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NAS MÃOS DE QUEM QUER ME MATAR

Fandom: Noah Urrea

Criado: 08/07/2026

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AçãoMistérioCrimeSuspenseSobrevivênciaNoirDramaViolência GráficaMorte de Personagem
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Entre Margens e Sangue

O silêncio da Biblioteca Pública de São Luís às duas da manhã tinha um peso próprio, um cheiro de papel envelhecido e poeira que Mari costumava achar reconfortante. Até aquela noite. O estalo seco de um disparo silenciado ecoou entre as estantes de história colonial, quebrando a paz que ela tanto protegia.

Mari parou de organizar os volumes da seção de raridades. Seu coração martelava contra as costelas como um pássaro enclausurado. Ela cometeu o erro de olhar. Através da fresta entre dois livros de capa de couro, ela viu o corpo cair. E então, o brilho. O reflexo das luzes fluorescentes de emergência atingiu as lentes de seus óculos, que haviam escorregado levemente pelo nariz.

O homem do outro lado, um vulto de ombros largos e movimentos precisos, virou a cabeça na direção dela. Mari não esperou. Ela correu, os pés descalços — para não fazer barulho — batendo no chão frio de mármore, escondendo-se no labirinto de prateleiras que conhecia melhor que sua própria casa.

Noah Urrea não gostava de pontas soltas. Aos vinte e seis anos, ele já tinha visto o pior que a humanidade tinha a oferecer e, em algum lugar entre os dezoito e os vinte, ele parou de sentir. Ele era o "zelador" da máfia. Ele não tinha nome nos registros oficiais, não tinha passado. Tinha apenas as luvas de couro preto que nunca tirava e a precisão de um cirurgião.

Ele caminhou calmamente pelo corredor. A regra era clara: sem testemunhas. Sem vínculos.

Ele a encurralou nos fundos da seção de manuscritos. A garota estava encolhida, os cachos loiros bagunçados e os olhos castanhos escuros arregalados atrás dos óculos que teimavam em cair. Ela tremia, mas não implorava.

— Por favor — ela começou, a voz falhando —, eu... eu não vi nada. Quer dizer, eu vi, mas eu esqueço. Eu sou ótima em esquecer coisas que não estão em livros.

Noah não respondeu. Ele raramente falava. Ele ergueu a arma, o cano frio apontado exatamente para o centro da testa dela. O dedo enluvado começou a pressionar o gatilho. O mundo pareceu desacelerar.

— Espere! — ela exclamou, as palavras atropelando-se enquanto o nervosismo a dominava. — Esse livro no seu bolso... o volume de 1784 sobre a cartografia das Antilhas... a anotação na página quarenta e dois não é um erro de impressão!

O dedo de Noah travou. Ele sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha, algo que não sentia há anos. Ele puxou o pequeno livro de couro que carregava como um talismã, um objeto que ele mesmo roubara de um colecionador particular há cinco anos, apenas porque a anotação na margem o intrigava.

— O que você disse? — A voz dele era rouca, gélida como o inverno que ele carregava na alma.

— A anotação... "Onde o sol não toca, o ouro descansa" — Mari disse, as palavras saindo em um fluxo desesperado. — Todo mundo acha que é sobre um tesouro físico, mas é uma cifra de substituição baseada no latim eclesiástico. É uma coordenada para uma biblioteca perdida em Évora. Eu... eu estudo isso. Eu sou historiadora. Por favor, não me mate por causa de uma cifra.

Noah olhou para a garota. Ela era pequena, parecia frágil, mas havia uma coragem teimosa em seus olhos. Ele olhou para a arma e depois para o livro. Pela primeira vez em sua carreira, ele sentiu o peso do que estava prestes a fazer. Se ele a matasse, o segredo do livro morreria com ela. E por algum motivo que ele não conseguia explicar, o fato de ela ter decifrado em segundos o que ele levou anos tentando entender o paralisou.

Ele baixou a arma.

— Qual o seu nome? — perguntou ele.

— Mari — respondeu ela, ajeitando os óculos com o dedo trêmulo.

— Você acabou de assinar sua sentença de morte, Mari — Noah guardou a arma no coldre sob o casaco. — E a minha também.

O rádio no pulso de Noah chiou. A voz distorcida de seu superior na organização ecoou no silêncio da biblioteca.

— "Limpou a área, Urrea? O cliente quer o relatório."

Noah olhou para Mari. Se ele respondesse que sim, e eles encontrassem o corpo dela depois, ele estaria morto. Se ele dissesse que não, eles enviariam outros. E Noah sabia que ninguém mais teria a hesitação que ele acabara de ter.

— Problemas técnicos — Noah respondeu ao rádio, sua voz desprovida de emoção. — Vou precisar de mais tempo.

Ele agarrou o braço de Mari, o couro da luva frio contra a pele dela.

— Venha comigo. Agora.

— Ir para onde? Você quase me matou! — Mari tentou puxar o braço, mas a força dele era absoluta.

— Se você ficar aqui, o próximo homem que passar por aquela porta não vai parar para falar sobre latim eclesiástico — Noah a empurrou em direção à saída de serviço. — Temos quarenta e oito horas até que eles percebam que eu traí a ordem. Quarenta e oito horas até o julgamento da máfia. E eles não fazem julgamentos com advogados, Mari. Eles fazem com gasolina e fogo.

— Por que está me ajudando? — ela perguntou, correndo para acompanhar os passos largos dele enquanto alcançavam o beco escuro atrás da biblioteca.

— Eu não estou te ajudando — Noah disse, sem olhar para trás. — Eu estou protegendo o que você sabe. No momento em que você me contar tudo sobre esse livro, você deixa de ser útil.

— Mentira — Mari disse, a teimosia superando o medo por um segundo. — Você se arrependeu. Eu vi no seu olho. Você não é tão frio quanto tenta parecer, Noah.

Ele parou bruscamente, fazendo-a colidir contra suas costas rígidas. Ele se virou, o rosto a centímetros do dela.

— Eu não tenho nome para você. Eu não tenho passado. E a primeira regra para sobreviver ao meu lado é: não crie vínculos. Eu sou o homem que foi enviado para te matar. Lembre-se disso.

— Difícil esquecer quando você ainda está segurando uma arma — Mari rebateu, embora sua voz tenha tremido no final.

Eles entraram em um sedã preto estacionado na penumbra. Noah arrancou, os pneus cantando no asfalto molhado de São Luís. O silêncio no carro era sufocante, quebrado apenas pelo som da chuva que começava a cair e pelo tique-tique do relógio no painel.

— Para onde vamos? — Mari perguntou, abraçando os próprios braços.

— Para fora da cidade. Tem um esconderijo no interior, uma casa de campo que a organização não conhece — Noah mantinha os olhos fixos na estrada. — Precisamos traduzir o restante das notas naquele livro. Se o que você diz for verdade, o conteúdo vale mais do que nossas vidas. Pode ser nossa única moeda de troca para comprar nossa liberdade.

Mari olhou para o perfil dele. Noah era bonito de uma forma perigosa e melancólica. Havia cicatrizes invisíveis nele, ela podia sentir. Talvez fosse o hábito de ler entre as linhas, mas ela via um homem que estava cansado de ser apenas uma ferramenta.

— Eu guardo tudo o que leio — ela disse baixinho. — Cada detalhe, cada nota de rodapé. Eu posso te ajudar, mas você tem que confiar em mim.

— Confiança é um luxo que eu não posso pagar — Noah respondeu, apertando o volante.

— Então pague com a verdade — Mari insistiu. — Por que você guardou esse livro por cinco anos? Um assassino profissional não guarda lembranças de roubos.

Noah ficou em silêncio por um longo tempo. As luzes da cidade iam ficando para trás, substituídas pela escuridão da estrada cercada por mato.

— Porque foi a única coisa que meu irmão me deixou antes de ser "limpo" pela mesma organização para a qual eu trabalho hoje — ele confessou, a voz tão baixa que Mari quase não ouviu. — Ele passou a vida tentando decifrar isso. Ele dizia que o conhecimento era a única coisa que eles não podiam tirar de nós.

Mari sentiu uma pontada de tristeza. Ela estendeu a mão para tocar o ombro dele, mas parou a tempo, lembrando-se da regra sobre vínculos.

— Ele estava certo — ela disse suavemente. — E agora, nós dois somos os guardiões disso.

De repente, um clarão iluminou o retrovisor. Dois utilitários pretos surgiram na estrada, em alta velocidade, as luzes altas cegando Noah.

— Eles nos acharam — Noah rosnou, mudando a marcha e acelerando o motor ao máximo. — Abaixe-se!

— Como? Já? — Mari gritou, encolhendo-se no banco do passageiro.

— Eu disse que eles eram eficientes — Noah puxou uma pistola e entregou para Mari. — Sabe usar isso?

— O quê? Não! Eu sou bibliotecária, a coisa mais perigosa que eu já usei foi um grampeador industrial!

— Ótimo. Então segure o volante e mantenha o carro reto — Noah destravou o teto solar e se preparou para sair.

— Você está louco! — Mari agarrou o volante com as mãos suadas, os óculos escorregando novamente. — Noah, se a gente morrer, ninguém vai saber o segredo de Évora!

Noah olhou para ela por um breve segundo, e pela primeira vez, Mari viu um lampejo de algo que não era frio. Era um desafio. Um brilho de vida que ele parecia ter redescoberto.

— Então trate de não nos deixar bater — ele disse, antes de se erguer para enfrentar os perseguidores.

Enquanto as balas começavam a perfurar o metal do carro e o som do caos tomava conta da noite, Mari percebeu que sua vida tranquila entre livros havia acabado. Ela agora fazia parte de uma história que não estava escrita em nenhum papel, uma história onde o assassino era seu único aliado e o tempo era o vilão mais implacável de todos.

Faltavam quarenta e sete horas. E ela nunca desejou tanto que um livro não tivesse fim.

Noah voltou para dentro do carro após disparar contra os pneus do primeiro perseguidor, que rodopiou na pista, criando uma barreira de metal e fogo. Ele retomou o volante, a expressão tensa.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz carregada de uma urgência que ele tentava esconder.

— Eu... eu acho que sim — Mari respirava com dificuldade, as mãos ainda grudadas no volante como se sua vida dependesse daquele couro. — Eles vão vir mais, não vão?

— Vão. E a próxima onda não será tão fácil de despistar — Noah olhou para ela pelo canto do olho. — Você ainda quer me ajudar?

Mari ajeitou os óculos, uma chama de determinação brilhando em seus olhos castanhos.

— Eu não sou de deixar uma história pela metade, Noah. E nós ainda temos uma biblioteca em Évora para encontrar.

Noah assentiu, e por um milésimo de segundo, o canto de sua boca esboçou o que poderia ter sido um sorriso, se ele ainda soubesse como sorrir. A estrada à frente era incerta, mas pela primeira vez em anos, ele não estava apenas seguindo ordens. Ele estava escrevendo seu próprio destino. E, de alguma forma, a garota cacheada com os óculos caindo era a tinta que ele precisava.
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