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Fandom: 50 tons de cinza

Criado: 06/07/2026

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Entre Versos e Entrelinhas

O sinal estridente do Colégio Saint Jude ecoou pelos corredores, sinalizando o fim de mais uma jornada exaustiva de aulas. Para a maioria dos alunos do terceiro ano, aquele som era o prenúncio da liberdade, do descanso ou das festas de sexta à noite. Para Luiza, no entanto, era o prelúdio do momento mais aguardado de sua semana.

Enquanto seus colegas guardavam os materiais às pressas, Luiza permanecia sentada em sua mesa na primeira fileira. Ela deslizou a mão pelos longos cabelos pretos, ajeitando-os sobre o ombro, e verificou seu reflexo na tela desligada do celular. Seus olhos, marcantes e delineados, fixaram-se na figura que organizava alguns papéis na mesa principal.

Danielle, a professora de Português, era a personificação da disciplina. Aos 49 anos, ela possuía uma elegância austera que intimidava a maioria. O corte de cabelo curto e preto emoldurava um rosto de traços finos, acentuado por óculos de armação discreta que viviam na ponta do nariz. Ela não era alta, nem possuía as curvas óbvias que as meninas da idade de Luiza costumavam ostentar como troféus, mas havia algo em sua postura e em sua voz firme que exercia um magnetismo absoluto sobre a jovem de dezoito anos.

— Luiza? — A voz de Danielle, grave e pausada, quebrou o silêncio da sala agora vazia. — Você ainda está aqui por causa do reforço de sintaxe ou esqueceu algo?

Luiza sorriu, um brilho travesso nos olhos, e levantou-se, caminhando lentamente até a mesa da professora. Ela carregava um pequeno embrulho de papel pardo com um laço de cetim vermelho.

— A senhora sabe que eu não perderia meu tempo extra com a senhora por nada neste mundo, Danielle — disse Luiza, deixando o pacote sobre a mesa.

Danielle suspirou, retirando os óculos e massageando a ponte do nariz. Ela olhou para o presente e depois para a aluna, com uma expressão que misturava cansaço e uma paciência pedagógica quase esgotada.

— Luiza, já conversamos sobre isso. Eu sou sua professora. E, por favor, use o pronome de tratamento adequado.

— "Senhora" envelhece você, e você é linda demais para isso — rebateu Luiza, sem se abalar. — É apenas um livro. Uma edição rara de poemas do Florbela Espanca que encontrei em um sebo. Pensei que combinasse com o seu humor hoje.

Danielle hesitou. Ela amava Florbela Espanca, e Luiza sabia disso. A menina conhecia cada detalhe de seus gostos, resultado de meses de observação atenta e perguntas disfarçadas durante as aulas de literatura.

— Eu não posso aceitar presentes constantes, Luiza. Isso beira o suborno acadêmico, embora suas notas sejam excelentes — disse a professora, embora suas mãos tenham tocado o papel do embrulho com curiosidade.

— Não é suborno. É admiração. Ou você vai me dizer que ainda não percebeu que eu estou completamente apaixonada por você? — Luiza inclinou-se sobre a mesa, diminuindo a distância entre elas.

Danielle manteve o olhar fixo, recusando-se a recuar. Ela era uma mulher de ferro, forjada em anos de academia e regras rígidas.

— O que eu percebo é uma jovem brilhante desperdiçando energia em uma fantasia infundada — respondeu Danielle, a voz mantendo a neutralidade profissional. — Agora, abra o seu caderno. Se você pediu reforço para a análise de orações subordinadas, é isso que faremos.

Luiza sentou-se na cadeira ao lado da mesa da professora, a proximidade permitindo que ela sentisse o perfume suave de lavanda e papel antigo que emanava de Danielle.

— As orações podem ser subordinadas, mas eu não sou — murmurou Luiza, abrindo o caderno. — Eu sou bem livre nas minhas escolhas, Danielle. E eu escolhi você.

— Foco, Luiza — cortou a professora, embora um leve rubor tenha subido pelo seu pescoço, algo que não passou despercebido pela aluna.

A aula de reforço seguiu por quase uma hora. Danielle explicava com maestria, sua paixão pela língua portuguesa transparecendo em cada exemplo. Luiza, embora soubesse a matéria melhor que qualquer um na turma, fingia dúvidas apenas para ouvir a voz da outra e observar como seus lábios se moviam ao pronunciar palavras complexas.

— Entendeu a diferença agora? — perguntou Danielle, finalizando um esquema no quadro branco.

— Entendi que a senhora é muito mais interessante que qualquer gramática — respondeu Luiza, levantando-se e caminhando até o quadro, parando ao lado de Danielle.

A professora virou-se para ela, o apagador na mão.

— Luiza, basta. Você é uma aluna, tem dezoito anos, toda uma vida pela frente. Eu tenho quase cinquenta. O que você acha que conseguiria de mim?

— Eu quero tudo — disse Luiza, a voz agora séria, perdendo o tom de brincadeira. — Quero as conversas sobre livros, quero o seu rigor, quero descobrir o que existe por trás dessa fachada de professora exigente. Eu já pedi você em namoro uma vez, e você riu. Mas eu não estava brincando.

Danielle colocou o apagador na calha do quadro e cruzou os braços. Ela olhou para a jovem à sua frente — a pele impecável, os cabelos que pareciam seda negra, a determinação ardente nos olhos. Era inegável que Luiza era uma mulher, legalmente falando, mas a abismo de experiência entre elas era vasto.

— A vida não é um romance de ficção, Luiza. Eu levo meu trabalho a sério. Minha reputação é tudo o que tenho.

— E quem disse que alguém precisa saber? — Luiza deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Danielle. — O que acontece entre versos e entrelinhas nas nossas aulas particulares... pode ser o nosso segredo.

— Você é perigosa — sussurrou Danielle, a resistência começando a fraquejar diante da intensidade da garota.

— Eu sou apenas sincera — corrigiu Luiza. — Você passa o dia corrigindo os erros dos outros, Danielle. Por que não se permite cometer um erro comigo? Um erro maravilhoso.

Danielle olhou para a porta da sala, garantindo que estivesse fechada. O silêncio da escola era absoluto agora. Ela voltou os olhos para Luiza, a severidade de sua expressão suavizando-se por um breve instante.

— Você não sabe o que está pedindo. Eu sou exigente, Luiza. Em tudo. Não aceito nada menos que a perfeição e a entrega total. Se eu decidisse... aceitar essa sua loucura, eu não seria a professora gentil que lhe dá notas dez.

Luiza sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas não de medo. Era antecipação.

— Eu nunca quis que você fosse gentil, Danielle. Eu quero que você seja você. Exigente, controladora... sua.

Danielle aproximou-se, a mão pequena mas firme alcançando o queixo de Luiza, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos por trás das lentes dos óculos.

— Se você continuar com esse jogo, não haverá volta. Você entende as consequências de cruzar essa linha?

— Eu venho desenhando essa linha no chão há meses, esperando que você a atravessasse comigo — respondeu Luiza, a respiração acelerada.

Danielle soltou um suspiro pesado, uma rendição que parecia ter sido contida por muito tempo.

— O livro — disse a professora, apontando para o presente na mesa. — Florbela Espanca escreveu que "amar é virar o mundo de cabeça para baixo". Você tem certeza de que quer que eu vire o seu mundo, Luiza?

— Por favor — implorou a jovem em um sussurro.

Sem mais palavras, Danielle encurtou a distância. O beijo não foi suave como Luiza imaginara em seus sonhos adolescentes. Foi um beijo de posse, de autoridade, carregado de uma tensão reprimida que Danielle guardava sob seus terninhos e gramáticas. Luiza soltou um gemido baixo, suas mãos encontrando a cintura da professora, puxando-a para mais perto, sentindo a firmeza daquele corpo pequeno, mas surpreendentemente forte.

Danielle interrompeu o beijo, seus lábios a centímetros dos de Luiza. Sua respiração estava descompassada, algo raro para a mulher que sempre tinha o controle de tudo.

— Isso termina aqui por hoje — ordenou Danielle, a voz recuperando parte de sua autoridade, embora o brilho em seus olhos fosse diferente agora. — Vá para casa. Estude o capítulo cinco. E Luiza...

— Sim? — a voz da menina saiu trêmula.

— O presente. Eu aceito. Mas na próxima aula de reforço, eu espero que você tenha decorado o soneto que marquei nele. Se falhar em uma palavra sequer... haverá punições.

Luiza sorriu, um sorriso radiante e vitorioso. Ela pegou sua mochila, sentindo o coração martelar contra as costelas.

— Eu não vou errar nenhuma vírgula, professora.

— Veremos — disse Danielle, voltando para sua mesa e pegando o livro com uma reverência quase sagrada. — Agora vá. Antes que eu perca o juízo completamente.

Luiza caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— Até segunda, Danielle.

— Até segunda, Luiza. E use o cinto de segurança no caminho.

Luiza saiu pelo corredor deserto, seus passos ecoando com uma nova confiança. Ela sabia que o último ano da escola seria muito mais do que apenas estudos e exames. Entre as regras gramaticais e a literatura clássica, ela finalmente encontrara a chave para desvendar o enigma que era Danielle. E, pelo que acabara de provar, a professora era uma leitura muito mais profunda e intensa do que qualquer livro que já passara por suas mãos.

Dentro da sala, Danielle abriu o embrulho com cuidado. O livro era antigo, com cheiro de tempo e sabedoria. Na primeira página, havia uma dedicatória escrita com a caligrafia elegante de Luiza:

"Para aquela que me ensinou o significado das palavras, mas que me deixou sem nenhuma ao me olhar. Com todo o meu devaneio, Luiza."

Danielle fechou os olhos por um momento, permitindo-se um sorriso raro e genuíno. Ela sabia que estava entrando em um território perigoso, um que desafiava todas as suas convicções de ordem e moralidade. Mas, ao olhar para a porta por onde a jovem saíra, ela percebeu que, pela primeira vez em quarenta e nove anos, as regras não pareciam tão importantes quanto o fogo que Luiza acabara de acender em sua alma.

A disciplina continuaria, o rigor seria mantido, mas as aulas particulares de português haviam acabado de ganhar um novo e obscuro significado. E Danielle, a exigente professora, estava ansiosa para ver até onde sua aluna mais dedicada estava disposta a ir para aprender as lições que não constavam nos livros didáticos.
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