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Futebol

Fandom: Futebol

Criado: 06/07/2026

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Corações em Campo: O Peso da Amarelinha

O sol da Califórnia batia implacável contra as vidraças do hotel de luxo onde a delegação sueca ainda mantinha sua base, embora o clima dentro dos quartos fosse de um outono gelado. Lucas Bergvall, a jovem promessa do futebol sueco, estava jogado no sofá de couro, os olhos fixos na televisão desligada. A eliminação da Suécia ainda ardia como uma ferida aberta, um gosto amargo de "quase" que ele não conseguia engolir.

No quarto ao lado, o som era completamente diferente. Karen, com seus cabelos escuros brilhando sob a luz e um sorriso que parecia iluminar todo o Hemisfério Norte, terminava de retocar o batom. Ela vestia uma camisa da seleção brasileira customizada, justa o suficiente para marcar a curva suave de sua barriga de cinco meses.

— Lucas, você já está pronto? O motorista chega em dez minutos! — exclamou ela, saindo do quarto com uma energia que parecia impossível para alguém carregando um futuro herdeiro no ventre.

Lucas suspirou, passando a mão pelos cabelos loiros, o rosto exibindo uma expressão de puro desânimo.

— Eu não sei por que estamos indo, Karen. O estádio vai estar um caos. Eu poderia ficar aqui, estudando os erros do nosso último jogo...

Karen parou diante dele, colocando as mãos nos quadris.

— Lucas, meu amor, a Suécia caiu, mas o mundo não parou de girar. E hoje é o Brasil! Quartas de final! Você prometeu que me acompanharia. Além disso, o bebê precisa sentir a vibração da torcida de verdade.

Lucas soltou uma risada anasalada, um tanto cética.

— Vibração? Você quase derrubou o abajur ontem gritando com o VAR no jogo da Argentina. Eu nunca te vi torcer assim pela Suécia, sabia?

Karen sentou-se ao lado dele, pegando a mão do noivo e colocando-a sobre sua barriga.

— Não seja ciumento, Bergvall. Você sabe que eu torço por você até em treino de dois toques. Mas o Brasil... o Brasil é religião. É sangue. É o país onde a gente aprende a chutar uma bola antes de aprender a ler.

— É, e é o país que está me deixando com dor de cotovelo — resmungou ele, embora tenha deixado um sorriso escapar enquanto sentia um leve chute contra sua palma. — Tudo bem, eu vou. Mas se o Brasil perder, eu não quero ouvir reclamações no caminho de volta.

— O Brasil não vai perder para a Noruega, Lucas. Menos, bem menos — disse ela, dando um beijo rápido na ponta do nariz dele.

O trajeto até o estádio foi marcado pelo contraste. Karen estava no celular, postando stories para seus milhões de seguidores, mostrando o look, a maquiagem e, claro, o noivo "pé-quente" que a acompanhava. Lucas, por outro lado, observava a multidão de camisas amarelas que inundava as ruas de Los Angeles. Ele sentia uma ponta de inveja daquela paixão desenfreada, algo que a frieza escandinava raramente permitia transparecer daquela forma.

Ao chegarem ao Rose Bowl, o barulho era ensurdecedor. O mar amarelo e azul (desta vez, o azul brasileiro) tomava conta das arquibancadas. Karen era uma força da natureza. Ela gritava, cantava os hinos da torcida e, a cada ataque brasileiro, apertava o braço de Lucas com uma força surpreendente.

— Vai, Vini! Toca essa bola! — gritava ela, com o rosto corado.

Lucas observava a noiva, fascinado e, ao mesmo tempo, melancólico.

— Você está mais nervosa hoje do que no meu jogo de estreia na Premier League — comentou ele, tentando disfarçar o incômodo.

— É diferente, Lucas! — respondeu ela, sem tirar os olhos do campo. — Lá é o seu trabalho, sua carreira. Aqui é a minha alma. Olha aquele estádio!

O jogo, no entanto, começou a tomar contornos dramáticos. A Noruega, com um sistema defensivo impecável e um contra-ataque mortal liderado por Haaland, parecia ter decifrado o enigma brasileiro. O Brasil dominava a posse de bola, mas não conseguia furar a retranca.

— Eles estão jogando como nós — murmurou Lucas, analisando taticamente. — Fechados, esperando o erro. O Brasil está muito exposto.

— Cala a boca, Lucas! Não agoura! — Karen estava tensa, as mãos protegendo a barriga como se quisesse poupar o bebê do estresse.

Aos 38 minutos do segundo tempo, o desastre aconteceu. Um erro de passe no meio-campo, uma arrancada veloz da Noruega e a bola terminou no fundo da rede brasileira. O estádio, que antes era uma caldeira, mergulhou em um silêncio sepulcral por dois segundos, antes que a pequena mancha vermelha de torcedores noruegueses explodisse em comemoração.

— Não... não, não, não — sussurrou Karen, os olhos começando a marejar.

— Ainda tem tempo, Karen. Calma — tentou consolar Lucas, colocando o braço sobre os ombros dela.

Mas o tempo era um inimigo cruel. O Brasil se lançou ao ataque com desespero, mas a organização havia sumido. Quando o árbitro apitou o fim da partida, o placar de 1 a 0 selou o destino da última seleção sul-americana no torneio.

Karen desabou no assento. As lágrimas, que ela tentava segurar, começaram a rolar livremente, borrando a maquiagem impecável que ela levara horas para fazer. O silêncio dela era mais doloroso para Lucas do que qualquer grito de torcida.

— Ei, meu amor... — Lucas se ajoelhou na frente dela, ignorando as câmeras e os olhares ao redor. — É só futebol.

Karen olhou para ele, os olhos vermelhos e a expressão devastada.

— Não é só futebol, Lucas. Você, melhor do que ninguém, deveria saber disso. Era a nossa chance. Eu queria que ele — ela apontou para a barriga — visse o Brasil ser campeão antes mesmo de nascer. Eu queria sentir que, apesar de morarmos na Europa, o nosso sangue ainda é o mais forte.

Lucas sentiu um aperto no peito. O pessimismo que ele carregava desde a eliminação da Suécia evaporou, substituído por uma empatia profunda. Ele percebeu que a dor dela não era apenas por um jogo perdido, mas por uma conexão com suas raízes que a distância física muitas vezes tornava frágil.

— Vem, vamos sair daqui — disse ele suavemente, ajudando-a a se levantar.

O caminho até o estacionamento foi um funeral. Milhares de brasileiros caminhavam de cabeça baixa, alguns chorando, outros em silêncio absoluto. Karen não olhou para o celular nenhuma vez. A influencer vibrante havia dado lugar a uma mulher ferida em seu orgulho nacional.

Já dentro do carro, o silêncio persistia. Lucas dirigia com cuidado, olhando de soslaio para a noiva que olhava fixamente pela janela.

— Sabe — começou ele, tentando quebrar o gelo —, a Suécia e o Brasil têm algo em comum agora.

Karen soltou um suspiro pesado, limpando o rosto com um lenço.

— O quê? Ambos foram eliminados por times que jogam feio?

— Não — Lucas sorriu de canto, pegando a mão dela e levando aos lábios. — Ambos têm um herdeiro que vai ter que vingar essas derrotas em 2046.

Karen finalmente olhou para ele, um pequeno e triste sorriso surgindo nos lábios.

— Você acha que ele vai ser jogador?

— Com o seu temperamento e a minha perna esquerda? Ele não tem escolha — brincou Lucas. — Mas, falando sério, Karen... eu vi hoje o quanto você ama aquele país. E eu prometo que, quando ele nascer, a primeira camisa que ele vai ganhar vai ser a amarelinha. E a segunda, bem... a da Suécia, para ele não esquecer do pai.

Karen encostou a cabeça no ombro de Lucas, sentindo o cansaço da gravidez e da tristeza finalmente pesarem.

— Eu só queria ter comemorado hoje, Lucas. O clima estava tão bom...

— Eu sei. Mas o futebol é cruel. Ele te dá tudo em um minuto e tira no próximo. Eu aprendi isso da pior forma no mês passado.

— É — disse ela, fechando os olhos. — Mas dói mais quando é com a gente.

— Eu entendo — murmurou ele, beijando o topo da cabeça dela. — Mas agora, a única coisa que importa é você descansar. O "pequeno atacante" aí dentro já teve emoção demais por um dia.

— Lucas? — chamou ela, com a voz embargada pelo sono que começava a chegar.

— Oi?

— Se ele for jogador mesmo... por favor, peça para ele nunca deixar um jogo ir para os pênaltis. Meu coração não aguenta.

Lucas riu baixo, manobrando o carro pelas ruas de Los Angeles, enquanto o sol se punha, marcando o fim do sonho brasileiro naquela Copa, mas fortalecendo o laço de um casal que, entre cores de bandeiras diferentes, encontrava seu próprio time no amor que construíam.

— Pode deixar, meu amor. Ele vai ser o maior de todos. Mas, por hoje, vamos só ser nós três, longe de qualquer estádio.

Karen não respondeu; já havia pego no sono, exausta pela montanha-russa emocional. Lucas desligou o rádio e seguiu em frente, entendendo, finalmente, que a paixão dela pelo Brasil era o que a tornava tão intensa e única. E que, embora a Suécia tivesse saído da Copa, ele já havia ganhado o troféu mais importante da sua vida.
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