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REDLINE
Fandom: Billie Eilish
Criado: 08/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaEstudo de PersonagemCiúmesRealismoLinguagem ExplícitaCenário CanônicoPWP (Enredo? Que enredo?)
O Gosto Amargo do Champagne
O cheiro de querosene de aviação sempre me deu náuseas, mas hoje, o aperto no meu estômago não tinha nada a ver com as turbinas do Gulfstream G650 estacionado no setor privado do aeroporto de Nice. Era um peso morto, uma âncora de ferro fundido que eu carregava no peito desde que as luzes daquela boate em Monte Carlo se apagaram e a realidade da manhã seguinte se impôs com a delicadeza de um soco no rosto.
Eu estava de pé perto da escada retrátil do jato, segurando meu tablet contra o corpo como se fosse um escudo. O sol do Mediterrâneo refletia no metal polido da fuselagem da McLaren, mas eu preferia a sombra. Ajustei a postura, sentindo a rigidez nos meus ombros; eu sabia que, visualmente, eu era a imagem da eficiência. Meus cabelos escuros e ondulados estavam presos em um rabo de cavalo baixo, impecável, e meus olhos — que Billie costumava dizer que pareciam "amêndoas banhadas em mel" quando ela estava bêbada o suficiente para ser poética — estavam escondidos atrás de óculos escuros de grife.
Eu precisava do disfarce. Porque, por dentro, eu estava em pedaços.
— A lista de passageiros foi atualizada, Kyra? — A voz de um dos engenheiros passou por mim, mas eu mal processei. Apenas assenti com um gesto curto.
Meus olhos estavam fixos no SUV preto que encostava no pátio. A porta traseira se abriu e ela saiu.
Billie O’Connell era uma força da natureza, mesmo quando estava claramente de ressaca. Ela usava um conjunto de moletom oversized da sua própria linha de merchandising, preto com detalhes em verde neon, e os cabelos pretos com as raízes vermelho-sangue estavam bagunçados sob um boné da McLaren. Mesmo com as olheiras leves sob os olhos azuis cristalinos, ela exalava aquela energia crua, magnética e perigosamente impulsiva que a tornava a estrela da Fórmula 1.
E logo atrás dela, como uma extensão indesejada, veio o motivo da minha insônia. Valentina.
A modelo italiana era alta, loira e tinha aquele tipo de beleza óbvia que gritava por atenção. Ela usava um vestido de seda que custava mais do que o aluguel do meu apartamento em Londres e sorria para Billie como se tivesse acabado de ganhar o Grande Prêmio sozinha.
— Bom dia, sunshine! — Billie exclamou quando se aproximou de mim, a voz rouca e carregada de um entusiasmo que eu sabia ser, em parte, adrenalina residual. — Conseguiu tudo?
Eu respirei fundo, sentindo o perfume de Billie — uma mistura de sândalo, baunilha e o cheiro metálico que parecia impregnado na pele dela — nublar meus sentidos.
— Tudo pronto, Billie. — Forcei minha voz a soar profissional, neutra, fria. — Valentina está na lista, o visto de emergência para a entrada na Itália foi processado e o hotel em Monza já confirmou a suíte adicional.
Billie abriu um sorriso largo, aquele que fazia suas bochechas subirem e seus olhos brilharem de um jeito que sempre desarmava minhas defesas. Ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal com a familiaridade de quem não conhece limites, e apertou meu ombro com força.
— Você é foda, Ky. Sério. O que eu faria sem esse seu cérebro brilhante? Você é meu anjo da guarda, juro por Deus.
O toque da mão dela, quente e firme através do tecido fino da minha blusa, enviou uma descarga elétrica pela minha espinha. Era uma tortura refinada. Ela me elogiava, me tocava, me chamava de indispensável, mas tudo o que ela via quando olhava para mim era a logística. Eu era a engrenagem que permitia que o motor dela funcionasse sem falhas, inclusive na sua vida amorosa.
— É o meu trabalho — respondi, desviando o olhar para o tablet. — Vamos subir. O controle de tráfego aéreo nos deu uma janela curta.
— Kyra, querida, obrigada por me incluir de última hora — Valentina disse, aproximando-se com um sotaque carregado e uma mão possessiva no braço de Billie. — Billie me falou que você resolve qualquer coisa.
— É o que eu faço — murmurei, sem olhar para ela. — Por favor, entrem.
Subi as escadas logo atrás delas. O interior do jato era o ápice do luxo corporativo, mas parecia uma cela de isolamento. Billie e Valentina se acomodaram nas poltronas de couro creme voltadas uma para a outra. Eu me sentei dois lugares atrás, abrindo meu laptop para fingir que estava mergulhada em planilhas de telemetria e contratos de patrocínio.
Mas eu não conseguia me concentrar. O som da risada de Billie preenchia a cabine.
— Então, Monza... — Billie comentou, esticando as pernas longas no espaço entre as poltronas. Ela tinha uma postura relaxada, quase predatória. — O templo da velocidade. Você vai adorar, Val. A energia é diferente de Mônaco. É mais... visceral.
— Mal posso esperar para ver você dirigir — Valentina ronronou, inclinando-se para frente. — Ouvi dizer que você é muito agressiva nas pistas.
Billie soltou uma risada baixa, um som gutural que me fez apertar os dedos contra o teclado.
— Eu sou agressiva em tudo o que eu faço. Não gosto de perder tempo.
Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo a bile subir na garganta. Eu conhecia aquele tom. Era o tom que Billie usava quando estava caçando. Ela era impulsiva, movida por desejos imediatos, e sua ansiedade crônica muitas vezes se manifestava como uma necessidade frenética de estímulo. Nova pele, novas sensações, novos desafios.
— Kyra? — Billie chamou de repente.
Eu levantei a cabeça, encontrando aqueles olhos azuis fixos em mim. Ela estava me observando com uma intensidade que me fez perder o fôlego por um milésimo de segundo.
— Sim?
— Você está bem? Tá meio pálida. O café da manhã não caiu bem? — Ela franziu a testa, uma expressão de preocupação genuína cruzando seu rosto. Era isso que tornava tudo pior: ela realmente se importava comigo. Da maneira dela, mas se importava.
— Estou bem, Billie. Só dormi pouco organizando as mudanças de logística para Monza.
— Porra, eu te sobrecarreguei, né? — Ela suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Mal posso esperar para chegarmos ao hotel. Você precisa de um descanso. Val, a Kyra é o coração desse time. Se ela pifa, eu bato o carro no primeiro muro que encontrar.
— Entendo perfeitamente — Valentina disse, embora seus olhos estivessem frios ao me avaliar de cima a baixo. Ela não era burra. Ela via a forma como eu olhava para Billie quando achava que ninguém estava vendo.
O voo seguiu em um silêncio tenso para mim, enquanto as duas continuavam um flerte constante. Tentei me focar no trabalho, mas a proximidade física era sufocante. Em certo momento, Billie se levantou para pegar uma bebida no frigobar. No corredor estreito, ela parou ao lado da minha poltrona.
O avião balançou levemente devido a uma turbulência, e ela colocou a mão no encosto da minha cadeira para se equilibrar. Seu corpo ficou a centímetros do meu. Pude sentir o calor que emanava dela, o cheiro de sua pele, a presença física avassaladora que ela possuía. Billie tinha essa masculinidade sutil e inerente, uma confiança que transbordava de cada poro, fruto de uma biologia que ela carregava com uma naturalidade desarmante.
— Quer alguma coisa, Ky? Água? Um uísque para relaxar esses ombros? — Ela sussurrou perto do meu ouvido, a voz vibrando na minha pele.
— Água está bom, obrigada — respondi, minha voz saindo mais falha do que eu gostaria.
Ela se inclinou um pouco mais, o rosto quase tocando o meu.
— Você está muito tensa. O que foi? Monza te deixa nervosa? Ou é a companhia? — Ela lançou um olhar rápido para Valentina e depois voltou para mim, um sorriso de canto de lábio brincando em seu rosto.
— É só o trabalho, Billie. Nada que eu não consiga gerenciar.
— Você gerencia tudo, não é? — Ela esticou a mão e, com o polegar, roçou levemente meu maxilar, um gesto de carinho que era dolorosamente platônico para ela, mas devastador para mim. — Às vezes eu acho que você é de gelo.
— Talvez eu precise ser — murmurei, sustentando o olhar dela.
Por um momento, o tempo pareceu parar. O azul dos olhos dela escureceu, uma centelha de algo indecifrável cruzando suas pupilas. A tensão sexual que eu tentava enterrar há anos subiu à superfície, densa, pesada, quase palpável. Eu queria puxá-la pela gola do moletom e calar aquela boca arrogante com um beijo que diria tudo o que eu não podia falar. E, por um segundo, tive a impressão de que ela sentiu. Que ela viu o abismo entre nós e, por um impulso autodestrutivo, quis pular.
— Billie! — Valentina chamou do fundo, quebrando o feitiço. — Achei aquele vídeo que te falei!
Billie piscou, a conexão se quebrando instantaneamente. Ela me deu um tapinha amigável no ombro — aquele maldito tapinha de "melhores amigos" — e se afastou.
— Já vou! — Ela gritou de volta, pegando a garrafa de água e me entregando. — Toma. Se hidrata, anjo. Preciso de você inteira amanhã.
Assisti ela se afastar, sentindo o peso da minha própria covardia.
***
Chegar ao hotel em Monza foi um exercício de autocontrole. O hotel era um palácio antigo convertido, com corredores largos e tetos altos. Como sempre, meu quarto era estrategicamente localizado ao lado do de Billie, para "emergências".
Depois de garantir que as malas de Valentina fossem entregues e que o serviço de quarto estivesse a postos, eu finalmente me fechei no meu quarto. Joguei minha bolsa no chão e me encostei na porta fechada, respirando com dificuldade.
Meu corpo doía. Não era uma dor física, era uma exaustão emocional que parecia corroer meus ossos. Eu a amava desde os quinze anos. Desde antes dela ser a "Billie Eilish da McLaren", antes da fama, antes de sabermos que o mundo cairia aos seus pés. Eu estive lá em cada crise de ansiedade, em cada vitória, em cada derrota. Eu conhecia cada cicatriz dela, física e emocional. E, no entanto, eu era a pessoa que abria a porta para as outras entrarem.
Um som abafado veio da parede ao lado.
Risadas. Música baixa. O barulho de uma garrafa de champanhe sendo aberta.
Eu sabia o que estava acontecendo. Billie não perdia tempo. Ela era impulsiva, movida pelo agora. A adrenalina de Mônaco ainda corria em suas veias e ela precisava de uma liberação.
Caminhei até a varanda, abrindo as portas francesas para deixar o ar fresco da noite italiana entrar. O parque de Monza estava ao longe, uma mancha escura sob o luar. Eu podia ouvir o som distante de motores sendo testados nos boxes, um eco constante da vida que escolhemos.
Eu me odiava por querer estar lá. Não na pista, mas naquele quarto ao lado. Eu queria ser a pessoa que a acalmava quando a ansiedade batia às três da manhã, mas também queria ser a pessoa que a fazia perder o controle. Eu queria sentir a força de Billie contra mim, a complexidade do seu corpo, a entrega que eu sabia que ela só tinha quando as câmeras estavam desligadas.
A intersexualidade de Billie nunca foi um tabu para nós. Era apenas parte de quem ela era, algo que eu aceitava com a mesma naturalidade com que aceitava a cor dos seus olhos. Para mim, era apenas mais uma faceta da perfeição caótica que ela representava. E o desejo de explorar essa intimidade, de sentir cada parte dela, era um incêndio que eu tentava apagar com copos de água fria e profissionalismo barato.
O som de um gemido alto atravessou a parede fina.
Fechei os olhos com força, minhas unhas cravando na pedra da balaustrada da varanda.
— Porra — sussurrei para a noite, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos meus olhos.
Eu era Kyra Monroe, a mulher que resolvia tudo. A mulher que mantinha a McLaren nos eixos. A mulher que era o "cérebro" da maior estrela do automobilismo mundial.
E eu estava perdendo a cabeça por uma mulher que me chamava de melhor amiga enquanto fodia outra no quarto ao lado.
A temporada estava apenas começando, e eu não sabia quanto tempo mais conseguiria manter essa fachada. Porque a tensão entre nós não era apenas coisa da minha cabeça. Eu vi nos olhos dela no avião. Existe um limite para o quanto você pode comprimir um desejo antes que ele exploda e destrua tudo ao redor.
Eu só não sabia se, quando a explosão acontecesse, eu seria a sobrevivente ou apenas mais um destroço na pista.
Apertei o celular na mão quando ele vibrou. Uma mensagem de Billie.
"Ky, a Val quer saber se você consegue reserva naquele restaurante em Milão para amanhã. O que eu faria sem você? Dorme bem, gatinha."
Joguei o celular na cama e voltei para a varanda. O gosto do champagne que eu nem tinha bebido era amargo. E Monza, com toda a sua glória e velocidade, parecia o lugar mais solitário do mundo.
Eu estava de pé perto da escada retrátil do jato, segurando meu tablet contra o corpo como se fosse um escudo. O sol do Mediterrâneo refletia no metal polido da fuselagem da McLaren, mas eu preferia a sombra. Ajustei a postura, sentindo a rigidez nos meus ombros; eu sabia que, visualmente, eu era a imagem da eficiência. Meus cabelos escuros e ondulados estavam presos em um rabo de cavalo baixo, impecável, e meus olhos — que Billie costumava dizer que pareciam "amêndoas banhadas em mel" quando ela estava bêbada o suficiente para ser poética — estavam escondidos atrás de óculos escuros de grife.
Eu precisava do disfarce. Porque, por dentro, eu estava em pedaços.
— A lista de passageiros foi atualizada, Kyra? — A voz de um dos engenheiros passou por mim, mas eu mal processei. Apenas assenti com um gesto curto.
Meus olhos estavam fixos no SUV preto que encostava no pátio. A porta traseira se abriu e ela saiu.
Billie O’Connell era uma força da natureza, mesmo quando estava claramente de ressaca. Ela usava um conjunto de moletom oversized da sua própria linha de merchandising, preto com detalhes em verde neon, e os cabelos pretos com as raízes vermelho-sangue estavam bagunçados sob um boné da McLaren. Mesmo com as olheiras leves sob os olhos azuis cristalinos, ela exalava aquela energia crua, magnética e perigosamente impulsiva que a tornava a estrela da Fórmula 1.
E logo atrás dela, como uma extensão indesejada, veio o motivo da minha insônia. Valentina.
A modelo italiana era alta, loira e tinha aquele tipo de beleza óbvia que gritava por atenção. Ela usava um vestido de seda que custava mais do que o aluguel do meu apartamento em Londres e sorria para Billie como se tivesse acabado de ganhar o Grande Prêmio sozinha.
— Bom dia, sunshine! — Billie exclamou quando se aproximou de mim, a voz rouca e carregada de um entusiasmo que eu sabia ser, em parte, adrenalina residual. — Conseguiu tudo?
Eu respirei fundo, sentindo o perfume de Billie — uma mistura de sândalo, baunilha e o cheiro metálico que parecia impregnado na pele dela — nublar meus sentidos.
— Tudo pronto, Billie. — Forcei minha voz a soar profissional, neutra, fria. — Valentina está na lista, o visto de emergência para a entrada na Itália foi processado e o hotel em Monza já confirmou a suíte adicional.
Billie abriu um sorriso largo, aquele que fazia suas bochechas subirem e seus olhos brilharem de um jeito que sempre desarmava minhas defesas. Ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal com a familiaridade de quem não conhece limites, e apertou meu ombro com força.
— Você é foda, Ky. Sério. O que eu faria sem esse seu cérebro brilhante? Você é meu anjo da guarda, juro por Deus.
O toque da mão dela, quente e firme através do tecido fino da minha blusa, enviou uma descarga elétrica pela minha espinha. Era uma tortura refinada. Ela me elogiava, me tocava, me chamava de indispensável, mas tudo o que ela via quando olhava para mim era a logística. Eu era a engrenagem que permitia que o motor dela funcionasse sem falhas, inclusive na sua vida amorosa.
— É o meu trabalho — respondi, desviando o olhar para o tablet. — Vamos subir. O controle de tráfego aéreo nos deu uma janela curta.
— Kyra, querida, obrigada por me incluir de última hora — Valentina disse, aproximando-se com um sotaque carregado e uma mão possessiva no braço de Billie. — Billie me falou que você resolve qualquer coisa.
— É o que eu faço — murmurei, sem olhar para ela. — Por favor, entrem.
Subi as escadas logo atrás delas. O interior do jato era o ápice do luxo corporativo, mas parecia uma cela de isolamento. Billie e Valentina se acomodaram nas poltronas de couro creme voltadas uma para a outra. Eu me sentei dois lugares atrás, abrindo meu laptop para fingir que estava mergulhada em planilhas de telemetria e contratos de patrocínio.
Mas eu não conseguia me concentrar. O som da risada de Billie preenchia a cabine.
— Então, Monza... — Billie comentou, esticando as pernas longas no espaço entre as poltronas. Ela tinha uma postura relaxada, quase predatória. — O templo da velocidade. Você vai adorar, Val. A energia é diferente de Mônaco. É mais... visceral.
— Mal posso esperar para ver você dirigir — Valentina ronronou, inclinando-se para frente. — Ouvi dizer que você é muito agressiva nas pistas.
Billie soltou uma risada baixa, um som gutural que me fez apertar os dedos contra o teclado.
— Eu sou agressiva em tudo o que eu faço. Não gosto de perder tempo.
Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo a bile subir na garganta. Eu conhecia aquele tom. Era o tom que Billie usava quando estava caçando. Ela era impulsiva, movida por desejos imediatos, e sua ansiedade crônica muitas vezes se manifestava como uma necessidade frenética de estímulo. Nova pele, novas sensações, novos desafios.
— Kyra? — Billie chamou de repente.
Eu levantei a cabeça, encontrando aqueles olhos azuis fixos em mim. Ela estava me observando com uma intensidade que me fez perder o fôlego por um milésimo de segundo.
— Sim?
— Você está bem? Tá meio pálida. O café da manhã não caiu bem? — Ela franziu a testa, uma expressão de preocupação genuína cruzando seu rosto. Era isso que tornava tudo pior: ela realmente se importava comigo. Da maneira dela, mas se importava.
— Estou bem, Billie. Só dormi pouco organizando as mudanças de logística para Monza.
— Porra, eu te sobrecarreguei, né? — Ela suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Mal posso esperar para chegarmos ao hotel. Você precisa de um descanso. Val, a Kyra é o coração desse time. Se ela pifa, eu bato o carro no primeiro muro que encontrar.
— Entendo perfeitamente — Valentina disse, embora seus olhos estivessem frios ao me avaliar de cima a baixo. Ela não era burra. Ela via a forma como eu olhava para Billie quando achava que ninguém estava vendo.
O voo seguiu em um silêncio tenso para mim, enquanto as duas continuavam um flerte constante. Tentei me focar no trabalho, mas a proximidade física era sufocante. Em certo momento, Billie se levantou para pegar uma bebida no frigobar. No corredor estreito, ela parou ao lado da minha poltrona.
O avião balançou levemente devido a uma turbulência, e ela colocou a mão no encosto da minha cadeira para se equilibrar. Seu corpo ficou a centímetros do meu. Pude sentir o calor que emanava dela, o cheiro de sua pele, a presença física avassaladora que ela possuía. Billie tinha essa masculinidade sutil e inerente, uma confiança que transbordava de cada poro, fruto de uma biologia que ela carregava com uma naturalidade desarmante.
— Quer alguma coisa, Ky? Água? Um uísque para relaxar esses ombros? — Ela sussurrou perto do meu ouvido, a voz vibrando na minha pele.
— Água está bom, obrigada — respondi, minha voz saindo mais falha do que eu gostaria.
Ela se inclinou um pouco mais, o rosto quase tocando o meu.
— Você está muito tensa. O que foi? Monza te deixa nervosa? Ou é a companhia? — Ela lançou um olhar rápido para Valentina e depois voltou para mim, um sorriso de canto de lábio brincando em seu rosto.
— É só o trabalho, Billie. Nada que eu não consiga gerenciar.
— Você gerencia tudo, não é? — Ela esticou a mão e, com o polegar, roçou levemente meu maxilar, um gesto de carinho que era dolorosamente platônico para ela, mas devastador para mim. — Às vezes eu acho que você é de gelo.
— Talvez eu precise ser — murmurei, sustentando o olhar dela.
Por um momento, o tempo pareceu parar. O azul dos olhos dela escureceu, uma centelha de algo indecifrável cruzando suas pupilas. A tensão sexual que eu tentava enterrar há anos subiu à superfície, densa, pesada, quase palpável. Eu queria puxá-la pela gola do moletom e calar aquela boca arrogante com um beijo que diria tudo o que eu não podia falar. E, por um segundo, tive a impressão de que ela sentiu. Que ela viu o abismo entre nós e, por um impulso autodestrutivo, quis pular.
— Billie! — Valentina chamou do fundo, quebrando o feitiço. — Achei aquele vídeo que te falei!
Billie piscou, a conexão se quebrando instantaneamente. Ela me deu um tapinha amigável no ombro — aquele maldito tapinha de "melhores amigos" — e se afastou.
— Já vou! — Ela gritou de volta, pegando a garrafa de água e me entregando. — Toma. Se hidrata, anjo. Preciso de você inteira amanhã.
Assisti ela se afastar, sentindo o peso da minha própria covardia.
***
Chegar ao hotel em Monza foi um exercício de autocontrole. O hotel era um palácio antigo convertido, com corredores largos e tetos altos. Como sempre, meu quarto era estrategicamente localizado ao lado do de Billie, para "emergências".
Depois de garantir que as malas de Valentina fossem entregues e que o serviço de quarto estivesse a postos, eu finalmente me fechei no meu quarto. Joguei minha bolsa no chão e me encostei na porta fechada, respirando com dificuldade.
Meu corpo doía. Não era uma dor física, era uma exaustão emocional que parecia corroer meus ossos. Eu a amava desde os quinze anos. Desde antes dela ser a "Billie Eilish da McLaren", antes da fama, antes de sabermos que o mundo cairia aos seus pés. Eu estive lá em cada crise de ansiedade, em cada vitória, em cada derrota. Eu conhecia cada cicatriz dela, física e emocional. E, no entanto, eu era a pessoa que abria a porta para as outras entrarem.
Um som abafado veio da parede ao lado.
Risadas. Música baixa. O barulho de uma garrafa de champanhe sendo aberta.
Eu sabia o que estava acontecendo. Billie não perdia tempo. Ela era impulsiva, movida pelo agora. A adrenalina de Mônaco ainda corria em suas veias e ela precisava de uma liberação.
Caminhei até a varanda, abrindo as portas francesas para deixar o ar fresco da noite italiana entrar. O parque de Monza estava ao longe, uma mancha escura sob o luar. Eu podia ouvir o som distante de motores sendo testados nos boxes, um eco constante da vida que escolhemos.
Eu me odiava por querer estar lá. Não na pista, mas naquele quarto ao lado. Eu queria ser a pessoa que a acalmava quando a ansiedade batia às três da manhã, mas também queria ser a pessoa que a fazia perder o controle. Eu queria sentir a força de Billie contra mim, a complexidade do seu corpo, a entrega que eu sabia que ela só tinha quando as câmeras estavam desligadas.
A intersexualidade de Billie nunca foi um tabu para nós. Era apenas parte de quem ela era, algo que eu aceitava com a mesma naturalidade com que aceitava a cor dos seus olhos. Para mim, era apenas mais uma faceta da perfeição caótica que ela representava. E o desejo de explorar essa intimidade, de sentir cada parte dela, era um incêndio que eu tentava apagar com copos de água fria e profissionalismo barato.
O som de um gemido alto atravessou a parede fina.
Fechei os olhos com força, minhas unhas cravando na pedra da balaustrada da varanda.
— Porra — sussurrei para a noite, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos meus olhos.
Eu era Kyra Monroe, a mulher que resolvia tudo. A mulher que mantinha a McLaren nos eixos. A mulher que era o "cérebro" da maior estrela do automobilismo mundial.
E eu estava perdendo a cabeça por uma mulher que me chamava de melhor amiga enquanto fodia outra no quarto ao lado.
A temporada estava apenas começando, e eu não sabia quanto tempo mais conseguiria manter essa fachada. Porque a tensão entre nós não era apenas coisa da minha cabeça. Eu vi nos olhos dela no avião. Existe um limite para o quanto você pode comprimir um desejo antes que ele exploda e destrua tudo ao redor.
Eu só não sabia se, quando a explosão acontecesse, eu seria a sobrevivente ou apenas mais um destroço na pista.
Apertei o celular na mão quando ele vibrou. Uma mensagem de Billie.
"Ky, a Val quer saber se você consegue reserva naquele restaurante em Milão para amanhã. O que eu faria sem você? Dorme bem, gatinha."
Joguei o celular na cama e voltei para a varanda. O gosto do champagne que eu nem tinha bebido era amargo. E Monza, com toda a sua glória e velocidade, parecia o lugar mais solitário do mundo.
