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Fandom: Nenhum
Criado: 07/07/2026
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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoHistória DomésticaCiúmesEstudo de Personagem
Entre o Couro e a Seda
O ar condicionado do shopping center de luxo soprava uma brisa fria que contrastava com a agitação do fim de tarde. Emanuel caminhava com passos firmes, sua presença emanando uma autoridade silenciosa que fazia as pessoas abrirem caminho sem que ele precisasse dizer uma palavra. Vestia uma camiseta preta básica que delineava seus ombros largos e os braços cobertos por tatuagens complexas, obras de arte que ele mesmo desenhara e que agora valiam pequenas fortunas em seus estúdios ao redor do mundo.
Ao seu lado, Sara era o completo oposto da discrição. Com um vestido justo cor de cereja que acentuava cada curva de seu corpo esculpido e o silicone que ela exibia com orgulho, ela atraía olhares de admiração e julgamento por onde passava. Seus cabelos loiros, impecavelmente escovados, balançavam enquanto ela gesticulava, segurando várias sacolas de marcas caras.
— Eu estou te dizendo, Emanuel, a loja precisa de uma reforma na vitrine. Se eu não mudar o conceito este mês, as vendas vão estagnar — dizia Sara, o tom de voz alto e confiante, típico de quem sabe que é o centro das atenções. — E eu quero aquele lustre de cristal que vimos na revista.
Emanuel soltou um suspiro pesado, o cansaço visível em seus olhos escuros. Ele amava a energia de Sara, a forma como ela enfrentava o mundo com unhas e dentes, mas às vezes o volume dela era demais para sua mente focada em negócios e logística.
— Se você acha necessário para a loja, compre, Sara. Você sabe que o orçamento está lá para isso — respondeu ele, a voz rouca e curta.
— Não é só o dinheiro, querido. É o seu olhar técnico que eu quero — ela retrucou, parando na frente de uma vitrine de sapatos e analisando o próprio reflexo com um sorriso satisfeito.
Emanuel não respondeu. Seus olhos haviam se desviado para uma loja de calçados clássicos do outro lado do corredor. Através do vidro temperado, ele avistou uma figura que conhecia bem demais. Uma silhueta esguia, vestindo um vestido de linho bege claro e cardigã fino, com os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros.
Era Eduarda.
Ela estava sentada em um banco de veludo, segurando um par de sapatos de bico fino, cor de pêssego, como se fossem feitos de cristal. Havia um brilho de pura alegria em seu rosto delicado, uma expressão doce que Emanuel raramente via quando o assunto envolvia dinheiro ou bens materiais.
— Olha só — Sara comentou, seguindo o olhar de Emanuel e soltando uma risadinha irônica. — A nossa pequena historiadora de arte está fazendo compras. Que fofa.
Emanuel sentiu uma pontada de irritação, mas não por causa do comentário de Sara. Ele entrou na loja sem aviso prévio, ignorando o protesto de Sara que o seguia logo atrás.
Eduarda estava entregando o cartão para a vendedora, um sorriso tímido nos lábios, quando sentiu a sombra de alguém se projetar sobre ela. Ao levantar os olhos, seu rosto empalideceu levemente, e ela apertou a bolsa contra o peito.
— Emanuel? Sara? — A voz dela saiu suave, quase um sussurro, carregada de surpresa.
— O que você está fazendo, Duda? — Emanuel perguntou, a voz rígida. Ele cruzou os braços, os olhos fixos na caixa de sapatos que a vendedora estava começando a embalar.
— Eu... eu vim comprar este sapato. Eu estava guardando dinheiro há meses para ele — explicou ela, levantando-se e buscando a proximidade de Emanuel de forma instintiva. Ela se inclinou levemente em direção a ele, buscando o conforto do seu perfume de sândalo e tabaco.
— Guardando dinheiro? — Emanuel repetiu, a testa franzida em uma expressão de puro descontentamento. — Eu já te disse mil vezes que você não precisa guardar um centavo para nada. Por que não me pediu? Por que não usou o cartão que eu te dei?
Eduarda baixou o olhar, as bochechas corando. Ela odiava confrontos, especialmente quando o tom de Emanuel ficava assim, possessivo e controlador.
— Eu queria comprar com o meu esforço, Manu... — murmurou ela, estendendo a mão para tocar o braço dele, um gesto manhoso e pacificador. — É um presente de mim para mim mesma. Não acho justo você pagar tudo, você já faz tanto...
— Justo? — Emanuel soltou uma risada seca, o estresse do dia transbordando. — O que não é justo é você me tratar como um estranho ou um banco que você evita usar. Eu sou seu namorado. Eu quero cuidar de você, Eduarda. Mas você continua morando com seus pais, continua agindo como se fosse independente de uma forma que me exclui.
Sara, que assistia à cena com uma mão na cintura e uma expressão de tédio divertido, interveio.
— Deixa a menina, Emanuel. Se ela quer brincar de ser autossuficiente com o dinheiro do estágio ou da mesada, o problema é dela. Pelo menos ela tem bom gosto, esse modelo é clássico. — Sara deu um passo à frente, avaliando Eduarda de cima a baixo. Ela não via a outra como uma ameaça; para ela, Eduarda era como um bicho de estimação precioso que Emanuel mantinha para satisfazer seu lado protetor, enquanto ela, Sara, era a mulher que realmente comandava a casa.
— Não é brincadeira, Sara — Eduarda disse, ganhando um pingo de coragem, embora sua voz ainda fosse doce. — Eu só gosto de sentir que conquistei algo.
Emanuel ignorou Sara e deu um passo para dentro do espaço pessoal de Eduarda, forçando-a a olhar para ele.
— Isso acaba hoje. Você vai cancelar essa compra, eu vou pagar isso e tudo mais que você quiser nesta loja. E depois, vamos conversar seriamente sobre a sua mudança. Eu cansei de ter que te procurar na casa dos seus pais como se fôssemos adolescentes. Eu quero as duas debaixo do meu teto.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. A pressão de Emanuel era como uma onda pesada sobre sua sensibilidade. Ela amava o cuidado dele, a segurança que ele provia, mas o controle excessivo a sufocava.
— Manu, por favor... não faz cena aqui — pediu ela, a voz embargada, encostando a cabeça no peito dele por um momento, um gesto de rendição e súplica. — Eu não estou pronta para morar com vocês ainda. Eu amo meus pais, eu gosto do meu espaço...
— O seu espaço é comigo — Emanuel sentenciou, embora sua mão tenha subido automaticamente para acariciar o cabelo dela, um reflexo de sua necessidade de protegê-la, mesmo quando estava irritado. — Sara já concordou com tudo. A casa é enorme. Você teria seu próprio estúdio para estudar sua história da arte, teria tudo. Por que essa resistência?
— Porque eu tenho medo de me perder — Eduarda confessou em um sussurro que só ele pôde ouvir.
Sara revirou os olhos e soltou um suspiro dramático.
— Ai, que drama, Duda. A casa é ótima, eu não mordo, e o Emanuel para de ficar de mau humor o dia todo se souber onde você está. Vamos logo, pegue seus sapatos e vamos jantar. Eu estou com fome e não tenho paciência para essa terapia de casal no meio do shopping.
Emanuel olhou para a vendedora, que assistia a tudo paralisada.
— Passe o cartão dela de volta. Eu vou pagar — ordenou ele, entregando seu cartão de titânio negro.
— Manu, não... — Eduarda tentou protestar, mas ele a calou com um olhar firme.
— Shh. Agora não, Eduarda.
Eduarda se encolheu levemente, sentindo-se pequena entre a agressividade vibrante de Sara e a dominância silenciosa de Emanuel. Ela se sentia como uma peça de porcelana em uma sala cheia de martelos. No entanto, o toque de Emanuel em sua cintura, puxando-a para perto enquanto esperava o pagamento, era quente e seguro. Era o que a mantinha ali.
Depois que a compra foi finalizada — com Emanuel insistindo em comprar mais três pares que Eduarda sequer havia olhado —, os três saíram da loja. Emanuel carregava as sacolas, sua expressão ainda tensa, mas o contato físico constante com Eduarda parecia acalmá-lo minimamente.
— Vamos para aquele restaurante italiano no último piso — sugeriu Sara, já caminhando na frente, chamando a atenção com o estalar de seus saltos altos no chão de mármore. — Preciso de um vinho e de carboidratos.
Emanuel parou por um segundo, fazendo Eduarda parar também. Ele a olhou nos olhos, a expressão suavizando apenas para ela.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz mais baixa, quase carinhosa.
Eduarda assentiu, embora seus olhos ainda brilhassem com a emoção contida. Ela se inclinou e deu um beijo casto na bochecha dele, sentindo a barba por fazer roçar sua pele sensível.
— Estou. Só... não gosto quando você fica bravo comigo por querer ser eu mesma.
— Eu não fico bravo por você ser você mesma, Duda. Eu fico bravo porque sinto que você está sempre a um passo de fugir de mim. E eu não vou deixar isso acontecer.
Ele segurou a mão dela com força — não para machucar, mas para garantir que ela não se soltasse — e a conduziu em direção a Sara.
O jantar foi uma mistura de tensões e silêncios. Sara falava incessantemente sobre as tendências de moda para a próxima estação e como pretendia expandir sua loja de roupas, usando termos técnicos de administração que Eduarda mal compreendia. Emanuel ouvia, dando respostas curtas e práticas, enquanto sua mão livre permanecia sobre o joelho de Eduarda por baixo da mesa, um lembrete constante de sua posse.
Eduarda, por sua vez, observava os dois. Ela notava como Sara usava o sarcasmo para esconder qualquer sinal de carência, e como Emanuel usava o trabalho e o controle para lidar com o estresse de sua vida cosmopolita. Ela se sentia a ponte entre eles, o elemento de suavidade que impedia que aquelas duas personalidades explosivas se destruíssem.
— Meus pais perguntaram por você, Manu — Eduarda disse baixinho, aproveitando uma pausa no monólogo de Sara. — Eles querem que você vá jantar lá no domingo. Eles compraram aquele vinho que você comentou que gostava.
Emanuel apertou levemente o joelho dela.
— Eu vou. Mas com uma condição: que você me deixe levar algumas malas suas de volta para o meu apartamento depois do jantar.
Eduarda sentiu o coração disparar. Ela olhou para Sara, esperando algum sinal de desaprovação, mas a loira estava ocupada retocando o batom vermelho vibrante no reflexo de uma colher.
— O Emanuel não vai desistir, Duda — Sara comentou, fechando o estojo de maquiagem com um estalo. — Ele é um trator quando quer alguma coisa. E, sinceramente, a casa está ficando vazia demais só com as minhas brigas com ele. Preciso de alguém para concordar comigo de vez em quando.
— Viu? — Emanuel disse, um meio sorriso surgindo pela primeira vez na noite. — Até a Sara quer você lá.
— Eu só quero paz — Sara corrigiu, piscando para Eduarda. — E aquela sua coleção de livros de arte ficaria linda na estante da sala de estar.
Eduarda sorriu, uma expressão pequena e doce. Ela sabia que estava sendo cercada por todos os lados. O amor de Emanuel era uma fortaleza, às vezes protetora demais, às vezes opressiva, mas era onde ela se sentia amada. E Sara, com todo seu jeito vulgar e impetuoso, acabava sendo a irmã mais velha caótica que ela nunca teve.
— Eu vou pensar, Manu... prometo.
— "Pensar" não é um "sim", mas é um começo — Emanuel murmurou, inclinando-se para beijar a testa de Eduarda antes de tomar um gole de seu vinho.
A noite terminou com eles caminhando pelo estacionamento. Emanuel ajudou Eduarda a entrar no carro dele, decidindo que ela não voltaria para casa dirigindo aquela noite; ele mandaria um de seus motoristas buscar o carro dela depois.
— Mas meus pais vão ficar preocupados — Eduarda tentou dizer, já acomodada no banco de couro perfumado.
— Eu já mandei uma mensagem para o seu pai. Ele disse que tudo bem — Emanuel respondeu, fechando a porta dela.
Ele deu a volta, entrou no banco do motorista e esperou que Sara se acomodasse no banco de trás, onde ela já começava a reclamar do cansaço.
Enquanto dirigia pelas ruas iluminadas da cidade, Emanuel sentiu uma satisfação momentânea. Ele tinha as duas ali, sob seu comando, dentro de seu território. O estresse de seus estúdios de tatuagem, os problemas com fornecedores e os milhões em jogo pareciam distantes quando ele tinha o perfume doce de Eduarda ao seu lado e a presença vibrante de Sara às suas costas.
Ele sabia que o conflito sobre a mudança de Eduarda voltaria a surgir no dia seguinte. Sabia que Sara faria algum comentário ácido que magoaria a sensibilidade de Eduarda, e que ele teria que mediar a situação com sua lógica fria. Mas, por enquanto, no silêncio do carro de luxo, ele tinha o que mais desejava: o controle de seu pequeno e complexo mundo.
Eduarda encostou a cabeça no vidro, observando as luzes da cidade passarem como borrões. Ela tocou a sacola de sapatos a seus pés, sentindo uma mistura de culpa e alegria. Sabia que, em breve, seu quarto na casa dos pais seria apenas uma lembrança, e sua vida seria permanentemente dividida entre a força bruta de Emanuel e a exuberância de Sara.
Ela era a seda entre o couro e o metal. E, de alguma forma, era ali que ela pertencia.
Ao seu lado, Sara era o completo oposto da discrição. Com um vestido justo cor de cereja que acentuava cada curva de seu corpo esculpido e o silicone que ela exibia com orgulho, ela atraía olhares de admiração e julgamento por onde passava. Seus cabelos loiros, impecavelmente escovados, balançavam enquanto ela gesticulava, segurando várias sacolas de marcas caras.
— Eu estou te dizendo, Emanuel, a loja precisa de uma reforma na vitrine. Se eu não mudar o conceito este mês, as vendas vão estagnar — dizia Sara, o tom de voz alto e confiante, típico de quem sabe que é o centro das atenções. — E eu quero aquele lustre de cristal que vimos na revista.
Emanuel soltou um suspiro pesado, o cansaço visível em seus olhos escuros. Ele amava a energia de Sara, a forma como ela enfrentava o mundo com unhas e dentes, mas às vezes o volume dela era demais para sua mente focada em negócios e logística.
— Se você acha necessário para a loja, compre, Sara. Você sabe que o orçamento está lá para isso — respondeu ele, a voz rouca e curta.
— Não é só o dinheiro, querido. É o seu olhar técnico que eu quero — ela retrucou, parando na frente de uma vitrine de sapatos e analisando o próprio reflexo com um sorriso satisfeito.
Emanuel não respondeu. Seus olhos haviam se desviado para uma loja de calçados clássicos do outro lado do corredor. Através do vidro temperado, ele avistou uma figura que conhecia bem demais. Uma silhueta esguia, vestindo um vestido de linho bege claro e cardigã fino, com os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros.
Era Eduarda.
Ela estava sentada em um banco de veludo, segurando um par de sapatos de bico fino, cor de pêssego, como se fossem feitos de cristal. Havia um brilho de pura alegria em seu rosto delicado, uma expressão doce que Emanuel raramente via quando o assunto envolvia dinheiro ou bens materiais.
— Olha só — Sara comentou, seguindo o olhar de Emanuel e soltando uma risadinha irônica. — A nossa pequena historiadora de arte está fazendo compras. Que fofa.
Emanuel sentiu uma pontada de irritação, mas não por causa do comentário de Sara. Ele entrou na loja sem aviso prévio, ignorando o protesto de Sara que o seguia logo atrás.
Eduarda estava entregando o cartão para a vendedora, um sorriso tímido nos lábios, quando sentiu a sombra de alguém se projetar sobre ela. Ao levantar os olhos, seu rosto empalideceu levemente, e ela apertou a bolsa contra o peito.
— Emanuel? Sara? — A voz dela saiu suave, quase um sussurro, carregada de surpresa.
— O que você está fazendo, Duda? — Emanuel perguntou, a voz rígida. Ele cruzou os braços, os olhos fixos na caixa de sapatos que a vendedora estava começando a embalar.
— Eu... eu vim comprar este sapato. Eu estava guardando dinheiro há meses para ele — explicou ela, levantando-se e buscando a proximidade de Emanuel de forma instintiva. Ela se inclinou levemente em direção a ele, buscando o conforto do seu perfume de sândalo e tabaco.
— Guardando dinheiro? — Emanuel repetiu, a testa franzida em uma expressão de puro descontentamento. — Eu já te disse mil vezes que você não precisa guardar um centavo para nada. Por que não me pediu? Por que não usou o cartão que eu te dei?
Eduarda baixou o olhar, as bochechas corando. Ela odiava confrontos, especialmente quando o tom de Emanuel ficava assim, possessivo e controlador.
— Eu queria comprar com o meu esforço, Manu... — murmurou ela, estendendo a mão para tocar o braço dele, um gesto manhoso e pacificador. — É um presente de mim para mim mesma. Não acho justo você pagar tudo, você já faz tanto...
— Justo? — Emanuel soltou uma risada seca, o estresse do dia transbordando. — O que não é justo é você me tratar como um estranho ou um banco que você evita usar. Eu sou seu namorado. Eu quero cuidar de você, Eduarda. Mas você continua morando com seus pais, continua agindo como se fosse independente de uma forma que me exclui.
Sara, que assistia à cena com uma mão na cintura e uma expressão de tédio divertido, interveio.
— Deixa a menina, Emanuel. Se ela quer brincar de ser autossuficiente com o dinheiro do estágio ou da mesada, o problema é dela. Pelo menos ela tem bom gosto, esse modelo é clássico. — Sara deu um passo à frente, avaliando Eduarda de cima a baixo. Ela não via a outra como uma ameaça; para ela, Eduarda era como um bicho de estimação precioso que Emanuel mantinha para satisfazer seu lado protetor, enquanto ela, Sara, era a mulher que realmente comandava a casa.
— Não é brincadeira, Sara — Eduarda disse, ganhando um pingo de coragem, embora sua voz ainda fosse doce. — Eu só gosto de sentir que conquistei algo.
Emanuel ignorou Sara e deu um passo para dentro do espaço pessoal de Eduarda, forçando-a a olhar para ele.
— Isso acaba hoje. Você vai cancelar essa compra, eu vou pagar isso e tudo mais que você quiser nesta loja. E depois, vamos conversar seriamente sobre a sua mudança. Eu cansei de ter que te procurar na casa dos seus pais como se fôssemos adolescentes. Eu quero as duas debaixo do meu teto.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. A pressão de Emanuel era como uma onda pesada sobre sua sensibilidade. Ela amava o cuidado dele, a segurança que ele provia, mas o controle excessivo a sufocava.
— Manu, por favor... não faz cena aqui — pediu ela, a voz embargada, encostando a cabeça no peito dele por um momento, um gesto de rendição e súplica. — Eu não estou pronta para morar com vocês ainda. Eu amo meus pais, eu gosto do meu espaço...
— O seu espaço é comigo — Emanuel sentenciou, embora sua mão tenha subido automaticamente para acariciar o cabelo dela, um reflexo de sua necessidade de protegê-la, mesmo quando estava irritado. — Sara já concordou com tudo. A casa é enorme. Você teria seu próprio estúdio para estudar sua história da arte, teria tudo. Por que essa resistência?
— Porque eu tenho medo de me perder — Eduarda confessou em um sussurro que só ele pôde ouvir.
Sara revirou os olhos e soltou um suspiro dramático.
— Ai, que drama, Duda. A casa é ótima, eu não mordo, e o Emanuel para de ficar de mau humor o dia todo se souber onde você está. Vamos logo, pegue seus sapatos e vamos jantar. Eu estou com fome e não tenho paciência para essa terapia de casal no meio do shopping.
Emanuel olhou para a vendedora, que assistia a tudo paralisada.
— Passe o cartão dela de volta. Eu vou pagar — ordenou ele, entregando seu cartão de titânio negro.
— Manu, não... — Eduarda tentou protestar, mas ele a calou com um olhar firme.
— Shh. Agora não, Eduarda.
Eduarda se encolheu levemente, sentindo-se pequena entre a agressividade vibrante de Sara e a dominância silenciosa de Emanuel. Ela se sentia como uma peça de porcelana em uma sala cheia de martelos. No entanto, o toque de Emanuel em sua cintura, puxando-a para perto enquanto esperava o pagamento, era quente e seguro. Era o que a mantinha ali.
Depois que a compra foi finalizada — com Emanuel insistindo em comprar mais três pares que Eduarda sequer havia olhado —, os três saíram da loja. Emanuel carregava as sacolas, sua expressão ainda tensa, mas o contato físico constante com Eduarda parecia acalmá-lo minimamente.
— Vamos para aquele restaurante italiano no último piso — sugeriu Sara, já caminhando na frente, chamando a atenção com o estalar de seus saltos altos no chão de mármore. — Preciso de um vinho e de carboidratos.
Emanuel parou por um segundo, fazendo Eduarda parar também. Ele a olhou nos olhos, a expressão suavizando apenas para ela.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz mais baixa, quase carinhosa.
Eduarda assentiu, embora seus olhos ainda brilhassem com a emoção contida. Ela se inclinou e deu um beijo casto na bochecha dele, sentindo a barba por fazer roçar sua pele sensível.
— Estou. Só... não gosto quando você fica bravo comigo por querer ser eu mesma.
— Eu não fico bravo por você ser você mesma, Duda. Eu fico bravo porque sinto que você está sempre a um passo de fugir de mim. E eu não vou deixar isso acontecer.
Ele segurou a mão dela com força — não para machucar, mas para garantir que ela não se soltasse — e a conduziu em direção a Sara.
O jantar foi uma mistura de tensões e silêncios. Sara falava incessantemente sobre as tendências de moda para a próxima estação e como pretendia expandir sua loja de roupas, usando termos técnicos de administração que Eduarda mal compreendia. Emanuel ouvia, dando respostas curtas e práticas, enquanto sua mão livre permanecia sobre o joelho de Eduarda por baixo da mesa, um lembrete constante de sua posse.
Eduarda, por sua vez, observava os dois. Ela notava como Sara usava o sarcasmo para esconder qualquer sinal de carência, e como Emanuel usava o trabalho e o controle para lidar com o estresse de sua vida cosmopolita. Ela se sentia a ponte entre eles, o elemento de suavidade que impedia que aquelas duas personalidades explosivas se destruíssem.
— Meus pais perguntaram por você, Manu — Eduarda disse baixinho, aproveitando uma pausa no monólogo de Sara. — Eles querem que você vá jantar lá no domingo. Eles compraram aquele vinho que você comentou que gostava.
Emanuel apertou levemente o joelho dela.
— Eu vou. Mas com uma condição: que você me deixe levar algumas malas suas de volta para o meu apartamento depois do jantar.
Eduarda sentiu o coração disparar. Ela olhou para Sara, esperando algum sinal de desaprovação, mas a loira estava ocupada retocando o batom vermelho vibrante no reflexo de uma colher.
— O Emanuel não vai desistir, Duda — Sara comentou, fechando o estojo de maquiagem com um estalo. — Ele é um trator quando quer alguma coisa. E, sinceramente, a casa está ficando vazia demais só com as minhas brigas com ele. Preciso de alguém para concordar comigo de vez em quando.
— Viu? — Emanuel disse, um meio sorriso surgindo pela primeira vez na noite. — Até a Sara quer você lá.
— Eu só quero paz — Sara corrigiu, piscando para Eduarda. — E aquela sua coleção de livros de arte ficaria linda na estante da sala de estar.
Eduarda sorriu, uma expressão pequena e doce. Ela sabia que estava sendo cercada por todos os lados. O amor de Emanuel era uma fortaleza, às vezes protetora demais, às vezes opressiva, mas era onde ela se sentia amada. E Sara, com todo seu jeito vulgar e impetuoso, acabava sendo a irmã mais velha caótica que ela nunca teve.
— Eu vou pensar, Manu... prometo.
— "Pensar" não é um "sim", mas é um começo — Emanuel murmurou, inclinando-se para beijar a testa de Eduarda antes de tomar um gole de seu vinho.
A noite terminou com eles caminhando pelo estacionamento. Emanuel ajudou Eduarda a entrar no carro dele, decidindo que ela não voltaria para casa dirigindo aquela noite; ele mandaria um de seus motoristas buscar o carro dela depois.
— Mas meus pais vão ficar preocupados — Eduarda tentou dizer, já acomodada no banco de couro perfumado.
— Eu já mandei uma mensagem para o seu pai. Ele disse que tudo bem — Emanuel respondeu, fechando a porta dela.
Ele deu a volta, entrou no banco do motorista e esperou que Sara se acomodasse no banco de trás, onde ela já começava a reclamar do cansaço.
Enquanto dirigia pelas ruas iluminadas da cidade, Emanuel sentiu uma satisfação momentânea. Ele tinha as duas ali, sob seu comando, dentro de seu território. O estresse de seus estúdios de tatuagem, os problemas com fornecedores e os milhões em jogo pareciam distantes quando ele tinha o perfume doce de Eduarda ao seu lado e a presença vibrante de Sara às suas costas.
Ele sabia que o conflito sobre a mudança de Eduarda voltaria a surgir no dia seguinte. Sabia que Sara faria algum comentário ácido que magoaria a sensibilidade de Eduarda, e que ele teria que mediar a situação com sua lógica fria. Mas, por enquanto, no silêncio do carro de luxo, ele tinha o que mais desejava: o controle de seu pequeno e complexo mundo.
Eduarda encostou a cabeça no vidro, observando as luzes da cidade passarem como borrões. Ela tocou a sacola de sapatos a seus pés, sentindo uma mistura de culpa e alegria. Sabia que, em breve, seu quarto na casa dos pais seria apenas uma lembrança, e sua vida seria permanentemente dividida entre a força bruta de Emanuel e a exuberância de Sara.
Ela era a seda entre o couro e o metal. E, de alguma forma, era ali que ela pertencia.
