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Fandom: A Culpa é do Cabral

Criado: 07/07/2026

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RomanceFatias de VidaFofuraCenário CanônicoEstudo de PersonagemHumorHistória Doméstica
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Entre Roteiros e Olhares Perdidos

O estúdio da Comedy Central estava mergulhado no caos controlado que antecedia qualquer gravação de "A Culpa é do Cabral". Cabos serpenteavam pelo chão, iluminadores ajustavam os refletores de LED e a plateia já começava a se acomodar, preenchendo o ambiente com um burburinho de expectativa. No centro de tudo, Ana segurava seu tablet como se fosse um escudo e uma arma.

Com apenas vinte e três anos, ela já havia provado que a idade era apenas um detalhe diante de sua competência. Como produtora executiva, Ana era o eixo em torno do qual o programa girava. Naquela tarde, ela revisava a pauta pela décima vez, garantindo que os tempos de cada bloco estivessem milimetricamente calculados.

— Ana, o pessoal do áudio disse que o microfone do Rodrigo está dando interferência de novo — avisou um assistente, correndo em sua direção.

— Já estou sabendo — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela, a voz calma e firme. — Pedi para trocarem o receptor. O reserva já está no camarim dele. Avise ao Nando que o vídeo de abertura dele foi editado conforme o pedido.

— Você é um anjo, Ana! — o rapaz exclamou, aliviado, antes de sumir entre as câmeras.

Ana suspirou, ajeitando uma mecha de cabelo que teimava em cair sobre o rosto. Ela gostava daquela adrenalina, mas preferia mantê-la sob rédeas curtas. No entanto, havia um elemento no programa que ela ainda não conseguia controlar totalmente: Fabiano Cambota.

Não que ele fosse difícil de lidar. Pelo contrário, Cambota era um profissional exemplar. O problema era a forma como ele parecia gravitar em direção a ela sempre que o cronômetro não estava rodando.

— Ana? Você tem um segundo? — A voz de Cambota surgiu logo atrás dela, carregada daquele tom aveludado e levemente sarcástico que ele usava para desarmar as pessoas.

Ela se virou, mantendo a expressão profissional, embora tenha sentido as mãos levemente frias.

— Pois não, Fabiano. Algum problema com o roteiro do primeiro bloco?

Cambota deu um passo à frente, ignorando o fato de que poderia ter feito aquela pergunta a qualquer outro assistente. Ele parecia subitamente muito interessado na cor da capa do tablet dela.

— Não, não… O roteiro está impecável. Como sempre. É que eu estava pensando… você acha que aquela piada sobre o queijo de Goiás entra melhor antes ou depois da intervenção do Rafael? Eu sinto que o timing pode ficar estranho.

Ana arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso de canto surgindo em seus lábios.

— Fabiano, você faz esse programa há anos. Sabe perfeitamente que o Rafael vai te interromper de qualquer jeito, não importa onde você coloque a piada.

Cambota riu, um som genuíno que fez os olhos dele apertarem nos cantos.

— É, você tem razão. Sabe de tudo mesmo. Eu só queria… confirmar. Segurança em primeiro lugar, entende?

— Entendo — disse ela, voltando a olhar para o tablet para esconder o fato de que estava achando a situação adorável. — Mais alguma coisa?

— Na verdade — ele começou, coçando a nuca —, eu vi que trouxeram um café novo para a copa. Um tal de grão especial que você sugeriu. Você já provou?

— Ainda não tive tempo.

— Pois eu acho que a produtora executiva deveria ser a primeira a validar a qualidade dos insumos — ele brincou, fazendo um gesto galante em direção ao corredor dos camarins. — Não aceito um "não" como resposta em nome da eficiência do programa.

Ana hesitou. Ela tinha uma lista de dezessete coisas para verificar antes do "gravando", mas o olhar de Cambota era persistente e, de certa forma, reconfortante em meio ao estresse.

— Cinco minutos, Fabiano. Só cinco minutos.

Enquanto caminhavam para a pequena copa reservada ao elenco, não perceberam que quatro pares de olhos os seguiam do outro lado do palco.

— Lá vai o capitão de novo — sussurrou Thiago Ventura, fingindo ajustar o boné. — Ele nem disfarça mais. "Ai, o queijo de Goiás… ai, o café".

— O Cambota está em estado crítico — completou Nando Viana, rindo baixo. — Ele esquece até o próprio nome quando a Ana olha para ele com aquela cara de "eu sou organizada e você é um caos".

— A gente precisa ajudar o nosso menino — Rodrigo Marques interveio, com seu habitual tom de malícia. — Ou pelo menos atrapalhar o suficiente para eles ficarem sem graça.

— Deixa comigo — disse Rafael Portugal, já planejando a próxima entrada no palco. — Hoje o roteiro vai ser por minha conta.

Na copa, o ambiente era mais silencioso. Cambota serviu o café para Ana com uma delicadeza que não passava despercebida.

— Então, Ana — ele começou, encostando-se no balcão —, como está sendo o mestrado? Sobrou algum neurônio depois da reunião de pauta de ontem?

— Sobrevivi — ela respondeu, soprando a fumaça da xícara. — O marketing e a produção de TV têm mais em comum do que as pessoas pensam. Ambos lidam com a expectativa do público e a gestão de crises.

— E você é mestre em gerir crises — ele observou, o tom agora um pouco mais sério e admirado. — Eu nunca vi ninguém manter a calma como você quando o gerador pifou na semana passada. Todo mundo correndo como barata tonta e você lá, no telefone, resolvendo tudo em três minutos.

Ana sentiu o rosto esquentar e deu um gole rápido no café.

— É o meu trabalho, Fabiano. Se eu surtar, o resto da equipe desmorona.

— É mais do que trabalho, é talento — ele insistiu, dando um passo discreto para mais perto. — Eu realmente admiro isso em você. Essa… elegância sob pressão.

Ana olhou para ele, encontrando um olhar que não tinha nada de sarcástico ou brincalhão. Era um momento de conexão real, uma brecha na armadura profissional que ela tanto se esforçava para manter. Ela abriu a boca para responder, mas foi interrompida pelo som estridente de uma buzina de ar.

— A GRAVAÇÃO VAI COMEÇAR EM DEZ MINUTOS E OS POMBINHOS ESTÃO NO CAFÉ! — gritou Rafael Portugal, enfiando a cabeça pela porta da copa e desaparecendo logo em seguida, rindo como um louco.

Ana se afastou imediatamente, ajeitando o crachá no peito.

— Melhor voltarmos.

— É… — Cambota suspirou, visivelmente frustrado pela interrupção. — Melhor irmos.

O palco estava pronto. As luzes se acenderam, a música tema começou a tocar e a plateia explodiu em aplausos. Os cinco humoristas entraram, fazendo suas dancinhas e cumprimentando o público. Ana estava posicionada atrás das câmeras, perto do diretor, observando tudo pelos monitores.

O programa corria bem, com o ritmo habitual de piadas ácidas e histórias absurdas. No entanto, o elenco parecia ter combinado um roteiro paralelo.

— Pois é, gente — dizia Rodrigo Marques, durante um bloco sobre "Primeiros Encontros" —, o problema é quando o cara não tem coragem de falar o que sente e fica inventando desculpa técnica para falar com a moça. Não é, Cambota?

A plateia riu, sem entender a referência interna. Cambota, no centro do palco, sentiu o suor frio descer pela nuca.

— Não sei do que você está falando, Rodrigo. Vamos focar no tema.

— Ah, não sabe? — Rafael Portugal interveio, levantando-se da cadeira. — "Ai, Ana, será que o meu microfone está baixo?". "Ana, você viu como o café está encorpado hoje?".

Ana, atrás das câmeras, sentiu o desejo súbito de se fundir ao chão. Ela viu os cinegrafistas rindo e o diretor fazendo sinal de positivo para ela, achando a interação maravilhosa para o conteúdo do programa.

— O Cambota está tão apaixonado que ontem ele chamou o GPS de Ana — disparou Thiago Ventura, levando a plateia ao delírio.

— Gente, foco no programa! — Cambota tentou retomar a autoridade, mas seu rosto estava mais vermelho que as poltronas do cenário. Ele olhou rapidamente para o lado, buscando o ponto onde Ana costumava ficar.

Ela estava lá, mas não estava brava. Para a surpresa dele, ela tinha a mão cobrindo a boca, tentando esconder um riso que escapava pelos olhos. Aquilo deu a ele um súbito impulso de coragem.

— Sabe o que é? — Cambota disse para o microfone, voltando-se para os colegas. — É que quando a produção é de alto nível, a gente quer estar sempre por perto para aprender. Mas vocês não entenderiam isso, o cérebro de vocês só processa piada de quinta série.

— Ih, ele ficou bravo! — Nando Viana provocou. — O capitão está defendendo a honra da produção!

A gravação terminou duas horas depois, entre mais algumas indiretas e muitas gargalhadas. Enquanto a plateia saía e a equipe começava a desmontar o set, Ana recolhia suas anotações. Ela sabia que precisava manter a postura, mas a provocação dos meninos tinha deixado um rastro de eletricidade no ar.

Ela estava saindo em direção ao estacionamento quando ouviu passos rápidos atrás de si.

— Ana! Espera.

Ela parou e se virou. Cambota estava sem o paletó do figurino, com as mangas da camisa social dobradas e o cabelo levemente bagunçado.

— Me desculpa por aquilo — ele disse, parecendo genuinamente preocupado. — Aqueles quatro não têm limites. Eu não queria que você se sentisse desconfortável ou que achasse que eu não respeito seu espaço de trabalho.

Ana olhou para ele por um longo momento. A luz do estacionamento era fraca, criando sombras suaves em seu rosto.

— Foi um pouco embaraçoso — ela admitiu, com a voz baixa. — Mas eu já sabia onde estava me metendo quando aceitei trabalhar com cinco comediantes.

— Eles perceberam, Ana — ele confessou, dando um passo à frente. — Eles perceberam o que eu estou tentando esconder há meses.

O coração de Ana deu um salto descompassado. Ela apertou a alça da bolsa, sua timidez natural lutando contra a vontade de ficar ali.

— E o que você está tentando esconder, Fabiano?

Cambota sorriu, mas desta vez era um sorriso tímido, quase vulnerável.

— Que eu não entendo nada de café. E que eu sabia perfeitamente que a piada do queijo de Goiás era para o segundo bloco.

Ana soltou uma risada curta, relaxando os ombros.

— Eu sabia.

— Você sabia?

— Fabiano, eu sou a produtora executiva. Eu sei de tudo o que acontece neste estúdio — ela disse, com um brilho divertido no olhar. — Inclusive que você fica me procurando com os olhos toda vez que termina uma frase no palco.

Cambota ficou em silêncio por um instante, surpreso pela franqueza dela.

— Então… eu sou tão óbvio assim?

— Só para quem presta atenção — ela respondeu, sentindo o próprio rosto queimar.

Eles ficaram ali, parados entre os carros, o silêncio da noite sendo quebrado apenas pelo som distante do trânsito de São Paulo. Não houve um beijo de cinema, nem uma declaração dramática. O que houve foi o entendimento silencioso de que a amizade que construíram nos últimos meses tinha raízes mais profundas do que ambos queriam admitir.

— Você quer… — Cambota começou, hesitante. — Você quer jantar em algum lugar onde não existam câmeras, nem o Rafael Portugal escondido em algum armário?

Ana sorriu, e desta vez não foi o sorriso profissional que ela usava nas reuniões. Foi o sorriso que Cambota passava o dia tentando conquistar.

— Eu adoraria, Fabiano. Mas com uma condição.

— Qual?

— Nada de falar de trabalho. E nada de piadas sobre Goiás.

Cambota riu, oferecendo o braço para ela com um gesto exageradamente formal.

— Prometido. Mas não garanto que o Nando não vai aparecer de surpresa com uma câmera escondida.

— Se ele aparecer, eu demito ele — ela brincou, aceitando o braço dele.

— É por isso que eu sou louco por você — ele murmurou, quase para si mesmo, enquanto caminhavam em direção ao carro.

Ana ouviu, mas fingiu que não. Ela apenas apertou o braço dele um pouco mais forte, sentindo que, pela primeira vez, o roteiro da sua vida estava exatamente onde deveria estar: fora de controle, mas em ótimas mãos.

Nos bastidores, o programa continuaria sendo um sucesso. As piadas continuariam ácidas e o elenco continuaria insuportável. Mas, para Ana e Fabiano, as luzes do estúdio agora brilhavam de uma forma diferente, iluminando um caminho que eles estavam apenas começando a trilhar, um café e um olhar de cada vez.
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