Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Pelos pampas

Fandom: A casa das sete mulheres

Criado: 04/07/2026

Tags

RomanceDramaHistóricoAngústiaDivergênciaEstudo de PersonagemLirismo
Índice

O Entrelaçar das Esporas e do Coração

O sol de outono dourava as coxilhas do Rio Grande, pintando de fogo o horizonte que cercava a estância da Barra. Para Joana, aquele cenário era mais do que uma paisagem; era o seu altar. Criada sob o rigor das tradições gaúchas, ela era uma moça que carregava a doçura no olhar, mas a firmeza de quem sabia manejar um laço e respeitar a terra. Irmã de criação de um Caramuru — o soldado imperial que, por ironia do destino, salvara a vida de Rosário —, Joana crescera ouvindo o eco das batalhas e o clamor por liberdade.

Diferente de Rosário, que vivia em um mundo de devaneios e esperas melancólicas, Joana era pé no chão. Ela acreditava nos ideais de Bento Gonçalves, na força da República Rio-Grandense e na honra dos homens que vestiam o lenço farroupilha.

Naquela tarde, a estância estava em polvorosa. Estêvão, o jovem oficial da corte imperial que viera em missão diplomática e acabara noivo de Rosário por conveniências que a guerra impunha, caminhava pelos arredores do galpão. Ele era um homem da cidade, de gestos finos e farda impecável, mas sentia que algo lhe faltava. Rosário era etérea, quase transparente em sua tristeza, e Estêvão, embora a respeitasse, sentia que tentava abraçar a neblina toda vez que falava com ela.

Foi quando a viu.

Joana estava perto das mangueiras, ajudando a selar um cavalo tordilho. O vestido de chita era simples, mas o modo como ela prendia o cabelo em uma trança grossa e a destreza de suas mãos chamaram a atenção do oficial. Ela não era uma dama de salão; era a própria força daquela terra.

— A senhora parece entender mais de montaria do que muitos dos meus soldados — comentou Estêvão, aproximando-se com um sorriso contido.

Joana virou-se, surpresa. O rosto estava levemente corado pelo esforço, e os olhos brilhavam com uma vivacidade que ele nunca vira em Rosário.

— No Rio Grande, capitão, a gente aprende a cavalgar antes mesmo de aprender a rezar — respondeu ela, retribuindo o sorriso com uma ponta de orgulho. — E não me chame de senhora. Sou apenas Joana.

— Pois saiba, Joana, que a sua destreza é admirável — disse ele, dando um passo à frente, esquecendo-se por um momento do protocolo que o ligava à outra mulher da casa. — Eu sou Estêvão. Embora creio que já saiba quem sou. O noivo da sua amiga.

Joana baixou levemente os olhos, sentindo uma pontada estranha no peito. Ela gostava de Rosário, protegia-a como a uma irmã, mas sabia que o noivado da amiga era um arranjo sem alma.

— Sei quem é o senhor — disse ela em voz baixa. — Rosário é uma alma delicada. O senhor deve ter paciência com ela.

— Paciência eu tenho — suspirou Estêvão, olhando para o horizonte. — Mas às vezes sinto que procuro uma vida que ela não quer me dar. Ela vive em um mundo de sombras, Joana. E aqui, vendo você... sinto que o sol finalmente resolveu aparecer.

Joana sentiu o coração disparar. Aquela era uma conversa perigosa. Ela era uma republicana fervorosa, irmã de um homem que servia ao Império apenas por dívida de vida, e ele era a própria representação da Coroa que ela combatia em seus ideais.

— O senhor fala como um poeta, capitão — disse ela, tentando recuperar a firmeza. — Mas as palavras bonitas não mudam o fato de que somos de mundos diferentes. Eu acredito nesta terra, na nossa luta. O senhor serve a um trono que fica do outro lado do mar de morros.

— O coração não conhece fronteiras, nem partidos — rebateu Estêvão, aproximando-se ainda mais. — Eu vim para cá esperando encontrar uma noiva e acabei encontrando uma revolução. Mas não a revolução de Bento Gonçalves... e sim a que você causou em mim desde o momento em que me olhou.

Joana recuou um passo, encostando-se na madeira da cerca. O cheiro de couro e alfafa misturava-se ao perfume cítrico que vinha do oficial.

— O senhor está noivo de Rosário — lembrou ela, a voz trêmula. — Ela é minha melhor amiga. Eu morreria por ela.

— E eu não quero que ninguém morra — disse ele, estendendo a mão para tocar, de leve, uma mecha de cabelo que escapara da trança de Joana. — Mas como posso casar com o silêncio de Rosário se o que eu desejo é a sua voz? Como posso querer a melancolia dela se a sua força é o que me mantém em pé neste lugar estranho?

— Não diga essas coisas — pediu Joana, embora não se afastasse do seu toque. — Meu irmão de criação, o Caramuru, salvou a vida de Rosário. Há uma dívida de honra aqui. Se o senhor a abandonar, a honra dele também será ferida.

Estêvão soltou um riso amargo.

— Honra... tradição... ideais. Tudo isso pesa tanto, Joana. Mas e o que sentimos? Eu vejo como você olha para esta estância, como você ama cada palmo desta terra. Eu também aprendi a amar este lugar, mas foi através dos seus olhos, observando você de longe nos últimos dias.

Joana sentiu uma lágrima teimosa escorrer. Ela sempre fora a forte, a que cuidava de todos, a que não se dobrava. Mas diante daquele homem da corte, que deixava de lado a arrogância real para se mostrar vulnerável, ela sentia suas defesas ruírem.

— O senhor é um inimigo da minha causa — sussurrou ela.

— Então me faça seu prisioneiro — respondeu ele, com intensidade.

O silêncio caiu sobre eles, interrompido apenas pelo som do vento minuano que começava a soprar, trazendo o frio da noite. Estêvão não resistiu e selou a distância entre os dois. Foi um beijo rápido, carregado de urgência e da proibição que os cercava. Joana sentiu o gosto do perigo e da paixão, algo que nunca encontrara nos bailes de galpão ou nas conversas com os peões.

Quando se afastaram, ela estava ofegante.

— Isso não pode acontecer de novo — disse ela, tentando recompor o vestido. — Rosário não merece isso. E eu... eu tenho meus princípios.

— Seus princípios dizem que deve mentir para si mesma? — perguntou Estêvão. — Eu vou falar com ela, Joana. Vou desfazer esse compromisso. Não posso oferecer a Rosário um homem que acorda e dorme pensando na melhor amiga dela.

— Você vai destruí-la — lamentou Joana.

— Ou talvez eu a liberte — ponderou o oficial. — Rosário não me ama. Ela ama a ideia de ser salva, mas eu não sou o salvador dela. O destino dela está em outro lugar, assim como o meu está aqui, ao seu lado, mesmo que eu tenha que trocar a farda pela farda de um soldado da sua República.

Joana olhou para ele, chocada. Um oficial da corte disposto a abandonar tudo por uma estancieira farroupilha?

— Você faria isso? — perguntou ela, a voz falhando. — Abandonaria o Imperador por mim?

— Eu abandonaria o mundo por você, Joana. Porque você é a única coisa real que encontrei nesta guerra.

Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele, sentindo a pele áspera pela barba que começava a crescer.

— O caminho será difícil, Estêvão. Meu irmão não vai aceitar fácil, e Bento Gonçalves exigirá provas de sua lealdade.

— Eu enfrentarei todos eles — afirmou ele, cobrindo a mão dela com a sua. — Desde que, ao final da batalha, seja você quem esteja me esperando na porta desta estância.

Joana sorriu, um sorriso doce que iluminou seu rosto forte. Ela sabia que a tradição exigia sacrifícios, mas também sabia que o amor era a maior das revoluções. Naquela noite, sob o céu imenso do Rio Grande, uma nova aliança fora selada — não entre coroas e generais, mas entre dois corações que decidiram que a liberdade era, acima de tudo, o direito de amar quem se escolhe.

— Então venha — disse Joana, puxando-o levemente pela mão em direção à casa grande. — Vamos enfrentar o destino. Mas antes, guarde bem este momento. Porque a partir de amanhã, nada será igual.

— Eu não mudaria nada — concluiu Estêvão, seguindo-a com a certeza de que, finalmente, encontrara seu verdadeiro lugar no mundo.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic