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Not Enough

Fandom: Bungou Stray Dogs

Criado: 09/07/2026

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DramaAngústiaOmegaversoHistória DomésticaEstudo de PersonagemTragédiaCiúmesUA (Universo Alternativo)
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O Eco do Silêncio nas Paredes de Ouro

A luz do entardecer filtrava-se pelas cortinas de linho do pequeno apartamento em Yokohama, pintando o ambiente com tons de âmbar e mel. Elias cantarolava uma melodia suave enquanto polia a superfície de madeira da mesa de jantar. Ele era um homem imenso, de ombros largos e mãos fortes que pareciam capazes de esmagar pedras, mas que, naquele momento, moviam-se com a delicadeza de quem toca uma pétala de rosa. Seus cabelos escuros e ondulados caíam sobre os olhos azuis, que brilhavam com uma expectativa silenciosa.

Na gaveta da cômoda, escondida sob pilhas de suéteres tricotados à mão, estava uma pequena caixa de veludo azul. Dentro dela, duas alianças de ouro simples descansavam, compradas com o suor de meses de trabalho extra e economias rigorosas. Elias não se importava com o cansaço. Para ele, cada centavo guardado era um passo em direção ao sonho que acalentava há cinco anos: tornar-se, finalmente, o companheiro oficial de Chuuya Nakahara.

Eles estavam juntos desde os dezessete anos. Elias lembrava-se de cada detalhe do início: o jeito impetuoso de Chuuya, a força avassaladora de sua habilidade e, acima de tudo, a forma como o alfa parecia encontrar paz em seus braços. Elias era o seu porto seguro, o refúgio onde o executivo da Máfia do Porto podia deixar de lado o chapéu e a responsabilidade para ser apenas um homem.

No entanto, havia uma sombra que Elias, em sua infinita bondade, preferia ignorar. Em cinco anos, ele nunca fora apresentado aos colegas de Chuuya. Nunca fora levado a um evento da Máfia. Sempre que Elias sugeria sair para jantar em um lugar movimentado, Chuuya inventava uma desculpa, preferindo o isolamento das quatro paredes do apartamento.

"É para sua proteção", Chuuya dizia, a voz rouca e os olhos desviados. "O mundo da Máfia é perigoso para alguém tão puro como você."

Elias acreditava. Como não acreditaria no homem que amava? Ele sabia que sua aparência não era o padrão esperado para um ômega. Com 1,90m de altura e músculos definidos pela constituição física e pelo trabalho, ele não era a figura frágil e pequena que a sociedade costumava associar à sua casta. Mas seu coração compensava qualquer robustez; ele era o tipo de pessoa que resgatava pássaros feridos e passava horas preparando a comida favorita de Chuuya apenas para vê-lo sorrir.

A porta da frente rangeu. O cheiro de vinho caro e o aroma familiar de cedro e tabaco inundaram o corredor. O coração de Elias deu um salto.

— Chuuya! Você chegou cedo — disse Elias, caminhando até a entrada com um sorriso radiante que iluminava seu rosto bronzeado.

O alfa parou, tirando o chapéu e o colocando sobre o aparador. Chuuya parecia exausto, mas havia algo a mais em seus olhos azuis — algo que Elias não conseguia decifrar. Era uma mistura de culpa e uma estranha satisfação que não pertencia àquela casa.

— É, o trabalho terminou mais cedo hoje — respondeu Chuuya, evitando o contato visual direto enquanto Elias se aproximava para um abraço.

Elias o envolveu em seus braços poderosos, apertando-o com carinho. Ele sentiu Chuuya tensionar por um breve segundo antes de relaxar minimamente. O ômega franziu o nariz por instinto. Havia um cheiro diferente impregnado nas roupas de Chuuya. Não era o cheiro metálico de sangue ou a pólvora comum ao trabalho dele. Era algo doce, como flores de cerejeira, misturado a um odor clínico e, curiosamente, o cheiro inconfundível de um filhote.

— Você esteve perto de algum bebê hoje? — perguntou Elias, afastando-se um pouco, a expressão genuinamente curiosa e doce. — O cheiro é tão forte... é uma delícia.

Chuuya empalideceu visivelmente, dando um passo para trás.

— Não seja ridículo, Elias. Devo ter passado por algum civil na rua. Sabe como é o centro de Yokohama.

— Ah, claro. Me desculpe — disse Elias, sentindo-se culpado por ter perguntado. — Eu preparei aquele ensopado que você gosta. E... eu queria conversar com você sobre algo importante depois do jantar.

Ele pensou na caixa de veludo na gaveta. O momento parecia certo. Eles estavam estáveis, o amor era sólido — ou assim ele acreditava. Elias sonhava com o dia em que Chuuya finalmente morderia sua glândula de acasalamento, selando o vínculo para sempre e permitindo que eles começassem sua própria família. Elias nascera para cuidar; seu instinto materno era tão latente que ele frequentemente se pegava arrumando o ninho no quarto com um zelo quase sagrado.

— Agora não, Elias — cortou Chuuya, a voz subitamente fria. — Eu só quero tomar um banho e dormir. Tive um dia longo.

— Mas, Chuuya...

— Eu disse agora não! — o alfa rosnou, uma nota de comando emanando de sua voz, o que fez Elias recuar imediatamente, os olhos magoados.

Chuuya suspirou, passando a mão pelos cabelos ruivos.

— Olha, eu preciso sair de novo daqui a pouco. Surgiu uma emergência... pessoal.

— Outra emergência? — Elias tentou manter a voz firme, mas a decepção era clara. — É a terceira vez esta semana.

— Não comece com as cobranças, Elias. Você sabe que minha vida é complicada.

Chuuya virou as costas e caminhou em direção ao banheiro, deixando Elias parado no meio da sala, a figura imensa subitamente parecendo pequena diante da solidão do apartamento.

O que Elias não sabia, o que ele jamais poderia imaginar em sua alma gentil, era que a "emergência" de Chuuya tinha nome, endereço e um vínculo de sangue.

A quilômetros dali, em uma cobertura luxuosa e protegida, um homem de cabelos castanhos e bandagens nos braços balançava uma pequena criança de cabelos ruivos e olhos castanhos. Osamu Dazai, o ex-executivo da Máfia, sorria para a filha com uma ternura que poucos haviam visto. Em seu pescoço, a marca de uma mordida de acasalamento estava cicatrizada e orgulhosa.

A porta da cobertura se abriu e Chuuya entrou, mas sua postura era completamente diferente. Não havia a tensão ou a frieza que ele demonstrava com Elias. Havia um alívio quase desesperado.

— Você demorou, Chibi — disse Dazai, a voz suave, sem a habitual ironia ácida. — A pequena estava chamando pelo pai.

Chuuya caminhou até eles, pegando a menina nos braços e beijando sua testa.

— Tive que passar em... um lugar antes. Para pegar umas coisas.

— No "lugar" onde você guarda o seu segredo? — Dazai arqueou uma sobrancelha, o olhar penetrante. — Chuuya, você sabe que não pode manter isso para sempre. Aquele ômega... Elias, não é? Ele é um desperdício de espaço na sua vida.

Chuuya sentiu uma pontada de irritação, mas não era em defesa de Elias. Era a vergonha que sempre sentia.

— Ele é útil. Ele cuida da casa, é discreto. Ninguém desconfia de nada porque ninguém sabe que ele existe. Se eu te assumisse publicamente antes da hora, a Máfia...

— A Máfia já sabe sobre nós, Chuuya. Mori sabe. Você só tem vergonha dele porque ele não se encaixa na sua estética de poder — Dazai riu, um som seco. — Um ômega de quase dois metros? Eu entendo por que você prefere esconder esse "erro". Mas agora você tem uma família de verdade. Uma marca de verdade.

Chuuya olhou para a marca no pescoço de Dazai e depois para a filha em seus braços. Ele amava Dazai com uma obsessão que o consumia. O brilho intelectual de Dazai, a fragilidade calculada, a história que compartilhavam como "Double Black"... tudo isso fazia Elias parecer uma nota de rodapé monótona e embaraçosa em sua biografia.

Enquanto isso, de volta ao apartamento simples, Elias finalmente tomou coragem. Ele não conseguia mais esperar. A incerteza estava corroendo sua paz. Ele decidiu que, se Chuuya ia sair novamente, ele o seguiria — não por desconfiança maldosa, mas porque queria entender o que estava afastando o seu alfa. Talvez ele pudesse ajudar. Talvez a "emergência" fosse algo que eles pudessem enfrentar juntos.

Elias vestiu um casaco grande, escondendo a caixa de veludo no bolso.

Ele viu Chuuya sair do prédio e entrar em um carro preto. Elias, com sua agilidade surpreendente para seu tamanho, pegou um táxi e pediu que seguisse o veículo à distância. Seu coração batia forte contra as costelas. "Por favor, que seja apenas trabalho", ele rezava mentalmente.

O táxi parou diante de um prédio de alto luxo em um bairro nobre. Elias desceu, observando Chuuya entrar com uma chave própria, sem passar pela recepção principal, usando uma entrada lateral privativa. Elias esperou alguns minutos e, aproveitando a entrada de outro morador, conseguiu passar pela segurança. Sua presença era imponente, mas ele sabia se mover silenciosamente quando necessário.

Ele subiu até o andar onde o elevador de Chuuya havia parado. O corredor era silencioso, acarpetado e exalava riqueza. Elias caminhou até a porta final, a única daquele andar.

Antes que pudesse bater, ele ouviu vozes. A porta não estava totalmente trancada; talvez Chuuya, em sua pressa para entrar no seu "lar verdadeiro", tivesse sido negligente.

— ...você precisa terminar com isso, Chuuya. Ele é um estorvo. Imagine se a imprensa ou os inimigos descobrem que o grande Nakahara Chuuya mantém um ômega musculoso e abestalhado em um subúrbio enquanto tem a mim e à nossa filha aqui?

A voz era masculina, melodiosa e carregada de um veneno elegante. Elias sentiu o sangue congelar nas veias. *Filha?*

— Eu sei, Dazai. Eu vou resolver. Eu só... eu sinto pena dele, sabe? Ele é como um cachorro fiel. Ele passou meses economizando para alguma coisa, provavelmente um presente idiota. Ele não tem mais ninguém.

Elias encostou-se na parede fria do corredor. As palavras de Chuuya cortavam mais do que qualquer lâmina que ele já enfrentara. "Cachorro fiel". "Presente idiota".

— Pena não é amor, Chuuya — continuou a voz de Dazai. — E você me marcou. Você pertence a mim e a ela.

Houve um silêncio, seguido pelo som de um beijo e o riso cristalino de um bebê.

Elias, trêmulo, empurrou a porta apenas alguns centímetros. O que ele viu destruiu o resto de sua alma.

Chuuya estava sentado no sofá, com um homem de cabelos castanhos aninhado em seu ombro. Nos braços do homem, uma menininha brincava com os dedos enluvados de Chuuya. O alfa sorria — um sorriso de pura adoração que Elias nunca recebera em cinco anos. No pescoço do homem castanho, a marca de acasalamento era profunda e escura, um sinal permanente de posse e destino.

Elias olhou para as próprias mãos. Ele não tinha marca. Ele tinha apenas as cicatrizes do trabalho duro e a pele bronzeada que Chuuya dizia ser "rústica demais".

Ele levou a mão ao bolso e sentiu o relevo da caixa de veludo. As alianças. O noivado que ele planejava. O futuro que ele construíra tijolo por tijolo em sua mente, enquanto Chuuya construía uma vida real com outra pessoa.

Ele não gritou. Não invadiu a sala para exigir explicações. A bondade de Elias era tamanha que, mesmo naquele momento de dor lancinante, ele não queria assustar a criança.

Ele recuou lentamente, passo a passo, até chegar ao elevador. O mundo parecia ter perdido a cor. O ar estava escasso.

Ao chegar à rua, a chuva começou a cair sobre Yokohama, misturando-se às lágrimas que finalmente escaparam de seus olhos azuis. Elias caminhou sem rumo por horas, a mente repetindo as palavras "estorvo" e "abestalhado".

Ele voltou ao apartamento que chamava de lar. O ensopado ainda estava quente no fogão. O cheiro de Chuuya ainda estava nos lençóis. Com movimentos mecânicos, Elias pegou uma mala pequena. Ele não levou muito. Apenas suas roupas, seus livros de receitas e a caixa de veludo.

Ele deixou a caixa de alianças em cima da mesa de jantar, junto com um bilhete curto. Não havia ódio nas palavras, apenas uma tristeza profunda e final.

*“Eu ouvi você hoje. Sinto muito por ser um estorvo na sua vida perfeita. Eu só queria que você tivesse sido honesto comigo. Você não precisava me esconder; eu teria ido embora se você tivesse pedido, só para te ver feliz. As alianças eram para você, mas vejo que você já tem o seu ouro. Seja um bom pai para ela. Adeus, Chuuya.”*

Elias fechou a porta atrás de si. Ele era um homem grande, forte e musculoso, mas enquanto caminhava em direção à estação de trem sob a chuva, ele parecia a criatura mais frágil do mundo. Pela primeira vez em cinco anos, ele não tinha para onde ir, mas sabia que, onde quer que fosse, não seria mais na sombra de alguém que tinha vergonha de sua luz.

Dentro do apartamento vazio, o relógio da parede tiquetaqueava, contando os segundos até que Chuuya voltasse e encontrasse o peso morto de sua própria traição deixado sobre a mesa de madeira polida. O silêncio, agora, era o único companheiro que restava.
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