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O que eu não disse

Fandom: Original

Criado: 06/07/2026

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Ecos no Corredor de Vidro

O laboratório de farmacotécnica estava imerso em um silêncio reverente, quebrado apenas pelo som rítmico do pistilo contra o gral de porcelana. Ana mantinha a coluna ereta, os olhos fixos na pesagem milimétrica dos reagentes. Para quem a via de fora, ela era uma estátua de gelo e competência; para ela, aquele era o único lugar onde o caos do mundo silenciava. A oncologia não era apenas uma escolha de carreira; era uma obsessão nascida da necessidade de entender a finitude da vida e, talvez, de consertar o que estava quebrado dentro de si.

Do outro lado da bancada, Gabriel a observava pelo canto do olho. Ele era o veterano de ouro, o rosto que estampava os panfletos do curso, o aluno que os professores citavam como exemplo. Mas, nos últimos meses, o nome "Ana" vinha sendo sussurrado com mais frequência do que o dele. E o que mais o irritava não era o talento dela — que era inegável —, mas a indiferença absoluta que ela demonstrava perante a presença dele. Gabriel estava acostumado a ser o centro das atenções, a receber sorrisos tímidos ou olhares de admiração. Ana, porém, o tratava como se ele fosse apenas mais um frasco de reagente na prateleira: funcional, mas desinteressante.

Ao final da aula, o corredor da faculdade estava agitado. Ana guardava seus livros na mochila com movimentos precisos, o corpo ainda sentindo o leve cansaço do treino de Muay Thai da noite anterior. Seus nós dos dedos estavam levemente esfolados, escondidos sob as mangas longas do jaleco. Ela caminhava em direção à saída quando ouviu vozes familiares vindas de uma das salas de convivência.

— Cara, eu estou te falando, a garota é um robô — a voz de Gabriel ecoou, carregada de um desdém que ele não se preocupava em esconder. — Ela pode até saber a farmacocinética de todos os quimioterápicos do mercado, mas falta... alma.

— Você está sendo injusto, Gabriel — rebateu Felipe, o tom de voz calmo e protetor que Ana conhecia desde a infância. — A Ana é dedicada. Ela passou por muita coisa.

— Ah, por favor, Felipe. Ela é o tipo de garota que vive enterrada em livros porque não tem nada mais a oferecer — Gabriel riu, um som seco que atingiu Ana como um golpe físico. — Sinceramente? Ela não faz o meu tipo. É... mais ou menos. Bonitinha, mas sem sal.

Ana parou no meio do corredor. O ar pareceu faltar em seus pulmões, uma sensação familiar de sufocamento que ela não sentia desde o fim do seu noivado. "Mais ou menos". A frase ecoou, trazendo de volta as críticas do ex-noivo, as palavras que haviam destruído sua autoestima pedaço por pedaço. Ela não entrou na sala. Não confrontou. Apenas apertou as alças da mochila e caminhou para longe, as lágrimas queimando nos olhos, mas recusando-se a cair.

Felipe saiu da sala minutos depois e a encontrou sentada em um banco isolado perto do jardim de inverno. Ele não precisou perguntar; a expressão no rosto dela dizia tudo.

— Você ouviu, não foi? — perguntou Felipe, sentando-se ao lado dela.

— Não importa, Lipe — respondeu ela, a voz baixa e trêmula. — Ele está certo. Eu sou só isso aqui. Livros e treinos.

— Ana, olha para mim — Felipe segurou a mão dela, notando os nós dos dedos machucados. — O Gabriel é um idiota que se sente ameaçado porque você é melhor que ele em metade das matérias. E "mais ou menos"? Você tem noção de quantos caras da Odonto me perguntam de você toda semana? Você é incrível, Ana. O que aquele infeliz do seu ex fez com a sua cabeça não define quem você é.

Ana forçou um sorriso, mas o peso no peito permanecia.

As semanas seguintes foram marcadas por uma tensão silenciosa. Gabriel, sem saber que fora ouvido, continuava a tentar provocar Ana no laboratório, mas ela se tornara ainda mais retraída. Ela não respondia às piadas dele, não participava das discussões em grupo e saía da sala assim que o cronômetro marcava o fim da aula.

A mudança começou em uma noite de chuva torrencial. Ana estava na biblioteca, a última pessoa a sair, quando encontrou Gabriel no estacionamento coberto, tentando inutilmente trocar um pneu furado sob a iluminação precária.

— Precisa de ajuda? — A voz dela foi tão súbita que ele deu um pulo.

— Eu dou conta — respondeu Gabriel, o ego ferido. — É só um pneu.

Ana observou a forma desajeitada como ele segurava a chave de roda. Sem dizer uma palavra, ela se aproximou, tirou a mochila das costas e, com uma técnica que denunciava anos de prática e força física, assumiu a posição.

— O ângulo está errado — disse ela, aplicando a força correta. — Se continuar assim, vai espanar o parafuso.

Gabriel ficou em silêncio, hipnotizado pela eficiência dela. Não havia hesitação nos movimentos de Ana. Em poucos minutos, o pneu estava trocado. Ela se levantou, limpando as mãos sujas de graxa em um lenço descartável, e começou a caminhar em direção ao seu carro.

— Espera! — Gabriel chamou. — Obrigado. De verdade. Eu não sabia que você... bom, que você sabia fazer isso.

— Tem muita coisa que você não sabe, Gabriel — disse ela, sem olhar para trás.

A curiosidade de Gabriel foi despertada. Ele começou a observá-la não como uma rival, mas como um enigma. Ele a viu saindo da academia de artes marciais uma noite, o cabelo suado e o olhar feroz que ela nunca mostrava na faculdade. Ele a viu ajudando um calouro que chorava por causa de uma nota, tratando-o com uma gentileza que ele julgava inexistente nela.

No entanto, a velha arrogância de Gabriel ainda encontrava espaço. Durante um seminário em grupo sobre ética farmacêutica, a tensão explodiu.

— O problema, Ana — disse Gabriel na frente do grupo —, é que você trata tudo como se fosse uma fórmula matemática. Sua rotina de estudos, sua vida... é tudo muito superficial. Você não vive, você apenas executa tarefas.

O silêncio na sala foi absoluto. Ana sentiu o impacto das palavras. "Superficial". A mesma palavra que seu ex usava para descrever o fato de ela não querer sair para festas quando precisava estudar para as provas de oncologia.

Ela não gritou. Não discutiu. Apenas fechou seu notebook, organizou seus papéis e olhou para Gabriel. Havia uma tristeza tão profunda em seus olhos que ele sentiu um aperto imediato no peito.

— Você tem razão, Gabriel — disse ela com uma calma cortante. — Eu executo tarefas. Sobreviver é uma delas. Com licença.

Ela saiu da sala. Felipe, que assistia a tudo, levantou-se logo em seguida, mas não antes de agarrar Gabriel pelo colarinho do jaleco e arrastá-lo para o corredor vazio.

— Qual é o seu problema, cara? — rugiu Felipe, a proteção fraternal transbordando.

— Eu só estava dando um toque, ela é muito bitolada — Gabriel tentou se defender, mas sua voz fraquejou.

— Bitolada? Você não tem ideia do que ela passou — Felipe soltou o colarinho dele com um empurrão. — A Ana estava noiva de um cara que a traiu, a humilhou e passou dois anos dizendo que ela não era nada sem ele. Ela estuda assim porque a oncologia é o que dá sentido a ela depois de ter visto a mãe morrer de câncer sem poder fazer nada. Ela treina luta para nunca mais se sentir indefesa. E você, com esse seu ego de tamanho monumental, fica chamando a vida dela de superficial?

Gabriel estacou. O sangue pareceu fugir de seu rosto. As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar: a retração social, a dedicação extrema, a força física escondida sob a timidez.

— Eu... eu não sabia — sussurrou Gabriel.

— Pois é. E na próxima vez que você quiser chamar alguém de "mais ou menos" ou "sem alma", olhe no espelho primeiro — Felipe deu as costas e saiu à procura da amiga.

A partir daquele dia, algo mudou em Gabriel. A arrogância deu lugar a um remorso que o consumia. Ele tentou se aproximar, mas Ana o evitava com a perícia de quem foge de um golpe no tatame. Foi apenas uma semana depois, no laboratório vazio, que ele finalmente a encurralou.

— Ana, por favor.

Ela continuou pesando a substância, ignorando-o.

— Eu fui um idiota completo — começou ele, a voz sincera, sem o tom de deboche habitual. — O Felipe me contou algumas coisas... e eu percebi que fui injusto. Eu projetei em você uma insegurança minha. Você é a aluna mais brilhante que já passou por aqui, e eu tive medo disso.

Ana parou o que estava fazendo. Ela olhou para ele, procurando qualquer sinal de falsidade, mas encontrou apenas um arrependimento genuíno.

— Por que você se importa? — perguntou ela em voz baixa.

— Porque eu não consigo parar de pensar no que eu disse — Gabriel deu um passo à frente, respeitando o espaço dela. — E porque eu comecei a admirar a pessoa que você é, não só a estudante. Eu queria que a gente pudesse... começar de novo. Como amigos?

Ana suspirou, o peso nos ombros diminuindo um pouco.

— Amigos não dizem que os outros são "mais ou menos" pelas costas, Gabriel.

Ele fechou os olhos, a vergonha evidente.

— Eu sei. E eu vou passar o resto do semestre provando que eu estava errado.

A amizade que se seguiu foi construída sobre alicerces frágeis, mas que se fortaleciam a cada dia. Gabriel passou a ser o companheiro de estudos de Ana, e ela descobriu que, por trás da fachada de "pegador", ele era genuinamente apaixonado pela profissão. Eles passavam horas discutindo mecanismos de ação de drogas em cafés próximos à universidade.

Havia provocações, claro.

— Você sabe que essa sua técnica de pipetagem é arcaica, não sabe? — provocou Gabriel em uma tarde chuvosa.

— Arcaica, mas precisa — rebateu Ana, com um pequeno sorriso brincando nos lábios. — Ao contrário da sua, que parece que você está tentando regar um jardim.

Gabriel riu, e o som fez o coração de Ana dar um salto involuntário. Era perigoso, ela sabia. Ela havia jurado nunca mais deixar alguém chegar perto o suficiente para machucá-la. Mas Gabriel não estava tentando derrubar seus muros com força; ele estava simplesmente sentando ao lado deles, esperando que ela abrisse a porta.

Felipe observava a interação dos dois da mesa ao lado, fingindo estudar anatomia dentária. Ele via a forma como Gabriel olhava para Ana quando ela não estava vendo — um olhar cheio de uma admiração que beirava a adoração. E via como Ana, aos poucos, deixava de se esconder atrás do jaleco.

Certa noite, após uma sessão de estudos exaustiva na casa de Felipe, Gabriel e Ana ficaram sozinhos na varanda. O ar estava fresco e o silêncio era confortável, não mais carregado de tensão.

— Sabe — começou Gabriel, olhando para as estrelas —, eu nunca conheci ninguém como você. Você é... resiliente. Como se tivesse sido forjada no fogo.

Ana sentiu o rosto esquentar.

— Às vezes eu preferia ser apenas... normal. Sem tantos traumas para carregar.

— Os traumas fazem parte da sua história, Ana, mas eles não são você — Gabriel se virou para ela, a expressão séria. — Você é a pessoa mais forte que eu conheço. E eu sinto muito por ter demorado tanto para enxergar isso.

Ele estendeu a mão e, com uma hesitação que não era característica dele, tocou levemente o rosto dela. Ana não recuou. Pela primeira vez em anos, o toque de um homem não trouxe medo, mas uma sensação de segurança que ela pensou ter perdido para sempre.

— Eu ainda tenho medo, Gabriel — confessou ela, a voz mal passando de um sussurro.

— Eu também — admitiu ele. — Mas a gente pode ir devagar. Sem fórmulas, sem prazos. Só... a gente.

Ana olhou para as mãos dele, as mãos que agora ela sabia serem capazes de cuidar e de respeitar. Ela deu um pequeno passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O caminho para a cura ainda era longo, e o passado ainda ecoava em sua mente, mas ali, sob a luz suave da varanda, ela percebeu que talvez, apenas talvez, estivesse pronta para começar a escrever um novo capítulo.

Felipe, espiando pela janela da sala, sorriu para si mesmo e voltou para seus livros. A "estátua de gelo" estava derretendo, e o "garoto de ouro" finalmente havia encontrado algo que valia mais do que qualquer troféu acadêmico. O processo seria lento, um "slow burn" de confiança e afeto, mas no laboratório da vida, eles estavam finalmente acertando a dosagem da felicidade.
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