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Fandom: 4 amigos(comédia/romance)
Criado: 07/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemCenário CanônicoCiúmesRealismoFofuraHumor
Entrelinhas e Bastidores
O camarim do teatro em Fortaleza fervilhava com a energia caótica que antecedia qualquer show dos 4 Amigos. O ar-condicionado lutava contra o mormaço cearense, enquanto o som abafado da plateia se acomodando nas poltronas servia como trilha sonora para a rotina de sempre. Thiago Ventura testava o microfone, Márcio Donato reclamava de um detalhe qualquer no roteiro e Dihh Lopes observava tudo com seu habitual olhar analítico, sentado em um sofá de couro desgastado.
No centro daquele furacão, Ana movia-se com a precisão de um relógio suíço. Com um tablet em uma das mãos e a agenda de couro na outra, ela conferia os últimos detalhes da iluminação com o técnico através do rádio. Seu rosto não traía cansaço, embora estivesse de pé desde as seis da manhã.
— O suco de maracujá está na geladeira, Thiago. Sem açúcar, como você pediu — disse ela, sem tirar os olhos da tela. — Márcio, a produção já confirmou o jantar depois do show. E Dihh, o transfer de amanhã foi antecipado em meia hora por causa do trânsito.
— Você é um anjo, Ana. Se eu casasse com você, minha vida seria organizada, mas eu provavelmente morreria de medo de levar uma bronca por deixar a toalha molhada na cama — brincou Thiago, pegando o copo de suco.
Ana deu um sorriso de canto, aquele tipo de sorriso que raramente chegava aos olhos, mas que era sua marca registrada de sarcasmo.
— Você não aguentaria uma semana de organização, Thiago. Agora, por favor, não derrube esse suco na camiseta branca antes de subir no palco.
Enquanto falava, ela sentiu um olhar sobre si. Não precisava se virar para saber quem era. Afonso Padilha estava encostado no batente da porta, observando-a com uma intensidade que a fazia apertar a caneta entre os dedos, um gesto quase imperceptível para quem não a conhecesse bem.
— Tudo pronto, “chefa”? — perguntou Afonso, a voz carregada daquele sotaque paranaense que Ana, secretamente, achava reconfortante.
— Tudo sob controle, Afonso. Só falta você terminar de se arrumar. O sinal de cinco minutos já vai tocar — respondeu ela, mantendo a voz firme, embora estivesse, naquele exato momento, soltando e prendendo o elástico do cabelo pela terceira vez em dois minutos.
Afonso deu dois passos em direção a ela. Ele carregava uma garrafa de água e um sorriso que parecia destinado apenas a ela.
— Você parece tensa. Aconteceu alguma coisa com a logística? — Ele baixou o tom de voz, ignorando os outros três que, subitamente, ficaram em silêncio absoluto para prestar atenção.
— Nada que eu não tenha resolvido — ela respondeu, voltando a focar no tablet para evitar o contato visual. — Só quero que o show de hoje seja perfeito. Estamos em casa, afinal.
— É, ela quer impressionar a terra natal — provocou Márcio, trocando um olhar cúmplice com Dihh.
— Ou será que ela quer impressionar alguém específico que está no palco hoje? — Thiago soltou a bomba, rindo alto enquanto se esquivava de uma possível canetada de Ana.
Afonso sentiu o rosto esquentar, mas tentou manter o carisma.
— Deixem a menina trabalhar, seus desocupados. Ela é a única que faz esse grupo não falir.
— Ih, olha lá! O Afonso virou o advogado de defesa — Dihh comentou, com um sorriso de satisfação. — Daqui a pouco ele vai querer carregar a agenda dela para ela não cansar o braço.
Ana sentiu aquela velha pontada de insegurança cutucar o fundo da sua mente. O comentário de Dihh era inofensivo, mas sua mente, treinada pelo trauma do passado, rapidamente transformou o momento em um alerta. "Não se envolva. É só trabalho. Ele fala assim com todo mundo", ela repetia para si mesma, como um mantra de proteção. As críticas do ex-noivo sobre seu corpo e sua personalidade ainda ecoavam nos dias de silêncio, e ela não estava pronta para deixar ninguém, especialmente alguém tão público e cobiçado como Afonso, chegar perto o suficiente para machucá-la de novo.
— Podem parar com a palhaçada — Ana interrompeu, a voz agora um tom mais fria, recuperando sua armadura profissional. — O show começa em três minutos. Afonso, seu microfone está na mesa lateral. Vamos, circulando.
Ela se afastou rapidamente, indo em direção à mesa de som. Afonso ficou parado por um segundo, observando-a ir. Ele percebeu a mudança súbita de temperatura na voz dela. Ele sempre percebia.
— Mandou mal, Thiago — Afonso resmungou, pegando seu microfone.
— Eu? Você que está com cara de quem perdeu o brinquedo favorito só porque ela não te deu um beijinho de boa sorte — Thiago rebateu, mas sem o tom de piada de antes. Ele também tinha notado que Ana tinha se fechado.
O show foi um sucesso estrondoso. A plateia cearense recebeu os quatro com uma energia contagiante. Dos bastidores, Ana assistia a tudo por um monitor lateral. Sua atenção, no entanto, oscilava. Ela admirava o talento de todos, mas seus olhos sempre demoravam um pouco mais quando Afonso estava no centro do palco. Ele tinha uma facilidade em fazer as pessoas se sentirem próximas a ele, uma luz que ela sentia que jamais poderia ter.
Após o término, o clima de euforia tomou conta do camarim novamente. Amigos, familiares e alguns convidados circulavam pelo espaço. Ana, exausta mas satisfeita, retirou-se para um canto mais calmo, perto da saída de emergência, onde o barulho era menor. Ela abriu sua bolsa e tirou uma pequena garrafa térmica. Não continha café — ela detestava o amargor —, mas sim um pouco de whisky de baunilha, um prazer raro que se permitia apenas após grandes produções para acalmar os nervos.
— Bebendo escondida, Ana? Que exemplo é esse para os seus subordinados? — A voz de Afonso surgiu ao seu lado.
Ela deu um pequeno pulo, quase derrubando o líquido.
— Que susto, Afonso! E eu não tenho subordinados, tenho quatro crianças grandes que eu preciso pastorear.
Ele riu, encostando-se na parede ao lado dela. O suor do show ainda brilhava em sua testa, e ele parecia mais relaxado do que nunca.
— Você foi incrível hoje. A organização estava impecável. O som, as luzes... tudo. Obrigado.
Ana sentiu o coração acelerar. Ela odiava como um simples elogio dele tinha o poder de desarmá-la.
— É o meu trabalho, Afonso.
— Não, não é só o seu trabalho. Você coloca alma nisso. Eu percebo — ele disse, diminuindo o espaço entre eles. — E eu percebo também quando você se esconde atrás dessa agenda sempre que eu tento falar algo que não seja sobre o roteiro.
Ana apertou o copo plástico com força.
— Eu não me escondo. Eu sou profissional. Existe uma diferença.
— Existe. Mas também existe uma diferença entre ser profissional e tratar um amigo como se ele fosse um estranho — Afonso rebateu, com uma suavidade que a pegou de surpresa. — Eu fiz alguma coisa que te deixou desconfortável? Se foram as piadas do Thiago e do Márcio...
— Não é isso — ela o interrompeu, a voz vacilando pela primeira vez na noite. — É só que... eu prefiro manter as coisas simples, Afonso. A vida é mais fácil quando a gente sabe onde cada peça se encaixa. E no meu mundo, eu sou a pessoa que resolve os problemas, não a que cria novos.
Afonso a observou em silêncio por alguns segundos. Ele via a barreira que ela tinha erguido, uma muralha alta e sólida, mas ele também via as rachaduras. Ele via a mulher que amava suco de maracujá, que se dedicava ao mestrado nas horas vagas e que tinha um senso de humor que o deixava fascinado.
— Você não é um problema, Ana. E nunca seria um — ele disse, com sinceridade.
Antes que ela pudesse responder, a porta do camarim se abriu e Márcio Donato apareceu, com uma fatia de pizza na mão.
— Ah, desculpa! Interrompi o momento "Desejo Proibido" no Ceará? — Márcio gritou, rindo. — Afonso, o Dihh está te chamando para a foto com os patrocinadores. E Ana, o Thiago quer saber se pode pedir mais uma rodada de caipirinha na conta da produção.
Ana respirou fundo, grata pela interrupção, mas ao mesmo tempo sentindo um vazio estranho.
— Diga ao Thiago que a cota dele acabou. E eu já estou indo — ela disse, passando por Afonso sem olhar para trás.
Afonso soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo.
— Ela é difícil, hein, paranaense? — Márcio comentou, aproximando-se do amigo.
— Ela não é difícil, Márcio. Ela é... machucada. Tem uma diferença — Afonso respondeu, olhando para a porta por onde ela havia saído.
— Bom, se serve de consolo, o Dihh apostou cinquenta reais que você não consegue um encontro com ela até o final da turnê. E eu apostei cem que você consegue, mas vai ser ela quem vai ter que te pedir em namoro, porque você vira um pateta perto dela.
Afonso deu um empurrão de leve no ombro de Márcio.
— Vai comer sua pizza, vai.
Enquanto isso, no corredor, Ana parou por um instante e encostou a testa na parede fria. Seu coração batia forte. Ela sabia que Afonso estava sendo sincero, e era exatamente isso que a assustava. O medo de ser criticada novamente, de não ser "o suficiente" para alguém tão vibrante como ele, lutava contra a vontade de simplesmente deixar a agenda de lado e ver onde aquilo daria.
Ela pegou o celular e abriu o cronograma do dia seguinte. Marketing, logística, passagens aéreas. Eram coisas seguras. Coisas que ela podia controlar.
— Só mais três shows nesta etapa — ela sussurrou para si mesma. — Mantenha o foco, Ana. Só mais três shows.
Mas, ao fundo, ela ouviu a risada de Afonso vinda do camarim, e soube, com uma clareza assustadora, que nenhuma estratégia de marketing ou plano administrativo seria capaz de organizar o que ela estava começando a sentir.
A turnê continuaria, e os 4 Amigos continuariam a brilhar no palco. Mas, para Ana e Afonso, o verdadeiro esetáculo estava acontecendo no silêncio dos bastidores, nas entrelinhas de conversas inacabadas e nos olhares que diziam muito mais do que qualquer piada poderia esconder. E, querendo ela ou não, os três amigos de São Paulo não iam descansar até que aquele roteiro tivesse o final que todos — inclusive Ana, embora não admitisse — tanto esperavam.
No centro daquele furacão, Ana movia-se com a precisão de um relógio suíço. Com um tablet em uma das mãos e a agenda de couro na outra, ela conferia os últimos detalhes da iluminação com o técnico através do rádio. Seu rosto não traía cansaço, embora estivesse de pé desde as seis da manhã.
— O suco de maracujá está na geladeira, Thiago. Sem açúcar, como você pediu — disse ela, sem tirar os olhos da tela. — Márcio, a produção já confirmou o jantar depois do show. E Dihh, o transfer de amanhã foi antecipado em meia hora por causa do trânsito.
— Você é um anjo, Ana. Se eu casasse com você, minha vida seria organizada, mas eu provavelmente morreria de medo de levar uma bronca por deixar a toalha molhada na cama — brincou Thiago, pegando o copo de suco.
Ana deu um sorriso de canto, aquele tipo de sorriso que raramente chegava aos olhos, mas que era sua marca registrada de sarcasmo.
— Você não aguentaria uma semana de organização, Thiago. Agora, por favor, não derrube esse suco na camiseta branca antes de subir no palco.
Enquanto falava, ela sentiu um olhar sobre si. Não precisava se virar para saber quem era. Afonso Padilha estava encostado no batente da porta, observando-a com uma intensidade que a fazia apertar a caneta entre os dedos, um gesto quase imperceptível para quem não a conhecesse bem.
— Tudo pronto, “chefa”? — perguntou Afonso, a voz carregada daquele sotaque paranaense que Ana, secretamente, achava reconfortante.
— Tudo sob controle, Afonso. Só falta você terminar de se arrumar. O sinal de cinco minutos já vai tocar — respondeu ela, mantendo a voz firme, embora estivesse, naquele exato momento, soltando e prendendo o elástico do cabelo pela terceira vez em dois minutos.
Afonso deu dois passos em direção a ela. Ele carregava uma garrafa de água e um sorriso que parecia destinado apenas a ela.
— Você parece tensa. Aconteceu alguma coisa com a logística? — Ele baixou o tom de voz, ignorando os outros três que, subitamente, ficaram em silêncio absoluto para prestar atenção.
— Nada que eu não tenha resolvido — ela respondeu, voltando a focar no tablet para evitar o contato visual. — Só quero que o show de hoje seja perfeito. Estamos em casa, afinal.
— É, ela quer impressionar a terra natal — provocou Márcio, trocando um olhar cúmplice com Dihh.
— Ou será que ela quer impressionar alguém específico que está no palco hoje? — Thiago soltou a bomba, rindo alto enquanto se esquivava de uma possível canetada de Ana.
Afonso sentiu o rosto esquentar, mas tentou manter o carisma.
— Deixem a menina trabalhar, seus desocupados. Ela é a única que faz esse grupo não falir.
— Ih, olha lá! O Afonso virou o advogado de defesa — Dihh comentou, com um sorriso de satisfação. — Daqui a pouco ele vai querer carregar a agenda dela para ela não cansar o braço.
Ana sentiu aquela velha pontada de insegurança cutucar o fundo da sua mente. O comentário de Dihh era inofensivo, mas sua mente, treinada pelo trauma do passado, rapidamente transformou o momento em um alerta. "Não se envolva. É só trabalho. Ele fala assim com todo mundo", ela repetia para si mesma, como um mantra de proteção. As críticas do ex-noivo sobre seu corpo e sua personalidade ainda ecoavam nos dias de silêncio, e ela não estava pronta para deixar ninguém, especialmente alguém tão público e cobiçado como Afonso, chegar perto o suficiente para machucá-la de novo.
— Podem parar com a palhaçada — Ana interrompeu, a voz agora um tom mais fria, recuperando sua armadura profissional. — O show começa em três minutos. Afonso, seu microfone está na mesa lateral. Vamos, circulando.
Ela se afastou rapidamente, indo em direção à mesa de som. Afonso ficou parado por um segundo, observando-a ir. Ele percebeu a mudança súbita de temperatura na voz dela. Ele sempre percebia.
— Mandou mal, Thiago — Afonso resmungou, pegando seu microfone.
— Eu? Você que está com cara de quem perdeu o brinquedo favorito só porque ela não te deu um beijinho de boa sorte — Thiago rebateu, mas sem o tom de piada de antes. Ele também tinha notado que Ana tinha se fechado.
O show foi um sucesso estrondoso. A plateia cearense recebeu os quatro com uma energia contagiante. Dos bastidores, Ana assistia a tudo por um monitor lateral. Sua atenção, no entanto, oscilava. Ela admirava o talento de todos, mas seus olhos sempre demoravam um pouco mais quando Afonso estava no centro do palco. Ele tinha uma facilidade em fazer as pessoas se sentirem próximas a ele, uma luz que ela sentia que jamais poderia ter.
Após o término, o clima de euforia tomou conta do camarim novamente. Amigos, familiares e alguns convidados circulavam pelo espaço. Ana, exausta mas satisfeita, retirou-se para um canto mais calmo, perto da saída de emergência, onde o barulho era menor. Ela abriu sua bolsa e tirou uma pequena garrafa térmica. Não continha café — ela detestava o amargor —, mas sim um pouco de whisky de baunilha, um prazer raro que se permitia apenas após grandes produções para acalmar os nervos.
— Bebendo escondida, Ana? Que exemplo é esse para os seus subordinados? — A voz de Afonso surgiu ao seu lado.
Ela deu um pequeno pulo, quase derrubando o líquido.
— Que susto, Afonso! E eu não tenho subordinados, tenho quatro crianças grandes que eu preciso pastorear.
Ele riu, encostando-se na parede ao lado dela. O suor do show ainda brilhava em sua testa, e ele parecia mais relaxado do que nunca.
— Você foi incrível hoje. A organização estava impecável. O som, as luzes... tudo. Obrigado.
Ana sentiu o coração acelerar. Ela odiava como um simples elogio dele tinha o poder de desarmá-la.
— É o meu trabalho, Afonso.
— Não, não é só o seu trabalho. Você coloca alma nisso. Eu percebo — ele disse, diminuindo o espaço entre eles. — E eu percebo também quando você se esconde atrás dessa agenda sempre que eu tento falar algo que não seja sobre o roteiro.
Ana apertou o copo plástico com força.
— Eu não me escondo. Eu sou profissional. Existe uma diferença.
— Existe. Mas também existe uma diferença entre ser profissional e tratar um amigo como se ele fosse um estranho — Afonso rebateu, com uma suavidade que a pegou de surpresa. — Eu fiz alguma coisa que te deixou desconfortável? Se foram as piadas do Thiago e do Márcio...
— Não é isso — ela o interrompeu, a voz vacilando pela primeira vez na noite. — É só que... eu prefiro manter as coisas simples, Afonso. A vida é mais fácil quando a gente sabe onde cada peça se encaixa. E no meu mundo, eu sou a pessoa que resolve os problemas, não a que cria novos.
Afonso a observou em silêncio por alguns segundos. Ele via a barreira que ela tinha erguido, uma muralha alta e sólida, mas ele também via as rachaduras. Ele via a mulher que amava suco de maracujá, que se dedicava ao mestrado nas horas vagas e que tinha um senso de humor que o deixava fascinado.
— Você não é um problema, Ana. E nunca seria um — ele disse, com sinceridade.
Antes que ela pudesse responder, a porta do camarim se abriu e Márcio Donato apareceu, com uma fatia de pizza na mão.
— Ah, desculpa! Interrompi o momento "Desejo Proibido" no Ceará? — Márcio gritou, rindo. — Afonso, o Dihh está te chamando para a foto com os patrocinadores. E Ana, o Thiago quer saber se pode pedir mais uma rodada de caipirinha na conta da produção.
Ana respirou fundo, grata pela interrupção, mas ao mesmo tempo sentindo um vazio estranho.
— Diga ao Thiago que a cota dele acabou. E eu já estou indo — ela disse, passando por Afonso sem olhar para trás.
Afonso soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo.
— Ela é difícil, hein, paranaense? — Márcio comentou, aproximando-se do amigo.
— Ela não é difícil, Márcio. Ela é... machucada. Tem uma diferença — Afonso respondeu, olhando para a porta por onde ela havia saído.
— Bom, se serve de consolo, o Dihh apostou cinquenta reais que você não consegue um encontro com ela até o final da turnê. E eu apostei cem que você consegue, mas vai ser ela quem vai ter que te pedir em namoro, porque você vira um pateta perto dela.
Afonso deu um empurrão de leve no ombro de Márcio.
— Vai comer sua pizza, vai.
Enquanto isso, no corredor, Ana parou por um instante e encostou a testa na parede fria. Seu coração batia forte. Ela sabia que Afonso estava sendo sincero, e era exatamente isso que a assustava. O medo de ser criticada novamente, de não ser "o suficiente" para alguém tão vibrante como ele, lutava contra a vontade de simplesmente deixar a agenda de lado e ver onde aquilo daria.
Ela pegou o celular e abriu o cronograma do dia seguinte. Marketing, logística, passagens aéreas. Eram coisas seguras. Coisas que ela podia controlar.
— Só mais três shows nesta etapa — ela sussurrou para si mesma. — Mantenha o foco, Ana. Só mais três shows.
Mas, ao fundo, ela ouviu a risada de Afonso vinda do camarim, e soube, com uma clareza assustadora, que nenhuma estratégia de marketing ou plano administrativo seria capaz de organizar o que ela estava começando a sentir.
A turnê continuaria, e os 4 Amigos continuariam a brilhar no palco. Mas, para Ana e Afonso, o verdadeiro esetáculo estava acontecendo no silêncio dos bastidores, nas entrelinhas de conversas inacabadas e nos olhares que diziam muito mais do que qualquer piada poderia esconder. E, querendo ela ou não, os três amigos de São Paulo não iam descansar até que aquele roteiro tivesse o final que todos — inclusive Ana, embora não admitisse — tanto esperavam.
