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De risadinha

Fandom: 4 amigos(comédia/romance)

Criado: 07/07/2026

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RomanceDramaFatias de VidaEstudo de PersonagemRealismoUA (Universo Alternativo)Angústia
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Entre Planilhas e Piadas Internas

A iluminação baixa da boate na Vila Madalena contrastava com o brilho nos olhos de Ana. Ela girava o copo de gim tônica lentamente, observando o movimento. No dia seguinte, sua vida mudaria drasticamente. Deixaria de ser a consultora de empresas de Fortaleza para se tornar a mulher que colocaria ordem no caos de um dos maiores grupos de comédia do Brasil. Era sua última noite de "civil", como gostava de pensar.

— Você está com cara de quem está planejando um assalto a banco ou uma tese de doutorado. Qual dos dois?

Ana desviou o olhar para o homem que se aproximava. Ela o reconheceu no mesmo instante. O jeito de andar, o boné aba reta, o sorriso de quem já tem a piada pronta antes mesmo do "boa noite". Thiago Ventura.

— Nenhum dos dois — respondeu ela, com o sotaque cearense levemente suavizado pelos anos de consultoria, mas ainda presente. — Só estou aproveitando o silêncio. Amanhã minha vida vai ficar barulhenta demais.

Thiago encostou no balcão, intrigado. Ele estava acostumado com mulheres que pediam fotos ou que tentavam ser engraçadas para impressioná-lo. Aquela loira, de olhar firme e postura impecável, parecia não dar a mínima para quem ele era. Ou, se sabia, fingia muito bem.

— Barulho é comigo mesmo — Thiago riu, pedindo uma cerveja. — Sou o Thiago.

— Eu sei quem você é — ela disse, com um sorriso enigmático que não chegava a ser um flerte, mas era um desafio. — Eu sou a Ana.

Eles conversaram por quase duas horas. Ana foi estratégica: falou sobre música, sobre a diferença entre a noite de São Paulo e a de Fortaleza, e ouviu as histórias de Thiago sem nunca mencionar que, em menos de doze horas, estaria revisando os contratos dele. Ela gostou da energia dele, mas a barreira que havia construído ao redor de si após o término doloroso de seu noivado ainda estava lá, firme e forte. Quando se despediram, Thiago tentou pedir o número dela.

— A gente se vê por aí, Thiago. São Paulo é um ovo — ela disse, saindo antes que ele pudesse insistir.

***

No quarto de hotel, os outros três "Amigos" estavam espalhados pelos sofás, entre garrafas de água e celulares.

— Perdi o Thiago para a noite paulistana — ironizou Márcio Donato, sem tirar os olhos do celular. — Certeza que está em alguma fila de hot-dog agora.

A porta se abriu e Thiago entrou com um sorriso de orelha a orelha.

— Rapaz, vocês não têm noção — Thiago sentou-se na beira da poltrona. — Conheci uma mulher hoje... diferente. Loira, inteligente, um papo que flui, sabe? Cearense. Mas ela não me deu o número.

— Cearense? — Afonso Padilha levantou o olhar do roteiro que estava revisando. — E não te deu o número? O seu mel está acabando, Guinho.

— Não é isso, Afonso. Ela tinha uma postura... sei lá, parecia que ela estava me analisando. Mas o papo foi dez a zero em qualquer um aqui.

Dihh Lopes soltou uma risada curta.

— Amanhã chega a nossa nova gerente de logística, a tal "general" que a agência contratou. Aproveita sua última noite de paz, porque se ela for metade do que prometeram, você não vai ter tempo nem de lembrar o nome dessa loira.

Afonso voltou para o seu roteiro, mas a descrição de Thiago ficou martelando em sua mente. Ele sempre apreciou pessoas que não se deixavam levar pelo brilho óbvio da fama.

***

Na manhã seguinte, a sala de reuniões da produtora estava carregada. Os quatro humoristas estavam sentados, ainda com cara de sono, esperando a apresentação da nova responsável pelos bastidores.

A porta se abriu e Ana entrou. Ela usava um blazer bem cortado, calça de alfaiataria e carregava um tablet como se fosse uma arma. O cabelo estava preso em um coque baixo, profissional e elegante.

Thiago quase caiu da cadeira.

— Bom dia a todos — disse ela, com uma voz clara e autoritária. — Meu nome é Ana. Sou formada em Administração, com mestrado em Marketing, e a partir de hoje, sou a responsável pela gestão, logística e administração da turnê de vocês. Meu objetivo é fazer com que a única preocupação de vocês seja subir no palco e fazer o público rir. Com o resto, eu lido.

Ela começou a distribuir pastas com o cronograma dos próximos três meses. Quando chegou em Thiago, seus olhos se cruzaram por um segundo. Ana não esboçou um sorriso, não piscou, não deu nenhum sinal de reconhecimento. Foi como se estivesse entregando um relatório para um desconhecido.

— Alguma dúvida inicial? — perguntou ela, parando no centro da sala.

Márcio Donato trocou um olhar com Dihh. Ele já tinha percebido a cara de tacho de Thiago.

— Só uma — disse Márcio, com seu sarcasmo habitual. — Você é sempre assim... organizada, ou é só no primeiro dia para assustar a gente?

— Organização é uma ferramenta, Márcio — Ana respondeu, sem se abalar. — Se eu for desorganizada, vocês perdem voos, o som falha e o cachê atrasa. Vocês preferem que eu seja simpática ou eficiente?

— Eu prefiro os dois, mas a eficiência já ajuda muito — Afonso interveio, observando-a com uma curiosidade renovada.

Ele notou como ela se mantinha ereta, a segurança com que falava e, principalmente, como ela não parecia nem um pouco intimidada por estar em uma sala com quatro dos maiores comediantes do país. Havia algo nela que ia além do profissionalismo; era uma armadura bem construída.

Após a reunião, enquanto os outros saíam para o café, Thiago cercou Ana no corredor.

— Você está de brincadeira comigo, né? — Thiago sussurrou, rindo de nervoso. — Ontem à noite, no bar... por que não disse nada?

Ana parou e olhou para ele, finalmente permitindo que um pequeno sorriso de canto surgisse.

— Porque ontem eu era a Ana. Hoje eu sou a sua gestora. Se eu te contasse ontem, a nossa conversa teria virado uma reunião de trabalho antecipada. E eu precisava de uma última noite de folga.

— Você é perigosa, Ana — Thiago balançou a cabeça. — O Afonso e os meninos vão pirar quando souberem.

— Não precisam saber agora — ela disse, retomando a postura séria. — Vamos manter as coisas profissionais, Thiago. Eu vim aqui para trabalhar.

Ela se afastou em direção à sala de produção. Afonso, que estava encostado na parede do corredor oposto, viu a cena. Ele não ouviu a conversa, mas viu o jeito que Ana se portava. Havia uma seriedade nela que o intrigava. Ele já tinha visto muitas produtoras passarem por ali, algumas deslumbradas, outras estressadas demais. Ana parecia... no controle.

No final da tarde, a equipe estava reunida no camarim de um teatro para um ensaio técnico. Ana circulava com um rádio no cinto e o tablet na mão, dando ordens curtas e precisas para os técnicos de luz.

— O refletor da esquerda está com atraso de dois segundos no blackout — ela disse, sem olhar para cima. — Consertem antes do ensaio começar.

— Ela é boa — Dihh comentou com Afonso, enquanto observavam Ana de longe. — E o Thiago está estranho. Ele não para de olhar para ela com cara de quem viu um fantasma.

— O Thiago disse que a mulher do bar era inteligente e diferente — Afonso comentou, pensativo. — Acho que ele não estava exagerando. Mas ela parece ter um muro de Berlim em volta dela.

— E você adora uma construção histórica, né, Afonso? — provocou Dihh, rindo.

— Não começa, Dihh. Só achei o trabalho dela interessante.

— Sei. O "trabalho".

O ensaio começou e, pela primeira vez, Ana se permitiu parar um pouco para assistir. Ela já tinha visto os vídeos deles, mas ao vivo era diferente. A química entre os quatro era inegável. No entanto, seus olhos acabavam voltando para Afonso. Ele tinha uma forma de observar o mundo que transparecia nas piadas, uma sensibilidade escondida sob o sarcasmo.

Quando o ensaio terminou, Afonso se aproximou da mesa de som, onde ela revisava algumas notas.

— Sobreviveu ao primeiro dia com os malucos? — ele perguntou, com um tom de voz mais baixo e calmo do que o habitual.

Ana levantou o olhar. Perto dele, percebeu que Afonso tinha um olhar atento, quase analítico.

— Eu já trabalhei com diretores de multinacionais em crise, Afonso. Lidar com quatro humoristas é, na verdade, terapêutico em comparação.

Afonso riu. Foi uma risada genuína, que fez os olhos dele apertarem.

— Você é direta. Gosto disso. O Thiago me contou sobre a "loira do bar". Ele só não sabia que a loira era a nossa nova chefe.

Ana fechou o tablet com um estalo seco.

— Eu não sou chefe de ninguém, Afonso. Sou a pessoa que garante que vocês tenham o palco pronto. E sobre o bar... foi um acaso.

— Acasos costumam ser as melhores partes da vida — Afonso disse, dando um passo à frente. — Mas entendo sua reserva. O pessoal aqui pode ser um pouco... intenso.

— Eu sei lidar com intensidade — ela respondeu, e por um breve momento, a sombra de uma lembrança triste passou por seus olhos, algo que Afonso captou imediatamente. — Só não gosto de misturar as coisas. Meu passado me ensinou que profissionalismo é a única garantia que a gente tem.

Afonso sentiu que havia tocado em uma ferida invisível. Ele não era de forçar a barra, mas a curiosidade sobre quem era a mulher por trás daquela armadura de competência só aumentou.

— Bom, se precisar de qualquer coisa que não esteja nas planilhas, tipo onde encontrar o melhor café de São Paulo às três da manhã, pode me perguntar.

— Vou manter isso em mente — ela disse, voltando a focar no tablet. — Boa noite, Afonso.

— Boa noite, Ana.

Ele se afastou, mas antes de sair do palco, olhou para trás. Ana estava novamente mergulhada nos números, isolada em seu próprio mundo de ordem e lógica.

No estacionamento, Márcio e Dihh esperavam por Afonso.

— E aí, o que a "General" disse? — perguntou Márcio. — Já te deu um advertência?

— Pelo contrário — Afonso entrou no carro, sorrindo de lado. — Acho que a turnê deste ano vai ser muito mais interessante do que eu imaginei.

— Ih, lá vem — Dihh comentou, ligando o motor. — O Afonso está com aquela cara de quem achou um tema novo para um solo. Só que o tema usa blazer e tem sotaque cearense.

— Não viaja, Dihh — Afonso olhou pela janela, vendo as luzes da cidade passarem. — Ela é só... organizada.

— Sei — os três disseram em coro, caindo na risada, enquanto Thiago, no banco da frente, ainda tentava processar como a mulher que quase o encantou em uma boate agora era a pessoa que controlava seus horários de almoço.

Ana, ainda no teatro, terminou de enviar o último e-mail do dia. Ela soltou o cabelo, sentindo o peso do cansaço. Olhou para o palco vazio e suspirou. Sabia que Afonso Padilha era perigoso para sua determinação de manter o coração trancado. Ele tinha aquele jeito de quem lê as pessoas, e ela não queria ser lida.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, a ideia de enfrentar um novo desafio não parecia apenas uma obrigação profissional. Parecia, de alguma forma, um recomeço. Mesmo que ela ainda não estivesse pronta para admitir.
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