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Inesperado

Fandom: Erick Pulgar

Criado: 08/07/2026

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RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaEstudo de PersonagemRealismoDramaHumorCenário CanônicoCrack / Humor Paródico
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O Presente Mais Inusitado da Temporada

A brisa do Rio de Janeiro parecia diferente daquela que Gabi sentira nos últimos três anos. Durante seu tempo fora, entre especializações em psicologia infantil na Europa e trabalhos voluntários em vilarejos remotos da África e da América Latina, ela se acostumara a ser uma cidadã do mundo. O convite de uma amiga de faculdade para integrar o corpo clínico de uma nova unidade de terapia infantil no Brasil foi o empurrão que faltava para ela arrumar as malas e voltar para casa.

Gabi ainda estava se desfazendo das caixas em seu novo apartamento quando o celular vibrou. Era Bárbara, irmã de Giorgian De Arrascaeta e uma de suas amigas mais próximas desde a adolescência.

— Gabi, finalmente você está em solo carioca! — a voz de Bárbara ecoou animada do outro lado da linha. — Escuta, sábado vamos nos reunir em um barzinho na Barra. É aniversário do Pitbull do Flamengo. Você vem, né? Sem desculpas.

Gabi pausou, tentando processar a informação enquanto equilibrava o telefone entre o ombro e a orelha. Futebol nunca fora seu forte. Ela sabia quem era o Arrascaeta porque era "da família", mas o resto do universo da bola era um borrão de camisas listradas e gritos de gol que ela só acompanhava, por alto, em épocas de Copa do Mundo.

— Pitbull? — Gabi perguntou, franzindo o cenho. — Pitbull... pitbull mesmo? Tipo, a raça de cachorro?

Bárbara, que estava no meio de uma sessão de fotos e sendo puxada por maquiadores, respondeu apressada:

— Isso, amiga. O Pitbull do Flamengo. Todo mundo vai estar lá. Só vem, a gente está morrendo de saudade!

— Ah, entendi — murmurou Gabi, já imaginando a cena. — Que fofo. O mascote do time ou algo assim?

— É, algo assim! — Bárbara riu antes de desligar. — Te vejo lá às oito!

Gabi ficou olhando para o celular. Um aniversário para um cachorro. Bem, ela já tinha visto de tudo no exterior, e o brasileiro era conhecido por ser apaixonado por pets. Se o tal Pitbull era tão querido pelos jogadores e pela mídia, ela não poderia chegar de mãos vazias. Seria falta de educação com o dono do animal.

No sábado à tarde, Gabi foi até um pet shop de luxo. Ela passou quase uma hora escolhendo os itens. Comprou uma tigela de cerâmica pesada, pintada à mão, onde mandou gravar o nome "Pitbull" em letras douradas. Adicionou uma coleira de couro legítimo, resistente e elegante, e um pacote de petiscos orgânicos de alta qualidade. Pediu que embrulhassem tudo em um papel de seda azul e uma sacola sofisticada.

— Ele vai adorar — disse a vendedora, achando o nome do cãozinho imponente.

— É para um aniversariante muito especial do Flamengo — explicou Gabi, orgulhosa de sua proatividade.

O trânsito do Rio, como sempre, não colaborou. Quando Gabi finalmente estacionou perto do bar reservado, já passavam quarenta minutos do horário combinado. Ela ajeitou o vestido leve, pegou a sacola do pet shop e caminhou em direção à área reservada.

Ao longe, ela avistou a mesa. Estavam lá suas amigas de longa data: Paloma, Melissa, Emily e, claro, Bárbara. Ao redor delas, vários homens altos e com porte de atletas conversavam animadamente.

— Até que enfim! — exclamou Paloma, assim que viu Gabi se aproximar. — Achamos que tinha se perdido no caminho de volta para o Brasil.

— Evoluiu, hein, Gabi? — Arrascaeta brincou, levantando-se para dar um beijo no rosto da amiga. — Hoje foram só quarenta minutos de atraso. Da última vez, na minha festa, foram duas horas.

Gabi riu, abraçando todos e cumprimentando as meninas. O ambiente era descontraído, com risadas altas e música ambiente.

— Desculpem, gente! O Rio continua lindo, mas o trânsito continua um caos — ela disse, colocando a sacola sobre uma cadeira vazia. — Mas e então, cadê o aniversariante?

Bárbara apontou discretamente para um homem sentado quase à frente de Gabi. Ele tinha uma expressão serena, o corpo coberto por algumas tatuagens que apareciam sob a camiseta estilosa e um olhar profundo, meio compenetrado.

Gabi olhou para o homem. Depois olhou para os lados. Olhou para baixo das cadeiras.

— Sim... mas cadê o Pitbull? — perguntou ela, genuinamente confusa.

Emily e Melissa trocaram olhares e começaram a segurar o riso. Emily apontou novamente para o mesmo homem.

— É ele, Gabi. O aniversariante.

Gabi franziu a testa, a confusão aumentando.

— Ué... o cachorro não veio? O bar não aceita animais?

Um silêncio súbito caiu sobre a mesa, interrompido apenas pelo som do gelo batendo nos copos. Bárbara cobriu a boca com a mão, os ombros já tremendo.

— Gabi... — Bárbara tentou falar, mas a risada escapou. — Amiga... "Pitbull" é o apelido dele. O nome dele é Erick. Erick Pulgar.

O mundo de Gabi pareceu girar em câmera lenta. Ela sentiu o rosto esquentar instantaneamente, uma queimação que subiu das bochechas até as orelhas. Ela olhou para o homem — Erick — que agora a encarava com uma sobrancelha arqueada, visivelmente curioso.

Ela olhou para a sacola em cima da cadeira.

— Espera... — Gabi sussurrou, a voz falhando. — O Pitbull... é gente?

A mesa explodiu. Arrascaeta gargalhava tanto que precisou se apoiar na mesa. As meninas estavam dobradas de rir, e até os outros jogadores presentes começaram a filmar a cena.

— Eu não acredito! — gritava Bárbara entre acessos de riso. — Você achou que eu estava te convidando para o aniversário de um cachorro?

Gabi queria que o chão do bar se abrisse e a engolisse. Ela tentou, de forma totalmente estabanada, empurrar a sacola para baixo da cadeira com o pé, mas era tarde demais.

— Agora eu preciso saber o que tem aí — disse Erick.

Sua voz era calma, com um sotaque chileno marcado, mas havia um brilho de diversão nos olhos escuros. Ele não parecia ofendido, apenas genuinamente intrigado.

— Não, sério, não é nada — Gabi tentou desconversar, sentindo-se a pessoa mais estúpida do planeta. — É só... um engano geográfico e cultural.

— Entrega logo, Gabi! — instigou Paloma, limpando as lágrimas do riso.

Sem saída e percebendo que o mistério só pioraria a situação, Gabi pegou a sacola com as mãos trêmulas e a estendeu para Erick.

— Por favor, entenda... eu morava fora. Eu não acompanho futebol. A Bárbara disse "Pitbull" e eu... bem, eu sou psicóloga infantil, eu lido com literalidade o dia todo...

Erick pegou a sacola, mantendo o contato visual por um segundo a mais do que o necessário, o que fez o coração de Gabi dar um salto descompassado. Ele abriu o embrulho com cuidado.

Primeiro, ele tirou a tigela de cerâmica. Leu o nome "Pitbull" gravado em dourado. Depois, tirou a coleira de couro. Por fim, o pacote de petiscos de frango e batata-doce.

O silêncio na mesa foi absoluto por exatamente três segundos, enquanto todos esperavam a reação dele.

Então, Erick soltou uma risada curta e anasalada. Ele olhou para a tigela e depois para Gabi.

— Acho que esse foi o presente mais original que já ganhei em toda a minha vida — disse ele, com um sorriso de canto que suavizou completamente suas feições.

— Eu juro que achei que era um cachorro! — Gabi exclamou, cobrindo o rosto com as mãos, finalmente rindo de nervoso junto com os outros. — Eu até escolhi a coleira mais resistente porque achei que você... quer dizer, o cachorro... fosse grande!

— Bom, eu sou resistente em campo — Erick brincou, balançando a coleira no ar. — Talvez eu possa usar como pulseira? Ou quem sabe a tigela sirva para o meu cereal de manhã.

A forma como ele lidou com a situação desarmou Gabi completamente. Ela esperava que ele ficasse arrogante ou que se sentisse insultado por não ser reconhecido, mas Erick Pulgar parecia o oposto disso. Havia uma simplicidade nele que ela não associava ao estereótipo de jogador de futebol famoso.

— Sinto muito, de verdade — ela disse, quando as risadas na mesa começaram a diminuir para um burburinho divertido. — Que mico de boas-vindas ao Brasil.

— Não peça desculpas — Erick respondeu, inclinando-se um pouco mais perto dela. — É refrescante.

— Refrescante? — ela repetiu.

— Sim. É bom encontrar alguém que não quer falar sobre o último jogo ou sobre tática — ele explicou, o olhar fixo nela. — E, para ser justo, o apelido é um pouco agressivo. Um cachorro teria mais facilidade de carregar essa fama do que eu.

Gabi sorriu, sentindo a tensão deixar seus ombros.

— Sou a Gabi — ela se apresentou formalmente, agora que o trauma inicial passara.

— Eu sei. A psicóloga que acha que sou um quadrúpede — ele brincou, estendendo a mão. — Erick.

O restante da noite passou de forma surpreendentemente fluida. Gabi, que planejava ficar apenas uma hora para cumprir tabela, viu-se perdida em uma conversa com Erick. Ele perguntou sobre o trabalho dela, sobre os lugares onde ela viveu, e parecia genuinamente interessado nas histórias sobre as crianças que ela atendia.

Por outro lado, Gabi descobriu que Erick era um homem de poucas palavras, mas de muita observação. Ele não tentava ser o centro das atenções, apesar de ser o aniversariante. Havia uma calma nele que a atraía. E, claro, fisicamente, ele era muito mais impressionante de perto do que qualquer foto de jornal poderia mostrar.

— Então — ela disse, apontando para a sacola que agora repousava ao lado dele —, o que você vai fazer com os petiscos?

— Vou guardar — ele respondeu, com um brilho travesso nos olhos. — Para me lembrar de que, se eu não jogar bem, alguém pode tentar me colocar uma coleira.

Gabi riu, balançando a cabeça.

— Você nunca vai me deixar esquecer isso, não é?

— Nunca — ele confirmou. — É uma história boa demais para ser desperdiçada.

Perto do final da noite, quando as pessoas começaram a se despedir, Erick se aproximou de Arrascaeta enquanto Gabi abraçava Bárbara.

— Cara... ela realmente achou que eu era um cachorro? — Erick perguntou em voz baixa, ainda olhando para a tigela de cerâmica.

Arrascaeta deu um tapa no ombro do companheiro de equipe, rindo.

— Eu te disse, Erick. A Gabi é de outro mundo. Ela mal sabe quem joga no Flamengo, quanto mais os apelidos. Para ela, você é só um cara que ganhou uma tigela de água de presente.

Erick sorriu sozinho, observando Gabi caminhar em direção à saída. Ela parou na porta, olhou para trás e acenou timidamente para ele.

Pela primeira vez em muito tempo, Erick Pulgar não se sentiu o "Pitbull", o volante implacável ou a figura pública sob pressão constante. Ele se sentiu apenas Erick. E aquela mulher, com seu erro absurdo e seu sorriso sincero, tinha despertado nele uma curiosidade que nenhuma abordagem de fã ou modelo jamais conseguira.

— Uma tigela — ele sussurrou para si mesmo, guardando o presente inusitado. — Nada mal para um começo.

Ele já estava ansioso pelo próximo encontro, onde, esperava ele, não haveria necessidade de coleiras.
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