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Coraçoes Feridos

Fandom: bts

Criado: 05/07/2026

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RomanceDramaAngústiaSombrioPsicológicoCrimeSuspenseEstudo de Personagem
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O Véu de Espinhos e Vidro

A catedral de Seul estava mergulhada em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo eco dos passos pesados de Jeon Jungkook contra o mármore frio. Ele ajustou as abotoaduras de prata, sentindo o peso do terno preto como se fosse uma armadura de combate. No espelho do vestiário, os olhos que o encaravam de volta não brilhavam com a expectativa de um noivo apaixonado; eram poços de uma escuridão antiga, alimentada por anos de rancor e uma sede de justiça que beirava a obsessão.

Para o mundo, aquele era o casamento do século. A união entre os Jeon e os Park selaria uma paz comercial lucrativa. Para Jungkook, no entanto, aquele altar era o cadafalso onde ele executaria sua vingança. A família Park havia destruído seu passado, retalhado o nome de seu pai e o deixado na miséria antes que ele pudesse aprender a se defender. Agora, ele tinha o poder, o dinheiro e, em poucos minutos, teria o bem mais precioso do patriarca Park: seu único filho.

— O senhor está pronto? — A voz do assistente soou hesitante na porta.

Jungkook não se virou. Ele apenas observou o reflexo de sua própria mão, firme e gélida.

— Estou pronto há dez anos — respondeu ele, a voz rouca, carregada de um veneno que ninguém ali parecia notar.

Enquanto caminhava em direção à nave da igreja, Jungkook revisou o plano mentalmente. Ele não machucaria Park Jimin fisicamente. O dano seria muito mais profundo. Ele o faria se apaixonar, o isolaria de sua família corrupta e, então, quando Jimin estivesse totalmente entregue, ele destruiria o império de seu sogro de dentro para fora, deixando Jimin com nada além das cinzas de um amor que nunca existiu.

As portas duplas se abriram. A música começou a tocar, uma melodia clássica que soava como um lamento aos ouvidos de Jungkook. No final do corredor, ladeado por flores brancas que pareciam pálidas demais sob a luz dos vitrais, estava Jimin.

Ele era o epítome da pureza. Vestido em um terno creme que contrastava com a escuridão de Jungkook, Jimin parecia uma criatura feita de luz e fragilidade. Seus cabelos loiros emolduravam um rosto que transbordava uma inocência genuína, algo que Jungkook considerava uma afronta. Como alguém poderia ser tão intocado em um mundo tão sujo?

Quando seus olhos se encontraram, Jimin sorriu. Foi um sorriso pequeno, tímido, carregado de uma esperança que fez o estômago de Jungkook revirar por um breve segundo.

— Você está lindo — sussurrou Jimin assim que Jungkook parou ao seu lado no altar.

Jungkook forçou os lábios a se curvarem em um simulacro de afeto. Ele pegou a mão de Jimin, sentindo-a tremer levemente.

— E você é tudo o que eu esperava — respondeu Jungkook, as palavras carregando um duplo sentido que Jimin, em sua doçura, jamais alcançaria.

A cerimônia seguiu como um borrão de votos vazios e rituais sem alma. Para Jungkook, cada palavra do padre era uma nota promissória de dor que ele cobraria mais tarde. Jimin, por outro lado, parecia viver um sonho. Ele respondia aos votos com uma voz clara e melodiosa, olhando para Jungkook como se ele fosse seu salvador, o homem que o tiraria da redoma de vidro sufocante em que seu pai o mantinha.

— Eu aceito — disse Jimin, e o som dessas duas palavras selou seu destino.

Ao saírem da igreja sob uma chuva de pétalas, o flash das câmeras os cegava. Jungkook manteve o braço firmemente ao redor da cintura de Jimin, uma posse que o público interpretava como proteção, mas que para ele era apenas a marca de um prisioneiro.

A recepção foi um espetáculo de opulência e hipocrisia. Jungkook observava o sogro, Park Jihyun, rindo e brindando do outro lado do salão. O homem não tinha ideia de que acabara de entregar seu filho ao seu pior inimigo.

— Jungkook? — A voz suave de Jimin o trouxe de volta à realidade. — Você parece distante. Está tudo bem?

Jungkook olhou para baixo, encontrando os olhos grandes e expressivos de seu agora marido. Havia uma preocupação tão real ali que Jungkook sentiu uma pontada desconfortável no peito. Ele a ignorou prontamente.

— Apenas cansado, Jimin. Foi um dia longo.

— Eu sei — disse Jimin, aproximando-se e descansando a cabeça no ombro de Jungkook por um momento. — Mas estou feliz. Eu realmente queria que isso desse certo. Meu pai sempre foi tão rígido... com você, sinto que posso finalmente respirar.

Jungkook sentiu um gosto amargo na boca. Ele queria rir da ironia. Jimin achava que estava ganhando liberdade, quando na verdade estava apenas trocando de carcereiro.

— Eu vou cuidar de você, Jimin — disse Jungkook, e pela primeira vez, não era uma mentira total. Ele cuidaria dele, sim. Ele o manteria por perto como o troféu de sua vitória. — Do meu jeito.

— Eu confio em você — respondeu o mais novo, fechando os olhos, entregue ao momento.

A festa durou horas, mas para Jungkook, cada minuto era uma contagem regressiva. Quando finalmente chegaram à nova cobertura que serviria de residência para o casal, o silêncio do apartamento luxuoso parecia amplificar a tensão que Jungkook carregava.

Jimin entrou timidamente, observando a vista da cidade através das paredes de vidro. Ele parecia pequeno naquele espaço vasto e moderno.

— É lindo aqui — comentou Jimin, tirando o paletó e o jogando sobre o sofá de couro. — Parece o começo de uma vida nova.

Jungkook caminhou até o bar, servindo-se de um uísque puro. Ele não ofereceu a Jimin.

— É exatamente isso, Jimin. Uma vida nova. Com regras novas.

Jimin se virou, percebendo a mudança drástica no tom de voz de Jungkook. O calor que parecia emanar do homem na igreja havia evaporado, substituído por uma frieza cortante.

— O que você quer dizer? — perguntou Jimin, dando um passo cauteloso em direção a ele.

Jungkook virou o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta. Ele caminhou lentamente até Jimin, parando a poucos centímetros dele. A diferença de altura e a intensidade do olhar de Jungkook fizeram Jimin recuar um passo, até que suas costas encontraram o vidro frio da janela.

— Você sabe por que seu pai aceitou esse casamento tão rápido? — perguntou Jungkook, sua voz agora um sussurro perigoso.

— Ele disse que era o melhor para a empresa... e que você era um bom partido — balbuciou Jimin, o coração começando a acelerar.

Jungkook soltou uma risada seca, sem nenhum humor.

— Ele aceitou porque eu o encurralei. Eu tenho provas de cada desvio, de cada crime que ele cometeu nos últimos vinte anos. Ele me deu você para tentar me calar. Ele te usou como moeda de troca, Jimin.

As cores fugiram do rosto de Jimin. Ele balançou a cabeça, negando as palavras que mal conseguia processar.

— Não... meu pai não faria isso. Ele me ama. E você... você disse que me queria.

Jungkook estendeu a mão e tocou o rosto de Jimin com as costas dos dedos. O toque era leve, mas parecia uma queimadura.

— Eu queria o que pertencia a ele. Eu queria o que ele mais amava para poder tirar dele, assim como ele tirou tudo de mim quando eu era apenas um garoto.

Lágrimas começaram a se formar nos olhos de Jimin, brilhando sob as luzes da cidade atrás dele.

— Então tudo foi uma mentira? — A voz de Jimin quebrou. — Os encontros, as promessas... o casamento?

— Foi um investimento — corrigiu Jungkook, seus olhos fixos nos de Jimin, procurando por uma satisfação que, estranhamente, demorava a vir. — Você é a peça central do meu tabuleiro. Através de você, eu vou ver o império Park desmoronar tijolo por tijolo.

Jimin soluçou, um som pequeno e dolorido que ecoou pelo apartamento vazio. Ele tentou se afastar, mas Jungkook segurou seu braço, não com força suficiente para machucar, mas com firmeza suficiente para impedir sua fuga.

— Por que eu? — perguntou Jimin entre lágrimas. — Eu nunca fiz nada para você. Eu nem te conhecia!

— Porque você é o coração dele, Jimin — disse Jungkook, e por um breve instante, sua máscara de gelo vacilou ao ver o desespero genuíno no rosto do outro. — E para destruir um homem, você precisa arrancar o coração dele.

— Você é um monstro — sussurrou Jimin, a voz carregada de uma decepção tão profunda que atingiu Jungkook em um lugar que ele acreditava estar morto.

— Eu sou o que a sua família me tornou — rebateu Jungkook, soltando o braço dele. — Agora, você está preso a mim. Pelo nome, pelo contrato e por este anel.

Jimin olhou para a aliança de ouro em seu dedo, que agora parecia uma algema pesada. Ele olhou para o homem à sua frente, o homem que ele pensou ser seu porto seguro, e viu apenas um estranho movido pelo ódio.

— Você pode ter meu nome — disse Jimin, limpando as lágrimas com as costas da mão, uma súbita centelha de dignidade surgindo em meio à sua dor. — Você pode ter o controle das empresas. Mas você nunca vai ter a minha alma, Jungkook. E você nunca vai ter o amor que eu estava pronto para te dar.

Jungkook sentiu um aperto estranho no peito, uma sensação de perda que não fazia sentido, já que ele nunca tivera Jimin para começar. Ele deu as costas para o marido, caminhando em direção ao seu escritório.

— O amor é uma fraqueza que eu não posso me dar ao luxo de ter — disse Jungkook antes de fechar a porta. — E você aprenderá que, neste mundo, a alma é a primeira coisa que vendemos para sobreviver.

Sozinho na sala imensa, Jimin caiu de joelhos. O brilho da cidade de Seul lá fora parecia zombar de sua miséria. Ele fora vendido pelo pai e comprado por um carrasco. No entanto, enquanto as lágrimas lavavam seu rosto, algo dentro de Jimin mudou. Ele era a vítima, sim, mas não seria apenas um joguete passivo. Se Jungkook queria uma guerra, ele teria uma, mas Jimin lutaria com as únicas armas que possuía: a bondade que Jungkook desprezava e a verdade que ele tentava esconder sob camadas de rancor.

Dentro do escritório, Jungkook encarava uma foto antiga de sua própria família, mas a imagem que queimava em sua mente era o olhar de Jimin no altar. A pureza dele era irritante, persistente. Ele se sentou em sua poltrona de couro, o silêncio da noite pesando sobre seus ombros. A vingança estava em marcha, o plano estava funcionando perfeitamente.

Então, por que ele se sentia como se estivesse perdendo a única coisa que realmente importava?

Ele fechou os olhos, tentando evocar o ódio que o sustentara por anos, mas tudo o que conseguia ouvir era a voz de Jimin dizendo "Eu confio em você".

O jogo havia começado, mas Jungkook ainda não percebera que, em uma guerra onde o coração é o campo de batalha, não existem vencedores, apenas sobreviventes marcados pelas cicatrizes do que poderia ter sido.

— Que assim seja, Jimin — sussurrou Jungkook para a escuridão.

Mas, pela primeira vez, sua voz não soava tão convicta. A vingança era um prato frio, mas a solidão que a acompanhava era um inverno que ele não tinha certeza se conseguiria suportar sozinho. E Jimin, mesmo em sua dor, era a única chama que restava naquele palácio de gelo que Jungkook chamava de vida.
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