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Nos tempos dos farrapo

Fandom: A casa das sete mulheres

Criado: 04/07/2026

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RomanceHistóricoDramaRealismoEstudo de PersonagemLirismo
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O Galope do Coração e as Esporas do Desejo

A estância da Barra estava mergulhada no silêncio pesado das tardes de guerra, interrompido apenas pelo som do vento minuano que soprava vindo do pampa, fustigando as janelas de madeira pesada. No pátio interno, o cheiro de charque e couro úmido misturava-se ao aroma das laranjeiras. Joana, sobrinha de Bento Gonçalves, observava o horizonte com os dedos entrelaçados em seus cachos escuros e rebeldes, que teimavam em escapar do laço de fita.

Joana não era como as outras mulheres da família. Enquanto suas primas se debruçavam sobre bastidores de bordar, suspirando pelos maridos e noivos ausentes na revolução, ela preferia o pátio, o galpão e a liberdade. Amava a tradição gaúcha com uma ferocidade que assustava os mais conservadores; sabia preparar um mate como ninguém e conhecia o temperamento de cada cavalo daquelas terras. Viver, para ela, era um ato de resistência e paixão.

— A senhora vai acabar pegando um resfriado, guria — disse uma voz grave e firme, vinda de trás dela.

Joana virou-se rapidamente, o sorriso já brotando nos lábios antes mesmo de confirmar quem era. O General Antônio de Sousa Neto, o herói de Seival, estava parado sob o umbral da porta. Ele trajava seu uniforme militar, gasto pelas batalhas, mas mantinha a postura impecável de quem carregava o destino de uma República nos ombros.

— O senhor sabe muito bem, Comandante, que as mulheres desta casa são feitas de ferro e geada — respondeu ela, desafiadora. — Um vento desses não nos derruba.

Neto aproximou-se, os olhos fixos na figura vibrante à sua frente. Ele sempre fora um homem de ação, de decisões rápidas no campo de batalha, mas diante de Joana, sentia uma hesitação que beirava o encantamento. Aquela jovem, com seus cachos que pareciam ter vida própria e um brilho nos olhos que falava de uma sede de mundo, o desarmava completamente.

— Ferro e geada, sim — concordou Neto, parando a poucos passos dela. — Mas até o ferro precisa de calor para não quebrar.

— E o que o senhor sugere? — Joana inclinou a cabeça, o olhar travesso. — Que eu me esconda sob as cobertas como uma donzela assustada?

Neto riu, um som raro e genuíno que pareceu aquecer o ar gelado.

— Jamais sugeriria tal coisa a uma sobrinha de Bento Gonçalves. Mas talvez um mate quente e uma boa prosa pudessem ser úteis.

— Pois então venha — disse ela, gesticulando para que ele a seguisse até o galpão, onde o fogo de chão ainda mantinha algumas brasas vivas. — Vou lhe mostrar que sei cuidar de um general melhor do que os seus soldados.

O galpão estava vazio, mergulhado em uma penumbra acolhedora. O estalo da lenha era o único som além da respiração de ambos. Joana moveu-se com agilidade, preparando a cuia com a destreza de quem honrava cada gesto da tradição. Neto a observava em silêncio, admirando a curva de seu pescoço e a maneira como ela parecia em harmonia com tudo o que era autêntico naquela terra.

— O senhor parece pensativo, Comandante — comentou Joana, entregando-lhe o mate. — A guerra pesa muito hoje?

Neto aceitou a cuia, sentindo o calor do porongo em suas mãos calejadas.

— A guerra sempre pesa, Joana. Mas hoje, o que me ocupa o pensamento não são os imperiais, nem as táticas de ataque.

— E o que seria? — perguntou ela, sentando-se em um banco de madeira, próxima o suficiente para sentir o calor que emanava do corpo dele.

— É a vida que insiste em florescer no meio do caos — disse ele, olhando-a profundamente. — É a sua alegria, a sua força. Às vezes, me pergunto como alguém pode amar tanto a vida enquanto o mundo ao redor parece desmoronar.

Joana suspirou, o olhar perdendo-se nas brasas.

— É justamente por o mundo estar desmoronando que precisamos amar a vida com mais força, Comandante. Cada pôr do sol, cada galope no campo... tudo isso pode ser o último. Eu não quero chegar ao fim dos meus dias lamentando o que não senti.

Neto deixou a cuia de lado, a intensidade das palavras dela vibrando em seu peito. Ele estendeu a mão e, com uma hesitação que desapareceu em um segundo, tocou um dos cachos de Joana. A maciez do cabelo contrastava com a aspereza de sua pele.

— Você é uma força da natureza, Joana — sussurrou ele.

— E o senhor é um homem que esqueceu como é ser apenas um homem, Neto — retrucou ela, a voz baixa e carregada de uma eletricidade nova.

O silêncio que se seguiu não era mais o silêncio da guerra, mas o da expectativa. Neto sentiu uma urgência que não sentia há anos. Não era apenas desejo carnal, era uma sede de conexão, de se sentir vivo além do dever e do sangue. Ele aproximou o rosto do dela, e Joana não recuou. Pelo contrário, ela inclinou-se para frente, desafiando-o com o olhar até o último instante.

Quando os lábios se encontraram, foi como se o pampa inteiro estremecesse. O beijo era urgente, faminto, misturando o gosto do mate com a doçura da entrega. Neto envolveu a cintura dela com seus braços fortes, trazendo-a para perto, sentindo o pulsar do coração de Joana contra o seu peito.

— Neto... — murmurou ela entre os beijos, as mãos perdidas nos cabelos dele.

— Eu não deveria... — disse ele, a voz rouca, tentando manter um resquício de razão. — Você é sobrinha do meu General.

— Aqui, neste galpão, eu sou apenas Joana — disse ela, afastando-se apenas o suficiente para olhá-lo nos olhos. — E o senhor é o homem que eu escolhi para me fazer sentir que a vida vale a pena, hoje.

Neto não precisou de mais nenhum incentivo. Ele a levantou com facilidade, levando-a para um canto mais reservado do galpão, sobre os pelegos macios e cheirosos que serviam de cama para os viajantes. A luz do fogo de chão projetava sombras dançantes nas paredes de barro, testemunhas silenciosas de uma paixão que ignorava patentes e convenções.

As roupas foram deixadas de lado com uma pressa respeitosa. Sob a pele de Joana, Neto descobriu um mapa de curvas e calor que o fazia esquecer todas as fronteiras que já havia defendido. Ela, por sua vez, explorava o corpo do guerreiro com uma curiosidade reverente, traçando as cicatrizes que contavam a história de um homem que dera tudo de si pela causa, mas que agora se entregava inteiramente a ela.

— Você é linda — sussurrou Neto, a voz embargada pela emoção, enquanto suas mãos percorriam a silhueta dela.

— E você é meu — respondeu Joana, com a posse de quem conhece a própria vontade. — Pelo menos por esta noite.

O ato de amor foi como uma batalha vencida sem armas, apenas com a entrega total dos sentidos. Houve ternura nos toques, mas também uma selvageria que espelhava a terra em que viviam. No auge da paixão, Joana sentiu que sua alma galopava livre pelos campos, sem rédeas, sem limites, fundindo-se à força daquele homem que era, ao mesmo tempo, seu protetor e seu igual.

Horas depois, quando o fogo já era apenas cinzas e o frio da noite começava a rastejar para dentro do galpão, eles permaneciam abraçados sob os pelegos. O silêncio agora era de uma paz profunda, uma trégua necessária no meio da tempestade.

— O que faremos agora? — perguntou Neto, beijando o topo da cabeça dela, onde os cachos ainda estavam bagunçados pelo fervor do momento.

— O que sempre fazemos, Comandante — respondeu Joana, aninhando-se mais perto dele. — Viveremos. Um dia de cada vez. Amanhã o senhor parte para a batalha, e eu ficarei aqui, cuidando desta terra e esperando pelo seu retorno.

— Eu voltarei — prometeu ele, com uma convicção que vinha do fundo da alma. — Agora tenho um motivo que vai além da República.

Joana sorriu, sentindo o calor dele protegendo-a do inverno. Ela sabia que a guerra era incerta e que o destino gostava de pregar peças nos homens, mas naquele momento, ela se sentia invencível.

— Traga-me uma vitória, Neto — pediu ela, fechando os olhos. — E eu lhe darei toda a tradição e o amor que este Rio Grande pode oferecer.

— Eu já venci, Joana — disse ele em voz baixa, antes de cair no sono ao lado da mulher que, em poucas horas, havia se tornado o seu verdadeiro norte.

Lá fora, o vento continuava a soprar, mas dentro do galpão, o fogo daquela união ainda ardia, prometendo que, enquanto houvesse vida e coragem, o amor encontraria seu lugar, mesmo sob a sombra das espadas.
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