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Fandom: A Culpa é do Cabral e 4 amigos
Criado: 09/07/2026
Tags
RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraCiúmesAbuso de ÁlcoolCenário CanônicoEstudo de PersonagemHumorDramaAngústiaMenção de IncestoCrack / Humor ParódicoRealismo
Entre Copos e Confissões
O palco do teatro estava iluminado de uma forma diferente naquela noite. Não era apenas mais um show de stand-up; era a colisão de dois mundos que o público amava: a bancada ácida de "A Culpa é do Cabral" e o entrosamento caótico dos "4 Amigos". No centro de tudo, sentada entre Fabiano Cambota e Afonso Padilha, estava Ana. Cearense de fala mansa, mas raciocínio na velocidade da luz, ela exalava uma confiança que poucos conseguiam desestabilizar.
— Senhoras e senhores, a regra é clara — anunciou Cambota, ajeitando o paletó e apontando para a mesa repleta de copinhos de shot. — O público pergunta. Se o humorista responder, ganha aplausos. Se fugir da raia, vira a dose. E como hoje o clima é de confraternização, as perguntas vieram "quentes" lá de fora.
Ana sorriu, cruzando as pernas com elegância. Ela sabia que sua vida amorosa era um cofre trancado a sete chaves. Ninguém ali sabia que seu coração batia num ritmo perigoso toda vez que Afonso Padilha encostava o braço no dela para rir de uma piada. Para ela, estar ali era um exercício de autocontrole.
— Pode vir o que for — desafiou ela, com aquele sotaque que sempre encantava a plateia. — Eu sou do Ceará, meu povo. A gente já nasce com o couro grosso.
Thiago Ventura, sentado na ponta, soltou uma de suas risadas características.
— Ih, olha a marra da garota! Quero só ver quando o bicho pegar.
A primeira pergunta veio de um rapaz na terceira fila, algo leve sobre o pior show da carreira de Márcio Donato. Márcio respondeu xingando metade da cidade citada, arrancando gargalhadas. Dihh Lopes e Nando Viana também tiraram de letra as primeiras provocações. Mas o clima mudou quando o microfone chegou às mãos de uma mulher loira, sentada estrategicamente no corredor.
Ana gelou. Era Letícia.
— Boa noite, meninos. Boa noite, Ana — disse Letícia, com um sorriso angelical que Ana conhecia bem: era o sorriso da traição. — Minha pergunta é para a nossa convidada cearense. Ana, a gente sabe que você é muito seletiva... mas a plateia quer saber: se você estivesse em uma ilha deserta e tivesse que escolher um dos quatro amigos aqui presentes para passar o resto da vida... com qual deles você ficaria?
O teatro explodiu em um "Ih!" uníssono. Rafael Portugal, do outro lado da mesa, começou a batucar no balcão.
— Responde! Responde! — incitava a plateia.
Ana sentiu o sangue subir. Suas bochechas, normalmente pálidas, ganharam um tom de beterraba que contrastava violentamente com sua postura firme. Ela olhou para o lado. Afonso estava rindo, observando-a com uma curiosidade genuína, os olhos brilhando sob a luz dos refletores. O cheiro do perfume dele parecia ter ficado dez vezes mais forte naquele segundo.
— Letícia... — Ana murmurou, a voz levemente trêmula apesar do esforço. Ela olhou para a fileira de copos à sua frente. — Escolhe qual tu quer que eu beba, vai. Põe logo dois que é pra eu não ter que olhar pra tua cara.
— Bebeu! Fugiu da pergunta! — gritou Nando Viana, enquanto Ana virava a dose de cachaça de uma vez, sentindo o líquido queimar a garganta, mas agradecendo por não ter que verbalizar o nome de Afonso.
— Calma aí, Ana — Afonso comentou, inclinando-se para frente e tocando levemente o ombro dela. — Foi uma pergunta hipotética. Você ficou mais vermelha do que o figurino do Rafael Portugal. Tá escondendo o jogo?
— É o calor das luzes, Afonso. E a audácia dessa minha amiga que eu vou bloquear no WhatsApp assim que sair daqui — ela respondeu rápido, recuperando a compostura, mas sem coragem de sustentar o olhar dele por mais de dois segundos.
A dinâmica continuou, mas o padrão começou a ficar estranho. Natália, outra amiga de Ana, pegou o microfone logo em seguida.
— Ana, é verdade que você tem uma pasta oculta no seu celular com fotos de um certo humorista que gosta de usar boné e contar histórias de Curitiba?
Desta vez, o silêncio no palco foi absoluto por meio segundo, antes de explodir em caos.
— Opa! — Dihh Lopes levantou-se da cadeira. — Boné? Curitiba? Só tem um aqui que se encaixa, hein?
Afonso tirou o próprio boné, coçando a cabeça, parecendo dividido entre a diversão e a confusão.
— Ana? — ele perguntou, num tom mais baixo, quase privado. — Tem foto minha no seu celular, é?
Ana sentiu que poderia desmaiar, mas a teimosia cearense falou mais alto. Ela não disse uma palavra. Simplesmente pegou outro copo e virou. E depois outro.
— Três doses seguidas! — Cambota exclamou, preocupado. — Gente, a Ana vai sair daqui carregada. O que está acontecendo? O público hoje veio para destruir a reputação da moça!
— Não é o público, Cambota — observou Thiago Ventura, aguçado. — São as amigas dela. Elas sabem de algo que a gente não sabe. Olha a cara da Ana. Ela prefere ter um coma alcoólico a falar sobre a vida amorosa.
Ana já sentia o efeito das doses. O rosto queimava, e a timidez, que ela costumava esconder atrás de piadas rápidas, estava começando a ceder lugar a uma vulnerabilidade perigosa. Ela tentou manter o foco, mas cada vez que Afonso se mexia ao seu lado, ela sentia como se o palco estivesse girando um pouco mais rápido.
Foi então que Rafaela, a mais implacável do grupo de amigas, levantou-se com o celular em punho.
— Ana, meu amor — começou Rafaela, com a voz carregada de ironia. — Eu tenho aqui um vídeo de uma certa noite de vinhos, onde você, depois da terceira taça, começou a fazer uma imitação de um certo colega e terminou confessando o que realmente sente por ele. Ou você responde agora quem é o dono do seu coração, ou eu mando esse vídeo direto para o telão da produção.
O público foi ao delírio. Os humoristas na mesa se entreolharam. O clima de brincadeira estava dando lugar a uma descoberta iminente.
— Isso é chantagem! — protestou Ana, embora o sorriso nervoso denunciasse sua derrota. — Rafaela, tu não tem caráter, não?
— Eu tenho sede de verdade, Ana — rebateu a amiga. — Responde ou bebe? Ou melhor... responde ou eu dou o play?
Ana olhou para Afonso. Ele não estava mais apenas rindo. Ele a observava com uma intensidade nova, um olhar de quem estava começando a juntar as peças do quebra-cabeça. Ele percebeu como ela evitava tocá-lo, como ela ficava tensa quando ele fazia piadas sobre relacionamentos, e como, naquela noite, ela preferia se embriagar a admitir qualquer coisa.
— Bebe, Ana — sugeriu Afonso, a voz suave, testando a reação dela. — Se você beber, a gente nunca vai saber o que tem no vídeo. Mas se você não beber... eu estou bem curioso para saber quem é esse cara de Curitiba.
Ana sentiu o coração na boca. Ela pegou a garrafa, nem esperou servirem no copo. Tomou um gole direto, o que fez o teatro virar um hospício de gritos e aplausos.
— Ela está desesperada! — gritou Márcio Donato. — Meu Deus, a Ana está apaixonada por alguém desta mesa e a gente é muito burro por não ter visto antes!
— É o Afonso — soltou Dihh Lopes, sem filtro nenhum. — Olha a cara dela. Se a gente falar o nome dele mais três vezes, ela explode espontaneamente.
— Não viaja, Dihh — Ana tentou dizer, mas a língua já estava levemente enrolada. — Eu só... eu sou reservada. Vocês que são tudo fofoqueiro.
— Reservada é uma coisa, Ana — Cambota interveio, num tom mais acolhedor, mas ainda brincalhão. — Mas você está quase virando o bar inteiro. O Afonso é um cara legal, pô. Se for ele, não precisa ter vergonha.
Afonso, que sempre tinha uma resposta pronta para tudo, estava estranhamente calado. Ele olhava para Ana, vendo a mulher inteligente e rápida que ele sempre admirou agora reduzida a um feixe de nervos e bochechas rosadas. Havia algo de muito doce naquela vulnerabilidade dela que ele nunca tinha notado.
A gravação seguiu para os blocos finais, mas o estrago estava feito. Ana continuou bebendo em quase todas as rodadas que envolviam sua vida pessoal. Ela contou histórias de infância, falou sobre o Ceará, mas toda vez que o assunto "amor" surgia, o copo era seu único refúgio.
Ao final do especial, quando as luzes começaram a baixar e a plateia começou a se dispersar, o elenco se reuniu nos bastidores. Ana estava sentada em um sofá de couro, sentindo o mundo balançar levemente.
— Você está bem? — perguntou uma voz conhecida.
Era Afonso. Ele trazia um copo de água.
— Tô ótima — ela respondeu, tentando recuperar a postura de mulher independente, mas falhando miseravelmente ao quase tombar para o lado. — Só acho que minhas amigas não vão chegar vivas em casa hoje.
Afonso riu, sentando-se ao lado dela. O espaço no sofá era pequeno, e o calor do corpo dele era um lembrete constante de tudo o que ela tentou esconder nas últimas duas horas.
— Elas pegaram pesado — ele admitiu, entregando a água para ela. — Mas sabe o que é engraçado?
— O quê? — ela perguntou, bebendo a água com avidez.
— Elas te conhecem muito bem. E eu achei que te conhecia também. Mas hoje... — Ele fez uma pausa, olhando-a nos olhos. — Hoje eu vi uma Ana que eu não conhecia. Por que você teve tanto medo daquelas perguntas, Ana?
Ela desviou o olhar, o rosto esquentando novamente, e não era mais por causa do álcool.
— Eu não gosto de exposição, Afonso. Você sabe. O palco é pra piada, não pra minha vida.
— É — ele murmurou, aproximando-se apenas um pouco mais. — Mas você não bebeu daquele jeito quando perguntaram do seu ex-namorado. Você só bebeu quando o assunto era alguém que estava aqui.
Ana ficou em silêncio. A inteligência dela, que sempre servia para criar saídas geniais, parecia ter tirado folga.
— Amanhã eu nem vou lembrar disso — ela mentiu, a voz baixa.
— Mas eu vou — Afonso respondeu, com um sorriso de canto que fez o estômago dela dar voltas. — Eu vou lembrar de cada vez que você ficou vermelha.
Antes que ela pudesse responder, Thiago e Dihh passaram por eles, rindo alto e trocando olhares significativos.
— E aí, o casal do ano já se acertou ou vai precisar de mais uma garrafa de cachaça? — provocou Dihh, passando direto para o camarim.
Ana cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido de frustração.
— Eu odeio todos vocês.
— Não odeia não — Afonso disse, levantando-se e estendendo a mão para ajudá-la a levantar. — Vem, vou te levar pro hotel antes que você decida beber a água do aquário da produção.
Enquanto caminhavam para fora do teatro, Ana sentiu que, embora tivesse tentado esconder seu segredo com todas as forças, a "emboscada" das amigas tinha aberto uma porta que ela não conseguiria mais fechar. E, pelo modo como Afonso segurava sua mão para garantir que ela não tropeçasse, talvez ela nem quisesse mais fechar porta nenhuma.
O especial daquela noite seria editado, cortes seriam feitos, mas para quem estava naquele palco, a verdade tinha ficado clara entre um shot e outro: a comediante mais reservada do Brasil tinha um ponto fraco. E esse ponto fraco estava, naquele momento, abrindo a porta do carro para ela com um sorriso que prometia muitas perguntas — dessa vez, sem câmeras e sem doses para fugir.
— Senhoras e senhores, a regra é clara — anunciou Cambota, ajeitando o paletó e apontando para a mesa repleta de copinhos de shot. — O público pergunta. Se o humorista responder, ganha aplausos. Se fugir da raia, vira a dose. E como hoje o clima é de confraternização, as perguntas vieram "quentes" lá de fora.
Ana sorriu, cruzando as pernas com elegância. Ela sabia que sua vida amorosa era um cofre trancado a sete chaves. Ninguém ali sabia que seu coração batia num ritmo perigoso toda vez que Afonso Padilha encostava o braço no dela para rir de uma piada. Para ela, estar ali era um exercício de autocontrole.
— Pode vir o que for — desafiou ela, com aquele sotaque que sempre encantava a plateia. — Eu sou do Ceará, meu povo. A gente já nasce com o couro grosso.
Thiago Ventura, sentado na ponta, soltou uma de suas risadas características.
— Ih, olha a marra da garota! Quero só ver quando o bicho pegar.
A primeira pergunta veio de um rapaz na terceira fila, algo leve sobre o pior show da carreira de Márcio Donato. Márcio respondeu xingando metade da cidade citada, arrancando gargalhadas. Dihh Lopes e Nando Viana também tiraram de letra as primeiras provocações. Mas o clima mudou quando o microfone chegou às mãos de uma mulher loira, sentada estrategicamente no corredor.
Ana gelou. Era Letícia.
— Boa noite, meninos. Boa noite, Ana — disse Letícia, com um sorriso angelical que Ana conhecia bem: era o sorriso da traição. — Minha pergunta é para a nossa convidada cearense. Ana, a gente sabe que você é muito seletiva... mas a plateia quer saber: se você estivesse em uma ilha deserta e tivesse que escolher um dos quatro amigos aqui presentes para passar o resto da vida... com qual deles você ficaria?
O teatro explodiu em um "Ih!" uníssono. Rafael Portugal, do outro lado da mesa, começou a batucar no balcão.
— Responde! Responde! — incitava a plateia.
Ana sentiu o sangue subir. Suas bochechas, normalmente pálidas, ganharam um tom de beterraba que contrastava violentamente com sua postura firme. Ela olhou para o lado. Afonso estava rindo, observando-a com uma curiosidade genuína, os olhos brilhando sob a luz dos refletores. O cheiro do perfume dele parecia ter ficado dez vezes mais forte naquele segundo.
— Letícia... — Ana murmurou, a voz levemente trêmula apesar do esforço. Ela olhou para a fileira de copos à sua frente. — Escolhe qual tu quer que eu beba, vai. Põe logo dois que é pra eu não ter que olhar pra tua cara.
— Bebeu! Fugiu da pergunta! — gritou Nando Viana, enquanto Ana virava a dose de cachaça de uma vez, sentindo o líquido queimar a garganta, mas agradecendo por não ter que verbalizar o nome de Afonso.
— Calma aí, Ana — Afonso comentou, inclinando-se para frente e tocando levemente o ombro dela. — Foi uma pergunta hipotética. Você ficou mais vermelha do que o figurino do Rafael Portugal. Tá escondendo o jogo?
— É o calor das luzes, Afonso. E a audácia dessa minha amiga que eu vou bloquear no WhatsApp assim que sair daqui — ela respondeu rápido, recuperando a compostura, mas sem coragem de sustentar o olhar dele por mais de dois segundos.
A dinâmica continuou, mas o padrão começou a ficar estranho. Natália, outra amiga de Ana, pegou o microfone logo em seguida.
— Ana, é verdade que você tem uma pasta oculta no seu celular com fotos de um certo humorista que gosta de usar boné e contar histórias de Curitiba?
Desta vez, o silêncio no palco foi absoluto por meio segundo, antes de explodir em caos.
— Opa! — Dihh Lopes levantou-se da cadeira. — Boné? Curitiba? Só tem um aqui que se encaixa, hein?
Afonso tirou o próprio boné, coçando a cabeça, parecendo dividido entre a diversão e a confusão.
— Ana? — ele perguntou, num tom mais baixo, quase privado. — Tem foto minha no seu celular, é?
Ana sentiu que poderia desmaiar, mas a teimosia cearense falou mais alto. Ela não disse uma palavra. Simplesmente pegou outro copo e virou. E depois outro.
— Três doses seguidas! — Cambota exclamou, preocupado. — Gente, a Ana vai sair daqui carregada. O que está acontecendo? O público hoje veio para destruir a reputação da moça!
— Não é o público, Cambota — observou Thiago Ventura, aguçado. — São as amigas dela. Elas sabem de algo que a gente não sabe. Olha a cara da Ana. Ela prefere ter um coma alcoólico a falar sobre a vida amorosa.
Ana já sentia o efeito das doses. O rosto queimava, e a timidez, que ela costumava esconder atrás de piadas rápidas, estava começando a ceder lugar a uma vulnerabilidade perigosa. Ela tentou manter o foco, mas cada vez que Afonso se mexia ao seu lado, ela sentia como se o palco estivesse girando um pouco mais rápido.
Foi então que Rafaela, a mais implacável do grupo de amigas, levantou-se com o celular em punho.
— Ana, meu amor — começou Rafaela, com a voz carregada de ironia. — Eu tenho aqui um vídeo de uma certa noite de vinhos, onde você, depois da terceira taça, começou a fazer uma imitação de um certo colega e terminou confessando o que realmente sente por ele. Ou você responde agora quem é o dono do seu coração, ou eu mando esse vídeo direto para o telão da produção.
O público foi ao delírio. Os humoristas na mesa se entreolharam. O clima de brincadeira estava dando lugar a uma descoberta iminente.
— Isso é chantagem! — protestou Ana, embora o sorriso nervoso denunciasse sua derrota. — Rafaela, tu não tem caráter, não?
— Eu tenho sede de verdade, Ana — rebateu a amiga. — Responde ou bebe? Ou melhor... responde ou eu dou o play?
Ana olhou para Afonso. Ele não estava mais apenas rindo. Ele a observava com uma intensidade nova, um olhar de quem estava começando a juntar as peças do quebra-cabeça. Ele percebeu como ela evitava tocá-lo, como ela ficava tensa quando ele fazia piadas sobre relacionamentos, e como, naquela noite, ela preferia se embriagar a admitir qualquer coisa.
— Bebe, Ana — sugeriu Afonso, a voz suave, testando a reação dela. — Se você beber, a gente nunca vai saber o que tem no vídeo. Mas se você não beber... eu estou bem curioso para saber quem é esse cara de Curitiba.
Ana sentiu o coração na boca. Ela pegou a garrafa, nem esperou servirem no copo. Tomou um gole direto, o que fez o teatro virar um hospício de gritos e aplausos.
— Ela está desesperada! — gritou Márcio Donato. — Meu Deus, a Ana está apaixonada por alguém desta mesa e a gente é muito burro por não ter visto antes!
— É o Afonso — soltou Dihh Lopes, sem filtro nenhum. — Olha a cara dela. Se a gente falar o nome dele mais três vezes, ela explode espontaneamente.
— Não viaja, Dihh — Ana tentou dizer, mas a língua já estava levemente enrolada. — Eu só... eu sou reservada. Vocês que são tudo fofoqueiro.
— Reservada é uma coisa, Ana — Cambota interveio, num tom mais acolhedor, mas ainda brincalhão. — Mas você está quase virando o bar inteiro. O Afonso é um cara legal, pô. Se for ele, não precisa ter vergonha.
Afonso, que sempre tinha uma resposta pronta para tudo, estava estranhamente calado. Ele olhava para Ana, vendo a mulher inteligente e rápida que ele sempre admirou agora reduzida a um feixe de nervos e bochechas rosadas. Havia algo de muito doce naquela vulnerabilidade dela que ele nunca tinha notado.
A gravação seguiu para os blocos finais, mas o estrago estava feito. Ana continuou bebendo em quase todas as rodadas que envolviam sua vida pessoal. Ela contou histórias de infância, falou sobre o Ceará, mas toda vez que o assunto "amor" surgia, o copo era seu único refúgio.
Ao final do especial, quando as luzes começaram a baixar e a plateia começou a se dispersar, o elenco se reuniu nos bastidores. Ana estava sentada em um sofá de couro, sentindo o mundo balançar levemente.
— Você está bem? — perguntou uma voz conhecida.
Era Afonso. Ele trazia um copo de água.
— Tô ótima — ela respondeu, tentando recuperar a postura de mulher independente, mas falhando miseravelmente ao quase tombar para o lado. — Só acho que minhas amigas não vão chegar vivas em casa hoje.
Afonso riu, sentando-se ao lado dela. O espaço no sofá era pequeno, e o calor do corpo dele era um lembrete constante de tudo o que ela tentou esconder nas últimas duas horas.
— Elas pegaram pesado — ele admitiu, entregando a água para ela. — Mas sabe o que é engraçado?
— O quê? — ela perguntou, bebendo a água com avidez.
— Elas te conhecem muito bem. E eu achei que te conhecia também. Mas hoje... — Ele fez uma pausa, olhando-a nos olhos. — Hoje eu vi uma Ana que eu não conhecia. Por que você teve tanto medo daquelas perguntas, Ana?
Ela desviou o olhar, o rosto esquentando novamente, e não era mais por causa do álcool.
— Eu não gosto de exposição, Afonso. Você sabe. O palco é pra piada, não pra minha vida.
— É — ele murmurou, aproximando-se apenas um pouco mais. — Mas você não bebeu daquele jeito quando perguntaram do seu ex-namorado. Você só bebeu quando o assunto era alguém que estava aqui.
Ana ficou em silêncio. A inteligência dela, que sempre servia para criar saídas geniais, parecia ter tirado folga.
— Amanhã eu nem vou lembrar disso — ela mentiu, a voz baixa.
— Mas eu vou — Afonso respondeu, com um sorriso de canto que fez o estômago dela dar voltas. — Eu vou lembrar de cada vez que você ficou vermelha.
Antes que ela pudesse responder, Thiago e Dihh passaram por eles, rindo alto e trocando olhares significativos.
— E aí, o casal do ano já se acertou ou vai precisar de mais uma garrafa de cachaça? — provocou Dihh, passando direto para o camarim.
Ana cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido de frustração.
— Eu odeio todos vocês.
— Não odeia não — Afonso disse, levantando-se e estendendo a mão para ajudá-la a levantar. — Vem, vou te levar pro hotel antes que você decida beber a água do aquário da produção.
Enquanto caminhavam para fora do teatro, Ana sentiu que, embora tivesse tentado esconder seu segredo com todas as forças, a "emboscada" das amigas tinha aberto uma porta que ela não conseguiria mais fechar. E, pelo modo como Afonso segurava sua mão para garantir que ela não tropeçasse, talvez ela nem quisesse mais fechar porta nenhuma.
O especial daquela noite seria editado, cortes seriam feitos, mas para quem estava naquele palco, a verdade tinha ficado clara entre um shot e outro: a comediante mais reservada do Brasil tinha um ponto fraco. E esse ponto fraco estava, naquele momento, abrindo a porta do carro para ela com um sorriso que prometia muitas perguntas — dessa vez, sem câmeras e sem doses para fugir.
