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O monstro do passado

Fandom: On my block

Criado: 01/07/2026

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DramaAngústiaPsicológicoSombrioCrimeSuspenseEstudo de PersonagemCenário Canônico
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Sombras do Passado em Freeridge

O sol de Freeridge parecia brilhar com uma intensidade diferente naquela manhã, mas para Lily, a luz apenas tornava as sombras mais nítidas. Ela se olhou no espelho, ajeitando as ondas de seu cabelo loiro que caíam sobre os ombros. Seus olhos azuis, geralmente descritos pelos vizinhos como "janelas para o céu", carregavam um cansaço que nenhuma noite de sono poderia curar.

Lily era, para todos os efeitos, o anjo do bairro. Ela ajudava as senhoras com as compras, mediava as brigas de Jamal e Monse, e era o porto seguro de Cesar. Ela queria salvar a todos, talvez para compensar o fato de que, anos atrás, ninguém pudera salvá-la.

Um toque suave na porta a tirou de seus pensamentos. Era Rubi, seu primo e o único que carregava o peso do seu segredo.

— Lily? — Rubi entrou, fechando a porta com uma cautela exagerada. — Você ouviu os boatos?

Lily sentiu um nó gelado se formar em seu estômago. Ela sabia exatamente do que ele estava falando, mas a negação era sua melhor defesa.

— Que boatos, Rubi? Jamal achou outro mapa do tesouro? — Ela tentou rir, mas o som saiu oco.

Rubi se aproximou, sua expressão séria contrastando com sua habitual energia vibrante.

— Ele saiu, Lily. O Spooky. Oscar está de volta ao bairro.

O mundo pareceu girar mais devagar. Aos dez anos, enquanto as outras crianças brincavam de esconde-esconde, Lily tinha sido marcada. Oscar Diaz, o irmão mais velho de seu melhor amigo, tinha decidido que ela pertencia a ele, de uma forma distorcida e silenciosa que apenas o medo de uma criança poderia sustentar. Foram anos de ameaças veladas e uma possessividade que a sufocava, até o dia em que ele foi preso.

— Ele não pode chegar perto de mim, Rubi — sussurrou Lily, suas mãos tremendo levemente. — Cesar não sabe. Ninguém sabe. Se o Cesar descobrir o que o irmão dele fez... o que ele me obrigou a esconder...

— O Cesar mataria ele, ou morreria tentando — completou Rubi, sentando-se na beira da cama. — E é por isso que vamos manter o plano. Você age normalmente. Eu fico de vigia. O grupo não pode desconfiar.

— O grupo nunca desconfia de nada que não esteja bem na frente do nariz deles — disse Lily, tentando recuperar a compostura. — Vamos. O Jamal deve estar tendo um colapso sobre o RollerWorld a essa hora.

Eles saíram de casa e caminharam em direção à residência dos Diaz. O clima em Freeridge estava pesado. A notícia da libertação de Oscar "Spooky" Diaz tinha se espalhado como pólvora. Para os Santos, era a volta do rei. Para Lily, era o retorno do seu pior pesadelo.

Ao chegarem, encontraram Jamal gesticulando freneticamente enquanto Monse revirava os olhos. Cesar estava sentado no degrau da entrada, com um sorriso que não alcançava seus olhos.

— Ei, anjo — disse Cesar, levantando-se para abraçar Lily. — Que bom que você veio.

Lily forçou-se a não retesar os músculos ao ser envolvida pelo abraço do melhor amigo. O cheiro de Cesar era de sabão e juventude, tão diferente do cheiro de tabaco e perigo que ela associava ao sobrenome Diaz.

— Sempre aqui, Cesar — respondeu ela, dando um beijo em sua bochecha.

— Vocês não vão acreditar! — exclamou Jamal, interrompendo o momento. — Eu encontrei uma conexão entre o RollerWorld e a antiga biblioteca!

— Jamal, agora não é hora para teorias da conspiração — cortou Monse, olhando preocupada para a porta da casa. — O clima está estranho.

— É por causa do meu irmão — disse Cesar, seu tom de voz caindo uma oitava. — Ele está lá dentro. Está... diferente.

Nesse exato momento, a porta de tela rangeu. O som foi como um tiro para Lily.

Oscar saiu para a varanda. Ele estava sem camisa, exibindo as tatuagens que contavam a história de sua vida no crime e os anos passados atrás das grades. Seus olhos escuros percorreram o grupo, ignorando Jamal e Monse, passando brevemente por Rubi — que engoliu em seco — e finalmente pousando em Lily.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Olá, família — disse Oscar, sua voz rouca e arrastada.

— Oscar — disse Cesar, dando um passo à frente. — Você já conheceu todo mundo, mas essa é a Lily. Ela tem cuidado de mim enquanto você estava fora.

Oscar desceu o primeiro degrau, movendo-se com a agilidade predatória de um lobo. Ele parou a poucos centímetros de Lily. O calor que emanava dele era opressor.

— Lily — repetiu ele, saboreando o nome como se fosse um segredo compartilhado. — Eu me lembro da pequena Lily. Você cresceu... exatamente como eu imaginei que cresceria.

Lily sentiu o sangue fugir de seu rosto. As palavras dele tinham um duplo sentido que apenas ela e Rubi entendiam. Para Cesar, parecia apenas um comentário nostálgico de um vizinho antigo.

— É bom ver que você está de volta, Oscar — mentiu Lily, sua voz saindo mais firme do que ela esperava. — Freeridge sentiu sua falta.

— Eu duvido disso — disse Oscar, abrindo um sorriso frio que não mostrava os dentes. — Mas eu certamente senti falta de casa. Há certas coisas que a gente nunca esquece onde deixou.

Ele estendeu a mão e, antes que Lily pudesse reagir, ele tocou uma mecha de seu cabelo loiro, enrolando-a no dedo.

— Ainda ondulado — comentou ele. — E ainda cheira a baunilha.

Cesar franziu a testa, sentindo uma pontada de desconforto que não conseguia explicar.

— Oscar, deixa ela em paz. A Lily é sensível.

Oscar soltou o cabelo dela, mas seus olhos nunca deixaram os dela.

— Sensível? — Ele soltou uma risada curta e sem humor. — Não, Cesar. Você não conhece a Lily tão bem quanto pensa. Ela é muito mais forte do que parece. Não é, passarinho?

O apelido de infância — o nome que ele usava quando a encurralava no beco aos dez anos para exigir sua lealdade — fez Lily estremecer.

— Eu tenho que ir — disse ela abruptamente. — Rubi, você vem?

— Ah, sim! — Rubi saltou, quase tropeçando nos próprios pés. — Temos... dever de casa. Muita álgebra. Coisa de louco.

Eles se afastaram rapidamente, mas Lily podia sentir o olhar de Oscar queimando em suas costas durante todo o trajeto até a esquina.

— Ele vai contar, Rubi — sussurrou Lily assim que estavam fora de vista. — Ele vai contar para o Cesar só para me destruir.

— Ele não vai — tentou consolar Rubi, embora sua própria voz tremesse. — Ele acabou de sair da condicional. Ele não quer drama familiar agora.

— Você viu o olhar dele? — Lily parou, abraçando o próprio corpo. — Ele não quer paz, Rubi. Ele quer o que ele acha que é dele por direito. Ele me vê como uma propriedade que ele deixou guardada antes de ir para a prisão.

Enquanto isso, na varanda dos Diaz, Oscar observava a silhueta loira desaparecer. Cesar o observava com desconfiança.

— Qual é o seu problema, mano? — perguntou Cesar. — Você agiu de um jeito estranho com ela.

Oscar pegou um cigarro e o acendeu, soprando a fumaça para o alto.

— O mundo é um lugar sujo, Cesar — disse ele, sem olhar para o irmão. — E as coisas mais bonitas são as que escondem os segredos mais feios. Você deveria prestar mais atenção nas pessoas que ama.

— A Lily é perfeita — defendeu Cesar, irritado. — Ela ajuda todo mundo. Ela é a única razão pela qual eu não entrei para a gangue ainda.

Oscar riu, desta vez com um som que gelou a espinha de Cesar.

— Ela é um anjo, não é? — Oscar virou-se para entrar na casa. — Mas até os anjos caem, hermanito. E quando caem, eles caem direto nos braços de quem os espera no inferno.

A noite caiu sobre Freeridge, mas Lily não conseguiu dormir. Ela tinha trancado a janela e a porta, algo que raramente fazia naquele bairro onde todos se conheciam. A cada som de carro passando ou latido de cachorro, seu coração disparava.

Por volta das duas da manhã, seu celular vibrou na mesa de cabeceira. Não era uma chamada, era uma mensagem de um número desconhecido.

"O passarinho ainda vive na mesma gaiola. Senti sua falta hoje, Lily. O passado nunca fica trancado para sempre. Vejo você amanhã."

Lily deixou o celular cair sobre o cobertor. As lágrimas que ela vinha segurando desde que viu Oscar na varanda finalmente transbordaram. Ela sempre soube que esse dia chegaria. Ela tinha passado anos construindo uma fachada de perfeição, sendo a menina bondosa que todos amavam, esperando que a bondade pudesse apagar as marcas invisíveis que Oscar tinha deixado nela.

Mas Freeridge não perdoava e o passado não esquecia.

Na manhã seguinte, Lily tentou manter a rotina. Ela preparou muffins para a Sra. Rodriguez e ajudou Jamal a organizar seus novos mapas, mas sua mente estava em outro lugar. Ela sentia que estava sendo observada em cada esquina.

Ao meio-dia, quando estava voltando da biblioteca, um Impala preto reduziu a velocidade ao lado dela. O vidro escuro baixou lentamente, revelando o rosto tatuado de Oscar.

— Quer uma carona, Lily? — perguntou ele.

— Não, obrigada, Oscar. Eu gosto de caminhar.

— É perigoso caminhar sozinha por aqui — disse ele, abrindo a porta do passageiro por dentro. — Entre. Temos muito o que conversar. Sobre o Rubi. Sobre o Cesar. Sobre o que aconteceu quando você tinha dez anos.

Lily parou. O ultimato estava dado. Se ela não entrasse naquele carro, ele destruiria a única coisa que ela valorizava: a imagem que seus amigos tinham dela e, principalmente, a paz de Cesar.

— Se eu entrar — disse ela, sua voz tremendo —, você promete deixar o Cesar fora disso?

Oscar sorriu, um brilho malévolo em seus olhos.

— Eu não prometo nada, passarinho. Mas se você for uma boa menina, talvez eu demore um pouco mais para contar a verdade a ele.

Lily olhou para a rua deserta, depois para o homem que tinha sido seu pesadelo pessoal por metade de sua vida. Com um suspiro de derrota, ela entrou no carro.

Enquanto o Impala se afastava, Rubi, que observava de longe escondido atrás de uma árvore, sentiu o mundo desabar. Ele pegou o celular para ligar para Cesar, mas hesitou. A verdade poderia libertar Lily, mas também poderia destruir o grupo para sempre.

O passado não estava apenas batendo à porta; ele tinha acabado de arrombá-la e levar Lily consigo. E em Freeridge, uma vez que você entra no carro de um Santo, o caminho de volta é sempre pavimentado com dor.
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