a gente sabe que até os anjos têm segredos, não é, pequena?
Mia desviou o olhar, sentindo as lágrimas queimarem no fundo dos olhos. Ela precisava sair dali. Agora.
— Ruby, eu... eu esqueci que prometi ajudar minha mãe com o jantar — mentiu ela, a voz começando a tremer. — Preciso ir.
— Ah, já? — Ruby fez uma careta de decepção. — Mas a gente nem terminou a álgebra.
— Eu te mando as respostas por mensagem, prometo.
Ela se virou para sair, mas a mão de Oscar disparou, segurando seu braço com uma força que prometia hematomas. O toque era quente e possessivo.
— Não tenha tanta pressa — disse ele, aproximando o rosto do ouvido dela, de modo que apenas ela pudesse ouvir. — Eu acabei de chegar. Temos muito tempo para colocar o papo em dia. Afinal, você ainda se lembra das nossas regras, não lembra?
Mia sentiu o ar faltar. As regras. O silêncio. A obediência. A posse. Desde os dez anos, ele a havia marcado como sua propriedade silenciosa, um segredo sombrio que ele usava para torturá-la psicologicamente sempre que tinha oportunidade antes de ser preso.
— Lembro — sussurrou ela, quase inaudível.
— Ótimo. — Ele soltou o braço dela, dando um tapinha leve em sua bochecha, um gesto que parecia carinhoso para quem via de longe, mas que para Mia era um tapa na alma. — Vá para casa. Mas não se esconda. Eu sei onde você mora.
Mia não esperou por outra palavra. Ela correu. Saiu pela porta, desceu os degraus da varanda e só parou de correr quando chegou ao seu quarto, trancando a porta e desabando no chão.
O sol de Freeridge continuava brilhando lá fora, mas para Mia, a escuridão tinha finalmente voltado para casa.
***
As semanas que se seguiram foram um exercício de sobrevivência. Mia tentou evitar a casa dos Diaz a todo custo, mas em Freeridge, os caminhos sempre se cruzavam. Oscar não era apenas um fantasma do passado; ele era uma presença constante e sufocante.
Ele a seguia com o carro, mantendo uma distância lenta, apenas para que ela visse os reflexos do sol no para-brisa. Ele aparecia nos arredores da escola, encostado em um muro, observando-a rir com Monse, Jamal e Ruby, o olhar dele queimando através da alegria falsa dela.
Certa noite, Mia estava voltando da biblioteca. O crepúsculo pintava o céu de roxo e laranja. O bairro estava estranhamente silencioso, um daqueles momentos de calmaria que precedem a tempestade.
O som de um motor potente rugiu atrás dela. Mia apressou o passo, o coração martelando contra as costelas. O Chevy preto parou ao lado do meio-fio, acompanhando seu ritmo.
— Quer uma carona, loirinha? — A voz de Oscar cortou o ar frio.
— Não, obrigada. Já estou quase chegando.
— Eu não perguntei se você queria — disse ele, a voz agora endurecida. — Entra no carro. Agora.
Mia parou. Ela olhou ao redor. A rua estava deserta. Se ela gritasse, alguém ouviria? E se ouvissem, alguém se atreveria a desafiar o Spooky? Ela sabia a resposta. Em Freeridge, o silêncio era a moeda de troca pela vida.
Ela abriu a porta do passageiro e sentou-se, mantendo o corpo o mais longe possível dele, colada à porta. O cheiro de Oscar — tabaco, colônia barata e algo puramente masculino e perigoso — preencheu seus pulmões.
Oscar não deu partida no carro imediatamente. Ele apenas ficou ali, com as mãos no volante, observando o perfil dela.
— Por que está fugindo de mim, Mia? — perguntou ele, o tom quase suave, o que era ainda mais assustador. — Depois de tudo o que eu fiz por você?
— Você não fez nada por mim — ela sussurrou, a coragem de repente borbulhando através do medo. — Você tirou tudo de mim. Eu era uma criança.
Oscar soltou uma risada seca, sem humor.
— Eu te dei proteção. Eu te dei um propósito. Você era a única coisa pura naquele mundo de merda, e eu te tomei para garantir que continuasse sendo minha.
— Eu não sou um objeto, Oscar.
— Não? — Ele se inclinou sobre o console central, prendendo-a contra o banco. — Então por que nunca contou para ninguém? Por que não contou para o Ruby? Ou para o seu querido Cesar?
Mia sentiu as lágrimas rolarem.
— Porque eu tive medo. Eu ainda tenho medo.
— Bom — disse ele, passando o polegar por uma lágrima na bochecha dela, um gesto de uma intimidade distorcida. — O medo mantém você viva. E o silêncio mantém você comigo.
— O que você quer de mim agora? — ela soluçou. — Eu tenho quinze anos. Eu só quero ter uma vida normal.
— Vida normal? — Oscar zombou. — Não existe vida normal para gente como nós, Mia. Você pode usar seus vestidos floridos e sorrir para os vizinhos, mas por dentro, você pertence ao lado escuro da rua. Você pertence a mim.
Ele ligou o carro e começou a dirigir devagar em direção à casa dela. O silêncio dentro do veículo era denso, carregado de anos de traumas não ditos.
— Eu vou sair com os Santos amanhã à noite — disse Oscar, enquanto estacionava em frente à casa de Mia. — Quero que você esteja na festa no armazém.
— Eu não posso... minha mãe não vai deixar.
— Diga que vai dormir na Monse. Dê um jeito. Se você não aparecer, eu vou até a sua janela. E você sabe que eu não vou apenas para conversar.
Mia olhou para a sua casa, onde a luz da varanda brilhava como um farol de uma segurança que não existia mais.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela, a voz quebrada. — Por que não me deixa em paz?
Oscar se aproximou, seus lábios quase roçando o ouvido dela.
— Porque você é a minha luz, pequena Mia. E eu sempre fui um monstro que prefere devorar a luz a viver na escuridão sozinho.
Mia saiu do carro sem olhar para trás. Ela entrou em casa, passou pela mãe com um "boa noite" apressado e se trancou no banheiro. Ligou o chuveiro no máximo para abafar o som do seu choro.
Ela olhou no espelho. A garota loira, de olhos azuis e aparência meiga ainda estava lá. Mas, pela primeira vez, Mia viu o que Oscar via. Ela viu as sombras sob sua pele, a marca invisível de um monstro que se recusava a soltá-la.
O passado não estava apenas voltando para assombrá-la; ele tinha vindo para reivindicar o que acreditava ser seu por direito. E Mia, com toda a sua doçura e luz, não sabia se tinha forças para lutar contra a escuridão que conhecia seu nome tão bem.
Lá fora, o Chevy preto de Oscar desapareceu na noite, deixando para trás apenas o cheiro de borracha queimada e a promessa de um tormento que estava apenas começando.
Mas a luz de Mia era um reflexo enganoso. Por trás da fachada de garota perfeita, meiga e sorridente, existia um abismo de silêncio que ela vinha cavando desde os dez anos de idade.
Naquela tarde de terça-feira, ela caminhava em direção à casa dos Diaz. Ruby, seu melhor amigo de infância, provavelmente estaria reclamando de algum drama familiar ou planejando uma nova estratégia para conquistar Jasmine. Mia gostava de ouvir Ruby. A tagarelice dele era um ruído branco que abafava os gritos internos que ela nunca permitiu que escapassem.
— Mia! Graças a Deus você chegou! — Ruby exclamou, abrindo a porta antes mesmo que ela batesse. — Minha mãe está fazendo tamales e o cheiro está me deixando louco, e o Jamal ainda não atendeu o celular. Aquele garoto está obcecado com o RollerWorld de novo.
Mia riu, um som cristalino que parecia iluminar a varanda empoeirada.
— Oi, Ruby. Deixa o Jamal, você sabe que ele não consegue evitar um mistério. — Ela entrou, sentindo o calor familiar da casa. — Onde está a Abuelita?
— No quintal, provavelmente fumando escondido e fingindo que está rezando — Ruby revirou os olhos, mas sorriu. — Entra, vamos para o meu quarto. Preciso da sua ajuda com o dever de álgebra.
Mia o seguiu, mas seus passos vacilaram por um segundo quando ela passou pelo corredor. O ambiente parecia subitamente mais frio. Havia uma tensão no ar que ela não conseguia explicar, um cheiro de fumaça e couro que não pertencia a Ruby.
— Está tudo bem? — Ruby perguntou, parando na porta do quarto.
— Sim, claro — Mia forçou um sorriso, o mesmo que usava há cinco anos. — Só tive uma tontura leve. Acho que não bebi água o suficiente hoje.
— Você precisa se cuidar, loirinha. O que seríamos de nós sem o nosso amuleto da sorte?
Eles se sentaram na cama de Ruby, cercados por livros e cadernos. Por quase uma hora, Mia fingiu estar concentrada nas equações lineares, enquanto seu coração batia num ritmo frenético e descompassado. Ela sentia que algo estava errado. O universo tinha uma maneira cruel de cobrar dívidas, e Mia sabia que a sua era impagável.
O som da porta da frente abrindo ecoou pela casa. Não era o passo leve da Sra. Diaz, nem o caminhar apressado de Cesar. Eram passos pesados, deliberados. Botas batendo contra o piso de madeira com uma autoridade que fez o sangue de Mia congelar nas veias.
— Ruby? — Uma voz grave, rouca e carregada de uma familiaridade aterrorizante chamou da sala. — Onde está todo mundo?
Ruby saltou da cama, os olhos arregalados de surpresa e, por um breve momento, alegria.
— Não pode ser... — ele sussurrou. — Oscar?
Mia sentiu o mundo girar. O nome "Oscar" era uma sentença de morte para a sua paz. Ela se encolheu, sentindo-se subitamente como a menina de dez anos que fora encurralada em um beco escuro, onde a inocência foi trocada pelo medo eterno. Oscar Diaz, o Spooky, o líder dos Santos, estava em casa. Ele estava livre.
— Mia, vem! Meu irmão saiu da prisão! — Ruby a puxou pelo pulso, sem notar que a mão dela estava gelada como o gelo.
Ela não teve escolha. Suas pernas se moveram mecanicamente, seguindo Ruby até a sala de estar. Lá, parado no centro do cômodo, estava o monstro de seus pesadelos. Oscar parecia maior do que ela se lembrava. As tatuagens em seu pescoço e cabeça pareciam mais nítidas, a aura de perigo que emanava dele era quase palpável.
Quando os olhos de Oscar encontraram os de Mia, o tempo parou.
— Olha só quem está aqui — disse Oscar, com um sorriso lento e predatório que não chegava aos olhos. — A pequena Mia.
— Oscar! — Ruby o abraçou, embora o irmão mais velho mal tenha retribuído, mantendo o olhar fixo na garota loira. — Por que não avisou que sairia hoje? Nós teríamos preparado uma festa!
— Não queria festa, homie — respondeu Oscar, sua voz vibrando no peito de Mia de uma forma que a fazia querer vomitar. — Queria apenas voltar para o que é meu.
Mia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O duplo sentido naquelas palavras era uma faca afiada contra sua garganta. Ela tentou manter a expressão neutra, a máscara de doçura que era sua única proteção.
— Oi, Oscar — disse ela, sua voz saindo mais estável do que esperava. — É bom ver que você está de volta.
Oscar deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ruby, em sua inocência, apenas sorria, feliz por ter a "família" reunida.
— É mesmo, Mia? — Oscar inclinou a cabeça, observando-a como um gato observa um passarinho ferido. — Você cresceu. Está... diferente. Mais bonita.
— Ela é a nossa melhor aluna, Oscar! — Ruby interveio, orgulhoso. — Mia ajuda todo mundo. Ela é como um anjo aqui no bairro.
— Um anjo — Oscar repetiu a palavra como se fosse uma piada interna. — Sim, ela sempre teve essa cara de quem nunca quebrou um prato. Mas a gente sabe que até os anjos têm segredos, não é, pequena?
Mia desviou o olhar, sentindo as lágrimas queimarem no fundo dos olhos. Ela precisava sair dali. Agora.
— Ruby, eu... eu esqueci que prometi ajudar minha mãe com o jantar — mentiu ela, a voz começando a tremer. — Preciso ir.
— Ah, já? — Ruby fez uma careta de decepção. — Mas a gente nem terminou a álgebra.
— Eu te mando as respostas por mensagem, prometo.
Ela se virou para sair, mas a mão de Oscar disparou, segurando seu braço com uma força que prometia hematomas. O toque era quente e possessivo.
— Não tenha tanta pressa — disse ele, aproximando o rosto do ouvido dela, de modo que apenas ela pudesse ouvir. — Eu acabei de chegar. Temos muito tempo para colocar o papo em dia. Afinal, você ainda se lembra das nossas regras, não lembra?
Mia sentiu o ar faltar. As regras. O silêncio. A obediência. A posse. Desde os dez anos, ele a havia marcado como sua propriedade silenciosa, um segredo sombrio que ele usava para torturá-la psicologicamente sempre que tinha oportunidade antes de ser preso.
— Lembro — sussurrou ela, quase inaudível.
— Ótimo. — Ele soltou o braço dela, dando um tapinha leve em sua bochecha, um gesto que parecia carinhoso para quem via de longe, mas que para Mia era um tapa na alma. — Vá para casa. Mas não se esconda. Eu sei onde você mora.
Mia não esperou por outra palavra. Ela correu. Saiu pela porta, desceu os degraus da varanda e só parou de correr quando chegou ao seu quarto, trancando a porta e desabando no chão.
O sol de Freeridge continuava brilhando lá fora, mas para Mia, a escuridão tinha finalmente voltado para casa.
***
As semanas que se seguiram foram um exercício de sobrevivência. Mia tentou evitar a casa dos Diaz a todo custo, mas em Freeridge, os caminhos sempre se cruzavam. Oscar não era apenas um fantasma do passado; ele era uma presença constante e sufocante.
Ele a seguia com o carro, mantendo uma distância lenta, apenas para que ela visse os reflexos do sol no para-brisa. Ele aparecia nos arredores da escola, encostado em um muro, observando-a rir com Monse, Jamal e Ruby, o olhar dele queimando através da alegria falsa dela.
Certa noite, Mia estava voltando da biblioteca. O crepúsculo pintava o céu de roxo e laranja. O bairro estava estranhamente silencioso, um daqueles momentos de calmaria que precedem a tempestade.
O som de um motor potente rugiu atrás dela. Mia apressou o passo, o coração martelando contra as costelas. O Chevy preto parou ao lado do meio-fio, acompanhando seu ritmo.
— Quer uma carona, loirinha? — A voz de Oscar cortou o ar frio.
— Não, obrigada. Já estou quase chegando.
— Eu não perguntei se você queria — disse ele, a voz agora endurecida. — Entra no carro. Agora.
Mia parou. Ela olhou ao redor. A rua estava deserta. Se ela gritasse, alguém ouviria? E se ouvissem, alguém se atreveria a desafiar o Spooky? Ela sabia a resposta. Em Freeridge, o silêncio era a moeda de troca pela vida.
Ela abriu a porta do passageiro e sentou-se, mantendo o corpo o mais longe possível dele, colada à porta. O cheiro de Oscar — tabaco, colônia barata e algo puramente masculino e perigoso — preencheu seus pulmões.
Oscar não deu partida no carro imediatamente. Ele apenas ficou ali, com as mãos no volante, observando o perfil dela.
— Por que está fugindo de mim, Mia? — perguntou ele, o tom quase suave, o que era ainda mais assustador. — Depois de tudo o que eu fiz por você?
— Você não fez nada por mim — ela sussurrou, a coragem de repente borbulhando através do medo. — Você tirou tudo de mim. Eu era uma criança.
Oscar soltou uma risada seca, sem humor.
— Eu te dei proteção. Eu te dei um propósito. Você era a única coisa pura naquele mundo de merda, e eu te tomei para garantir que continuasse sendo minha.
— Eu não sou um objeto, Oscar.
— Não? — Ele se inclinou sobre o console central, prendendo-a contra o banco. — Então por que nunca contou para ninguém? Por que não contou para o Ruby? Ou para o seu querido Cesar?
Mia sentiu as lágrimas rolarem.
— Porque eu tive medo. Eu ainda tenho medo.
— Bom — disse ele, passando o polegar por uma lágrima na bochecha dela, um gesto de uma intimidade distorcida. — O medo mantém você viva. E o silêncio mantém você comigo.
— O que você quer de mim agora? — ela soluçou. — Eu tenho quinze anos. Eu só quero ter uma vida normal.
— Vida normal? — Oscar zombou. — Não existe vida normal para gente como nós, Mia. Você pode usar seus vestidos floridos e sorrir para os vizinhos, mas por dentro, você pertence ao lado escuro da rua. Você pertence a mim.
Ele ligou o carro e começou a dirigir devagar em direção à casa dela. O silêncio dentro do veículo era denso, carregado de anos de traumas não ditos.
— Eu vou sair com os Santos amanhã à noite — disse Oscar, enquanto estacionava em frente à casa de Mia. — Quero que você esteja na festa no armazém.
— Eu não posso... minha mãe não vai deixar.
— Diga que vai dormir na Monse. Dê um jeito. Se você não aparecer, eu vou até a sua janela. E você sabe que eu não vou apenas para conversar.
Mia olhou para a sua casa, onde a luz da varanda brilhava como um farol de uma segurança que não existia mais.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela, a voz quebrada. — Por que não me deixa em paz?
Oscar se aproximou, seus lábios quase roçando o ouvido dela.
— Porque você é a minha luz, pequena Mia. E eu sempre fui um monstro que prefere devorar a luz a viver na escuridão sozinho.
Mia saiu do carro sem olhar para trás. Ela entrou em casa, passou pela mãe com um "boa noite" apressado e se trancou no banheiro. Ligou o chuveiro no máximo para abafar o som do seu choro.
Ela olhou no espelho. A garota loira, de olhos azuis e aparência meiga ainda estava lá. Mas, pela primeira vez, Mia viu o que Oscar via. Ela viu as sombras sob sua pele, a marca invisível de um monstro que se recusava a soltá-la.
O passado não estava apenas voltando para assombrá-la; ele tinha vindo para reivindicar o que acreditava ser seu por direito. E Mia, com toda a sua doçura e luz, não sabia se tinha forças para lutar contra a escuridão que conhecia seu nome tão bem.
Lá fora, o Chevy preto de Oscar desapareceu na noite, deixando para trás apenas o cheiro de borracha queimada e a promessa de um tormento que estava apenas começando.
