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Amizade...?

Fandom: Solarballs

Criado: 03/07/2026

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RomanceFicção CientíficaFofuraFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemSolarpunkÓpera EspacialAngústiaLirismoUA (Universo Alternativo)Drama
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Gravidade e Atrito

O sistema solar parecia estar em um daqueles dias de calmaria enganosa. Marte estava ocupado demais tentando parecer importante para os seus próprios satélites, e Vênus estava, como sempre, envolta em suas nuvens de mistério e calor escaldante. Para a Terra, no entanto, a calmaria era apenas externa. Internamente, seu núcleo parecia girar um pouco mais rápido toda vez que Lumina se aproximava.

Eles estavam flutuando em uma zona neutra, longe o suficiente das órbitas principais para que ninguém os incomodasse. O silêncio do vácuo era o palco de uma dança que nenhum dos dois sabia exatamente como coreografar. Era uma amizade? Era uma aliança de conveniência entre dois "exilados emocionais"? Ou era algo que desafiava as leis da física planetária?

Terra quebrou o silêncio primeiro, observando como a luz de uma estrela distante atingia a superfície de Lumina, destacando as arestas afiadas de sua personalidade.

— Você está muito quieta hoje. Isso é perigoso. Geralmente, quando você fica em silêncio por mais de dez minutos, ou você está planejando uma revolução ou está prestes a me insultar de cinco maneiras diferentes.

Lumina não se virou imediatamente. Ela manteve os olhos fixos em um cometa que passava apressado, deixando uma cauda de gelo e poeira para trás.

— Talvez eu esteja apenas cansada de ouvir a sua voz, Terra — respondeu ela, embora o tom não tivesse a agressividade cortante de costume. Era quase... melancólico. — Você já parou para pensar que nem todo silêncio precisa ser preenchido por uma piada sem graça sobre como você é incrível?

Terra sentiu aquela pontada familiar de egocentrismo ser atingida, mas, em vez de inflar o peito, ele apenas suspirou. Ele realmente tinha mudado. O "velho Terra" teria feito um discurso sobre como sua voz era o som mais harmonioso do sistema. O "novo Terra" apenas flutuou um pouco mais perto.

— Eu sei que sou irritante às vezes. É um mecanismo de defesa, eu acho. Se eu estiver falando, não preciso ouvir o que está acontecendo aqui dentro — ele admitiu, indicando seu próprio manto. — Mas eu não queria te incomodar. Se você quiser que eu saia...

Lumina finalmente virou o rosto para ele. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que sempre desarmava a Terra. Havia uma luta ali, uma batalha entre a vontade de se abrir e o instinto primordial de se esconder atrás de muros de gelo e rocha.

— Eu não disse que queria que você saísse — murmurou ela, desviando o olhar logo em seguida. — Eu só... eu tive um sonho. Ou o que quer que nós tenhamos quando entramos em estado de repouso.

— Um sonho? — Terra inclinou-se, genuinamente curioso. — Sobre o quê?

Lumina hesitou. Ela odiava parecer vulnerável. Para ela, vulnerabilidade era um convite para o desastre, uma falha na armadura que outros poderiam usar para despedaçá-la. Mas Terra não era "os outros". Não mais.

— Era sobre antes — começou ela, a voz falhando levemente. — Antes de eu me tornar essa... coisa rebelde e amarga. Eu me lembrei de como era não ter medo das sombras. E então, no sonho, as sombras começaram a me engolir, e eu não conseguia encontrar minha própria luz.

Terra sentiu um peso no peito. Ele sabia o que era ser consumido pela própria escuridão, embora a dele tivesse sido feita de orgulho, enquanto a dela fora forjada em trauma.

— Você não está sozinha nas sombras agora, Lumina — disse ele, a voz suave e firme. — Eu estou aqui. E eu tenho luz de sobra, mesmo que a maior parte dela seja refletida.

Lumina soltou um riso seco, mas seus ombros relaxaram.

— Lá vem você de novo. O herói benevolente. Você não cansa de tentar salvar todo mundo? Especialmente quem não pediu para ser salvo?

— Eu não estou tentando te salvar — rebateu Terra, aproximando-se o suficiente para que suas atmosferas quase se tocassem, gerando um leve atrito estático. — Eu estou tentando estar com você. Há uma diferença.

— É uma diferença perigosa — disse ela, finalmente encarando-o de frente. — O que nós somos, Terra? Um dia você me trata como se eu fosse a única coisa que importa no universo, e no outro, você está agindo como o palhaço do grupo, fingindo que nada aconteceu entre nós.

Terra hesitou. A pergunta era direta, sem as proteções que eles costumavam usar.

— Eu não sei — confessou ele. — Eu sinto que estamos presos em uma órbita mútua. Se eu chegar perto demais, posso te queimar ou ser destruído pela sua gravidade. Se eu me afastar, eu me perco no frio. É um ciclo, não é? Amigos que sentem demais, ou algo mais que tem medo de admitir o que sente.

Lumina deu um passo à frente — ou o equivalente espacial disso. A distância entre eles agora era mínima.

— Eu sou hipócrita, Terra — disse ela, as palavras saindo como um desabafo doloroso. — Eu julgo os outros por serem fracos, por serem egoístas, mas eu sou a mais egoísta de todos. Eu te mantenho por perto porque eu preciso do seu brilho, mas eu te afasto porque não quero que você veja o quão quebrada eu realmente sou por dentro.

— Todo mundo é um pouco quebrado, Lumina — Terra respondeu, estendendo a mão para tocar o braço dela. O contato foi elétrico, uma descarga de energia que percorreu ambos. — Veja o Marte, ele é um deserto de inseguranças. Veja o Júpiter, ele é literalmente um gigante feito de tempestades. Eu mesmo... eu tenho cicatrizes por toda a minha superfície que meus humanos causaram. Ser quebrado não te torna menos valiosa.

Lumina olhou para onde a mão dele tocava a sua pele. Ela não recuou. Pela primeira vez em eras, ela não recuou.

— Você é um idiota gentil — sussurrou ela. — E eu odeio o fato de que você me faz sentir que não preciso estar armada o tempo todo.

— Então baixe as armas. Só por um momento — pediu Terra. — O universo não vai colapsar se a Lumina tirar um dia de folga de ser a rebelde indomável.

Lumina fechou os olhos, respirando fundo. O vácuo não tinha ar, mas para eles, a troca de energia era o que sustentava a vida. Ela permitiu que sua guarda caísse, apenas alguns centímetros, mas foi o suficiente para que Terra sentisse o calor real que ela emanava. Não o calor defensivo de uma explosão, mas o calor suave de um núcleo que ainda pulsava com esperança.

— E se eu não souber como ser outra coisa? — perguntou ela, a voz quase inaudível.

— Eu te ajudo a descobrir — prometeu Terra. — Nós podemos ser um desastre juntos. É melhor do que ser perfeito sozinho.

Lumina abriu os olhos e, por um breve segundo, o cinismo desapareceu. Em seu lugar, havia uma ternura tão profunda que assustou a ambos. Ela se inclinou, encostando a testa na dele. Era um gesto de intimidade que ia além de qualquer coisa que tivessem compartilhado antes.

— Você ainda é um narcisista — murmurou ela contra a pele dele.

— E você ainda é uma hipócrita cabeça-dura — ele retrucou com um sorriso.

Eles riram baixo, um som que parecia vibrar através de suas estruturas rochosas. Naquele momento, o ciclo entre amizade e "algo mais" não parecia um problema a ser resolvido, mas uma jornada a ser vivida. Eles eram complexos, eram difíceis e carregavam bagagens que poderiam preencher uma galáxia inteira, mas estavam ali. Juntos.

— Sabe — disse Terra, após um tempo, ainda mantendo a proximidade —, os meus cientistas vivem procurando vida em outros planetas. Eles olham para as estrelas e se perguntam se estão sozinhos.

— E o que isso tem a ver com agora? — perguntou Lumina, embora não tivesse se afastado.

— Tem a ver que eu não preciso de telescópios. Eu encontrei algo muito mais raro do que água líquida ou oxigênio.

Lumina revirou os olhos, mas havia um brilho de diversão neles.

— Se você disser que encontrou "o amor", eu juro que te chuto até a órbita de Netuno.

Terra soltou uma gargalhada genuína.

— Eu ia dizer que encontrei alguém que consegue me aguentar, o que é estatisticamente impossível. Mas "amor" também serve, se você quiser ser dramática.

Lumina deu um leve soco no ombro dele, mas logo em seguida envolveu-o em um abraço desajeitado. Terra retribuiu prontamente, sentindo a solidez dela contra si. O espaço era vasto, frio e frequentemente cruel, mas ali, naquele pequeno ponto de convergência, havia calor.

— Não se acostume com isso — avisou Lumina, embora estivesse apertando o abraço. — Amanhã eu provavelmente vou te chamar de egocêntrico e dizer que você é uma distração para o meu crescimento estelar.

— Eu não esperaria nada menos de você — disse Terra, beijando o topo da cabeça dela. — Mas hoje... hoje nós podemos apenas ser Terra e Lumina. Sem títulos, sem traumas, apenas nós.

— Apenas nós — repetiu ela, saboreando as palavras.

Eles ficaram assim por o que pareceram horas, observando o movimento lento dos astros. O ciclo continuaria, as dúvidas voltariam e as defesas seriam erguidas novamente, pois a cura não é uma linha reta. Mas, enquanto orbitavam um ao outro no silêncio do infinito, eles sabiam que, não importa o quão complexo ficasse, nenhum dos dois pretendia soltar a mão do outro.

Afinal, no grande esquema do cosmos, encontrar alguém que entenda suas sombras é a única forma de realmente brilhar.

— Terra? — chamou Lumina, quebrando o transe.

— Sim?

— Se você contar para o Vênus que eu te abracei, eu vou garantir que sua próxima era glacial comece amanhã.

Terra sorriu, sentindo-se mais vivo do que nunca.

— Minha boca é um túmulo, Lumina. Ou melhor, um buraco negro. Nada escapa dela.

— Ótimo — disse ela, finalmente se afastando um pouco, mas mantendo a mão entrelaçada na dele. — Agora vamos sair daqui antes que o Saturno apareça com aqueles anéis brilhantes dele e estrague o clima com alguma fofoca espacial.

— Com certeza. Eu ouvi dizer que ele tem coisas terríveis para contar sobre o Urano.

Lumina soltou uma gargalhada, e o som foi a melodia mais bonita que a Terra já tinha ouvido em todos os seus bilhões de anos de existência. Eles partiram juntos, flutuando lado a lado rumo ao desconhecido, dois seres imperfeitos encontrando sua própria forma de perfeição no vácuo.
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