
← Voltar à lista de fanfics
0 curtida
Wave feelings
Fandom: Nada
Criado: 03/07/2026
Tags
RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaEstudo de PersonagemRealismoDrama
Sal na Pele e o Brilho de Dois Olhos
O sol da Califórnia estava começando a se despedir, pintando o céu com tons de laranja vibrante e um roxo profundo que parecia derreter sobre o oceano Pacífico. Kyle estava sentado na areia, sentindo os grãos finos entre os dedos dos pés, observando as ondas quebrassem com uma perfeição que só o final de tarde proporcionava. Sua prancha estava fincada na areia ao seu lado, servindo quase como um monumento à sua vida. Para Kyle, o surf não era apenas um esporte; era a única linguagem que ele realmente dominava.
Desde os três anos, quando seu pai o colocou pela primeira vez sobre uma prancha de madeira, Kyle sentiu que o mar era o único lugar onde o mundo fazia sentido. Na escola, as letras dançavam nos livros, trocando de lugar e zombando de sua tentativa de compreendê-las. A dislexia tinha feito dele o "garoto engraçado" da turma, uma máscara que ele usava para esconder a frustração de não conseguir acompanhar o ritmo dos outros. Mas ali, diante da imensidão azul, ele era o mestre.
— Você vai acabar virando uma estátua de sal se continuar aí parado — disse uma voz suave, interrompendo seus pensamentos.
Kyle sorriu sem precisar olhar para trás. Ele reconheceria aquele tom em qualquer lugar.
— O sal faz bem para a pele, Amber. Você, como modelo, deveria saber disso — ele brincou, virando o rosto para vê-la se aproximar.
Amber estava radiante. O vento soprava seus longos cachos ruivos, que brilhavam como fogo sob a luz do pôr do sol. Suas sardas, espalhadas pelo nariz e bochechas, pareciam constelações sobre a pele morena. Mas o que sempre prendia a atenção de Kyle eram os olhos dela: um verde profundo e um azul cristalino. Era uma combinação que o deixava hipnotizado toda vez que ela o encarava por tempo demais.
— Eu prefiro o meu hidratante caro, obrigada — ela riu, sentando-se ao lado dele. Ela trazia uma pequena bolsa de pano, de onde a gatinha Lua colocou a cabeça para fora, miando curiosa para o mar.
— Como foi a sessão de fotos hoje? — perguntou Kyle, notando que ela parecia um pouco mais cansada do que o normal.
Amber suspirou, abraçando os joelhos.
— Cansativa. O fotógrafo era daqueles que acham que modelos são manequins de plástico. Ele continuava dizendo para eu "parecer mais confiante", mas quanto mais ele gritava, mais eu sentia vontade de me esconder em um buraco.
Kyle sentiu um aperto no peito. Ele odiava quando Amber se sentia assim. Para o resto do mundo, ela era a imagem da perfeição e da autoconfiança, desfilando e posando com uma presença magnética. Mas Kyle conhecia a Amber que ficava nervosa antes de festas com estranhos, a Amber que se cobrava demais e que encontrava refúgio no silêncio de sua casa com o pai e a gata.
— Ele é um idiota — afirmou Kyle com simplicidade. — Você é a pessoa mais incrível que eu conheço, Amber. E não estou falando só das fotos. Você tem... sei lá, uma energia que faz as pessoas quererem estar por perto.
Amber sentiu o rosto esquentar, e desta vez não era por causa do sol. Ela olhou para Kyle, observando as gotas de água salgada que ainda brilhavam em seus ombros atléticos e o jeito como o cabelo loiro encaracolado estava bagunçado pelo vento.
— Obrigada, Kyle. De verdade. Você sempre sabe o que dizer.
— É a minha única habilidade — ele deu de ombros, rindo. — Já que ler um cardápio sem tropeçar nas palavras é um desafio olímpico para mim.
— Não diga isso — Amber o repreendeu gentilmente, tocando o braço dele. — Você ensina crianças de seis anos a domarem o oceano, Kyle. Isso é muito mais importante do que qualquer prova de literatura.
Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas ouvindo o som das ondas. A conexão entre eles era algo que vinha crescendo nos últimos meses, transformando a amizade de infância em algo mais denso, mais carregado de significados.
— Ei, olha lá! — Kyle apontou para o calçadão.
Nick e Zack estavam vindo em direção a eles, carregando caixas de pizza e rindo alto. Logo atrás, Leah caminhava com seu jeito calmo, segurando um livro contra o peito.
— O jantar chegou, seus nômades de praia! — gritou Nick, sua voz enérgica ecoando pela areia.
Nick era o oposto do silêncio. Alto, atlético e sempre pronto para uma piada, ele era o melhor amigo que Kyle poderia desejar. Zack, ao lado dele, sorriu e acenou. Zack era o porto seguro do grupo, o cara que, apesar de ter perdido a mãe cedo e cuidar da irmãzinha de quatro anos, nunca deixava a amargura entrar em seu coração.
— Espero que tenham trazido a de pepperoni — disse Kyle, levantando-se e ajudando Amber a ficar de pé.
— Você acha que eu esqueceria? — Nick perguntou, fingindo-se ofendido. — Sou um péssimo surfista comparado a você, mas sou um mestre em pedidos de pizza.
O grupo se reuniu em um círculo na areia. Leah sentou-se ao lado de Zack, que imediatamente passou o braço pelos ombros dela. O relacionamento deles era estável e doce, algo que todos admiravam. Kyle e Leah tinham namorado por um curto período no ano passado, mas logo perceberam que funcionavam muito melhor como amigos. Não havia climas estranhos, apenas um carinho fraternal que permanecia.
— Como está a pequena Chloe, Zack? — perguntou Amber, enquanto pegava uma fatia de pizza.
— Está ótima. Reclamou que eu não a trouxe, mas ela tinha que dormir cedo. Amanhã ela tem "dia de princesa" na escola — Zack riu, seus olhos azuis brilhando ao falar da irmã.
— Você é um herói, cara — comentou Nick, dando um tapa amigável nas costas de Zack. — Eu mal consigo cuidar das minhas meias, imagina de uma criança de quatro anos.
— Você não cuida nem do seu cabelo, Nick — Leah provocou, fazendo todos rirem.
A conversa fluiu naturalmente, cheia de piadas internas e planos para o fim de semana. Maggie, a outra integrante do grupo, não tinha podido ir porque estava trabalhando no abrigo de animais, mas seu nome surgiu várias vezes entre risadas. Kyle, no entanto, sentia-se estranhamente distraído. Seus olhos continuavam voltando para Amber.
Ela estava rindo de algo que Nick dissera, e a luz da lua, que agora começava a aparecer, refletia-se em sua pele. Kyle sentiu uma vontade súbita de segurar a mão dela, de dizer que ela não precisava ser a modelo perfeita o tempo todo, que para ele, ela era perfeita apenas por estar ali, com os pés sujos de areia e o cabelo desgrenhado.
— Kyle? Terra chamando Kyle — Nick estalou os dedos na frente do rosto do amigo.
— Hã? O quê? — Kyle balançou a cabeça, saindo do transe.
— Eu perguntei se você vai dar aula amanhã cedo. O swell vai estar bom.
— Vou sim. Tenho uma turma de iniciantes às sete. Por quê? Quer passar vergonha tentando pegar uma onda de novo?
— Ei! Eu estou melhorando — defendeu-se Nick. — Zack é testemunha.
— Ele caiu três vezes antes mesmo de chegar no outside — Zack comentou calmamente, bebendo um pouco de refrigerante.
— Traidor! — Nick exclamou, fazendo Amber e Leah caírem na gargalhada.
Depois que a pizza acabou e o frio da noite começou a se infiltrar nas roupas, o grupo decidiu se dispersar. Nick e os outros seguiram para o estacionamento, mas Kyle e Amber ficaram um pouco para trás.
— Quer que eu te acompanhe até o carro? — perguntou Kyle.
— Na verdade, meu pai deixou o carro na oficina. Eu vim caminhando, moro aqui perto, lembra? — Amber sorriu. — Mas aceito a companhia até a porta de casa.
Eles caminharam lentamente pelo calçadão. A gatinha Lua agora dormia profundamente dentro da bolsa de Amber. O silêncio entre eles não era desconfortável; era preenchido pelo som rítmico do mar e pelo murmúrio distante da cidade.
— Sabe, Kyle — começou Amber, olhando para os próprios pés —, às vezes eu sinto que você é a única pessoa que me vê de verdade.
Kyle parou de caminhar e se virou para ela. Eles estavam sob a luz amarelada de um poste antigo.
— O que você quer dizer com isso?
— Todo mundo vê a "Amber da capa da revista". Ou a "Amber com olhos de cores diferentes". Mas você... você me trata como a garota que gosta de ler poesias escondida e que tem medo de trovões.
Kyle deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de Amber era uma mistura de perfume floral e maresia.
— Para mim, essa é a única Amber que importa — ele disse, sua voz soando mais grave e sincera do que o habitual. — Eu não ligo para as fotos, Amber. Eu gosto de você porque você é engraçada, porque você cuida desse bicho preguiça que chama de gata e porque você é a única pessoa que não me faz sentir burro quando eu não consigo ler algo.
Amber sentiu o coração disparar. Ela olhou para Kyle, vendo a sinceridade em seus olhos verdes. Naquele momento, a insegurança que ela tanto sentia pareceu desaparecer.
— Você não é burro, Kyle. Nunca mais diga isso.
— Com você por perto, eu começo a acreditar — ele sorriu de canto, aquele sorriso que sempre fazia as pernas de Amber tremerem um pouco.
Ele estendeu a mão e, com cuidado, afastou uma mecha de cabelo ruivo do rosto dela. Seus dedos roçaram a pele quente de sua bochecha, e o toque pareceu enviar uma corrente elétrica através de ambos. Kyle sentiu uma coragem que não vinha das ondas, mas de algo muito mais profundo.
— Amber... eu...
— Eu sei — ela sussurrou, aproximando-se mais.
Antes que o momento pudesse se concretizar em um beijo, o celular de Amber começou a tocar freneticamente dentro da bolsa. Ela deu um pulo, assustada, quebrando o feitiço.
— É o meu pai — disse ela, olhando para a tela com um suspiro frustrado. — Ele provavelmente está preocupado porque já passou da hora de eu chegar.
Kyle soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e deu um sorriso compreensivo, embora seus olhos mostrassem uma ponta de decepção.
— É melhor você ir. Não queremos o seu pai vindo atrás de mim com um arpão.
Amber riu, recuperando o fôlego.
— Ele gosta de você, Kyle. Mas sim, é melhor eu ir.
Ela se aproximou e deu um beijo demorado na bochecha dele, perto do canto da boca.
— Boa aula amanhã, treinador.
— Boa noite, Amber.
Kyle ficou parado no calçadão, observando-a caminhar até sumir de vista. Ele tocou o lugar onde os lábios dela haviam encostado, sentindo o calor persistir. O mar continuava a quebrar ao fundo, mas, pela primeira vez na vida, Kyle descobriu que havia algo que ele amava tanto quanto o surf.
Enquanto caminhava de volta para sua caminhonete, ele não conseguia parar de pensar naquele par de olhos de cores diferentes. Ele sabia que o que estava acontecendo entre eles era como uma onda perfeita se formando no horizonte: grande, poderosa e impossível de ignorar. E Kyle estava mais do que pronto para surfá-la.
Desde os três anos, quando seu pai o colocou pela primeira vez sobre uma prancha de madeira, Kyle sentiu que o mar era o único lugar onde o mundo fazia sentido. Na escola, as letras dançavam nos livros, trocando de lugar e zombando de sua tentativa de compreendê-las. A dislexia tinha feito dele o "garoto engraçado" da turma, uma máscara que ele usava para esconder a frustração de não conseguir acompanhar o ritmo dos outros. Mas ali, diante da imensidão azul, ele era o mestre.
— Você vai acabar virando uma estátua de sal se continuar aí parado — disse uma voz suave, interrompendo seus pensamentos.
Kyle sorriu sem precisar olhar para trás. Ele reconheceria aquele tom em qualquer lugar.
— O sal faz bem para a pele, Amber. Você, como modelo, deveria saber disso — ele brincou, virando o rosto para vê-la se aproximar.
Amber estava radiante. O vento soprava seus longos cachos ruivos, que brilhavam como fogo sob a luz do pôr do sol. Suas sardas, espalhadas pelo nariz e bochechas, pareciam constelações sobre a pele morena. Mas o que sempre prendia a atenção de Kyle eram os olhos dela: um verde profundo e um azul cristalino. Era uma combinação que o deixava hipnotizado toda vez que ela o encarava por tempo demais.
— Eu prefiro o meu hidratante caro, obrigada — ela riu, sentando-se ao lado dele. Ela trazia uma pequena bolsa de pano, de onde a gatinha Lua colocou a cabeça para fora, miando curiosa para o mar.
— Como foi a sessão de fotos hoje? — perguntou Kyle, notando que ela parecia um pouco mais cansada do que o normal.
Amber suspirou, abraçando os joelhos.
— Cansativa. O fotógrafo era daqueles que acham que modelos são manequins de plástico. Ele continuava dizendo para eu "parecer mais confiante", mas quanto mais ele gritava, mais eu sentia vontade de me esconder em um buraco.
Kyle sentiu um aperto no peito. Ele odiava quando Amber se sentia assim. Para o resto do mundo, ela era a imagem da perfeição e da autoconfiança, desfilando e posando com uma presença magnética. Mas Kyle conhecia a Amber que ficava nervosa antes de festas com estranhos, a Amber que se cobrava demais e que encontrava refúgio no silêncio de sua casa com o pai e a gata.
— Ele é um idiota — afirmou Kyle com simplicidade. — Você é a pessoa mais incrível que eu conheço, Amber. E não estou falando só das fotos. Você tem... sei lá, uma energia que faz as pessoas quererem estar por perto.
Amber sentiu o rosto esquentar, e desta vez não era por causa do sol. Ela olhou para Kyle, observando as gotas de água salgada que ainda brilhavam em seus ombros atléticos e o jeito como o cabelo loiro encaracolado estava bagunçado pelo vento.
— Obrigada, Kyle. De verdade. Você sempre sabe o que dizer.
— É a minha única habilidade — ele deu de ombros, rindo. — Já que ler um cardápio sem tropeçar nas palavras é um desafio olímpico para mim.
— Não diga isso — Amber o repreendeu gentilmente, tocando o braço dele. — Você ensina crianças de seis anos a domarem o oceano, Kyle. Isso é muito mais importante do que qualquer prova de literatura.
Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas ouvindo o som das ondas. A conexão entre eles era algo que vinha crescendo nos últimos meses, transformando a amizade de infância em algo mais denso, mais carregado de significados.
— Ei, olha lá! — Kyle apontou para o calçadão.
Nick e Zack estavam vindo em direção a eles, carregando caixas de pizza e rindo alto. Logo atrás, Leah caminhava com seu jeito calmo, segurando um livro contra o peito.
— O jantar chegou, seus nômades de praia! — gritou Nick, sua voz enérgica ecoando pela areia.
Nick era o oposto do silêncio. Alto, atlético e sempre pronto para uma piada, ele era o melhor amigo que Kyle poderia desejar. Zack, ao lado dele, sorriu e acenou. Zack era o porto seguro do grupo, o cara que, apesar de ter perdido a mãe cedo e cuidar da irmãzinha de quatro anos, nunca deixava a amargura entrar em seu coração.
— Espero que tenham trazido a de pepperoni — disse Kyle, levantando-se e ajudando Amber a ficar de pé.
— Você acha que eu esqueceria? — Nick perguntou, fingindo-se ofendido. — Sou um péssimo surfista comparado a você, mas sou um mestre em pedidos de pizza.
O grupo se reuniu em um círculo na areia. Leah sentou-se ao lado de Zack, que imediatamente passou o braço pelos ombros dela. O relacionamento deles era estável e doce, algo que todos admiravam. Kyle e Leah tinham namorado por um curto período no ano passado, mas logo perceberam que funcionavam muito melhor como amigos. Não havia climas estranhos, apenas um carinho fraternal que permanecia.
— Como está a pequena Chloe, Zack? — perguntou Amber, enquanto pegava uma fatia de pizza.
— Está ótima. Reclamou que eu não a trouxe, mas ela tinha que dormir cedo. Amanhã ela tem "dia de princesa" na escola — Zack riu, seus olhos azuis brilhando ao falar da irmã.
— Você é um herói, cara — comentou Nick, dando um tapa amigável nas costas de Zack. — Eu mal consigo cuidar das minhas meias, imagina de uma criança de quatro anos.
— Você não cuida nem do seu cabelo, Nick — Leah provocou, fazendo todos rirem.
A conversa fluiu naturalmente, cheia de piadas internas e planos para o fim de semana. Maggie, a outra integrante do grupo, não tinha podido ir porque estava trabalhando no abrigo de animais, mas seu nome surgiu várias vezes entre risadas. Kyle, no entanto, sentia-se estranhamente distraído. Seus olhos continuavam voltando para Amber.
Ela estava rindo de algo que Nick dissera, e a luz da lua, que agora começava a aparecer, refletia-se em sua pele. Kyle sentiu uma vontade súbita de segurar a mão dela, de dizer que ela não precisava ser a modelo perfeita o tempo todo, que para ele, ela era perfeita apenas por estar ali, com os pés sujos de areia e o cabelo desgrenhado.
— Kyle? Terra chamando Kyle — Nick estalou os dedos na frente do rosto do amigo.
— Hã? O quê? — Kyle balançou a cabeça, saindo do transe.
— Eu perguntei se você vai dar aula amanhã cedo. O swell vai estar bom.
— Vou sim. Tenho uma turma de iniciantes às sete. Por quê? Quer passar vergonha tentando pegar uma onda de novo?
— Ei! Eu estou melhorando — defendeu-se Nick. — Zack é testemunha.
— Ele caiu três vezes antes mesmo de chegar no outside — Zack comentou calmamente, bebendo um pouco de refrigerante.
— Traidor! — Nick exclamou, fazendo Amber e Leah caírem na gargalhada.
Depois que a pizza acabou e o frio da noite começou a se infiltrar nas roupas, o grupo decidiu se dispersar. Nick e os outros seguiram para o estacionamento, mas Kyle e Amber ficaram um pouco para trás.
— Quer que eu te acompanhe até o carro? — perguntou Kyle.
— Na verdade, meu pai deixou o carro na oficina. Eu vim caminhando, moro aqui perto, lembra? — Amber sorriu. — Mas aceito a companhia até a porta de casa.
Eles caminharam lentamente pelo calçadão. A gatinha Lua agora dormia profundamente dentro da bolsa de Amber. O silêncio entre eles não era desconfortável; era preenchido pelo som rítmico do mar e pelo murmúrio distante da cidade.
— Sabe, Kyle — começou Amber, olhando para os próprios pés —, às vezes eu sinto que você é a única pessoa que me vê de verdade.
Kyle parou de caminhar e se virou para ela. Eles estavam sob a luz amarelada de um poste antigo.
— O que você quer dizer com isso?
— Todo mundo vê a "Amber da capa da revista". Ou a "Amber com olhos de cores diferentes". Mas você... você me trata como a garota que gosta de ler poesias escondida e que tem medo de trovões.
Kyle deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de Amber era uma mistura de perfume floral e maresia.
— Para mim, essa é a única Amber que importa — ele disse, sua voz soando mais grave e sincera do que o habitual. — Eu não ligo para as fotos, Amber. Eu gosto de você porque você é engraçada, porque você cuida desse bicho preguiça que chama de gata e porque você é a única pessoa que não me faz sentir burro quando eu não consigo ler algo.
Amber sentiu o coração disparar. Ela olhou para Kyle, vendo a sinceridade em seus olhos verdes. Naquele momento, a insegurança que ela tanto sentia pareceu desaparecer.
— Você não é burro, Kyle. Nunca mais diga isso.
— Com você por perto, eu começo a acreditar — ele sorriu de canto, aquele sorriso que sempre fazia as pernas de Amber tremerem um pouco.
Ele estendeu a mão e, com cuidado, afastou uma mecha de cabelo ruivo do rosto dela. Seus dedos roçaram a pele quente de sua bochecha, e o toque pareceu enviar uma corrente elétrica através de ambos. Kyle sentiu uma coragem que não vinha das ondas, mas de algo muito mais profundo.
— Amber... eu...
— Eu sei — ela sussurrou, aproximando-se mais.
Antes que o momento pudesse se concretizar em um beijo, o celular de Amber começou a tocar freneticamente dentro da bolsa. Ela deu um pulo, assustada, quebrando o feitiço.
— É o meu pai — disse ela, olhando para a tela com um suspiro frustrado. — Ele provavelmente está preocupado porque já passou da hora de eu chegar.
Kyle soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e deu um sorriso compreensivo, embora seus olhos mostrassem uma ponta de decepção.
— É melhor você ir. Não queremos o seu pai vindo atrás de mim com um arpão.
Amber riu, recuperando o fôlego.
— Ele gosta de você, Kyle. Mas sim, é melhor eu ir.
Ela se aproximou e deu um beijo demorado na bochecha dele, perto do canto da boca.
— Boa aula amanhã, treinador.
— Boa noite, Amber.
Kyle ficou parado no calçadão, observando-a caminhar até sumir de vista. Ele tocou o lugar onde os lábios dela haviam encostado, sentindo o calor persistir. O mar continuava a quebrar ao fundo, mas, pela primeira vez na vida, Kyle descobriu que havia algo que ele amava tanto quanto o surf.
Enquanto caminhava de volta para sua caminhonete, ele não conseguia parar de pensar naquele par de olhos de cores diferentes. Ele sabia que o que estava acontecendo entre eles era como uma onda perfeita se formando no horizonte: grande, poderosa e impossível de ignorar. E Kyle estava mais do que pronto para surfá-la.
