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Liber Fati
Fandom: Trono de Vidro
Criado: 08/07/2026
Tags
FantasiaIsekai / Fantasia PortalDramaAngústiaDor/ConfortoEstudo de PersonagemRecontarCrossoverDivergência
O Eco do Passado no Vazio do Infinito
O ar não tinha cheiro de morte, mas de pergaminho antigo, baunilha e algo que lembrava o frescor de uma floresta após a chuva. Para Celaena Sardothien, que até um segundo atrás sentia o fedor de suor, desespero e poeira de sal de Endovier, aquela mudança foi como um soco no estômago. Suas pernas fraquejaram, a pele ainda marcada pelas cicatrizes das chibatadas ardendo sob os trapos imundos que mal a cobriam. Ela caiu de joelhos, as mãos calejadas tocando um chão de mármore branco tão polido que refletia a vastidão acima.
— Onde... — A voz dela falhou, um som rouco e seco.
Ela não estava sozinha.
Ao redor dela, o espaço parecia se expandir infinitamente. Não era uma sala, mas uma catedral de conhecimento. Estantes de madeira escura subiam até perderem-se de vista, onde em vez de um teto, galáxias inteiras giravam em um redemoinho de azul, violeta e ouro. O silêncio era absoluto, até que o som de respirações ofegantes e o tilintar de metal começaram a preencher o vazio.
— Pelos deuses... — A voz veio de um jovem de cabelos escuros e olhos de um azul safira impressionante. Ele vestia roupas de seda fina e segurava uma taça de vinho que, por algum milagre, não derramara. Ao lado dele, um homem mais alto, de porte atlético e uniforme de guarda, já estava com a mão no punho da espada, os olhos cor de avelã varrendo o local com uma eficiência letal.
— Dorian, fique atrás de mim — ordenou Chaol Westfall, sua voz firme, embora a tensão em seus ombros revelasse seu desconcerto.
Celaena tentou se levantar, mas sua fraqueza era evidente. Ela rosnou, um som puramente animal, atraindo o olhar de ambos. Dorian Havilliard congelou ao ver a figura esquelética e suja no chão, os olhos dela — um cinza-azulado com anéis de ouro — brilhando com um ódio e uma inteligência que não condiziam com seu estado deplorável.
Antes que qualquer palavra pudesse ser trocada, outros começaram a surgir.
Um clarão de luz trouxe um guerreiro feérico de cabelos prateados e uma tatuagem que descia por um lado do rosto, sua aura de poder tão esmagadora que Chaol instintivamente desembainhou a espada — ou tentou. A lâmina não saiu da bainha. O metal parecia fundido ao couro.
— Mas o que...? — Chaol puxou com força, o rosto ficando vermelho.
— É inútil — disse uma voz que parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo.
No centro do grande salão, onde poltronas de veludo, sofás e mesas de carvalho estavam dispostos ao redor de uma lareira que rugia com chamas prateadas, uma silhueta se formou. Não era humana, nem feérica. Era uma fenda na realidade, uma sombra antiga que exalava uma autoridade que fazia os ossos vibrarem.
— Quem é você? — exigiu Aedion Ashryver, que acabara de aparecer a poucos metros de distância, sua mão buscando um punhal que não estava mais lá. Ele paralisou ao ver Celaena. Seus olhos se arregalaram, o General de Terrasen perdendo o fôlego por um instante. — Aelin?
Celaena não respondeu. Ela não conhecia aquele homem — ou não queria conhecer. Ela se encolheu, o pânico subindo pela garganta ao ver tantas pessoas surgindo.
— Eu sou aquele que observa — disse a Entidade, sua voz ecoando como o vento em uma caverna. — Vocês foram retirados de seus tempos. De seus destinos. Estão em uma dimensão onde o tempo é um círculo e o espaço é uma promessa.
— Por que nos trouxe aqui? — Uma mulher de pele escura e porte real, Nehemia Ytger, perguntou, seus olhos observando tudo com uma calma calculada, embora suas mãos estivessem firmemente entrelaçadas.
— Para que conheçam sua história — respondeu a sombra. — Conhecerão seu passado. Conhecerão seu futuro. Talvez aprendam algo antes que o fim os alcance.
— Eu não recebo ordens de sombras — rosnou Lorcan Salvaterre, surgindo ao lado de Rowan Whitethorn. Ambos os guerreiros feéricos pareciam prontos para destruir a biblioteca inteira, mas a magia deles, tão vasta e destrutiva, simplesmente não respondia. Rowan tentou invocar o gelo e o vento, mas sentiu apenas um vácuo onde seu poder deveria estar.
— Aqui, a violência é uma impossibilidade — continuou a Entidade. — Ninguém pode ferir. Ninguém pode morrer. Apenas leiam.
A Entidade desapareceu, deixando para trás um silêncio pesado.
Aos poucos, o salão foi se enchendo. Manon Blackbeak apareceu com as Treze, suas unhas de ferro estalando reflexivamente, os olhos cor de ouro queimado fixos em Rowan e Lorcan. Elide Lochan surgiu em um canto, parecendo pequena e assustada, até que seus olhos encontraram os de Manon. Lysandra, em sua forma humana, ajustou o vestido de seda verde, confusa.
O choque maior, porém, veio quando figuras lendárias começaram a se materializar perto da lareira.
Um homem de beleza devastadora e olhos que carregavam o peso de milênios, vestindo uma armadura que parecia feita de luz solar. Ao lado dele, uma mulher cujos cabelos eram como fogo vivo.
— Brannon? — sussurrou Rowan, sua voz falhando. O primeiro Rei de Terrasen olhou ao redor, sua expressão solene.
— Mala — Gavin Havilliard, o primeiro Rei de Adarlan, disse em um suspiro, olhando para a deusa ao seu lado, que agora assumia uma forma mortal.
Celaena sentiu que ia desmaiar. Ela viu Elena Galathynius Havilliard, a princesa que dera início a tudo. Viu Mab e Mora, as rainhas feéricas cujas linhagens moldaram o mundo. Ao ver Mab, a bisavó que ela nunca conheceu, a respiração de Celaena parou. O pânico que ela estava tentando conter explodiu.
— Isso é um truque — sibilou Celaena, tentando se afastar de todos, as costas batendo em uma estante. — É um truque do Rei de Adarlan. Um veneno nas minas... eu estou alucinando.
— Você não está alucinando, criança — disse Elena, sua voz doce e triste. Ela deu um passo em direção a Celaena, mas a assassina rosnou, mostrando os dentes.
— Não chegue perto! — gritou Celaena.
Dorian, movido por um instinto que nem ele compreendia, deu um passo à frente.
— Você está segura aqui. Ninguém pode te machucar. Olhe para este lugar.
Celaena olhou. A biblioteca era magnífica. Janelas mostravam nebulosas distantes. Mesas estavam postas com banquetes que nunca esfriavam. Mas nada disso importava. Ela era uma prisioneira de Endovier, e ali estavam reis, deuses e guerreiros.
— Sentem-se — disse uma voz ranzinza.
Todos pularam. Uma aldrava em forma de rosto de gárgula estava presa a uma porta de carvalho próxima.
— O livro não vai se ler sozinho — disse Mort, a aldrava, revirando os olhos de bronze. — E eu não tenho a eternidade toda... bem, na verdade eu tenho, mas detesto esperar.
No centro da mesa principal, um livro apareceu. Sua capa era de couro negro, sem título, mas emanava uma aura de importância.
Rowan Whitethorn, sendo o mais pragmático, caminhou até a mesa. Ele olhou para Celaena, que ainda estava encolhida, e depois para os outros. O príncipe feérico sentia uma conexão estranha com aquela garota suja e quebrada, algo que ele não conseguia explicar.
— Se este é o único caminho para sair daqui, então que assim seja — disse Rowan. Ele pegou o livro.
— Esperem — interrompeu Aedion, seus olhos fixos em Celaena. — Quem é ela? Por que ela está nesse estado?
— Ela é a maior assassina de Erilea — respondeu Chaol, sua voz misturando desconfiança e uma estranha piedade. — Eu a retirei de Endovier hoje mesmo.
Um murmúrio percorreu a sala. As bruxas Dente de Ferro observavam Celaena como se fosse uma curiosidade biológica. Yrene Towers, que aparecera perto de uma estante de livros de medicina, sentiu o coração apertar ao ver o estado nutricional da jovem.
— Ela precisa de cuidados, não de um interrogatório — disse Yrene, aproximando-se com cautela.
— Eu não preciso de nada! — disparou Celaena, embora seu estômago roncasse tão alto que todos ouviram.
Dorian soltou uma risada leve, tentando quebrar o gelo.
— Pelo menos o apetite da assassina continua intacto. Por favor, sente-se. Há comida ali que parece muito melhor do que o que quer que deem em Endovier.
Com muita relutância e o instinto de uma presa acuada, Celaena se arrastou até uma poltrona de veludo vermelho, a mais afastada possível dos outros. Dorian sentou-se perto dela, seguido por Chaol. Nehemia sentou-se à direita da assassina, oferecendo-lhe um olhar de solidariedade que Celaena não soube como retribuir.
Rowan abriu o livro. As páginas brilharam levemente.
— O título deste volume é "A Lâmina da Assassina" — anunciou Rowan.
Celaena empalideceu. Suas mãos começaram a tremer sob as dobras de seus trapos. Aquele livro... ele ia contar tudo? Cada erro, cada morte, cada momento de fraqueza?
— Começa com uma crônica — disse Rowan, sua voz profunda ecoando pela biblioteca.
**# CRÔNICA I**
**A Assassina e o Lorde Pirata**
Rowan começou a ler.
— "O calor na Enseada da Caveira era de matar, mesmo à noite."
Celaena fechou os olhos. O cheiro de sal e rum pareceu preencher o ar da biblioteca.
— "Celaena Sardothien, a assassina mais famosa de Adarlan, não estava de bom humor. O navio em que viajava, o *Vingança*, balançava suavemente, mas o cheiro de peixe podre e água estagnada do porto era quase insuportável."
— A assassina mais famosa? — Manon Blackbeak arqueou uma sobrancelha, olhando para a figura esquelética na poltrona. — Você parece mais um rato de sarjeta do que uma lâmina temida, "Adarlan’s Assassin".
— Manon, comporte-se — murmurou Asterin Blackbeak, embora seus olhos também estivessem cheios de ceticismo.
— Espere a leitura continuar, bruxa — sibilou Celaena, o orgulho ferido sobrepujando o medo por um momento. — Você não duraria uma hora sob o comando de Arobynn Hamel.
O nome de Arobynn fez um calafrio percorrer a espinha de vários presentes. Aedion Ashryver apertou o braço da poltrona com tanta força que a madeira rangeu.
Rowan continuou:
— "Ela estava ali por um motivo. Arobynn a enviara, junto com Sam Cortland, para tratar com o Lorde Pirata, Rolfe."
— Sam... — O nome escapou dos lábios de Celaena como um suspiro de agonia. Ela se encolheu na cadeira, abraçando os próprios joelhos.
Dorian notou a reação. Ele olhou para Chaol, que parecia igualmente intrigado. Quem era Sam Cortland? E por que o nome dele parecia causar mais dor na garota do que as cicatrizes em suas costas?
— Rolfe? — perguntou um homem de cabelos escuros e pele bronzeada pelo sol, que estava sentado perto de Nesryn Faliq. Era o próprio Rolfe, o Senhor dos Piratas, que fora trazido de seu próprio tempo em Myriel. — Eu me lembro dessa noite. Foi quando aquela garota insolente quase incendiou meu escritório.
— Quase? — Celaena abriu um olho, um brilho de malícia voltando ao seu rosto. — Eu deveria ter queimado a cidade inteira com você dentro.
— Silêncio — ordenou Lorcan. — Deixem o Whitethorn ler.
Rowan retomou a leitura, descrevendo a chegada de Celaena e Sam à Enseada da Caveira, a arrogância de Celaena com suas roupas caras e sua atitude de superioridade, e a presença constante e protetora de Sam.
— "Sam Cortland era o único que conseguia rivalizar com ela em habilidade, e o único que ousava desafiar seu ego."
— Ele parece ser alguém interessante — comentou Fenrys Moonbeam, com um sorriso de lado, tentando aliviar a tensão. — Um assassino com paciência para lidar com você, *criança*? Ele deve ser um santo.
— Ele era melhor do que todos vocês — disse Celaena, sua voz carregada de uma tristeza tão profunda que Fenrys perdeu o sorriso instantaneamente.
A leitura prosseguiu, detalhando o encontro com Rolfe e a revelação do verdadeiro negócio que o Lorde Pirata estava propondo: o comércio de escravos.
Quando Rowan leu a descrição da reação de Celaena ao ver os escravos nos navios, o clima na biblioteca mudou. A arrogância da assassina foi substituída por uma fúria fria e palpável.
— "Celaena olhou para os homens e mulheres acorrentados, e a fúria que sentiu foi como um incêndio florestal. Ela não era uma salvadora. Ela era uma assassina. Mas aquilo... aquilo era uma abominação."
Nehemia olhou para Celaena com um novo respeito.
— Você se importou — disse a princesa de Eyllwe suavemente. — Mesmo sendo uma assassina treinada para não sentir nada.
— Eu sei o que é ser uma escrava — sibilou Celaena, apontando para as próprias roupas de prisioneira. — Eu passei um ano nas minas de sal. Eu sei o cheiro daquela corrente.
Aedion Ashryver sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Aquela era sua prima. A princesa de Terrasen, reduzida a isso. E ele não estivera lá para protegê-la. Ele olhou para Brannon e Elena, e viu a mesma dor refletida nos olhos dos ancestrais.
— A leitura diz que você e Sam brigaram sobre o que fazer — continuou Rowan, seus olhos prateados fixos no papel. — "Sam queria agir imediatamente. Ele não conseguia suportar o sofrimento deles. Celaena, porém, sabia que precisavam de um plano. Um plano que não os fizesse serem mortos por Arobynn."
— Arobynn Hamel — cuspiu Lysandra. — Aquele homem é o verdadeiro monstro desta história.
— Ele é o meu mestre — disse Celaena, embora a palavra soasse como cinzas em sua boca.
— Um mestre que a enviou para o inferno — rebateu Chaol, sua rigidez militar começando a ceder diante da realidade da vida da garota.
A leitura continuou, descrevendo a tensão crescente entre Celaena e Sam, os momentos de silêncio compartilhado no telhado sob as estrelas da Enseada da Caveira, e o início da conspiração deles para libertar os escravos pelas costas de Rolfe e Arobynn.
— "Eles sabiam que, se falhassem, o castigo de Arobynn seria inimaginável. Mas, naquela noite, enquanto olhavam para o mar, o medo foi substituído por uma determinação sombria."
— Vocês dois eram muito jovens — comentou Gavriel, o tom de voz suave, mas observador. — Agir contra o Rei dos Assassinos e o Lorde Pirata ao mesmo tempo... foi uma audácia impressionante. Ou uma loucura.
— Foi a coisa certa a se fazer — disse Elide Lochan, sua voz pequena, mas firme. Todos se viraram para ela. — Não importa o risco. Salvar aquelas pessoas era a única coisa que importava.
Manon Blackbeak soltou um som de desdém, mas não disse nada. Ela observava Celaena com uma intensidade renovada. Havia algo naquela garota, algo que as chamas de Mala pareciam reconhecer.
Rowan fez uma pausa, olhando para o grupo.
— Há muito mais — disse ele. — Este é apenas o começo.
Celaena afundou-se mais na poltrona. O passado estava sendo desenterrado, os segredos que ela trancara no lugar mais escuro de sua mente estavam sendo expostos para reis e deuses. E, no entanto, enquanto olhava para a lareira e sentia o calor da magia protetora da biblioteca, uma pequena, quase imperceptível parte dela sentiu um alívio.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava sozinha com seus fantasmas.
— Continue — disse Dorian, seus olhos brilhando com uma curiosidade que agora era tingida de admiração. — Continue lendo.
E Rowan retomou, a voz firme guiando todos eles para dentro da mente da assassina que um dia seria rainha.
— Onde... — A voz dela falhou, um som rouco e seco.
Ela não estava sozinha.
Ao redor dela, o espaço parecia se expandir infinitamente. Não era uma sala, mas uma catedral de conhecimento. Estantes de madeira escura subiam até perderem-se de vista, onde em vez de um teto, galáxias inteiras giravam em um redemoinho de azul, violeta e ouro. O silêncio era absoluto, até que o som de respirações ofegantes e o tilintar de metal começaram a preencher o vazio.
— Pelos deuses... — A voz veio de um jovem de cabelos escuros e olhos de um azul safira impressionante. Ele vestia roupas de seda fina e segurava uma taça de vinho que, por algum milagre, não derramara. Ao lado dele, um homem mais alto, de porte atlético e uniforme de guarda, já estava com a mão no punho da espada, os olhos cor de avelã varrendo o local com uma eficiência letal.
— Dorian, fique atrás de mim — ordenou Chaol Westfall, sua voz firme, embora a tensão em seus ombros revelasse seu desconcerto.
Celaena tentou se levantar, mas sua fraqueza era evidente. Ela rosnou, um som puramente animal, atraindo o olhar de ambos. Dorian Havilliard congelou ao ver a figura esquelética e suja no chão, os olhos dela — um cinza-azulado com anéis de ouro — brilhando com um ódio e uma inteligência que não condiziam com seu estado deplorável.
Antes que qualquer palavra pudesse ser trocada, outros começaram a surgir.
Um clarão de luz trouxe um guerreiro feérico de cabelos prateados e uma tatuagem que descia por um lado do rosto, sua aura de poder tão esmagadora que Chaol instintivamente desembainhou a espada — ou tentou. A lâmina não saiu da bainha. O metal parecia fundido ao couro.
— Mas o que...? — Chaol puxou com força, o rosto ficando vermelho.
— É inútil — disse uma voz que parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo.
No centro do grande salão, onde poltronas de veludo, sofás e mesas de carvalho estavam dispostos ao redor de uma lareira que rugia com chamas prateadas, uma silhueta se formou. Não era humana, nem feérica. Era uma fenda na realidade, uma sombra antiga que exalava uma autoridade que fazia os ossos vibrarem.
— Quem é você? — exigiu Aedion Ashryver, que acabara de aparecer a poucos metros de distância, sua mão buscando um punhal que não estava mais lá. Ele paralisou ao ver Celaena. Seus olhos se arregalaram, o General de Terrasen perdendo o fôlego por um instante. — Aelin?
Celaena não respondeu. Ela não conhecia aquele homem — ou não queria conhecer. Ela se encolheu, o pânico subindo pela garganta ao ver tantas pessoas surgindo.
— Eu sou aquele que observa — disse a Entidade, sua voz ecoando como o vento em uma caverna. — Vocês foram retirados de seus tempos. De seus destinos. Estão em uma dimensão onde o tempo é um círculo e o espaço é uma promessa.
— Por que nos trouxe aqui? — Uma mulher de pele escura e porte real, Nehemia Ytger, perguntou, seus olhos observando tudo com uma calma calculada, embora suas mãos estivessem firmemente entrelaçadas.
— Para que conheçam sua história — respondeu a sombra. — Conhecerão seu passado. Conhecerão seu futuro. Talvez aprendam algo antes que o fim os alcance.
— Eu não recebo ordens de sombras — rosnou Lorcan Salvaterre, surgindo ao lado de Rowan Whitethorn. Ambos os guerreiros feéricos pareciam prontos para destruir a biblioteca inteira, mas a magia deles, tão vasta e destrutiva, simplesmente não respondia. Rowan tentou invocar o gelo e o vento, mas sentiu apenas um vácuo onde seu poder deveria estar.
— Aqui, a violência é uma impossibilidade — continuou a Entidade. — Ninguém pode ferir. Ninguém pode morrer. Apenas leiam.
A Entidade desapareceu, deixando para trás um silêncio pesado.
Aos poucos, o salão foi se enchendo. Manon Blackbeak apareceu com as Treze, suas unhas de ferro estalando reflexivamente, os olhos cor de ouro queimado fixos em Rowan e Lorcan. Elide Lochan surgiu em um canto, parecendo pequena e assustada, até que seus olhos encontraram os de Manon. Lysandra, em sua forma humana, ajustou o vestido de seda verde, confusa.
O choque maior, porém, veio quando figuras lendárias começaram a se materializar perto da lareira.
Um homem de beleza devastadora e olhos que carregavam o peso de milênios, vestindo uma armadura que parecia feita de luz solar. Ao lado dele, uma mulher cujos cabelos eram como fogo vivo.
— Brannon? — sussurrou Rowan, sua voz falhando. O primeiro Rei de Terrasen olhou ao redor, sua expressão solene.
— Mala — Gavin Havilliard, o primeiro Rei de Adarlan, disse em um suspiro, olhando para a deusa ao seu lado, que agora assumia uma forma mortal.
Celaena sentiu que ia desmaiar. Ela viu Elena Galathynius Havilliard, a princesa que dera início a tudo. Viu Mab e Mora, as rainhas feéricas cujas linhagens moldaram o mundo. Ao ver Mab, a bisavó que ela nunca conheceu, a respiração de Celaena parou. O pânico que ela estava tentando conter explodiu.
— Isso é um truque — sibilou Celaena, tentando se afastar de todos, as costas batendo em uma estante. — É um truque do Rei de Adarlan. Um veneno nas minas... eu estou alucinando.
— Você não está alucinando, criança — disse Elena, sua voz doce e triste. Ela deu um passo em direção a Celaena, mas a assassina rosnou, mostrando os dentes.
— Não chegue perto! — gritou Celaena.
Dorian, movido por um instinto que nem ele compreendia, deu um passo à frente.
— Você está segura aqui. Ninguém pode te machucar. Olhe para este lugar.
Celaena olhou. A biblioteca era magnífica. Janelas mostravam nebulosas distantes. Mesas estavam postas com banquetes que nunca esfriavam. Mas nada disso importava. Ela era uma prisioneira de Endovier, e ali estavam reis, deuses e guerreiros.
— Sentem-se — disse uma voz ranzinza.
Todos pularam. Uma aldrava em forma de rosto de gárgula estava presa a uma porta de carvalho próxima.
— O livro não vai se ler sozinho — disse Mort, a aldrava, revirando os olhos de bronze. — E eu não tenho a eternidade toda... bem, na verdade eu tenho, mas detesto esperar.
No centro da mesa principal, um livro apareceu. Sua capa era de couro negro, sem título, mas emanava uma aura de importância.
Rowan Whitethorn, sendo o mais pragmático, caminhou até a mesa. Ele olhou para Celaena, que ainda estava encolhida, e depois para os outros. O príncipe feérico sentia uma conexão estranha com aquela garota suja e quebrada, algo que ele não conseguia explicar.
— Se este é o único caminho para sair daqui, então que assim seja — disse Rowan. Ele pegou o livro.
— Esperem — interrompeu Aedion, seus olhos fixos em Celaena. — Quem é ela? Por que ela está nesse estado?
— Ela é a maior assassina de Erilea — respondeu Chaol, sua voz misturando desconfiança e uma estranha piedade. — Eu a retirei de Endovier hoje mesmo.
Um murmúrio percorreu a sala. As bruxas Dente de Ferro observavam Celaena como se fosse uma curiosidade biológica. Yrene Towers, que aparecera perto de uma estante de livros de medicina, sentiu o coração apertar ao ver o estado nutricional da jovem.
— Ela precisa de cuidados, não de um interrogatório — disse Yrene, aproximando-se com cautela.
— Eu não preciso de nada! — disparou Celaena, embora seu estômago roncasse tão alto que todos ouviram.
Dorian soltou uma risada leve, tentando quebrar o gelo.
— Pelo menos o apetite da assassina continua intacto. Por favor, sente-se. Há comida ali que parece muito melhor do que o que quer que deem em Endovier.
Com muita relutância e o instinto de uma presa acuada, Celaena se arrastou até uma poltrona de veludo vermelho, a mais afastada possível dos outros. Dorian sentou-se perto dela, seguido por Chaol. Nehemia sentou-se à direita da assassina, oferecendo-lhe um olhar de solidariedade que Celaena não soube como retribuir.
Rowan abriu o livro. As páginas brilharam levemente.
— O título deste volume é "A Lâmina da Assassina" — anunciou Rowan.
Celaena empalideceu. Suas mãos começaram a tremer sob as dobras de seus trapos. Aquele livro... ele ia contar tudo? Cada erro, cada morte, cada momento de fraqueza?
— Começa com uma crônica — disse Rowan, sua voz profunda ecoando pela biblioteca.
**# CRÔNICA I**
**A Assassina e o Lorde Pirata**
Rowan começou a ler.
— "O calor na Enseada da Caveira era de matar, mesmo à noite."
Celaena fechou os olhos. O cheiro de sal e rum pareceu preencher o ar da biblioteca.
— "Celaena Sardothien, a assassina mais famosa de Adarlan, não estava de bom humor. O navio em que viajava, o *Vingança*, balançava suavemente, mas o cheiro de peixe podre e água estagnada do porto era quase insuportável."
— A assassina mais famosa? — Manon Blackbeak arqueou uma sobrancelha, olhando para a figura esquelética na poltrona. — Você parece mais um rato de sarjeta do que uma lâmina temida, "Adarlan’s Assassin".
— Manon, comporte-se — murmurou Asterin Blackbeak, embora seus olhos também estivessem cheios de ceticismo.
— Espere a leitura continuar, bruxa — sibilou Celaena, o orgulho ferido sobrepujando o medo por um momento. — Você não duraria uma hora sob o comando de Arobynn Hamel.
O nome de Arobynn fez um calafrio percorrer a espinha de vários presentes. Aedion Ashryver apertou o braço da poltrona com tanta força que a madeira rangeu.
Rowan continuou:
— "Ela estava ali por um motivo. Arobynn a enviara, junto com Sam Cortland, para tratar com o Lorde Pirata, Rolfe."
— Sam... — O nome escapou dos lábios de Celaena como um suspiro de agonia. Ela se encolheu na cadeira, abraçando os próprios joelhos.
Dorian notou a reação. Ele olhou para Chaol, que parecia igualmente intrigado. Quem era Sam Cortland? E por que o nome dele parecia causar mais dor na garota do que as cicatrizes em suas costas?
— Rolfe? — perguntou um homem de cabelos escuros e pele bronzeada pelo sol, que estava sentado perto de Nesryn Faliq. Era o próprio Rolfe, o Senhor dos Piratas, que fora trazido de seu próprio tempo em Myriel. — Eu me lembro dessa noite. Foi quando aquela garota insolente quase incendiou meu escritório.
— Quase? — Celaena abriu um olho, um brilho de malícia voltando ao seu rosto. — Eu deveria ter queimado a cidade inteira com você dentro.
— Silêncio — ordenou Lorcan. — Deixem o Whitethorn ler.
Rowan retomou a leitura, descrevendo a chegada de Celaena e Sam à Enseada da Caveira, a arrogância de Celaena com suas roupas caras e sua atitude de superioridade, e a presença constante e protetora de Sam.
— "Sam Cortland era o único que conseguia rivalizar com ela em habilidade, e o único que ousava desafiar seu ego."
— Ele parece ser alguém interessante — comentou Fenrys Moonbeam, com um sorriso de lado, tentando aliviar a tensão. — Um assassino com paciência para lidar com você, *criança*? Ele deve ser um santo.
— Ele era melhor do que todos vocês — disse Celaena, sua voz carregada de uma tristeza tão profunda que Fenrys perdeu o sorriso instantaneamente.
A leitura prosseguiu, detalhando o encontro com Rolfe e a revelação do verdadeiro negócio que o Lorde Pirata estava propondo: o comércio de escravos.
Quando Rowan leu a descrição da reação de Celaena ao ver os escravos nos navios, o clima na biblioteca mudou. A arrogância da assassina foi substituída por uma fúria fria e palpável.
— "Celaena olhou para os homens e mulheres acorrentados, e a fúria que sentiu foi como um incêndio florestal. Ela não era uma salvadora. Ela era uma assassina. Mas aquilo... aquilo era uma abominação."
Nehemia olhou para Celaena com um novo respeito.
— Você se importou — disse a princesa de Eyllwe suavemente. — Mesmo sendo uma assassina treinada para não sentir nada.
— Eu sei o que é ser uma escrava — sibilou Celaena, apontando para as próprias roupas de prisioneira. — Eu passei um ano nas minas de sal. Eu sei o cheiro daquela corrente.
Aedion Ashryver sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Aquela era sua prima. A princesa de Terrasen, reduzida a isso. E ele não estivera lá para protegê-la. Ele olhou para Brannon e Elena, e viu a mesma dor refletida nos olhos dos ancestrais.
— A leitura diz que você e Sam brigaram sobre o que fazer — continuou Rowan, seus olhos prateados fixos no papel. — "Sam queria agir imediatamente. Ele não conseguia suportar o sofrimento deles. Celaena, porém, sabia que precisavam de um plano. Um plano que não os fizesse serem mortos por Arobynn."
— Arobynn Hamel — cuspiu Lysandra. — Aquele homem é o verdadeiro monstro desta história.
— Ele é o meu mestre — disse Celaena, embora a palavra soasse como cinzas em sua boca.
— Um mestre que a enviou para o inferno — rebateu Chaol, sua rigidez militar começando a ceder diante da realidade da vida da garota.
A leitura continuou, descrevendo a tensão crescente entre Celaena e Sam, os momentos de silêncio compartilhado no telhado sob as estrelas da Enseada da Caveira, e o início da conspiração deles para libertar os escravos pelas costas de Rolfe e Arobynn.
— "Eles sabiam que, se falhassem, o castigo de Arobynn seria inimaginável. Mas, naquela noite, enquanto olhavam para o mar, o medo foi substituído por uma determinação sombria."
— Vocês dois eram muito jovens — comentou Gavriel, o tom de voz suave, mas observador. — Agir contra o Rei dos Assassinos e o Lorde Pirata ao mesmo tempo... foi uma audácia impressionante. Ou uma loucura.
— Foi a coisa certa a se fazer — disse Elide Lochan, sua voz pequena, mas firme. Todos se viraram para ela. — Não importa o risco. Salvar aquelas pessoas era a única coisa que importava.
Manon Blackbeak soltou um som de desdém, mas não disse nada. Ela observava Celaena com uma intensidade renovada. Havia algo naquela garota, algo que as chamas de Mala pareciam reconhecer.
Rowan fez uma pausa, olhando para o grupo.
— Há muito mais — disse ele. — Este é apenas o começo.
Celaena afundou-se mais na poltrona. O passado estava sendo desenterrado, os segredos que ela trancara no lugar mais escuro de sua mente estavam sendo expostos para reis e deuses. E, no entanto, enquanto olhava para a lareira e sentia o calor da magia protetora da biblioteca, uma pequena, quase imperceptível parte dela sentiu um alívio.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava sozinha com seus fantasmas.
— Continue — disse Dorian, seus olhos brilhando com uma curiosidade que agora era tingida de admiração. — Continue lendo.
E Rowan retomou, a voz firme guiando todos eles para dentro da mente da assassina que um dia seria rainha.
