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E se o seu idol respondesse o seu direct

Fandom: BTS Army

Criado: 02/07/2026

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Eco de um Silêncio Compartilhado

A luz azulada da tela do celular era a única companhia de Anne naquela madrugada de terça-feira. O silêncio do quarto parecia amplificar o som das teclas virtuais, um "clique-clique" rítmico que servia como trilha sonora para suas confissões mais profundas. Após o susto que Letícia lhe dera na faculdade, Anne tentara, de fato, parar. Passou três dias sem abrir a caixa de mensagens de Park Jimin. Três dias sentindo um vazio estranho, como se tivesse esquecido de trancar a porta de casa ou de apagar uma luz acesa.

— É ridículo — sussurrou para as paredes vazias, os dedos pairando sobre o teclado. — Ele nunca vai ler. Ele nem sabe que eu existo entre milhões.

Mas a necessidade de falar era maior que a lógica. Anne não tinha um diário de papel; ela tinha o *direct* de um dos homens mais famosos do planeta. Para ela, aquele chat era um buraco negro terapêutico: ela jogava suas dores, frustrações e pequenas alegrias ali, acreditando que elas viajariam pelo éter digital e desapareceriam no vácuo.

Naquela noite, o peso era a saúde de sua avó e a pressão sufocante do último ano de curso.

"Jimin-ssi," ela começou a digitar, o coração desacelerando à medida que as palavras fluíam. "Hoje o dia foi cinza. Sabe quando o ar parece pesado demais para respirar? Minha avó esqueceu meu nome pela primeira vez hoje. Ela me olhou e perguntou quem era a 'moça gentil' que estava trazendo o chá. Dói mais do que eu achei que doeria. Ouvi 'Promise' no ônibus voltando para casa e, por três minutos, eu não precisei ser a neta forte. Obrigada por ser meu esconderijo."

Ela apertou enviar. Um suspiro longo escapou de seus lábios. O ícone de "enviado" apareceu, estático, sem o temido (ou desejado) sinal de visualização. Anne bloqueou o celular e adormeceu, sentindo-se um pouco mais leve.

Do outro lado do mundo, em um fuso horário completamente diferente, o sol de Seul batia suavemente nas cortinas de seda de um apartamento de luxo. Park Jimin estava exausto. O ensaio para sua estreia solo tinha se estendido até as três da manhã e seus músculos protestavam a cada movimento. Ele estava sentado no sofá, com uma caneca de chá de gengibre entre as mãos, observando a cidade acordar pela janela.

O tédio e a insônia eram companheiros frequentes. Ele pegou o celular, pretendendo apenas olhar o Instagram por alguns minutos antes de tentar dormir novamente. Ele raramente abria suas mensagens diretas; a enxurrada de declarações de amor, pedidos de casamento e spam era avassaladora. No entanto, naquele dia, um ícone de notificação específico parecia brilhar de forma diferente.

Ele clicou na aba de solicitações e, por um impulso que nem ele saberia explicar, começou a rolar a tela. Seus olhos pararam em um nome: Anne. Não havia uma foto de perfil profissional, apenas a imagem de um céu crepuscular.

Jimin abriu a conversa.

Seus olhos se arregalaram levemente ao ver a extensão do histórico. Havia meses de mensagens. Centenas delas. Ele começou a subir o chat, voltando semanas, meses.

— O que é isso? — murmurou em coreano, a voz rouca pelo cansaço.

Ele começou a ler. No início, eram mensagens típicas de fã: "Bom dia, coma bem", "Espero que esteja descansando". Mas, conforme ele rolava, o tom mudava. Anne falava sobre a faculdade, sobre a briga que teve com o pai, sobre a insegurança de não ser boa o suficiente naquilo que amava. Ela falava sobre como a voz dele a ajudava a não desistir.

Jimin sentiu um aperto estranho no peito. Não era a adoração cega que ele estava acostumado a receber; era humanidade pura. Aquela garota, em algum lugar do Brasil, estava usando o espaço dele para se manter sã.

Ele leu a mensagem sobre a avó dela, enviada há poucos minutos no horário dela.

— "A moça gentil..." — Jimin repetiu a tradução mentalmente, sentindo uma onda de melancolia. — Sinto muito, Anne.

Ele quase digitou algo. Seus dedos tocaram a tela, mas ele hesitou. O que ele diria? Como explicaria que estava lendo o diário secreto dela? Ele era um idol, ela era uma fã. Havia uma barreira invisível, porém intransponível, feita de contratos, segurança e a própria natureza da fama.

Ele fechou o aplicativo, mas a imagem das palavras dela permaneceu.

As semanas se passaram. Para Anne, o hábito se tornou uma parte vital de sua rotina. Ela contava a Jimin sobre o café ruim da cantina, sobre a música nova que descobriu, sobre o medo do futuro. Ela nunca esperava uma resposta, e era justamente essa falta de expectativa que a tornava tão honesta.

Para Jimin, ler as mensagens de Anne tornou-se um ritual silencioso. Ele não lia as de mais ninguém. Havia algo na escrita dela — traduzida com cuidado por ele em aplicativos de idiomas — que o acalmava. Era como se, através dela, ele pudesse viver um pouco de uma vida normal. Ele sabia que ela gostava de dias chuvosos, que tinha medo de aranhas e que sua cor favorita não era o amarelo, como ele supunha, mas um tom específico de azul profundo.

Certa noite, após um dia particularmente difícil de críticas sobre sua performance vocal, Jimin sentiu-se pequeno. Ele estava no estúdio, sozinho, cercado por equipamentos caros, mas sentindo-se um impostor. Ele abriu o Instagram.

Havia uma mensagem nova de Anne.

"Jimin-ssi, hoje eu vi um vídeo seu antigo, da época do debut. Você parecia tão determinado, mas seus olhos tinham aquele brilho de quem está com medo, sabe? Às vezes eu esqueço que você também é humano. Espero que, onde quer que você esteja agora, você saiba que sua voz é o abraço que eu não recebo de ninguém. Não seja tão duro consigo mesmo. Você já é o bastante."

Lágrimas teimosas pinicaram os olhos do artista. Como ela podia saber? Como aquela estranha conseguia ler sua alma através de um oceano de distância?

— Chega de silêncio — disse ele para si mesmo.

Ele sabia que poderia ter problemas com a gerência se descobrissem que ele estava interagindo de forma privada, mas a conexão parecia real demais para ser ignorada. Ele não queria um escândalo, ele queria apenas... retribuir o abraço.

No Brasil, Anne estava sentada na biblioteca da faculdade, tentando se concentrar em um artigo sobre psicologia do desenvolvimento. O celular vibrou sobre a mesa de madeira. Ela o pegou distraidamente, esperando um grupo de WhatsApp da família ou um aviso de Letícia.

A notificação na tela de bloqueio fez seu coração parar por um segundo completo.

*Instagram: @j.m enviou uma mensagem para você.*

— Não... — ela sussurrou, a voz falhando. — É um bug. Com certeza é um bug.

Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou o aparelho. Ela desbloqueou a tela com dedos trêmulos e entrou no aplicativo. O selo de verificado azul brilhava ao lado do nome dele. A mensagem estava lá.

Jimin não tinha apenas visualizado. Ele tinha respondido.

— Anne? O que foi? Você está pálida — Letícia apareceu ao seu lado, franzindo o cenho.

Anne não conseguia falar. Ela apenas virou a tela para a amiga.

— O quê? Mentira! — Letícia quase gritou, atraindo olhares furiosos dos outros estudantes na biblioteca. — Isso é real? O Park Jimin te respondeu?

Anne voltou os olhos para a tela, ignorando o burburinho ao redor. A mensagem era curta, escrita em um inglês cuidadoso, provavelmente com a ajuda de um tradutor, mas a essência era dele.

— "Obrigado por ser minha amiga, mesmo sem saber. O café da cantina pode ser ruim, mas seus dias vão melhorar. Por favor, continue me contando sobre o azul profundo. Eu estou ouvindo."

As lágrimas que Anne tanto tentara segurar durante as últimas semanas de estresse finalmente caíram, molhando a tela do celular.

— Ele leu... — ela soluçou baixo, um misto de pânico e alívio absoluto. — Ele leu tudo, Letícia.

— E ele quer que você continue falando! — Letícia estava em choque, as mãos na boca. — Anne, você tem noção do que isso significa?

Anne não tinha noção. Ela sentia como se o chão tivesse desaparecido, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha medo de cair. Ela sentia que havia alguém lá embaixo para segurá-la.

Longe dali, em Seul, Jimin guardou o celular no bolso da jaqueta. Ele tinha um sorriso leve no rosto enquanto caminhava em direção à sala de prática. O peso em seus ombros parecia ter diminuído. Ele não era apenas um idol para aquela garota; ele era um confidente. E, de alguma forma, saber que Anne estava lá fora, vivendo sua vida comum e compartilhando-a com ele, fazia com que o mundo da fama parecesse um pouco menos solitário.

Ele parou diante do espelho da sala de ensaio e ajeitou o cabelo.

— Azul profundo... — ele murmurou, testando as palavras. — É uma cor bonita, Anne.

De volta à biblioteca, Anne respirou fundo, limpou as lágrimas e começou a digitar. A vergonha que sentira antes tinha evaporado. O muro tinha caído.

— Oi, Jimin-ssi... — ela escreveu, sorrindo através do choro. — Você não imagina o quanto eu precisava ouvir isso hoje.

A partir daquele dia, o *direct* deixou de ser um buraco negro. Tornou-se uma ponte. Uma ponte estreita, perigosa e secreta, mas que suportava o peso de dois corações que, apesar de viverem em mundos opostos, encontraram um no outro o eco de suas próprias solidões.

Anne ainda era a estudante de psicologia que enfrentava problemas familiares, e Jimin ainda era o astro global sob os holofotes. Mas, no pequeno espaço de uma caixa de mensagens, eles eram apenas Anne e Jimin. E isso era mais do que suficiente.

— Você vai contar para alguém? — Letícia perguntou, ainda em transe.

— Não — Anne respondeu firmemente, guardando o celular perto do coração. — Isso é só nosso. Algumas coisas são valiosas demais para serem divididas com o resto do mundo.

Ela voltou para seus livros, mas a caneta agora deslizava pelo papel com uma energia nova. O silêncio da biblioteca não era mais opressor; era calmo. O porto seguro que ela buscava nas músicas dele agora tinha um rosto, uma voz e, milagrosamente, uma resposta. E, no fundo, ela sabia que aquele era apenas o começo de uma história que nenhum algoritmo poderia prever.
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