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Além do dinheiro
Fandom: Gossip gilr
Criado: 02/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoCenário CanônicoDiscriminaçãoCiúmesEstudo de Personagem
O Preço do Silêncio e o Peso do Cetim
As escadarias do Metropolitan Museum of Art eram o trono de Blair Waldorf, e Clara sabia exatamente qual era o seu lugar naquela hierarquia: três degraus abaixo, no anonimato das sombras. Para o resto da Constance Billard, Clara era apenas a bolsista silenciosa, a menina de uniforme impecável, mas cujas curvas não seguiam o padrão editorial da *Vogue* e cujas origens eram ocultadas por um pacto de silêncio.
Blair a olhou de soslaio, ajustando a tiara de seda com um movimento calculado. Ninguém ali sabia que, todas as noites, Clara ajudava Dorota a polir a prataria dos Waldorf e que Blair, em seus momentos de vulnerabilidade, dividia com ela macarons e segredos. Mas, na escola, o protocolo era absoluto.
— O iogurte de hoje está intragável — declarou Blair para o grupo de seguidoras, sem dirigir o olhar diretamente a Clara. — Não é, Clara?
— Sim, Blair. Um pouco ácido demais — respondeu Clara, mantendo a voz baixa e os olhos fixos em seu livro de literatura russa.
A humilhação de ser invisível para o mundo era um preço que ela pagava com resignação. O que realmente doía, o que queimava como ácido em suas veias, era o som dos passos pesados que se aproximavam. Ela conhecia aquele ritmo. Conhecia o cheiro de sândalo e uísque caro antes mesmo dele dobrar a esquina.
Chuck Bass surgiu como uma miragem de decadência e poder. Ele não olhou para ela. Nunca olhava em público.
— Blair — cumprimentou ele, com aquele tom arrastado que costumava fazer o coração de Clara disparar. — Temos uma festa no Empire hoje. Traga suas subordinadas. Menos, é claro, as que não combinam com a decoração.
Ele lançou um olhar rápido, gélido e carregado de escárnio para Clara. Um olhar que dizia "você não pertence aqui".
Clara sentiu um nó na garganta. Era difícil conciliar aquele monstro arrogante com o rapaz que, há apenas dois meses, sussurrava promessas debaixo dos lençóis de linho de sua suíte, longe dos olhos do mundo. Chuck fora seu primeiro tudo. O primeiro beijo roubado no sótão, a primeira vez que ela se sentiu desejada apesar de suas inseguranças com o corpo, a primeira pessoa a quem ela entregou sua alma.
E ele a jogara fora como se fosse um acessório de uma coleção passada. "Seria vergonhoso um relacionamento com a filha da empregada", ele dissera na noite em que ela tentou oficializar o que tinham. Aquelas palavras foram o fim. Clara terminou com ele ali mesmo, entre lágrimas que ele ignorou com um gole de bebida.
— Eu não vou à festa — Clara disse, de repente, sua voz saindo mais firme do que pretendia.
Blair arqueou uma sobrancelha, surpresa com a insubordinação. Chuck parou o movimento de ajeitar o lenço no pescoço.
— E quem perguntou? — Chuck rebateu, a voz carregada de veneno. — Garotas como você servem para limpar a bagunça depois que a festa acaba, Clara. Não para serem convidadas.
As outras garotas riram. Clara sentiu o rosto arder, mas não baixou a cabeça. Ela se levantou, fechando o livro com força.
— Você tem razão, Chuck. Eu cansei de limpar a sua bagunça. Em todos os sentidos.
Ela saiu caminhando, sentindo o peso do olhar dele em suas costas. Ela sabia que, por dentro, ele estava furioso. Chuck Bass não aceitava ser deixado, especialmente por alguém que ele considerava "inferior".
Mais tarde, no apartamento dos Waldorf, o silêncio era interrompido apenas pelo som da TV na cozinha, onde Dorota assistia às suas novelas polonesas. Clara estava no pequeno quarto de serviço, tentando estudar, quando a porta se abriu sem bater.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, levantando-se da cama num salto.
Chuck estava parado na soleira, parecendo deslocado naquele espaço minúsculo. Ele usava um terno escuro, a gravata levemente frouxa.
— Você me desafiou na frente da Blair — disse ele, fechando a porta atrás de si. — Ninguém me dá as costas daquele jeito.
— Eu não sou sua propriedade, Chuck — Clara rebateu, cruzando os braços sobre o peito, sentindo-se pequena naquele quarto que parecia ter encolhido com a presença dele. — Nós terminamos. Lembra? Ou o álcool já apagou sua memória?
— Nós não terminamos — ele deu um passo à frente, a voz baixando para aquele registro perigoso e sedutor. — Você teve um ataque de pelanca porque eu disse a verdade. O Upper East Side tem regras, Clara. Eu não as criei, eu apenas as sigo.
— As regras dizem que você deve me tratar como lixo na frente dos seus amigos e depois vir aqui me usar quando está entediado? — Lágrimas de raiva começaram a brotar nos olhos dela. — Eu te dei tudo. Você foi o primeiro homem que eu deixei me tocar. Eu achei que você me amava.
Chuck soltou uma risada seca, mas seus olhos não acompanhavam o sorriso. Havia uma sombra neles, algo que parecia dor, mas que ele mascarava com crueldade.
— Amor é uma ilusão para pessoas pobres como você, Clara. O que nós temos é... conveniência.
— Conveniência? — Ela se aproximou dele, o rosto a centímetros do dele. — Então vá buscar sua conveniência com as modelos que você exibe nos tabloides. Vá fazer bullying com outra pessoa, porque eu não sou mais o seu brinquedo.
— Você acha que é fácil para mim? — Chuck explodiu, segurando-a pelos ombros. O toque era firme, quase desesperado. — Ver você todo dia e não poder tocar em você? Ver você escondida atrás da Blair como se fosse nada?
— Mas é assim que você me trata! — gritou ela, empurrando-o. — Você tem vergonha de mim! Você tem vergonha de que eu seja gorda, de que eu seja pobre, de que minha mãe limpe o chão da sua melhor amiga!
— Eu não tenho vergonha de você — ele mentiu, e ambos sabiam disso. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Eu só... eu não posso ser o cara que namora a filha da empregada. Meu pai me destruiria. A cidade me destruiria.
Clara sentiu o coração quebrar pela segunda vez, mas desta vez, os pedaços pareciam se transformar em gelo.
— Então saia do meu quarto, Chuck. Vá viver sua vida perfeita e me deixe em paz com a minha "pobreza".
Ele hesitou. Por um momento, a máscara de herdeiro implacável caiu, e Clara viu o menino quebrado que ele escondia de todos. Ele estendeu a mão para acariciar o rosto dela, mas Clara recuou.
— Não me toque — ordenou ela.
Chuck apertou os lábios, a mandíbula tensa. Ele se virou e saiu sem dizer mais uma palavra.
Nos dias seguintes, o bullying piorou. Chuck fazia questão de ser visto com uma garota diferente a cada dia, sempre modelos altas e magras que pareciam saídas de um catálogo de elite. Ele passava por Clara nos corredores e fazia comentários maldosos sobre suas roupas baratas ou sobre o lanche que ela trazia de casa.
— Cuidado, Clara — disse ele um dia, no pátio, enquanto uma loira deslumbrante se pendurava em seu braço. — Se continuar comendo esse pão caseiro, vai acabar não cabendo mais no uniforme. E bolsas de estudo não cobrem ajustes de tamanho.
As risadas ao redor foram como facadas. Clara sentiu a vontade de chorar, mas olhou para Blair. Para sua surpresa, Blair não estava rindo. A rainha da Constance observava Chuck com um olhar de desaprovação profunda.
Naquela noite, Blair entrou no quarto de Clara.
— Ele está sendo um idiota completo — disse Blair, sentando-se na beira da cama e oferecendo uma caixa de chocolates caros. — Mais do que o normal. O que aconteceu entre vocês?
Clara suspirou, enterrando o rosto nas mãos.
— Eu terminei com ele. Eu não aguentava mais ser o segredo sujo dele, Blair.
Blair ficou em silêncio por um longo tempo, algo raro para ela.
— Chuck é um covarde — disse Blair, finalmente. — Ele acha que o império Bass é construído sobre o que as pessoas pensam, e não sobre o que ele sente. Ele gosta de você, Clara. Do jeito distorcido e doentio dele, ele está sofrendo.
— Ele não parece estar sofrendo — soluçou Clara. — Ele parece estar se divertindo às minhas custas.
— É assim que os Bass sofrem — explicou Blair, pegando a mão de Clara. — Eles destroem tudo o que amam para não serem destruídos primeiro. Mas não deixe que ele te diminua. Você é filha da Dorota, o que significa que você tem mais fibra do que todas essas garotas juntas.
Clara limpou as lágrimas e olhou para a amiga.
— Por que você finge que não me conhece na escola, Blair?
Blair deu um sorriso triste, tipicamente Waldorf.
— Porque se eu te reconhecesse, você se tornaria um alvo para todos, não apenas para o Chuck. Eu estou te protegendo do meu mundo, Clara. Acredite, não é um lugar bom para pessoas com coração.
Naquela noite, Clara não conseguiu dormir. Ela foi até a varanda do apartamento, olhando para as luzes de Manhattan. O Empire Hotel brilhava à distância, um monumento à arrogância de Chuck Bass.
O que ela não sabia era que, naquela mesma hora, Chuck estava em sua suíte, cercado por garrafas vazias e pelo silêncio opressor de sua riqueza. Ele olhava para uma pequena foto que havia roubado do caderno de Clara meses atrás. Era uma foto dela sorrindo, sem perceber que estava sendo observada, com um pouco de farelo de bolo no canto da boca.
Ele a odiava por tê-lo deixado. Mas, acima de tudo, ele se odiava por ser exatamente o que ela disse que ele era: um covarde.
Ele pegou o celular e abriu a aba da *Gossip Girl*. O post do dia mostrava Clara saindo da escola, sozinha e de cabeça baixa, com a legenda: *"Parece que a bolsista favorita da Constance está perdendo o brilho. Ou será que o peso da realidade finalmente a alcançou?"*
Chuck sentiu uma náusea súbita. Ele mesmo enviara aquela dica para a Garota do Blog. Ele queria feri-la, queria que ela voltasse rastejando para ele em busca de proteção. Mas, ao ver a imagem, ele percebeu que estava perdendo a única coisa real que já teve.
Ele jogou o telefone contra a parede, estilhaçando a tela.
— Droga, Clara — sussurrou ele para a escuridão.
No dia seguinte, Clara chegou à escola preparada para o pior. Mas algo estava diferente. Quando ela passou pelo corredor principal, Chuck estava lá, encostado nos armários. Ele não estava acompanhado de nenhuma modelo.
Ele a viu e começou a caminhar em sua direção. O coração de Clara disparou. Ela se preparou para o insulto, para a humilhação pública.
— Clara — disse ele, parando na frente dela. O corredor ficou em silêncio. Até as seguidoras de Blair pararam para assistir.
— O que foi agora, Chuck? — perguntou ela, a voz trêmula. — Veio comentar sobre o meu sapato? Ou talvez sobre como meu cabelo não brilha como o das suas namoradas?
Chuck olhou ao redor, vendo todos os olhos fixos neles. Ele viu Blair, que o encarava com um desafio mudo. Ele voltou o olhar para Clara, e por um segundo, o mundo pareceu desaparecer.
— Eu sou um idiota — disse ele, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Clara piscou, confusa.
— O quê?
— Eu sou um idiota, um covarde e um bastardo — continuou Chuck, dando um passo para dentro do espaço pessoal dela. — E você tinha razão sobre tudo.
— Chuck, o que você está fazendo? — sussurrou ela, assustada com a mudança de tom.
— Estou quebrando as regras — ele estendeu a mão e, desta vez, Clara não recuou. Ele tocou seu rosto com uma delicadeza que ela não sentia há semanas. — Eu não me importo com quem sua mãe é, ou com quanto dinheiro você tem na conta. Eu me importo que eu não consigo respirar neste lugar se você não estiver falando comigo.
Um murmúrio percorreu o corredor. A Garota do Blog teria material para um mês inteiro com aquela cena.
— Você está dizendo isso aqui? — Clara perguntou, os olhos arregalados. — Na frente de todo mundo?
— Se for o único jeito de você acreditar em mim — ele se inclinou, encostando a testa na dela. — Me desculpe, Clara. Pelo bullying, pela vergonha... por tudo. Eu não mereço você, mas eu não consigo ser eu mesmo sem você.
Clara olhou para os lados. Viu os olhares de choque, o desdém de alguns, a surpresa de outros. E viu Blair, que deu um leve aceno de cabeça, quase imperceptível.
— Você vai ter que trabalhar muito para eu te perdoar, Chuck Bass — disse Clara, embora seu coração já estivesse cedendo. — Muito mesmo.
— Eu tenho todo o tempo do mundo — respondeu ele, com um vislumbre do antigo sorriso de lado, mas desta vez, sem a malícia. — E eu vou começar te levando para almoçar. No degrau de cima da escadaria. Comigo.
Ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos nos dela, e começou a caminhar pelo corredor. Pela primeira vez, Clara não estava nas sombras. Ela estava ao lado do rei do Upper East Side, e embora soubesse que o caminho à frente seria cheio de fofocas e espinhos, ela finalmente sentia que não precisava mais se esconder.
A filha da empregada e o herdeiro do império. Um clichê que a elite de Nova York odiaria, mas que Chuck Bass estava disposto a defender, nem que tivesse que queimar o mundo inteiro para isso.
Naquela tarde, a postagem da *Gossip Girl* foi curta e direta:
*"Vejam só, parece que o Bass finalmente encontrou algo que o dinheiro não pode comprar: caráter. Ou será que é apenas um novo jogo? De qualquer forma, Clara acaba de ser promovida. De invisível a inesquecível. Cuidado, Upper East Side, as regras acabaram de mudar."*
Blair a olhou de soslaio, ajustando a tiara de seda com um movimento calculado. Ninguém ali sabia que, todas as noites, Clara ajudava Dorota a polir a prataria dos Waldorf e que Blair, em seus momentos de vulnerabilidade, dividia com ela macarons e segredos. Mas, na escola, o protocolo era absoluto.
— O iogurte de hoje está intragável — declarou Blair para o grupo de seguidoras, sem dirigir o olhar diretamente a Clara. — Não é, Clara?
— Sim, Blair. Um pouco ácido demais — respondeu Clara, mantendo a voz baixa e os olhos fixos em seu livro de literatura russa.
A humilhação de ser invisível para o mundo era um preço que ela pagava com resignação. O que realmente doía, o que queimava como ácido em suas veias, era o som dos passos pesados que se aproximavam. Ela conhecia aquele ritmo. Conhecia o cheiro de sândalo e uísque caro antes mesmo dele dobrar a esquina.
Chuck Bass surgiu como uma miragem de decadência e poder. Ele não olhou para ela. Nunca olhava em público.
— Blair — cumprimentou ele, com aquele tom arrastado que costumava fazer o coração de Clara disparar. — Temos uma festa no Empire hoje. Traga suas subordinadas. Menos, é claro, as que não combinam com a decoração.
Ele lançou um olhar rápido, gélido e carregado de escárnio para Clara. Um olhar que dizia "você não pertence aqui".
Clara sentiu um nó na garganta. Era difícil conciliar aquele monstro arrogante com o rapaz que, há apenas dois meses, sussurrava promessas debaixo dos lençóis de linho de sua suíte, longe dos olhos do mundo. Chuck fora seu primeiro tudo. O primeiro beijo roubado no sótão, a primeira vez que ela se sentiu desejada apesar de suas inseguranças com o corpo, a primeira pessoa a quem ela entregou sua alma.
E ele a jogara fora como se fosse um acessório de uma coleção passada. "Seria vergonhoso um relacionamento com a filha da empregada", ele dissera na noite em que ela tentou oficializar o que tinham. Aquelas palavras foram o fim. Clara terminou com ele ali mesmo, entre lágrimas que ele ignorou com um gole de bebida.
— Eu não vou à festa — Clara disse, de repente, sua voz saindo mais firme do que pretendia.
Blair arqueou uma sobrancelha, surpresa com a insubordinação. Chuck parou o movimento de ajeitar o lenço no pescoço.
— E quem perguntou? — Chuck rebateu, a voz carregada de veneno. — Garotas como você servem para limpar a bagunça depois que a festa acaba, Clara. Não para serem convidadas.
As outras garotas riram. Clara sentiu o rosto arder, mas não baixou a cabeça. Ela se levantou, fechando o livro com força.
— Você tem razão, Chuck. Eu cansei de limpar a sua bagunça. Em todos os sentidos.
Ela saiu caminhando, sentindo o peso do olhar dele em suas costas. Ela sabia que, por dentro, ele estava furioso. Chuck Bass não aceitava ser deixado, especialmente por alguém que ele considerava "inferior".
Mais tarde, no apartamento dos Waldorf, o silêncio era interrompido apenas pelo som da TV na cozinha, onde Dorota assistia às suas novelas polonesas. Clara estava no pequeno quarto de serviço, tentando estudar, quando a porta se abriu sem bater.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, levantando-se da cama num salto.
Chuck estava parado na soleira, parecendo deslocado naquele espaço minúsculo. Ele usava um terno escuro, a gravata levemente frouxa.
— Você me desafiou na frente da Blair — disse ele, fechando a porta atrás de si. — Ninguém me dá as costas daquele jeito.
— Eu não sou sua propriedade, Chuck — Clara rebateu, cruzando os braços sobre o peito, sentindo-se pequena naquele quarto que parecia ter encolhido com a presença dele. — Nós terminamos. Lembra? Ou o álcool já apagou sua memória?
— Nós não terminamos — ele deu um passo à frente, a voz baixando para aquele registro perigoso e sedutor. — Você teve um ataque de pelanca porque eu disse a verdade. O Upper East Side tem regras, Clara. Eu não as criei, eu apenas as sigo.
— As regras dizem que você deve me tratar como lixo na frente dos seus amigos e depois vir aqui me usar quando está entediado? — Lágrimas de raiva começaram a brotar nos olhos dela. — Eu te dei tudo. Você foi o primeiro homem que eu deixei me tocar. Eu achei que você me amava.
Chuck soltou uma risada seca, mas seus olhos não acompanhavam o sorriso. Havia uma sombra neles, algo que parecia dor, mas que ele mascarava com crueldade.
— Amor é uma ilusão para pessoas pobres como você, Clara. O que nós temos é... conveniência.
— Conveniência? — Ela se aproximou dele, o rosto a centímetros do dele. — Então vá buscar sua conveniência com as modelos que você exibe nos tabloides. Vá fazer bullying com outra pessoa, porque eu não sou mais o seu brinquedo.
— Você acha que é fácil para mim? — Chuck explodiu, segurando-a pelos ombros. O toque era firme, quase desesperado. — Ver você todo dia e não poder tocar em você? Ver você escondida atrás da Blair como se fosse nada?
— Mas é assim que você me trata! — gritou ela, empurrando-o. — Você tem vergonha de mim! Você tem vergonha de que eu seja gorda, de que eu seja pobre, de que minha mãe limpe o chão da sua melhor amiga!
— Eu não tenho vergonha de você — ele mentiu, e ambos sabiam disso. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Eu só... eu não posso ser o cara que namora a filha da empregada. Meu pai me destruiria. A cidade me destruiria.
Clara sentiu o coração quebrar pela segunda vez, mas desta vez, os pedaços pareciam se transformar em gelo.
— Então saia do meu quarto, Chuck. Vá viver sua vida perfeita e me deixe em paz com a minha "pobreza".
Ele hesitou. Por um momento, a máscara de herdeiro implacável caiu, e Clara viu o menino quebrado que ele escondia de todos. Ele estendeu a mão para acariciar o rosto dela, mas Clara recuou.
— Não me toque — ordenou ela.
Chuck apertou os lábios, a mandíbula tensa. Ele se virou e saiu sem dizer mais uma palavra.
Nos dias seguintes, o bullying piorou. Chuck fazia questão de ser visto com uma garota diferente a cada dia, sempre modelos altas e magras que pareciam saídas de um catálogo de elite. Ele passava por Clara nos corredores e fazia comentários maldosos sobre suas roupas baratas ou sobre o lanche que ela trazia de casa.
— Cuidado, Clara — disse ele um dia, no pátio, enquanto uma loira deslumbrante se pendurava em seu braço. — Se continuar comendo esse pão caseiro, vai acabar não cabendo mais no uniforme. E bolsas de estudo não cobrem ajustes de tamanho.
As risadas ao redor foram como facadas. Clara sentiu a vontade de chorar, mas olhou para Blair. Para sua surpresa, Blair não estava rindo. A rainha da Constance observava Chuck com um olhar de desaprovação profunda.
Naquela noite, Blair entrou no quarto de Clara.
— Ele está sendo um idiota completo — disse Blair, sentando-se na beira da cama e oferecendo uma caixa de chocolates caros. — Mais do que o normal. O que aconteceu entre vocês?
Clara suspirou, enterrando o rosto nas mãos.
— Eu terminei com ele. Eu não aguentava mais ser o segredo sujo dele, Blair.
Blair ficou em silêncio por um longo tempo, algo raro para ela.
— Chuck é um covarde — disse Blair, finalmente. — Ele acha que o império Bass é construído sobre o que as pessoas pensam, e não sobre o que ele sente. Ele gosta de você, Clara. Do jeito distorcido e doentio dele, ele está sofrendo.
— Ele não parece estar sofrendo — soluçou Clara. — Ele parece estar se divertindo às minhas custas.
— É assim que os Bass sofrem — explicou Blair, pegando a mão de Clara. — Eles destroem tudo o que amam para não serem destruídos primeiro. Mas não deixe que ele te diminua. Você é filha da Dorota, o que significa que você tem mais fibra do que todas essas garotas juntas.
Clara limpou as lágrimas e olhou para a amiga.
— Por que você finge que não me conhece na escola, Blair?
Blair deu um sorriso triste, tipicamente Waldorf.
— Porque se eu te reconhecesse, você se tornaria um alvo para todos, não apenas para o Chuck. Eu estou te protegendo do meu mundo, Clara. Acredite, não é um lugar bom para pessoas com coração.
Naquela noite, Clara não conseguiu dormir. Ela foi até a varanda do apartamento, olhando para as luzes de Manhattan. O Empire Hotel brilhava à distância, um monumento à arrogância de Chuck Bass.
O que ela não sabia era que, naquela mesma hora, Chuck estava em sua suíte, cercado por garrafas vazias e pelo silêncio opressor de sua riqueza. Ele olhava para uma pequena foto que havia roubado do caderno de Clara meses atrás. Era uma foto dela sorrindo, sem perceber que estava sendo observada, com um pouco de farelo de bolo no canto da boca.
Ele a odiava por tê-lo deixado. Mas, acima de tudo, ele se odiava por ser exatamente o que ela disse que ele era: um covarde.
Ele pegou o celular e abriu a aba da *Gossip Girl*. O post do dia mostrava Clara saindo da escola, sozinha e de cabeça baixa, com a legenda: *"Parece que a bolsista favorita da Constance está perdendo o brilho. Ou será que o peso da realidade finalmente a alcançou?"*
Chuck sentiu uma náusea súbita. Ele mesmo enviara aquela dica para a Garota do Blog. Ele queria feri-la, queria que ela voltasse rastejando para ele em busca de proteção. Mas, ao ver a imagem, ele percebeu que estava perdendo a única coisa real que já teve.
Ele jogou o telefone contra a parede, estilhaçando a tela.
— Droga, Clara — sussurrou ele para a escuridão.
No dia seguinte, Clara chegou à escola preparada para o pior. Mas algo estava diferente. Quando ela passou pelo corredor principal, Chuck estava lá, encostado nos armários. Ele não estava acompanhado de nenhuma modelo.
Ele a viu e começou a caminhar em sua direção. O coração de Clara disparou. Ela se preparou para o insulto, para a humilhação pública.
— Clara — disse ele, parando na frente dela. O corredor ficou em silêncio. Até as seguidoras de Blair pararam para assistir.
— O que foi agora, Chuck? — perguntou ela, a voz trêmula. — Veio comentar sobre o meu sapato? Ou talvez sobre como meu cabelo não brilha como o das suas namoradas?
Chuck olhou ao redor, vendo todos os olhos fixos neles. Ele viu Blair, que o encarava com um desafio mudo. Ele voltou o olhar para Clara, e por um segundo, o mundo pareceu desaparecer.
— Eu sou um idiota — disse ele, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Clara piscou, confusa.
— O quê?
— Eu sou um idiota, um covarde e um bastardo — continuou Chuck, dando um passo para dentro do espaço pessoal dela. — E você tinha razão sobre tudo.
— Chuck, o que você está fazendo? — sussurrou ela, assustada com a mudança de tom.
— Estou quebrando as regras — ele estendeu a mão e, desta vez, Clara não recuou. Ele tocou seu rosto com uma delicadeza que ela não sentia há semanas. — Eu não me importo com quem sua mãe é, ou com quanto dinheiro você tem na conta. Eu me importo que eu não consigo respirar neste lugar se você não estiver falando comigo.
Um murmúrio percorreu o corredor. A Garota do Blog teria material para um mês inteiro com aquela cena.
— Você está dizendo isso aqui? — Clara perguntou, os olhos arregalados. — Na frente de todo mundo?
— Se for o único jeito de você acreditar em mim — ele se inclinou, encostando a testa na dela. — Me desculpe, Clara. Pelo bullying, pela vergonha... por tudo. Eu não mereço você, mas eu não consigo ser eu mesmo sem você.
Clara olhou para os lados. Viu os olhares de choque, o desdém de alguns, a surpresa de outros. E viu Blair, que deu um leve aceno de cabeça, quase imperceptível.
— Você vai ter que trabalhar muito para eu te perdoar, Chuck Bass — disse Clara, embora seu coração já estivesse cedendo. — Muito mesmo.
— Eu tenho todo o tempo do mundo — respondeu ele, com um vislumbre do antigo sorriso de lado, mas desta vez, sem a malícia. — E eu vou começar te levando para almoçar. No degrau de cima da escadaria. Comigo.
Ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos nos dela, e começou a caminhar pelo corredor. Pela primeira vez, Clara não estava nas sombras. Ela estava ao lado do rei do Upper East Side, e embora soubesse que o caminho à frente seria cheio de fofocas e espinhos, ela finalmente sentia que não precisava mais se esconder.
A filha da empregada e o herdeiro do império. Um clichê que a elite de Nova York odiaria, mas que Chuck Bass estava disposto a defender, nem que tivesse que queimar o mundo inteiro para isso.
Naquela tarde, a postagem da *Gossip Girl* foi curta e direta:
*"Vejam só, parece que o Bass finalmente encontrou algo que o dinheiro não pode comprar: caráter. Ou será que é apenas um novo jogo? De qualquer forma, Clara acaba de ser promovida. De invisível a inesquecível. Cuidado, Upper East Side, as regras acabaram de mudar."*
