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De risadinha
Fandom: 4 amigos(grupo de comédia)
Criado: 07/07/2026
Tags
RomanceFatias de VidaFofuraHumorCenário CanônicoEstudo de Personagem
Entre Planilhas e Piadas Internas
O caos era o habitat natural dos 4 Amigos, mas Ana era a força da natureza que impunha ordem ao desastre. No camarim do Teatro Positivo, em Curitiba, o clima era o de sempre: Thiago Ventura tentava convencer Márcio Donato de que sua nova bermuda era estilosa, enquanto Dihh Lopes testava piadas ácidas sobre a plateia que já formava fila lá fora.
Ana, no entanto, não ouvia nada disso. Com o tablet em uma mão e um rádio comunicador na outra, ela conferia pela terceira vez a lista de equipamentos de iluminação. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque impecável, e o blazer azul-marinho conferia a ela uma autoridade que nenhum daqueles quatro homens ousaria questionar.
— Ana, o Wi-Fi do teatro caiu de novo — reclamou Afonso Padilha, aproximando-se dela com o celular na mão. — Como eu vou postar o story da fila?
Ana nem sequer desviou os olhos da tela.
— Já troquei a rede, Afonso. Conecta na "Produção_VIP". A senha é a data do aniversário da sua mãe, porque eu sabia que você não esqueceria.
Afonso parou por um segundo, piscando os olhos castanhos.
— Como você sabe o aniversário da minha mãe?
— Eu li a sua ficha cadastral para o seguro da turnê, os contratos de publicidade e o roteiro do seu solo — respondeu ela, finalmente olhando para ele com um sorriso de canto, rápido e eficiente. — Mais alguma coisa ou posso voltar a salvar a vida de vocês?
Afonso ficou ali, parado, observando-a se afastar para falar com o técnico de som. Havia algo na forma como Ana resolvia problemas — sem drama, com uma competência quase assustadora — que o deixava hipnotizado. Não era apenas a beleza discreta ou o jeito elegante; era a inteligência.
— Ih, olha lá — a voz de Thiago Ventura surgiu logo atrás de seu ombro, carregada de malícia. — O Afonso tá em transe. Tá vendo a luz, Padilha? Ou tá vendo a loira?
— Deixa de ser idiota, Thiago — resmungou Afonso, sentindo as orelhas esquentarem. — Só estava admirando a organização dela. A menina é um gênio.
— Um gênio, né? — Márcio Donato se juntou ao grupo, abrindo uma lata de energético. — Engraçado que você não admirava a "genialidade" do nosso antigo produtor, o Cláudio, que era um senhor de sessenta anos e usava pochete.
— O Cláudio esquecia de pedir a nossa água, Márcio — rebateu Afonso. — A Ana sabe o que a gente quer comer antes mesmo da gente sentir fome.
— Ela sabe o que você quer, Afonso — Dihh Lopes interveio, passando o braço pelo pescoço do amigo. — O problema é que você é lento. A Ana é mestranda em Marketing, cara. Ela sabe vender qualquer coisa. E você tá comprando tudo o que ela posta, até o silêncio dela.
— Vocês viajam demais — Afonso tentou desviar, caminhando em direção ao espelho para ajeitar a camiseta. — Ela é nossa gestora. É profissional.
— É profissional pra ela — Thiago gritou do outro lado da sala. — Pra você, é o motivo de você estar usando perfume caro em dia de show comum. A gente te conhece, "Padi".
A conversa foi interrompida quando Ana entrou novamente no recinto. O silêncio dos quatro foi imediato, o que, para qualquer pessoa normal, seria suspeito. Para Ana, era apenas um sinal de que eles provavelmente tinham quebrado algo.
— Cinco minutos para o sinal — anunciou ela, ignorando o clima estranho. — Thiago, seu microfone está na mesa dois. Márcio, a água sem gás que você pediu está no suporte do palco. Dihh, o roteiro das menções dos patrocinadores está no seu celular. E Afonso...
Ela caminhou até ele e, por um breve momento, o mundo pareceu desacelerar para o humorista. Ana esticou a mão e ajeitou a gola da jaqueta dele, que estava dobrada para dentro. O toque foi rápido, profissional, mas o perfume cítrico dela permaneceu no ar.
— Tente não tropeçar no cabo da câmera da direita hoje. Eu pedi para prenderem com fita, mas você sabe como é o palco desse teatro.
— Pode deixar, chefe — respondeu Afonso, com um sorriso que ele esperava que não parecesse tão bobo quanto ele se sentia.
— Boa sorte, meninos. Quebrem a perna.
Assim que ela saiu, os três amigos explodiram em risadinhas abafadas.
— "Pode deixar, chefe" — Dihh imitou a voz de Afonso, afinando o tom. — Só faltou bater continência e pedir um beijo de boa viagem.
— Vai se ferrar, Dihh! — Afonso riu, embora o nervosismo no estômago não fosse apenas por causa do show.
A turnê seguiu para o aeroporto na manhã seguinte. O voo para Belo Horizonte era cedo, e o grupo estava naquele estado de letargia típico de comediantes que dormem tarde. No saguão de embarque, enquanto os quatro tentavam se manter despertos com café ruim, Ana era um borrão de atividade. Ela carregava as passagens, conferia os documentos de identidade e garantia que o excesso de bagagem dos equipamentos não se tornasse um problema burocrático.
— Eu não sei como ela consegue — comentou Márcio, observando Ana discutir calmamente com uma funcionária da companhia aérea que parecia prestes a ter um colapso nervoso. — Ela é pequena, mas parece que tem dois metros de altura quando começa a falar de logística.
— É o que eu digo — Thiago cutucou Afonso, que estava distraído olhando para Ana. — Ela é muita areia pro caminhãozinho de Curitiba.
— O meu caminhão é turbo, tá? — Afonso brincou, mas havia uma ponta de insegurança em sua voz.
Ana voltou em direção a eles, guardando os passaportes em uma pasta organizada por cores.
— Tivemos um pequeno problema com a reserva do hotel em BH, mas já resolvi. Mudei a gente para um mais perto do teatro, e consegui um upgrade para as suítes porque a atendente era fã do canal.
— Você é um anjo, Ana! — Dihh comemorou.
— Sou apenas uma administradora que odeia perder tempo — respondeu ela, sentando-se pela primeira vez naquela manhã, na cadeira ao lado de Afonso.
Ela soltou um suspiro longo e fechou os olhos por um segundo. Afonso a observou de soslaio. Sem a armadura da correria, ela parecia cansada.
— Quer um pouco de café? — Afonso ofereceu, estendendo seu copo térmico. — Tá quente e, milagrosamente, não está horrível.
Ana abriu um dos olhos, observando-o.
— Você não tem medo de pegar meus germes, Padilha?
— Eu sou de Curitiba, Ana. A gente cresceu tomando água de poço e comendo pinhão com a mão suja. Meu sistema imunológico é de ferro.
Ela riu — uma risada curta, mas genuína — e aceitou o gole.
— Obrigada. De verdade.
— Você faz muito por nós — disse Afonso, baixando o tom de voz para que os outros, que estavam ocupados filmando um story idiota, não ouvissem. — Às vezes eu esqueço que você também precisa de um descanso. Se quiser, eu posso carregar essa pasta de documentos.
Ana olhou para a pasta e depois para ele, com um brilho divertido nos olhos.
— Afonso, você perdeu sua própria carteira três vezes nos últimos dois meses. Se eu te entregar essa pasta, a gente acaba em outro país sem querer.
— Justo — ele admitiu, rindo. — Mas a intenção foi boa.
— Foi — ela admitiu, e por um instante, o contato visual durou um segundo a mais do que o necessário entre colegas de trabalho. — A intenção foi ótima.
A viagem para Belo Horizonte foi marcada por mais provocações. No hotel, os meninos decidiram que a "estratégia de aproximação" precisava ser intensificada. Durante o jantar em uma churrascaria, Thiago e Dihh sentaram-se estrategicamente, deixando o único lugar vago ao lado de Afonso para Ana.
— Ana, conta pra gente — começou Márcio, enquanto servia o rodízio. — Qual é o seu tipo de homem? Porque a gente sabe que você é inteligente demais, deve ter um padrão alto.
Afonso quase engasgou com o pedaço de picanha.
— Márcio, que pergunta é essa? — reclamou ele.
— Ué, curiosidade de equipe — Dihh deu de ombros. — Estamos convivendo muito. Precisamos saber se o Afonso tem alguma chance ou se ele deve continuar sofrendo em silêncio.
O silêncio na mesa foi mortal. Afonso queria se enfiar debaixo da toalha branca. Ana, porém, apenas continuou cortando seu filé com a precisão de um cirurgião.
— Eu gosto de pessoas que me surpreendam — disse ela, calmamente. — E de preferência, alguém que saiba a diferença entre "a gente" e "agente".
— Ih, Afonso, você já perdeu no português — Thiago zombou.
— E — Ana continuou, olhando para Afonso com um sorriso enigmático — eu gosto de quem consegue me fazer rir quando eu estou estressada. E o Afonso é muito bom nisso.
Desta vez, foi Afonso quem ficou sem palavras, enquanto os outros três começaram a fazer barulhos de "uoooou" e a bater palmas no meio do restaurante, atraindo a atenção de todos os clientes.
— Vocês são uns idiotas — Afonso resmungou, mas não conseguiu esconder o sorriso que se formou em seu rosto.
Naquela noite, após o show em BH, o grupo estava exausto. A apresentação tinha sido um sucesso, com ingressos esgotados e uma plateia efervescente. Ana estava no backstage, conferindo os borderôs de venda de merchandising, quando Afonso apareceu. Ele não estava com os outros.
— Eles foram para o bar do hotel — explicou ele, encostando-se na parede ao lado da mesa de som. — Eu disse que estava cansado.
— E você está? — perguntou ela, sem tirar os olhos dos números.
— Um pouco. Mas eu queria ver se você precisava de ajuda para fechar as coisas aqui.
Ana parou o que estava fazendo e olhou para ele. O teatro estava quase vazio, apenas com a equipe de limpeza ao fundo. A luz baixa dava ao ambiente uma atmosfera íntima.
— Afonso, por que você está sendo tão legal comigo hoje? Além do normal, eu digo.
Ele suspirou, caminhando um pouco mais para perto.
— Porque eu percebi que a gente te trata como se você fosse um robô que faz tudo dar certo. E você não é. Você é... você é incrível, Ana. E eu gosto de ver você trabalhar, mas gosto mais ainda quando você para de trabalhar e sorri.
Ana sentiu o rosto esquentar. Ela, que sempre tinha uma resposta pronta para cada problema de logística, sentiu as palavras fugirem.
— É o meu trabalho, Afonso. Eu gosto que tudo saia perfeito.
— Eu sei. Mas a perfeição cansa — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Às vezes, o improviso é melhor. É o que eu faço da vida, lembra?
— O improviso tem riscos — ela murmurou, a voz um pouco mais baixa.
— Mas os riscos valem a pena se a piada for boa — ele brincou, mas seus olhos estavam sérios. — Ou se a pessoa valer a pena.
Ana olhou para ele, vendo além do comediante espontâneo. Havia uma sinceridade ali que ela raramente via nos palcos. Ela fechou o laptop, um gesto simbólico de que a "Ana administradora" estava dando lugar a apenas Ana.
— Você está tentando me contratar para um projeto novo, Padilha?
— Não — ele sorriu, aproximando-se o suficiente para que ela pudesse sentir o calor dele. — Estou tentando ver se a gerente de marketing aceita um convite para um café amanhã cedo. Sem planilhas. Sem os outros três idiotas. Só a gente.
Ana sorriu, e desta vez não foi um sorriso de eficiência. Foi um sorriso leve, doce.
— "A gente", separado? — ela brincou, referindo-se à sua exigência gramatical de mais cedo.
— Com certeza. E bem juntos, se você permitir.
Antes que ela pudesse responder, um grito ecoou do corredor.
— EU SABIA! — Thiago Ventura surgiu correndo, com o celular na mão, sendo seguido por Dihh e Márcio. — EU FILMEI! O AFONSO TÁ TENTANDO SER ROMÂNTICO!
— MEU DEUS, ELE TÁ VERMELHO! — gritou Márcio, rindo alto.
Ana soltou uma gargalhada, balançando a cabeça, enquanto Afonso cobria o rosto com as mãos, frustrado e rindo ao mesmo tempo.
— Viu o que eu tenho que aguentar? — ele perguntou, apontando para os amigos que agora faziam uma dancinha da vitória ao redor deles.
Ana se aproximou e tocou o braço de Afonso, fazendo-o olhar para ela.
— Eu aceito o café, Afonso. Mas você vai ter que me ajudar a esconder o celular do Thiago antes que ele poste isso.
Afonso brilhou.
— Considere isso a minha primeira tarefa oficial como seu... seja lá o que a gente está começando.
E enquanto os 4 Amigos continuavam sua zona habitual pelos corredores do teatro, Ana percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, ela não queria controlar o que aconteceria a seguir. O caos, quando acompanhado pela pessoa certa, podia ser exatamente o que ela precisava.
Ana, no entanto, não ouvia nada disso. Com o tablet em uma mão e um rádio comunicador na outra, ela conferia pela terceira vez a lista de equipamentos de iluminação. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque impecável, e o blazer azul-marinho conferia a ela uma autoridade que nenhum daqueles quatro homens ousaria questionar.
— Ana, o Wi-Fi do teatro caiu de novo — reclamou Afonso Padilha, aproximando-se dela com o celular na mão. — Como eu vou postar o story da fila?
Ana nem sequer desviou os olhos da tela.
— Já troquei a rede, Afonso. Conecta na "Produção_VIP". A senha é a data do aniversário da sua mãe, porque eu sabia que você não esqueceria.
Afonso parou por um segundo, piscando os olhos castanhos.
— Como você sabe o aniversário da minha mãe?
— Eu li a sua ficha cadastral para o seguro da turnê, os contratos de publicidade e o roteiro do seu solo — respondeu ela, finalmente olhando para ele com um sorriso de canto, rápido e eficiente. — Mais alguma coisa ou posso voltar a salvar a vida de vocês?
Afonso ficou ali, parado, observando-a se afastar para falar com o técnico de som. Havia algo na forma como Ana resolvia problemas — sem drama, com uma competência quase assustadora — que o deixava hipnotizado. Não era apenas a beleza discreta ou o jeito elegante; era a inteligência.
— Ih, olha lá — a voz de Thiago Ventura surgiu logo atrás de seu ombro, carregada de malícia. — O Afonso tá em transe. Tá vendo a luz, Padilha? Ou tá vendo a loira?
— Deixa de ser idiota, Thiago — resmungou Afonso, sentindo as orelhas esquentarem. — Só estava admirando a organização dela. A menina é um gênio.
— Um gênio, né? — Márcio Donato se juntou ao grupo, abrindo uma lata de energético. — Engraçado que você não admirava a "genialidade" do nosso antigo produtor, o Cláudio, que era um senhor de sessenta anos e usava pochete.
— O Cláudio esquecia de pedir a nossa água, Márcio — rebateu Afonso. — A Ana sabe o que a gente quer comer antes mesmo da gente sentir fome.
— Ela sabe o que você quer, Afonso — Dihh Lopes interveio, passando o braço pelo pescoço do amigo. — O problema é que você é lento. A Ana é mestranda em Marketing, cara. Ela sabe vender qualquer coisa. E você tá comprando tudo o que ela posta, até o silêncio dela.
— Vocês viajam demais — Afonso tentou desviar, caminhando em direção ao espelho para ajeitar a camiseta. — Ela é nossa gestora. É profissional.
— É profissional pra ela — Thiago gritou do outro lado da sala. — Pra você, é o motivo de você estar usando perfume caro em dia de show comum. A gente te conhece, "Padi".
A conversa foi interrompida quando Ana entrou novamente no recinto. O silêncio dos quatro foi imediato, o que, para qualquer pessoa normal, seria suspeito. Para Ana, era apenas um sinal de que eles provavelmente tinham quebrado algo.
— Cinco minutos para o sinal — anunciou ela, ignorando o clima estranho. — Thiago, seu microfone está na mesa dois. Márcio, a água sem gás que você pediu está no suporte do palco. Dihh, o roteiro das menções dos patrocinadores está no seu celular. E Afonso...
Ela caminhou até ele e, por um breve momento, o mundo pareceu desacelerar para o humorista. Ana esticou a mão e ajeitou a gola da jaqueta dele, que estava dobrada para dentro. O toque foi rápido, profissional, mas o perfume cítrico dela permaneceu no ar.
— Tente não tropeçar no cabo da câmera da direita hoje. Eu pedi para prenderem com fita, mas você sabe como é o palco desse teatro.
— Pode deixar, chefe — respondeu Afonso, com um sorriso que ele esperava que não parecesse tão bobo quanto ele se sentia.
— Boa sorte, meninos. Quebrem a perna.
Assim que ela saiu, os três amigos explodiram em risadinhas abafadas.
— "Pode deixar, chefe" — Dihh imitou a voz de Afonso, afinando o tom. — Só faltou bater continência e pedir um beijo de boa viagem.
— Vai se ferrar, Dihh! — Afonso riu, embora o nervosismo no estômago não fosse apenas por causa do show.
A turnê seguiu para o aeroporto na manhã seguinte. O voo para Belo Horizonte era cedo, e o grupo estava naquele estado de letargia típico de comediantes que dormem tarde. No saguão de embarque, enquanto os quatro tentavam se manter despertos com café ruim, Ana era um borrão de atividade. Ela carregava as passagens, conferia os documentos de identidade e garantia que o excesso de bagagem dos equipamentos não se tornasse um problema burocrático.
— Eu não sei como ela consegue — comentou Márcio, observando Ana discutir calmamente com uma funcionária da companhia aérea que parecia prestes a ter um colapso nervoso. — Ela é pequena, mas parece que tem dois metros de altura quando começa a falar de logística.
— É o que eu digo — Thiago cutucou Afonso, que estava distraído olhando para Ana. — Ela é muita areia pro caminhãozinho de Curitiba.
— O meu caminhão é turbo, tá? — Afonso brincou, mas havia uma ponta de insegurança em sua voz.
Ana voltou em direção a eles, guardando os passaportes em uma pasta organizada por cores.
— Tivemos um pequeno problema com a reserva do hotel em BH, mas já resolvi. Mudei a gente para um mais perto do teatro, e consegui um upgrade para as suítes porque a atendente era fã do canal.
— Você é um anjo, Ana! — Dihh comemorou.
— Sou apenas uma administradora que odeia perder tempo — respondeu ela, sentando-se pela primeira vez naquela manhã, na cadeira ao lado de Afonso.
Ela soltou um suspiro longo e fechou os olhos por um segundo. Afonso a observou de soslaio. Sem a armadura da correria, ela parecia cansada.
— Quer um pouco de café? — Afonso ofereceu, estendendo seu copo térmico. — Tá quente e, milagrosamente, não está horrível.
Ana abriu um dos olhos, observando-o.
— Você não tem medo de pegar meus germes, Padilha?
— Eu sou de Curitiba, Ana. A gente cresceu tomando água de poço e comendo pinhão com a mão suja. Meu sistema imunológico é de ferro.
Ela riu — uma risada curta, mas genuína — e aceitou o gole.
— Obrigada. De verdade.
— Você faz muito por nós — disse Afonso, baixando o tom de voz para que os outros, que estavam ocupados filmando um story idiota, não ouvissem. — Às vezes eu esqueço que você também precisa de um descanso. Se quiser, eu posso carregar essa pasta de documentos.
Ana olhou para a pasta e depois para ele, com um brilho divertido nos olhos.
— Afonso, você perdeu sua própria carteira três vezes nos últimos dois meses. Se eu te entregar essa pasta, a gente acaba em outro país sem querer.
— Justo — ele admitiu, rindo. — Mas a intenção foi boa.
— Foi — ela admitiu, e por um instante, o contato visual durou um segundo a mais do que o necessário entre colegas de trabalho. — A intenção foi ótima.
A viagem para Belo Horizonte foi marcada por mais provocações. No hotel, os meninos decidiram que a "estratégia de aproximação" precisava ser intensificada. Durante o jantar em uma churrascaria, Thiago e Dihh sentaram-se estrategicamente, deixando o único lugar vago ao lado de Afonso para Ana.
— Ana, conta pra gente — começou Márcio, enquanto servia o rodízio. — Qual é o seu tipo de homem? Porque a gente sabe que você é inteligente demais, deve ter um padrão alto.
Afonso quase engasgou com o pedaço de picanha.
— Márcio, que pergunta é essa? — reclamou ele.
— Ué, curiosidade de equipe — Dihh deu de ombros. — Estamos convivendo muito. Precisamos saber se o Afonso tem alguma chance ou se ele deve continuar sofrendo em silêncio.
O silêncio na mesa foi mortal. Afonso queria se enfiar debaixo da toalha branca. Ana, porém, apenas continuou cortando seu filé com a precisão de um cirurgião.
— Eu gosto de pessoas que me surpreendam — disse ela, calmamente. — E de preferência, alguém que saiba a diferença entre "a gente" e "agente".
— Ih, Afonso, você já perdeu no português — Thiago zombou.
— E — Ana continuou, olhando para Afonso com um sorriso enigmático — eu gosto de quem consegue me fazer rir quando eu estou estressada. E o Afonso é muito bom nisso.
Desta vez, foi Afonso quem ficou sem palavras, enquanto os outros três começaram a fazer barulhos de "uoooou" e a bater palmas no meio do restaurante, atraindo a atenção de todos os clientes.
— Vocês são uns idiotas — Afonso resmungou, mas não conseguiu esconder o sorriso que se formou em seu rosto.
Naquela noite, após o show em BH, o grupo estava exausto. A apresentação tinha sido um sucesso, com ingressos esgotados e uma plateia efervescente. Ana estava no backstage, conferindo os borderôs de venda de merchandising, quando Afonso apareceu. Ele não estava com os outros.
— Eles foram para o bar do hotel — explicou ele, encostando-se na parede ao lado da mesa de som. — Eu disse que estava cansado.
— E você está? — perguntou ela, sem tirar os olhos dos números.
— Um pouco. Mas eu queria ver se você precisava de ajuda para fechar as coisas aqui.
Ana parou o que estava fazendo e olhou para ele. O teatro estava quase vazio, apenas com a equipe de limpeza ao fundo. A luz baixa dava ao ambiente uma atmosfera íntima.
— Afonso, por que você está sendo tão legal comigo hoje? Além do normal, eu digo.
Ele suspirou, caminhando um pouco mais para perto.
— Porque eu percebi que a gente te trata como se você fosse um robô que faz tudo dar certo. E você não é. Você é... você é incrível, Ana. E eu gosto de ver você trabalhar, mas gosto mais ainda quando você para de trabalhar e sorri.
Ana sentiu o rosto esquentar. Ela, que sempre tinha uma resposta pronta para cada problema de logística, sentiu as palavras fugirem.
— É o meu trabalho, Afonso. Eu gosto que tudo saia perfeito.
— Eu sei. Mas a perfeição cansa — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Às vezes, o improviso é melhor. É o que eu faço da vida, lembra?
— O improviso tem riscos — ela murmurou, a voz um pouco mais baixa.
— Mas os riscos valem a pena se a piada for boa — ele brincou, mas seus olhos estavam sérios. — Ou se a pessoa valer a pena.
Ana olhou para ele, vendo além do comediante espontâneo. Havia uma sinceridade ali que ela raramente via nos palcos. Ela fechou o laptop, um gesto simbólico de que a "Ana administradora" estava dando lugar a apenas Ana.
— Você está tentando me contratar para um projeto novo, Padilha?
— Não — ele sorriu, aproximando-se o suficiente para que ela pudesse sentir o calor dele. — Estou tentando ver se a gerente de marketing aceita um convite para um café amanhã cedo. Sem planilhas. Sem os outros três idiotas. Só a gente.
Ana sorriu, e desta vez não foi um sorriso de eficiência. Foi um sorriso leve, doce.
— "A gente", separado? — ela brincou, referindo-se à sua exigência gramatical de mais cedo.
— Com certeza. E bem juntos, se você permitir.
Antes que ela pudesse responder, um grito ecoou do corredor.
— EU SABIA! — Thiago Ventura surgiu correndo, com o celular na mão, sendo seguido por Dihh e Márcio. — EU FILMEI! O AFONSO TÁ TENTANDO SER ROMÂNTICO!
— MEU DEUS, ELE TÁ VERMELHO! — gritou Márcio, rindo alto.
Ana soltou uma gargalhada, balançando a cabeça, enquanto Afonso cobria o rosto com as mãos, frustrado e rindo ao mesmo tempo.
— Viu o que eu tenho que aguentar? — ele perguntou, apontando para os amigos que agora faziam uma dancinha da vitória ao redor deles.
Ana se aproximou e tocou o braço de Afonso, fazendo-o olhar para ela.
— Eu aceito o café, Afonso. Mas você vai ter que me ajudar a esconder o celular do Thiago antes que ele poste isso.
Afonso brilhou.
— Considere isso a minha primeira tarefa oficial como seu... seja lá o que a gente está começando.
E enquanto os 4 Amigos continuavam sua zona habitual pelos corredores do teatro, Ana percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, ela não queria controlar o que aconteceria a seguir. O caos, quando acompanhado pela pessoa certa, podia ser exatamente o que ela precisava.
