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Dos rosa
Fandom: Rosa
Criado: 03/07/2026
Tags
FantasiaMistérioSombrioNoir GóticoPsicológicoDramaSuspenseRealismo Mágico
O Eco do Passado no Jardim de Vidro
A mansão estava mergulhada em um silêncio que beirava o desconfortável, interrompido apenas pelo som rítmico da chuva batendo contra as imensas vidraças do jardim de inverno. Katlen caminhava pelo corredor de mármore, seus passos ecoando como batidas de um coração ansioso. Ela ajustou o vestido de seda, sentindo o frio repentino que parecia ter invadido a casa, apesar das lareiras acesas.
Tudo estava preparado para o jantar, mas a atmosfera não era de celebração. Havia um peso no ar, uma eletricidade estática que fazia os pequenos pelos de seus braços se arrepiarem. Katlen parou diante do grande espelho dourado do hall e suspirou.
— Você está deslumbrante, Katlen — murmurou Linda, surgindo das sombras da sala de estar com a elegância silenciosa que lhe era peculiar.
Katlen virou-se, esboçando um sorriso tenso. Linda usava um vestido escuro que contrastava com sua pele alva, e seus olhos pareciam carregar uma sabedoria que Katlen ainda tentava decifrar.
— Obrigada, Linda. Mas não consigo afastar essa sensação... — Katlen fez uma pausa, olhando para a porta principal. — Quem é ele, afinal? Por que tanto mistério sobre esse convidado?
Linda aproximou-se, colocando uma mão reconfortante no ombro da amiga. O toque era frio, mas firme.
— Algumas respostas só se revelam quando a porta se abre — disse Linda, com um tom enigmático. — Ele é alguém que conhece as raízes desta casa melhor do que nós duas juntas.
— Isso não ajuda muito a acalmar meus nervos — confessou Katlen, soltando uma risada nervosa.
O som da campainha ressoou pela mansão, cortando a conversa como uma lâmina. Katlen sentiu um solavanco no peito. O mordomo, um homem de movimentos mecânicos e rosto inexpressivo, dirigiu-se à entrada. As duas mulheres observaram, imóveis, enquanto a pesada porta de carvalho se abria para a noite tempestuosa.
Um homem entrou. Ele vestia um sobretudo longo, encharcado pela chuva, e trazia consigo o cheiro de terra molhada e de algo antigo, como livros esquecidos em uma biblioteca fechada. Ele retirou o chapéu, revelando cabelos grisalhos nas têmporas e olhos de um azul tão profundo que pareciam quase negros sob a luz dos lustres.
— Boa noite — disse o estranho. Sua voz era um barítono rico, carregado de uma autoridade natural. — Perdoem-me pelo atraso. Os caminhos para esta casa tornaram-se traiçoeiros com o passar dos anos.
Linda deu um passo à frente, sua expressão suavizando-se em um reconhecimento que Katlen não compreendia.
— Seja bem-vindo — disse Linda, fazendo uma leve reverência. — Estávamos à sua espera.
O homem voltou seu olhar para Katlen. Havia uma intensidade naquelas pupilas que a fez recuar um milímetro, uma sensação de que ele não estava apenas olhando para ela, mas através dela.
— E esta deve ser a jovem Katlen — afirmou ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação de um fato há muito conhecido. — Você tem os olhos da linhagem, embora o brilho seja... diferente.
— Quem é você? — perguntou Katlen, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos.
O homem sorriu, um gesto que não alcançou seus olhos.
— Um amigo do passado, uma sombra do presente — respondeu ele, entregando o sobretudo ao mordomo. — Podem me chamar de Julian.
— O jantar está servido — anunciou o mordomo, quebrando o transe que se instalara no hall.
Eles se dirigiram à sala de jantar, onde a mesa estava posta com a melhor prataria e cristais que refletiam a luz das velas. O ambiente era opulento, mas a presença de Julian parecia diminuir a grandiosidade da sala, tornando tudo subitamente pequeno e insignificante.
Durante o primeiro prato, o silêncio foi preenchido apenas pelo som dos talheres. Katlen observava Julian. Ele comia com uma precisão quase ritualística. Linda, por outro lado, parecia estar em um estado de alerta contido, como se esperasse que a qualquer momento uma palavra errada pudesse desencadear uma tempestade maior do que a que rugia lá fora.
— Diga-me, Katlen — começou Julian, limpando os lábios com o guardanapo de linho —, o que Linda lhe contou sobre a história desta propriedade?
Katlen olhou para Linda antes de responder.
— Ela me disse que a casa pertence à família há gerações. Que há segredos, sim, mas que o tempo cuidaria de revelá-los.
Julian soltou uma risada curta e seca.
— O tempo é um mestre cruel, minha cara. Ele não revela segredos; ele os enterra sob camadas de esquecimento até que alguém decida cavar fundo o suficiente.
— E o senhor veio aqui para cavar? — questionou Katlen, sentindo uma ponta de irritação superar o medo.
— Eu vim para garantir que o que foi enterrado permaneça onde está — retrucou Julian, fixando o olhar nela. — Ou para decidir se é hora de uma exumação completa.
Linda interveio, sua voz soando como um aviso.
— Julian, não assuste a menina. Ela ainda está se adaptando.
— Adaptação é para os fracos, Linda — disse Julian, voltando-se para ela. — Você sabe tão bem quanto eu que o sangue que corre nestas veias não se adapta. Ele domina ou é dominado.
Katlen sentiu um calafrio. A conversa estava tomando um rumo que ela não conseguia acompanhar, repleta de metáforas e subentendidos que pareciam apontar para algo sombrio escondido no DNA daquela família.
— Eu não entendo — disse Katlen, deixando o garfo cair sobre o prato com um tilintar metálico. — Por que todo esse mistério? Se você tem algo a dizer sobre quem eu sou ou sobre esta casa, diga de uma vez.
Julian inclinou-se para a frente, a luz das velas criando sombras profundas em seu rosto.
— Você já ouviu falar da Rosa de Vidro, Katlen?
Katlen franziu a testa. O nome soava familiar, como um sussurro de um sonho esquecido na infância.
— É apenas uma lenda local, não é? — respondeu ela. — Uma flor que nunca murcha, escondida em algum lugar deste jardim.
— Não é uma lenda — afirmou Julian, sua voz caindo para um sussurro conspiratório. — É uma herança. E é a razão pela qual eu estou aqui. Ela começou a florescer novamente, Katlen. E quando a Rosa floresce, alguém deve pagar o preço do perfume.
Linda levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando-se pesadamente no chão.
— Já chega, Julian! — exclamou ela. — Não é o momento.
— É sempre o momento para a verdade, Linda — disse Julian, levantando-se também, mantendo a calma absoluta. — Veja como ela treme. Ela sente a conexão. Ela sente o chamado.
Katlen olhou para as próprias mãos. Elas estavam, de fato, tremendo, mas não era apenas de medo. Havia um calor estranho subindo por seus pulsos, uma pulsação que parecia sincronizada com algo vindo do fundo do jardim, além das vidraças.
— O que está acontecendo comigo? — perguntou Katlen, sua voz pouco mais que um sopro.
Linda contornou a mesa e abraçou Katlen, tentando protegê-la do olhar gélido de Julian.
— Nada que você não possa enfrentar, querida. Eu estou aqui.
— Você não poderá protegê-la para sempre, Linda — disse Julian, caminhando em direção à janela que dava para o jardim de inverno. — O convidado misterioso não sou eu, Katlen. Eu sou apenas o mensageiro. O verdadeiro convidado está lá fora, esperando na escuridão.
Katlen soltou-se do abraço de Linda e caminhou até a janela. A chuva havia diminuído para uma garoa fina. No centro do jardim de inverno, entre as folhagens exóticas e as estátuas de mármore, algo brilhava. Uma luz suave, rosada, que parecia emanar de uma única flor solitária sob a cúpula de vidro.
— A Rosa... — sussurrou Katlen.
— Ela está chamando por você — disse Julian, agora parado logo atrás dela. — A pergunta é: você terá coragem de abrir a porta e deixá-la entrar?
Katlen olhou para Linda, que tinha uma expressão de profunda tristeza e resignação.
— Linda, você sabia disso? — perguntou Katlen.
— Eu sabia que este dia chegaria — respondeu Linda, aproximando-se. — Mas esperava que tivéssemos mais tempo. A Rosa de Vidro é a alma desta casa, Katlen. E você é a sua nova guardiã.
— Guardiã? — Katlen riu, uma risada beirando a histeria. — Eu só queria uma vida normal. Eu só queria entender por que herdei esta mansão de um tio que nunca conheci.
— O seu tio sabia que você era a única capaz de conter o que floresce aqui — explicou Julian. — Mas a contenção tem um limite. O convidado que mencionei... ele não é uma pessoa. É a manifestação do que sua família tentou esconder por séculos.
De repente, um estrondo ecoou pelo jardim de inverno. Um dos painéis de vidro da cúpula se estilhaçou, e fragmentos caíram como neve brilhante sobre a vegetação. O vento invadiu o recinto, trazendo consigo o perfume mais doce e inebriante que Katlen já sentira — um cheiro de rosas, mas com um toque metálico, como sangue.
— Ele chegou — disse Julian, sua voz agora tingida de uma estranha reverência.
Katlen sentiu uma força irresistível puxando-a em direção ao jardim. Ela não conseguia mais lutar contra a curiosidade ou contra aquele calor que agora ardia em seu peito. Ela abriu as portas duplas que levavam ao jardim de inverno e deu o primeiro passo para fora da segurança da sala de jantar.
— Katlen, espere! — gritou Linda, mas Julian a segurou pelo braço.
— Deixe-a ir, Linda. O destino não aceita atrasos.
Katlen caminhou entre as plantas, seus pés esmagando os cacos de vidro. No centro, a Rosa de Vidro brilhava intensamente. Suas pétalas eram translúcidas, como se esculpidas no mais puro cristal, mas dentro delas corria um líquido rubi que pulsava.
Diante da flor, uma silhueta começou a se formar a partir da névoa e da chuva que entrava pelo teto quebrado. Não era um homem, nem uma fera, mas uma forma feita de sombras e pétalas flutuantes.
— Quem é você? — perguntou Katlen, sua voz ecoando sob a cúpula.
A forma inclinou o que parecia ser uma cabeça. Não houve resposta em palavras, mas uma imagem inundou a mente de Katlen: campos de rosas vermelhas tornando-se vidro sob um sol negro, e uma linhagem de mulheres que, geração após geração, entregavam seus corações para manter aquele jardim vivo.
— Eu não vou fazer isso — disse Katlen, recuando. — Eu não vou me sacrificar por uma flor.
A sombra avançou, e o perfume tornou-se sufocante.
— Não é um sacrifício, Katlen — a voz de Julian veio de trás dela, agora ele estava na entrada do jardim com Linda. — É uma simbiose. Sem você, a Rosa morre e esta casa desmorona, levando todos nós junto. Com você, ela floresce, e o poder que ela oferece é inimaginável.
Linda soltou-se de Julian e correu até Katlen, ficando entre ela e a entidade de sombras.
— Há outro jeito! — gritou Linda para Julian. — Nós podemos quebrar o ciclo!
— Quebrar o ciclo é destruir a essência do que somos! — rebateu Julian, seus olhos brilhando com uma luz fanática.
Katlen olhou para Linda, depois para a Rosa, e finalmente para a sombra à sua frente. Ela sentiu a herança pesando em seus ombros, o sangue de seus antepassados clamando por reconhecimento. A mansão parecia vibrar em resposta à sua indecisão.
— O que acontece se eu tocar nela? — perguntou Katlen, apontando para a Rosa de Vidro.
— O mundo muda — respondeu Julian.
— Você nunca mais será a mesma — disse Linda, com lágrimas nos olhos.
Katlen estendeu a mão. A sombra recuou ligeiramente, como se respeitasse o momento da escolha. Seus dedos roçaram a superfície fria e cristalina da pétala. No instante do toque, o tempo pareceu parar. O som da chuva cessou, o vento congelou e a luz rosada explodiu, cegando a todos no jardim.
Quando a luz diminuiu, Katlen ainda estava de pé, mas algo havia mudado. Seus olhos, antes castanhos, agora possuíam reflexos cristalinos, e uma pequena marca, no formato de uma rosa, brilhava suavemente em seu pulso.
A sombra desapareceu, fundindo-se à própria Katlen ou talvez dissipando-se no ar. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Julian aproximou-se e ajoelhou-se diante dela.
— A Rainha do Vidro despertou — murmurou ele.
Linda apenas a observava, com uma mistura de alívio e pavor.
— Katlen? — chamou Linda, hesitante.
Katlen virou-se para elas. Sua expressão era de uma calma sobrenatural, uma serenidade que não pertencia a uma jovem de sua idade.
— O convidado partiu — disse Katlen, sua voz agora carregando o mesmo peso e autoridade que a de Julian. — Mas ele deixou a porta aberta.
Ela olhou para o teto quebrado, onde as estrelas começavam a aparecer entre as nuvens que se dissipavam.
— Linda, Julian... — começou Katlen, caminhando de volta para a mansão com uma elegância nova. — Temos muito o que conversar. O jantar ainda não terminou, e eu sinto que, pela primeira vez, eu sou a dona desta casa.
Julian levantou-se, um sorriso de triunfo nos lábios. Linda seguiu Katlen, sabendo que a amiga que ela conhecia havia ficado para trás, fragmentada como o vidro no chão, e que o que restava era algo muito mais antigo e perigoso.
A noite estava longe de acabar, e os segredos da Rosa estavam apenas começando a ser desvendados sob a luz fria da lua que agora banhava o jardim de inverno. O convidado misterioso havia cumprido seu papel, e o destino de Katlen estava selado em vidro e sangue.
Tudo estava preparado para o jantar, mas a atmosfera não era de celebração. Havia um peso no ar, uma eletricidade estática que fazia os pequenos pelos de seus braços se arrepiarem. Katlen parou diante do grande espelho dourado do hall e suspirou.
— Você está deslumbrante, Katlen — murmurou Linda, surgindo das sombras da sala de estar com a elegância silenciosa que lhe era peculiar.
Katlen virou-se, esboçando um sorriso tenso. Linda usava um vestido escuro que contrastava com sua pele alva, e seus olhos pareciam carregar uma sabedoria que Katlen ainda tentava decifrar.
— Obrigada, Linda. Mas não consigo afastar essa sensação... — Katlen fez uma pausa, olhando para a porta principal. — Quem é ele, afinal? Por que tanto mistério sobre esse convidado?
Linda aproximou-se, colocando uma mão reconfortante no ombro da amiga. O toque era frio, mas firme.
— Algumas respostas só se revelam quando a porta se abre — disse Linda, com um tom enigmático. — Ele é alguém que conhece as raízes desta casa melhor do que nós duas juntas.
— Isso não ajuda muito a acalmar meus nervos — confessou Katlen, soltando uma risada nervosa.
O som da campainha ressoou pela mansão, cortando a conversa como uma lâmina. Katlen sentiu um solavanco no peito. O mordomo, um homem de movimentos mecânicos e rosto inexpressivo, dirigiu-se à entrada. As duas mulheres observaram, imóveis, enquanto a pesada porta de carvalho se abria para a noite tempestuosa.
Um homem entrou. Ele vestia um sobretudo longo, encharcado pela chuva, e trazia consigo o cheiro de terra molhada e de algo antigo, como livros esquecidos em uma biblioteca fechada. Ele retirou o chapéu, revelando cabelos grisalhos nas têmporas e olhos de um azul tão profundo que pareciam quase negros sob a luz dos lustres.
— Boa noite — disse o estranho. Sua voz era um barítono rico, carregado de uma autoridade natural. — Perdoem-me pelo atraso. Os caminhos para esta casa tornaram-se traiçoeiros com o passar dos anos.
Linda deu um passo à frente, sua expressão suavizando-se em um reconhecimento que Katlen não compreendia.
— Seja bem-vindo — disse Linda, fazendo uma leve reverência. — Estávamos à sua espera.
O homem voltou seu olhar para Katlen. Havia uma intensidade naquelas pupilas que a fez recuar um milímetro, uma sensação de que ele não estava apenas olhando para ela, mas através dela.
— E esta deve ser a jovem Katlen — afirmou ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação de um fato há muito conhecido. — Você tem os olhos da linhagem, embora o brilho seja... diferente.
— Quem é você? — perguntou Katlen, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos.
O homem sorriu, um gesto que não alcançou seus olhos.
— Um amigo do passado, uma sombra do presente — respondeu ele, entregando o sobretudo ao mordomo. — Podem me chamar de Julian.
— O jantar está servido — anunciou o mordomo, quebrando o transe que se instalara no hall.
Eles se dirigiram à sala de jantar, onde a mesa estava posta com a melhor prataria e cristais que refletiam a luz das velas. O ambiente era opulento, mas a presença de Julian parecia diminuir a grandiosidade da sala, tornando tudo subitamente pequeno e insignificante.
Durante o primeiro prato, o silêncio foi preenchido apenas pelo som dos talheres. Katlen observava Julian. Ele comia com uma precisão quase ritualística. Linda, por outro lado, parecia estar em um estado de alerta contido, como se esperasse que a qualquer momento uma palavra errada pudesse desencadear uma tempestade maior do que a que rugia lá fora.
— Diga-me, Katlen — começou Julian, limpando os lábios com o guardanapo de linho —, o que Linda lhe contou sobre a história desta propriedade?
Katlen olhou para Linda antes de responder.
— Ela me disse que a casa pertence à família há gerações. Que há segredos, sim, mas que o tempo cuidaria de revelá-los.
Julian soltou uma risada curta e seca.
— O tempo é um mestre cruel, minha cara. Ele não revela segredos; ele os enterra sob camadas de esquecimento até que alguém decida cavar fundo o suficiente.
— E o senhor veio aqui para cavar? — questionou Katlen, sentindo uma ponta de irritação superar o medo.
— Eu vim para garantir que o que foi enterrado permaneça onde está — retrucou Julian, fixando o olhar nela. — Ou para decidir se é hora de uma exumação completa.
Linda interveio, sua voz soando como um aviso.
— Julian, não assuste a menina. Ela ainda está se adaptando.
— Adaptação é para os fracos, Linda — disse Julian, voltando-se para ela. — Você sabe tão bem quanto eu que o sangue que corre nestas veias não se adapta. Ele domina ou é dominado.
Katlen sentiu um calafrio. A conversa estava tomando um rumo que ela não conseguia acompanhar, repleta de metáforas e subentendidos que pareciam apontar para algo sombrio escondido no DNA daquela família.
— Eu não entendo — disse Katlen, deixando o garfo cair sobre o prato com um tilintar metálico. — Por que todo esse mistério? Se você tem algo a dizer sobre quem eu sou ou sobre esta casa, diga de uma vez.
Julian inclinou-se para a frente, a luz das velas criando sombras profundas em seu rosto.
— Você já ouviu falar da Rosa de Vidro, Katlen?
Katlen franziu a testa. O nome soava familiar, como um sussurro de um sonho esquecido na infância.
— É apenas uma lenda local, não é? — respondeu ela. — Uma flor que nunca murcha, escondida em algum lugar deste jardim.
— Não é uma lenda — afirmou Julian, sua voz caindo para um sussurro conspiratório. — É uma herança. E é a razão pela qual eu estou aqui. Ela começou a florescer novamente, Katlen. E quando a Rosa floresce, alguém deve pagar o preço do perfume.
Linda levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando-se pesadamente no chão.
— Já chega, Julian! — exclamou ela. — Não é o momento.
— É sempre o momento para a verdade, Linda — disse Julian, levantando-se também, mantendo a calma absoluta. — Veja como ela treme. Ela sente a conexão. Ela sente o chamado.
Katlen olhou para as próprias mãos. Elas estavam, de fato, tremendo, mas não era apenas de medo. Havia um calor estranho subindo por seus pulsos, uma pulsação que parecia sincronizada com algo vindo do fundo do jardim, além das vidraças.
— O que está acontecendo comigo? — perguntou Katlen, sua voz pouco mais que um sopro.
Linda contornou a mesa e abraçou Katlen, tentando protegê-la do olhar gélido de Julian.
— Nada que você não possa enfrentar, querida. Eu estou aqui.
— Você não poderá protegê-la para sempre, Linda — disse Julian, caminhando em direção à janela que dava para o jardim de inverno. — O convidado misterioso não sou eu, Katlen. Eu sou apenas o mensageiro. O verdadeiro convidado está lá fora, esperando na escuridão.
Katlen soltou-se do abraço de Linda e caminhou até a janela. A chuva havia diminuído para uma garoa fina. No centro do jardim de inverno, entre as folhagens exóticas e as estátuas de mármore, algo brilhava. Uma luz suave, rosada, que parecia emanar de uma única flor solitária sob a cúpula de vidro.
— A Rosa... — sussurrou Katlen.
— Ela está chamando por você — disse Julian, agora parado logo atrás dela. — A pergunta é: você terá coragem de abrir a porta e deixá-la entrar?
Katlen olhou para Linda, que tinha uma expressão de profunda tristeza e resignação.
— Linda, você sabia disso? — perguntou Katlen.
— Eu sabia que este dia chegaria — respondeu Linda, aproximando-se. — Mas esperava que tivéssemos mais tempo. A Rosa de Vidro é a alma desta casa, Katlen. E você é a sua nova guardiã.
— Guardiã? — Katlen riu, uma risada beirando a histeria. — Eu só queria uma vida normal. Eu só queria entender por que herdei esta mansão de um tio que nunca conheci.
— O seu tio sabia que você era a única capaz de conter o que floresce aqui — explicou Julian. — Mas a contenção tem um limite. O convidado que mencionei... ele não é uma pessoa. É a manifestação do que sua família tentou esconder por séculos.
De repente, um estrondo ecoou pelo jardim de inverno. Um dos painéis de vidro da cúpula se estilhaçou, e fragmentos caíram como neve brilhante sobre a vegetação. O vento invadiu o recinto, trazendo consigo o perfume mais doce e inebriante que Katlen já sentira — um cheiro de rosas, mas com um toque metálico, como sangue.
— Ele chegou — disse Julian, sua voz agora tingida de uma estranha reverência.
Katlen sentiu uma força irresistível puxando-a em direção ao jardim. Ela não conseguia mais lutar contra a curiosidade ou contra aquele calor que agora ardia em seu peito. Ela abriu as portas duplas que levavam ao jardim de inverno e deu o primeiro passo para fora da segurança da sala de jantar.
— Katlen, espere! — gritou Linda, mas Julian a segurou pelo braço.
— Deixe-a ir, Linda. O destino não aceita atrasos.
Katlen caminhou entre as plantas, seus pés esmagando os cacos de vidro. No centro, a Rosa de Vidro brilhava intensamente. Suas pétalas eram translúcidas, como se esculpidas no mais puro cristal, mas dentro delas corria um líquido rubi que pulsava.
Diante da flor, uma silhueta começou a se formar a partir da névoa e da chuva que entrava pelo teto quebrado. Não era um homem, nem uma fera, mas uma forma feita de sombras e pétalas flutuantes.
— Quem é você? — perguntou Katlen, sua voz ecoando sob a cúpula.
A forma inclinou o que parecia ser uma cabeça. Não houve resposta em palavras, mas uma imagem inundou a mente de Katlen: campos de rosas vermelhas tornando-se vidro sob um sol negro, e uma linhagem de mulheres que, geração após geração, entregavam seus corações para manter aquele jardim vivo.
— Eu não vou fazer isso — disse Katlen, recuando. — Eu não vou me sacrificar por uma flor.
A sombra avançou, e o perfume tornou-se sufocante.
— Não é um sacrifício, Katlen — a voz de Julian veio de trás dela, agora ele estava na entrada do jardim com Linda. — É uma simbiose. Sem você, a Rosa morre e esta casa desmorona, levando todos nós junto. Com você, ela floresce, e o poder que ela oferece é inimaginável.
Linda soltou-se de Julian e correu até Katlen, ficando entre ela e a entidade de sombras.
— Há outro jeito! — gritou Linda para Julian. — Nós podemos quebrar o ciclo!
— Quebrar o ciclo é destruir a essência do que somos! — rebateu Julian, seus olhos brilhando com uma luz fanática.
Katlen olhou para Linda, depois para a Rosa, e finalmente para a sombra à sua frente. Ela sentiu a herança pesando em seus ombros, o sangue de seus antepassados clamando por reconhecimento. A mansão parecia vibrar em resposta à sua indecisão.
— O que acontece se eu tocar nela? — perguntou Katlen, apontando para a Rosa de Vidro.
— O mundo muda — respondeu Julian.
— Você nunca mais será a mesma — disse Linda, com lágrimas nos olhos.
Katlen estendeu a mão. A sombra recuou ligeiramente, como se respeitasse o momento da escolha. Seus dedos roçaram a superfície fria e cristalina da pétala. No instante do toque, o tempo pareceu parar. O som da chuva cessou, o vento congelou e a luz rosada explodiu, cegando a todos no jardim.
Quando a luz diminuiu, Katlen ainda estava de pé, mas algo havia mudado. Seus olhos, antes castanhos, agora possuíam reflexos cristalinos, e uma pequena marca, no formato de uma rosa, brilhava suavemente em seu pulso.
A sombra desapareceu, fundindo-se à própria Katlen ou talvez dissipando-se no ar. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Julian aproximou-se e ajoelhou-se diante dela.
— A Rainha do Vidro despertou — murmurou ele.
Linda apenas a observava, com uma mistura de alívio e pavor.
— Katlen? — chamou Linda, hesitante.
Katlen virou-se para elas. Sua expressão era de uma calma sobrenatural, uma serenidade que não pertencia a uma jovem de sua idade.
— O convidado partiu — disse Katlen, sua voz agora carregando o mesmo peso e autoridade que a de Julian. — Mas ele deixou a porta aberta.
Ela olhou para o teto quebrado, onde as estrelas começavam a aparecer entre as nuvens que se dissipavam.
— Linda, Julian... — começou Katlen, caminhando de volta para a mansão com uma elegância nova. — Temos muito o que conversar. O jantar ainda não terminou, e eu sinto que, pela primeira vez, eu sou a dona desta casa.
Julian levantou-se, um sorriso de triunfo nos lábios. Linda seguiu Katlen, sabendo que a amiga que ela conhecia havia ficado para trás, fragmentada como o vidro no chão, e que o que restava era algo muito mais antigo e perigoso.
A noite estava longe de acabar, e os segredos da Rosa estavam apenas começando a ser desvendados sob a luz fria da lua que agora banhava o jardim de inverno. O convidado misterioso havia cumprido seu papel, e o destino de Katlen estava selado em vidro e sangue.
