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Segunda chance

Fandom: Lésbica

Criado: 09/07/2026

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O Eco de uma Risada

O sol de Viçosa brilhava intensamente sobre o campus da Universidade Federal, refletindo-se nas janelas de vidro dos prédios históricos e aquecendo a grama onde centenas de estudantes se aglomeravam. O ar estava saturado com o cheiro de tinta fresca, cerveja barata e o som ensurdecedor de música pop que saía de caixas de som improvisadas. Para Alice, aquele cenário era um misto de conforto e caos.

Vestida com um vestido leve de flores miúdas que batia nos joelhos — sua escolha favorita para os dias de folga das aulas práticas —, ela segurava um pincel com a mão firme, embora o coração batesse em um ritmo descompassado. Como veterana de Medicina Veterinária, sua missão era marcar os calouros, pintando "Bixo" ou o símbolo da profissão em seus braços e rostos.

— Alice, olha esse aqui! — gritou Yasmin, rindo alto enquanto passava a máquina de cortar cabelo na cabeça de um calouro corajoso. As mechas vermelhas de seu cabelo longo balançavam conforme ela se movia. — Ele disse que quer um moicano, mas acho que vou deixar ele careca de uma vez!

Alice sorriu, uma expressão gentil que iluminava seus olhos âmbar.

— Tenha piedade, Yasmin! O coitado ainda tem que tirar foto para mandar para a mãe — respondeu Alice, a voz doce quase engolida pelo barulho.

Perto dali, Alex, com seu cabelo preto e azul vibrante, estava encostado em uma árvore, gesticulando dramaticamente enquanto conversava com um rapaz alto de Educação Física.

— Querido, se não tiver Lady Gaga na playlist, eu nem considero uma festa de verdade! — Alex exclamou, jogando um beijo no ar enquanto o rapaz ria, claramente interessado.

Tudo parecia perfeito, uma celebração de retorno à rotina que Alice tanto sentia falta. No entanto, o clima mudou quando ela desviou o olhar para o lado, onde Marina tentava conversar com Ethan. Marina, sempre tão doce e reservada, parecia minúscula diante da postura imponente e agressiva de Ethan. O homem, cujos músculos sob a camiseta apertada denunciavam as horas de academia, gesticulava de forma ríspida, seu rosto moreno contorcido em uma expressão de superioridade.

— Eu já disse que não quero você bebendo com esses seus amigos idiotas, Marina! — a voz de Ethan subiu de tom, atraindo alguns olhares preocupados.

Alice sentiu um aperto no peito. Ela queria intervir, mas sua timidez e o medo natural de conflitos a faziam hesitar. Ela sabia que Ethan era manipulador, uma sombra que sugava a alegria de Marina desde que começaram a namorar.

Foi então que, acima do som da discussão e da música, uma risada ecoou.

Não era uma risada qualquer. Era uma risada rouca, vibrante, que parecia vibrar diretamente nos ossos de Alice. Ela congelou. O pincel em sua mão parou no meio do caminho, deixando uma gota de tinta verde cair no chão.

Alice virou a cabeça lentamente, como se estivesse sob um feitiço. Do outro lado do gramado, na área ocupada pelo pessoal do Direito, estava ela.

Beatriz.

Ela estava cercada de gente, como sempre. Beatriz tinha aquela aura magnética que atraía as pessoas sem esforço. Seus cabelos pretos estavam curtinhos, realçando a linha forte de seu maxilar e a clareza de sua pele. Ela vestia uma camiseta de basquete larga e bermudas confortáveis, o estilo despojado que Alice sempre achou irresistivelmente charmoso. Com seus 180 centímetros de altura, ela se destacava na multidão.

Naquele momento, Beatriz disse algo que fez seus amigos caírem na gargalhada, e ela mesma jogou a cabeça para trás, os olhos verdes brilhando sob a luz do sol.

O mundo de Alice parou.

Quatro meses. Tinham se passado quatro meses desde a última vez que se falaram. Quatro meses desde que Alice, em um mar de lágrimas e insegurança, decidiu colocar um fim no que tinham.

As memórias vieram como uma avalanche: o toque das mãos de Beatriz em sua cintura, o calor da pele dela nas noites escondidas no dormitório, a maneira como Beatriz a olhava — como se Alice fosse a única coisa que importava no universo. Mas junto com o desejo, veio a culpa.

Alice se lembrou da última briga.

— Eu não aguento mais ser um segredo, Alice — Beatriz dissera, a voz carregada de uma tristeza que Alice nunca esqueceria. — Eu amo você, mas eu não posso viver nas sombras para sempre porque você tem medo do que seus pais vão dizer.

Alice não tinha conseguido responder. Ela era bissexual, mas o peso da expectativa familiar era uma âncora em seu pescoço. Ela amava Beatriz, mas sentia que estava sendo egoísta ao pedir que uma mulher tão livre, tão assumida e orgulhosa de quem era, se escondesse em um armário sufocante.

Para tentar "se curar", Alice chegou a namorar Matheus logo depois, um rapaz legal que sua família aprovava. Mas foi um desastre silencioso. Ela não sentia nada. Cada beijo de Matheus era um lembrete do que ela realmente queria e não tinha coragem de buscar. Ela terminou com ele antes das férias começarem, sentindo-se uma fraude.

Agora, ali estava Beatriz. Linda, radiante e, aparentemente, feliz sem ela.

— Ei, terra chamando Alice! — Alex apareceu de repente, estalando os dedos na frente do rosto dela. — Você está branca como um papel. O que houve? Viu um fantasma?

Alice piscou, tentando recuperar o fôlego.

— Eu... eu só preciso de um pouco de água, Alex. O sol está forte.

— Sei... o sol — Alex seguiu o olhar dela e suspirou ao ver Beatriz ao longe. — Ah, entendi. O sol de olhos verdes. Alice, você não pode fugir dela para sempre. Vocês estudam no mesmo campus.

— Eu não estou fugindo — mentiu ela, guardando os pincéis com mãos trêmulas. — Eu só lembrei que tenho turno na clínica em vinte minutos. Preciso ir.

— Mas a festa mal começou! — Yasmin se aproximou, limpando o suor da testa. — A Marina e o Ethan acabaram de terminar de novo, ela vai precisar de nós.

Alice olhou para Marina, que agora chorava silenciosamente enquanto Ethan se afastava com um ar de vitória. O instinto de Alice era correr até a amiga, mas ela sentiu um par de olhos sobre si.

Ela olhou para o lado novamente. Beatriz não estava mais rindo. Ela estava olhando diretamente para Alice.

O contato visual durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para desestabilizar Alice completamente. O olhar de Beatriz era intenso, uma mistura de saudade e uma frieza defensiva que cortava como navalha.

— Eu realmente preciso ir — sussurrou Alice, pegando sua bolsa. — Cuidem da Marina por mim, por favor. Eu falo com ela mais tarde.

Alice saiu praticamente correndo, desviando dos grupos de estudantes. Enquanto caminhava em direção à saída do campus, seu celular vibrou no bolso. Por um segundo, seu coração saltou, pensando que poderia ser Beatriz.

Mas, ao pegar o aparelho, o brilho de esperança se apagou. Era uma mensagem de um número desconhecido.

"O vestido de flores ficou lindo em você hoje, Alice. Mas eu prefiro quando você está usando algo mais... revelador. Eu vi você olhando para aquela sapatão. Você é muito areia para o caminhãozinho dela. Logo, logo, você vai entender que só eu posso cuidar de você."

Alice sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O Stalker.

Já fazia algumas semanas que essas mensagens tinham começado. No início, ela achou que fosse algum trote de calouro, mas as mensagens eram constantes e demonstravam que a pessoa sabia exatamente onde ela estava e o que estava vestindo. Ela nunca contou a ninguém, com medo de parecer paranoica ou de preocupar os amigos desnecessariamente.

Ela guardou o celular, sentindo as mãos suarem. O medo agora se misturava à melancolia.

Caminhando apressada em direção à clínica veterinária onde estagiava, Alice tentava organizar seus pensamentos. Por que era tão difícil? Por que ela não conseguia simplesmente ser como Beatriz? Corajosa, autêntica, livre.

Ela entrou na clínica, o cheiro de antisséptico e o som de alguns latidos vindos da área de internação ajudando-a a se aterrar. Ela foi direto para o vestiário, trocando o vestido pelo pijama cirúrgico azul-claro. Ao se olhar no espelho, viu as bochechas coradas e os olhos ainda levemente úmidos.

— Você precisa focar, Alice — disse para si mesma, prendendo o cabelo loiro em um coque firme. — A Beatriz merece alguém que não tenha medo. E você... você só precisa sobreviver ao dia de hoje.

Mas enquanto ela se preparava para atender o primeiro paciente, a risada de Beatriz ainda ecoava em sua mente, um lembrete constante de que, não importa o quanto ela corresse, o seu coração ainda pertencia àquela mulher de olhos verdes que ela não tinha coragem de reivindicar.

A tarde na clínica foi agitada, o que foi uma benção. Ela ajudou em uma cirurgia de castração e realizou alguns curativos em animais resgatados. O trabalho exigia precisão e carinho, duas coisas que Alice tinha de sobra. No entanto, o silêncio dos intervalos era seu inimigo.

Quando o turno finalmente acabou, já era noite. Viçosa tinha aquele ar fresco e úmido das cidades de interior cercadas por montanhas. Alice caminhava em direção ao seu pequeno apartamento, a mente exausta.

Ao chegar na porta de seu prédio, ela viu um vulto encostado na parede, perto da entrada. Seu coração disparou. Seria o stalker? Ela apertou as chaves na mão, pronta para usá-las como defesa.

— Alice?

A voz era baixa, profunda e terrivelmente familiar.

Alice parou bruscamente. Beatriz estava ali, as mãos nos bolsos da calça larga, o olhar fixo no chão antes de levantá-lo para encontrar o dela.

— Bia? O que você está fazendo aqui? — Alice perguntou, a voz falhando.

Beatriz deu um passo à frente, entrando sob a luz do poste. Ela parecia cansada, a armadura de "mulher popular e divertida" que usava na festa tinha caído.

— Eu vi você saindo da festa daquele jeito. Parecia que tinha visto um monstro — Beatriz deu um sorriso triste, sem mostrar os dentes. — Eu só queria saber se você está bem. Alex me disse que você veio para o trabalho.

— Eu estou bem. Só... muita gente, muito barulho — Alice desviou o olhar, sentindo o ciúme e o amor lutarem dentro de si. — Você parecia estar se divertindo.

— É o que as pessoas esperam de mim, não é? — Beatriz deu de ombros, aproximando-se mais um pouco. O perfume amadeirado dela atingiu Alice como um soco, trazendo de volta memórias de noites quentes e segredos sussurrados. — Mas eu não consegui parar de pensar em você desde que te vi com aquele pincel na mão, pintando a cara daqueles calouros idiotas.

Alice sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos.

— Bia, não faz isso. Nós conversamos. Eu não posso te dar o que você precisa. Você merece alguém que sinta orgulho de andar de mãos dadas com você na praça, na frente de todo mundo.

Beatriz soltou um suspiro pesado, uma risada seca e sem humor escapando de seus lábios.

— Você ainda não entendeu, não é? Eu não quero "alguém", Alice. Eu queria você. Mesmo com o armário, mesmo com o segredo... eu teria esperado, se você não tivesse me expulsado da sua vida.

— Eu fiz isso por você! — Alice exclamou, finalmente olhando nos olhos verdes que tanto amava. — Eu não queria que você se sentisse diminuída por causa da minha covardia.

— Pois você me diminuiu muito mais terminando tudo sem me deixar escolher o que eu queria enfrentar — rebateu Beatriz, a frieza que ela às vezes usava como escudo começando a transparecer. — Mas tudo bem. Você fez sua escolha. Só queria garantir que você não tinha desmaiado no meio do campus.

Beatriz se virou para sair, mas hesitou por um segundo.

— Ah, e Alice? Tome cuidado. Eu vi um cara seguindo você de longe quando você saiu da UFV. Um moreno, de boné. Não me pareceu boa coisa.

O sangue de Alice gelou. O stalker.

— Bia, espera! — Alice deu um passo à frente, mas o medo de se entregar, de abrir aquela porta novamente, a travou.

Beatriz olhou por cima do ombro, uma última vez.

— Boa noite, Alice.

Alice ficou parada na calçada, observando a silhueta alta de Beatriz desaparecer na escuridão da rua. Ela entrou no prédio, o coração batendo na garganta. Ao entrar em seu apartamento, trancou a porta com todas as trancas possíveis.

Ela se encostou na madeira fria da porta e escorregou até o chão, escondendo o rosto nas mãos. O cheiro de Beatriz ainda parecia impregnado em seu nariz, e a ameaça invisível do stalker pairava como uma nuvem negra.

Ela estava de volta à faculdade, de volta à rotina, mas nada era igual. O eco da risada de Beatriz tinha quebrado o silêncio de sua negação, e Alice sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que parar de fugir — tanto do perigo que a cercava quanto do amor que ela tentava, desesperadamente, enterrar.
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