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De risadinha em risadinha

Fandom: Original

Criado: 06/07/2026

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RomanceFatias de VidaFofuraHumorHistória DomésticaEstudo de PersonagemCenário CanônicoCiúmesPWP (Enredo? Que enredo?)Linguagem Explícita
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Entre Planilhas e Piadas Internas

O som abafado da plateia começando a ocupar suas poltronas no Teatro Positivo, em Curitiba, era como música para os ouvidos de Ana. Para ela, aquele burburinho significava que a engrenagem estava girando. De pé no corredor lateral do backstage, ela deslizava o dedo pela tela do tablet, conferindo pela décima vez o checklist da noite. Água mineral sem gás em temperatura ambiente? Ok. Toalhas pretas dobradas? Ok. O rider técnico de iluminação ajustado conforme o pedido do Dihh? Ok.

Ana ajeitou os óculos e suspirou, sentindo o peso leve da mochila nas costas. Ser a administradora e a "solucionadora de problemas" oficial dos 4 Amigos não era apenas um emprego; era um exercício diário de paciência e logística de guerra.

— Se você continuar encarando esse tablet com essa cara de quem está desarmando uma bomba, ele vai acabar explodindo de verdade — uma voz grave e divertida ecoou logo atrás dela.

Ana não precisou se virar para saber quem era. O tom levemente anasalado e a energia caótica eram inconfundíveis.

— Não é uma bomba, Afonso. É o cronograma de saída para o aeroporto amanhã às cinco da manhã — Ana respondeu, finalmente virando-se para encará-lo. — O que significa que, se você resolver fazer um after no hotel hoje, eu pessoalmente vou te arrastar pelo pé até a van.

Afonso Padilha encostou-se na parede, cruzando os braços com um sorriso de canto. Ele já estava com a roupa do show, pronto para subir ao palco em alguns minutos. Seus olhos, no entanto, não pareciam focados na apresentação, mas sim na forma como a luz do corredor refletia nos cabelos castanhos de Ana.

— Cinco da manhã? Você é cruel, Ana. Uma verdadeira ditadora da administração — ele brincou, dando um passo à frente. — Mas me diz, o que eu ganho se eu for um bom menino e estiver pronto no horário?

Ana arqueou uma sobrancelha, o humor sarcástico aflorando.

— Você ganha o privilégio de não ser deixado para trás no Paraná. E talvez um café extra forte que eu vou pedir para o motorista providenciar.

— Um café? Só isso? — Afonso fingiu uma expressão de decepção profunda. — Eu esperava, no mínimo, um elogio pela minha pontualidade histórica.

— Pontualidade histórica e Afonso Padilha são termos que nunca ocuparam a mesma frase, a menos que a palavra "falta" estivesse no meio — ela rebateu, fechando a capa do tablet com um estalo seco.

Afonso riu, um som genuíno que preencheu o espaço apertado. Ele sempre se surpreendia com a rapidez dela. Ana não se deixava intimidar pelo ego dos comediantes, nem pelas piadas constantes. Na verdade, era ela quem mantinha todos no chão.

— Ei, olha só isso — Thiago Ventura surgiu do nada, brotando de trás de uma cortina preta com uma garrafa de água na mão. Ele parou ao lado de Afonso e olhou de um para o outro com um sorriso malicioso. — O clima aqui atrás está mais quente que o refletor do palco, hein?

— Deixa os dois, Thiago — Dihh Lopes apareceu logo em seguida, acompanhado por Márcio Donato. Dihh tinha aquele olhar de quem já estava montando o roteiro da próxima zoação. — O Afonso está apenas tentando entender como a Ana consegue ser tão inteligente e ele ainda tem dificuldade de abrir um sachê de ketchup.

— Vai se ferrar, Dihh — Afonso resmungou, embora suas orelhas estivessem ficando levemente vermelhas.

— Não, mas é sério — Márcio interveio, aproximando-se de Ana com uma reverência exagerada. — Ana, nossa salvadora, como você aguenta? O Afonso está há dez minutos ali no camarim perguntando se você já tinha checado a iluminação, mas a gente sabe que ele só queria saber onde você estava.

Ana sentiu o rosto aquecer levemente, mas manteve a postura profissional que era sua marca registrada.

— Ele estava preocupado com o trabalho, Márcio. Algo que vocês também deveriam estar, considerando que o show começa em cinco minutos e o Dihh ainda não colocou o microfone — ela disse, apontando para o cinto do humorista.

— Ela é boa — Thiago sussurrou para Afonso, alto o suficiente para todos ouvirem. — Ela usa a eficiência como escudo. Mas a gente vê, Afonso. A gente vê o jeito que você olha para a planilha dela.

— Eu não olho para a planilha dela! — Afonso protestou, tentando manter a dignidade.

— Claro que não — Dihh completou, saindo em direção ao palco. — Você olha para o que está segurando a planilha. Vamos logo, cambada. O show não vai se apresentar sozinho e a Ana já está quase nos expulsando daqui com os olhos.

Os três saíram rindo, deixando um rastro de piadas internas pelo corredor. Afonso permaneceu ali por um segundo a mais, coçando a nuca, visivelmente sem jeito.

— Não liga para eles — disse ele, a voz um pouco mais suave. — Eles são uns idiotas.

— Eu sei que são — Ana deu um meio sorriso, ajeitando a alça da mochila. — Mas eles têm um ponto. Você está realmente preocupado com a iluminação ou só queria me irritar antes do show?

Afonso deu de ombros, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o perfume dele, uma mistura de cítrico com algo que lembrava madeira.

— Irritar você é o ponto alto do meu dia, Ana. Mas... eu também queria saber se você vai jantar com a gente depois. O Márcio achou um lugar de massas que fica aberto até tarde.

Ana consultou mentalmente a agenda do dia seguinte. Tinha que fechar o relatório de vendas de merchandising e confirmar o transfer do hotel, mas olhou para a expectativa nos olhos de Afonso e sentiu algo ceder.

— Se o show terminar no horário e ninguém inventar de fazer trinta minutos de bis, eu vou — ela cedeu.

— Fechado — Afonso sorriu, e por um momento, o comediante energético deu lugar a algo mais calmo, quase vulnerável. — Te vejo lá fora?

— Vai logo, Afonso. O público está esperando.

Ela o assistiu caminhar em direção ao palco. Viu o momento exato em que ele respirou fundo, estufou o peito e entrou sob os holofotes, transformando-se instantaneamente no showman que arrastava multidões. Ana ficou ali, nas sombras, observando-o através da fresta da cortina. Era fascinante como ele conseguia comandar a energia de milhares de pessoas, mas perdia as palavras quando estava sozinho com ela em um corredor de serviço.

***

O jantar foi exatamente o que Ana esperava: um caos organizado. Thiago e Márcio competiam para ver quem contava a história mais absurda da turnê, enquanto Dihh analisava as reações da plateia daquela noite. Ana estava sentada na ponta da mesa, com seu caderno de anotações aberto ao lado do prato de fettuccine, aproveitando o momento para adiantar alguns detalhes.

— Olha lá, Afonso — Thiago cutucou o amigo com o cotovelo. — A mulher da sua vida está trabalhando em pleno jantar de sexta-feira. Isso que é foco.

Afonso, que estava distraído olhando para Ana, quase engasgou com o vinho.

— Para com isso, Thiago. Deixa ela em paz.

— Não, ele tem razão — Ana disse, sem tirar os olhos do caderno. — Se eu não organizar o roteiro da gravação do especial agora, vocês vão chegar no set na segunda-feira sem saber nem onde é o banheiro.

— Viu só? — Afonso interveio, tentando defendê-la enquanto ganhava pontos. — Ela cuida da gente. Ela é o cérebro, nós somos só os rostinhos bonitos.

— Rostinho bonito? — Márcio gargalhou. — Afonso, você parece um joelho com barba. Se a Ana é o cérebro, você é, no máximo, o apêndice. Ninguém sabe direito para que serve, mas às vezes inflama e causa problema.

A mesa explodiu em risadas. Ana não conseguiu evitar e riu também, escondendo o rosto atrás da mão.

— Até você, Ana? — Afonso perguntou, fingindo estar ofendido.

— Sinto muito, Afonso, mas a analogia foi tecnicamente precisa — ela respondeu, os olhos brilhando de diversão.

— Traição! — ele exclamou, mas o sorriso em seu rosto dizia o contrário. Ele adorava quando ela entrava na brincadeira.

A noite avançou e, um a um, os outros integrantes foram se retirando para seus quartos, exaustos da adrenalina do palco. Sobraram apenas Ana e Afonso na mesa do restaurante do hotel, cercados pelo silêncio da madrugada.

Ana fechou o caderno e soltou um longo suspiro, recostando-se na cadeira.

— Cansada? — Afonso perguntou, a voz baixa agora.

— Um pouco. Essa turnê está sendo maior do que a gente planejou. O que é ótimo, mas... dá trabalho.

— Você faz parecer fácil — ele disse, e desta vez não havia traço de piada em seu tom. — A gente sobe lá, faz nossas graças e vai embora. Mas eu vejo você correndo de um lado para o outro, resolvendo pepino de empresário, brigando com técnico de som, cuidando da gente como se fôssemos crianças grandes.

Ana olhou para ele, surpresa com a seriedade.

— É o meu trabalho, Afonso. Eu gosto da ordem no meio do caos.

— Não é só trabalho. Você se importa. E eu... eu admiro muito isso. De verdade.

Houve um silêncio confortável entre eles. Ana sentiu o coração acelerar de uma forma que nenhuma planilha de custos jamais conseguiu fazer. Ela sempre se orgulhou de estar um passo à frente de tudo, mas ali, sob o olhar atento de Afonso, ela se sentia desarmada.

— Obrigada — ela disse, a voz quase um sussurro. — É bom saber que alguém percebe.

Afonso esticou a mão sobre a mesa, hesitando por um segundo antes de tocar levemente os dedos de Ana que descansavam sobre a capa do caderno.

— Eu percebo tudo o que você faz, Ana. Até as coisas pequenas.

Ela não retirou a mão. Pelo contrário, sentiu um calor reconfortante se espalhar pelo braço. Por um momento, o mundo dos bastidores, as viagens e a pressão do sucesso desapareceram. Eram apenas os dois.

— Inclusive o fato de que eu esqueci de pedir o seu café extra forte para amanhã? — ela brincou, tentando quebrar a tensão que ameaçava deixá-la sem fôlego.

Afonso soltou uma risada curta e balançou a cabeça.

— Viu? Você não consegue evitar. Sempre profissional.

— É o meu charme — ela piscou para ele.

— É sim — ele concordou, a voz subindo uma oitava. — Um charme perigoso para a minha saúde mental.

Ele se levantou, ainda segurando o olhar dela por um instante longo demais para ser apenas amizade.

— Cinco da manhã no lobby? — ele perguntou.

— Cinco da manhã. Sem atrasos, Afonso.

— Por você, eu chego às quatro e meia.

Ele saiu, deixando Ana sozinha com o silêncio do restaurante e uma sensação estranha e maravilhosa no peito. Ela abriu o caderno novamente, mas não conseguia mais se concentrar nos números. Em vez disso, desenhou um pequeno círculo em volta do horário de saída de Curitiba e, ao lado, escreveu apenas uma palavra: "Café".

Na manhã seguinte, exatamente às cinco horas, Afonso estava no lobby. Ele estava com olheiras, o cabelo bagunçado e segurava um travesseiro de viagem, mas estava lá.

Quando ele viu Ana se aproximando com dois copos térmicos na mão, seu rosto se iluminou.

— Você veio mesmo — ele disse, pegando o café que ela lhe estendia.

— Eu nunca falho com meus prazos — ela respondeu, mas seu tom era suave.

Ao fundo, perto da van, Thiago, Dihh e Márcio observavam a cena.

— Olha lá — sussurrou Thiago, dando um cutucão em Dihh. — O café da manhã dos campeões. Ou dos apaixonados.

— Cinco reais que ele derruba o café nela antes de chegarmos ao aeroporto só para ela ter que limpar — Dihh apostou.

— Dez reais que ele pede ela em namoro até o final da turnê em Portugal — Márcio rebateu.

Ana passou por eles, empurrando sua mala com uma mão e segurando seu café com a outra.

— Eu ouvi isso, rapazes — ela disse, sem parar de andar. — E se continuarem com as apostas, eu mudo o assento de vocês para a última fileira do avião, bem do lado do banheiro.

Os três se calaram imediatamente, trocando olhares de pânico. Afonso, caminhando logo atrás dela, deu uma piscadela para os amigos e seguiu Ana em direção à van.

A estrada à frente era longa, cheia de shows, aeroportos e hotéis. Mas, pela primeira vez em anos de carreira, Ana sentia que não precisava ter o controle absoluto de tudo. Afinal, nos bastidores da vida, as melhores coisas aconteciam justamente quando o roteiro era deixado de lado.
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