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Pato

Fandom: Airbag

Criado: 04/07/2026

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Ritmo de Sangue e Adrenalina

O Estádio Luna Park rugia. O som não era apenas auditivo; era tátil, uma vibração que subia pelas solas das botas de Karen e se instalava diretamente em seu ventre, onde um pequeno baterista particular parecia tentar acompanhar o ritmo de Guido Sardelli. Karen, encostada na lateral do palco em uma área reservada, fechou os olhos por um segundo, deixando a brisa fresca da noite de Buenos Aires contrastar com o calor humano que emanava da multidão.

Ela estava deslumbrante. A gravidez de oito meses e meio só havia acentuado a beleza escultural da modelo brasileira. Sua pele negra brilhava sob as luzes indiretas do backstage, e o vestido de malha justa abraçava cada curva de seu corpo, destacando o barrigão que agora era o centro de seu universo. Ela sabia que muitos achavam loucura ela estar ali, tão perto da reta final, mas não havia outro lugar no mundo onde preferisse estar. Era o último show da turnê antes das férias merecidas, e ela precisava ver Pato em seu elemento uma última vez antes de se tornarem três.

No palco, o Airbag estava em chamas. Patrício dominava a guitarra com uma ferocidade que sempre deixava Karen sem fôlego. Ele era um animal de palco, uma força da natureza. Quando ele se aproximou do microfone para os primeiros acordes de "Cae el Sol", seus olhos vagaram pelo lado do palco e encontraram os dela. O sorriso de lado que ele lançou foi rápido, quase imperceptível para o público, mas para Karen, foi uma declaração de amor completa.

— Ele não para, não é? — a voz de uma das assistentes de produção soou ao lado dela, apontando para a barriga de Karen, que visivelmente se movia sob o tecido do vestido.

— Acho que temos um fã número um aqui dentro — Karen riu, acariciando o topo da barriga. — Ele está chutando desde a primeira música. Acho que o solo de "Por Mil Noches" foi o favorito dele.

— Ou ele só quer sair logo para tocar guitarra com o pai — brincou a moça, antes de correr para ajustar um cabo.

Karen voltou sua atenção para o show. Ver os irmãos Sardelli juntos era sempre uma experiência religiosa. A sincronia entre Pato, Guido e Gastón era algo que transcendia o sangue; era uma conexão mística. Ela sentia um orgulho que quase não cabia no peito. Lembrava-se de quando conheceu Patrício, das conversas sobre música, das turnês exaustivas e de como ele sempre voltava para ela como se fosse seu porto seguro. Agora, vê-lo ali, diante de milhares de pessoas, sabendo que em poucas semanas ele estaria trocando fraldas e cantando canções de ninar, trazia lágrimas aos seus olhos.

O show atingiu o clímax. Pato estava suado, o cabelo colado ao rosto, a guitarra parecendo uma extensão de seus próprios braços. O público cantava tão alto que abafava o sistema de som. Karen sentiu uma onda de euforia. Foi, sem dúvida, o melhor show da vida dela. Não apenas pela técnica impecável ou pelo setlist perfeito, mas pela energia de encerramento, pela sensação de dever cumprido e pela promessa de que o próximo capítulo de suas vidas seria ainda mais barulhento e vibrante.

Quando as luzes finalmente se apagaram e os gritos de "Olé, olé, olé, Airbag!" ecoaram pelo estádio, os meninos saíram do palco em meio a toalhas e garrafas de água. Patrício foi o primeiro a vê-la. Ele ignorou os produtores e os seguranças, caminhando direto em sua direção.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca pelo esforço, envolvendo-a em um abraço cuidadoso para não apertar a barriga. — Ele se comportou?

— Se por "se comportar" você quer dizer que ele tentou quebrar minhas costelas durante o solo de "Cicatrizes", então sim — Karen riu, selando os lábios dele com um beijo rápido e salgado de suor. — Você foi incrível, Pato. O melhor de todos.

— Foi épico — Gastón apareceu logo atrás, limpando o rosto. — Oi, Karen. Como está o nosso pequeno roqueiro?

— Ativo demais — ela respondeu, cumprimentando os cunhados. — Parabéns, meninos. Foi o melhor show da turnê.

— Agora, férias — disse Guido, guardando as baquetas na mochila. — E foco total no meu sobrinho. Quero que ele aprenda a tocar bateria antes de andar.

— Nem pensar — Patrício retrucou, passando o braço pelos ombros de Karen enquanto caminhavam para o camarim. — Ele vai ser guitarrista.

A adrenalina do show ainda corria pelas veias de Karen enquanto eles entravam no carro rumo a casa. Patrício dirigia com uma mão no volante e a outra repousada sobre a barriga dela. O silêncio da noite de Buenos Aires era um contraste gritante com o caos do Luna Park.

— Você está muito quieta — Patrício comentou, olhando-a de soslaio. — Cansada?

— Um pouco — Karen admitiu, sentindo uma pressão estranha na parte inferior das costas. — Mas feliz. Ver você lá em cima hoje... foi especial. Senti que estávamos fechando um ciclo para começar o maior de todos.

— Eu também senti isso — ele disse suavemente. — Tudo o que eu fiz hoje foi pensando em vocês dois.

Eles chegaram em casa por volta das duas da manhã. O apartamento estava silencioso e acolhedor. Karen soltou um suspiro de alívio ao tirar os sapatos. A sensação de peso parecia ter aumentado consideravelmente nos últimos trinta minutos.

— Vou preparar um chá para você — Patrício disse, deixando as chaves na mesa da entrada. — Você precisa descansar as pernas.

— Pato... — Karen começou, mas parou abruptamente.

Ela sentiu uma sensação estranha. Não era uma dor, mas um estalo interno, seguido por um calor repentino que escorreu por suas pernas, molhando o tapete da sala. Ela ficou estática, olhando para baixo.

Patrício, que já estava a caminho da cozinha, virou-se ao notar o silêncio. Ele olhou para o chão, depois para os olhos arregalados de Karen.

— Karen? O que foi?

— A bolsa — ela sussurrou, a voz oscilando entre o riso e o pânico. — Pato, a bolsa estourou.

O guitarrista, que enfrentava multidões de 50 mil pessoas sem tremer, empalideceu instantaneamente.

— Agora? — ele perguntou, como se o bebê pudesse ouvir e decidir esperar mais um pouco. — Mas ainda faltavam duas semanas!

— Acho que ele gostou tanto do show que decidiu que não quer mais perder nenhum — Karen deu um passo à frente, sentindo a primeira contração real começar a ganhar força. — Ai... Pato, está acontecendo.

— Ok, ok! — Patrício entrou em modo de operação, embora estivesse claramente girando em círculos por alguns segundos. — A bolsa... as malas! As malas estão no quarto. O carro tem gasolina. Eu... eu preciso ligar para a médica.

— Respira, amor — Karen disse, segurando o braço dele quando ele passou por ela carregando uma bolsa de maternidade e, por algum motivo, sua guitarra favorita. — Por que você está levando a Gibson?

Patrício olhou para a mão, confuso.

— Eu não sei! O hábito! — Ele largou a guitarra no sofá e a pegou pelos ombros. — Você consegue caminhar?

— Consigo. As contrações ainda estão longe uma da outra — ela respirou fundo, tentando manter a calma que ele parecia ter perdido. — Vamos. O show acabou, mas o bis vai começar agora.

— Você está fazendo piadas de música numa hora dessas? — ele perguntou, ajudando-a a entrar no elevador, o rosto transbordando uma mistura de terror e a mais pura alegria que ela já vira.

— É para não gritar com você por ter me engravidado — ela brincou, embora tenha apertado a mão dele com força quando uma nova onda de dor a atingiu.

— Eu te amo — ele disse, beijando a testa dela enquanto as portas do elevador se fechavam.

— Eu também te amo. Agora dirige logo, antes que esse menino nasça no banco de trás do seu carro!

A noite, que começou com o som distorcido das guitarras e o clamor de milhares, terminaria no silêncio expectante de uma sala de parto, onde a música mais bonita que eles já ouviriam estava prestes a soar: o primeiro choro de seu filho.
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