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Música e Barulho

Fandom: MJ

Criado: 09/07/2026

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Entre o Palco e o Arroz com Feijão

A iluminação do Estádio do Maracanã era um organismo vivo. Cinquenta mil vozes criavam um rugido que não era apenas som, era uma pressão física contra o peito. No centro de tudo, Alexander "Rio" Valentino não parecia esmagado pela escala do evento. Ele estava parado, a guitarra Gibson pendurada no ombro, observando o mar de gente com aquela calma silenciosa que o acompanhava desde Cabo Frio.

Ele não gritou. Não pediu que batessem palmas. Apenas deu um passo à frente e tocou o primeiro acorde de uma versão improvisada de "Garota de Ipanema", misturada com o rock progressivo que o tornara o artista mais cobiçado do ano. Quando ele começou a dançar — um movimento fluido, quase felino, que lembrava a capoeira que praticava na infância —, o estádio explodiu.

Rio era uma força da natureza. Ele falava com a multidão através das cordas da guitarra, terminando o show sentado na beira do palco, as pernas balançando sobre o fosso de segurança, ouvindo o Rio de Janeiro cantar para ele.

Mas, três horas depois, o silêncio era absoluto.

O jato particular cruzava o Atlântico em direção aos Estados Unidos. No interior luxuoso da cabine, Rio não parecia o deus da guitarra que havia dominado o Maracanã. Ele usava um casaco de lã macio, os óculos de grau na ponta do nariz, e escrevia freneticamente em um guardanapo de papel amassado.

— Você vai acabar furando o papel se continuar apertando a caneta desse jeito — uma voz suave e levemente rouca soou ao seu lado.

Rio levantou os olhos e sorriu. O sorriso que ele guardava apenas para os momentos em que as câmeras estavam desligadas.

— É uma ideia para o arranjo de "Human Nature" — explicou Rio, a voz baixa, o sotaque brasileiro ainda marcando as vogais. — Quero colocar algo que soe como a chuva em Petrópolis. Sabe aquele som abafado, mas constante?

Michael, que estava encolhido na poltrona ao lado, apoiou o queixo no ombro de Rio. Ele cheirava a baunilha e a algo que Rio identificava apenas como "casa".

— Deixe-me ver — Michael esticou a mão, os dedos longos e delicados tocando os de Rio. Ele leu as anotações rítmicas. — É complexo. É... matemático, mas emocional. Como você faz isso?

— Eu não sei — Rio deu de ombros, sentindo o calor do corpo de Michael contra o seu. — Eu só sinto falta do som das telhas de barro.

Michael riu, um som cristalino que preencheu a cabine.

— Você é um mistério, Alexander. O mundo acha que você é um rebelde silencioso, mas você é apenas um garoto com saudades de casa.

— E você é o Rei do Pop, mas está tentando roubar meu guardanapo — brincou Rio, fechando a mão sobre o papel.

Michael não recuou. Em vez disso, ele se inclinou mais, apoiando a cabeça no peito de Rio, fechando os olhos enquanto sentia a vibração da risada do outro.

— No palco, eu sou o que eles querem que eu seja — sussurrou Michael. — Aqui, eu só quero saber se você vai cozinhar aquilo de novo quando chegarmos em Neverland.

— Arroz com feijão? — Rio sorriu, passando a mão pelos cachos de Michael, desfazendo o penteado perfeito que os estilistas haviam levado horas para criar.

— Sim. E aquela carne que você tempera com alho. Muito alho.

— Você vai ficar com hálito de tempero brasileiro, Michael. As pessoas vão notar.

— Deixe que notem — Michael murmurou, já quase pegando no sono. — Eu gosto do seu cheiro.

***

Dois dias depois, a realidade era outra. Eles estavam na cozinha da residência principal de Neverland, às duas da manhã. A luz da coifa era a única fonte de iluminação, criando sombras longas contra os armários de carvalho.

Rio estava de avental, picando cebolas com uma precisão que faria um cirurgião ter inveja. Michael estava sentado no balcão, balançando as pernas, folheando um livro sobre arquitetura colonial brasileira que Rio havia deixado na sala.

— Rio? — Michael chamou, sem desviar os olhos das fotos de Ouro Preto.

— Oi, moreno.

— Por que as igrejas têm tanto ouro?

Rio parou de picar a cebola e olhou para Michael. O apelido "moreno" sempre fazia Michael sorrir de um jeito tímido, um segredo linguístico que só os dois compartilhavam.

— É uma história longa e triste, Michael. Tem a ver com a nossa colonização, com o que tiraram da terra. Mas, visualmente... acho que era a tentativa deles de chegar mais perto do céu.

Michael fechou o livro e deslizou do balcão, caminhando até Rio. Ele circulou a cintura do músico com os braços, ignorando o fato de que Rio estava segurando uma faca.

— Você fala de um jeito tão bonito — Michael disse, encostando o nariz no pescoço de Rio. — Às vezes eu sinto que você vê cores que eu não vejo.

— Eu vejo você — Rio respondeu, largando a faca e virando-se nos braços de Michael. — Isso já é cor o suficiente.

O momento de ternura foi interrompido pelo som do telefone fixo na parede. Rio suspirou, mas Michael não o soltou.

— Não atenda — pediu Michael. — Deve ser o Frank querendo falar sobre a agenda da turnê. Ou o advogado. Ou alguém querendo um pedaço de nós.

— Pode ser importante, Michael.

— Nada é mais importante do que o arroz que está começando a fritar — Michael rebateu, com uma ponta de teimosia infantil que Rio achava adorável.

O telefone parou de tocar, mas o clima de isolamento havia sido levemente arranhado. Rio voltou para o fogão, jogando o arroz na panela. O som do chiado preencheu o silêncio.

— Sabe — disse Rio, enquanto mexia o arroz —, às vezes eu me pergunto se as pessoas acreditariam se vissem isso.

— O quê? — Michael se aproximou, curioso.

— Isso. Eu, o "guitarrista do século", fazendo comida de madrugada para o homem mais famoso do planeta, que está usando meias furadas e tentando aprender português.

Michael olhou para os próprios pés e soltou uma gargalhada ao ver que, de fato, havia um pequeno furo no calcanhar de sua meia direita.

— Eles nunca entenderiam — disse Michael, recuperando a compostura, mas com os olhos brilhando. — Eles querem o mito. Eles querem as luvas de lantejoulas e os solos de trinta minutos. Eles não querem saber que a gente discute sobre quem vai lavar a louça.

— Eu sempre lavo a louça — Rio pontuou, fingindo indignação.

— Porque eu seco! Eu sou ótimo secando. Sou um artista da secagem — Michael provocou, dando um beijinho rápido no ombro de Rio antes de se afastar para pegar os pratos.

A dinâmica entre eles era esse equilíbrio delicado. No mundo exterior, Rio era o protetor silencioso, o homem que caminhava meio passo atrás de Michael em eventos públicos, observando cada segurança, cada fotógrafo, cada movimento suspeito. Ele era os olhos de Michael quando Michael precisava fechar os dele para o mundo.

Mas ali, entre quatro paredes, os papéis se invertiam. Michael era o expansivo, o carinhoso, aquele que buscava o contato físico a cada cinco minutos.

— Rio? — Michael perguntou, enquanto colocava os talheres na mesa de madeira da cozinha.

— Sim?

— Você sente muita falta de lá? De Cabo Frio?

Rio parou por um segundo, a colher de pau suspensa sobre a panela.

— Sinto. Sinto falta do cheiro do mar que não é esse mar daqui. Sinto falta de falar sem precisar traduzir meus sentimentos antes de abrir a boca. Mas... — Ele se virou e olhou para Michael, que o observava com uma expressão de genuína preocupação. — Eu não trocaria o que temos por nada. Nem pela paz daquela praia.

Michael caminhou até ele e segurou seu rosto com as duas mãos.

— Eu vou aprender — prometeu Michael com uma seriedade quase solene. — Vou aprender sua língua. Vou aprender sua cultura. Vou ser um pouco brasileiro também, para que você nunca sinta que está longe demais de casa.

Rio sentiu um nó na garganta. Ele era um homem de poucas palavras, mas naquele momento, as palavras nem eram necessárias. Ele apenas puxou Michael para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço do cantor.

***

Algumas semanas depois, a bolha de privacidade foi testada. Eles estavam em Nova York para uma premiação. O hotel estava cercado por milhares de fãs e dezenas de paparazzi.

No saguão, antes de entrarem no carro, uma modelo famosa, que Rio conhecia de alguns trabalhos de moda em Paris, aproximou-se para cumprimentá-lo. Ela era linda, falava português fluentemente e começou uma conversa animada sobre um fotógrafo em comum.

Rio, sendo educado, sorriu e respondeu. Ele estava gesticulando, explicando algo sobre uma lente de câmera, quando sentiu uma presença ao seu lado.

Michael apareceu do nada. Ele não disse "com licença". Ele simplesmente se colocou entre Rio e a modelo, fingindo que estava ajustando a gravata de Rio.

— Oh, Alexander — disse Michael, a voz um oitavo mais alta que o normal —, esquecemos de verificar se o carro está com o ar-condicionado ligado. Você sabe como eu fico com calor. Precisamos ir agora. Agora mesmo.

A modelo piscou, confusa. Rio olhou para Michael, que tinha uma expressão de absoluta inocência, embora seus dedos estivessem apertando o braço de Rio com uma possessividade mal disfarçada.

— Michael, a gente acabou de descer... — Rio começou a dizer.

— É urgente, Rio. O ar-condicionado. A camada de ozônio. Coisas importantes — Michael disse, arrastando Rio em direção à saída.

Quando entraram na limusine e os vidros escuros os isolaram do caos, Rio caiu na gargalhada.

— Ar-condicionado, Michael? Sério? Essa foi a sua melhor desculpa?

Michael cruzou os braços e olhou pela janela, tentando manter a pose de ofendido, mas um sorrisinho começou a brincar no canto de sua boca.

— Ela estava muito perto. E ela fala português. Isso é trapaça.

— Ela é apenas uma colega de trabalho, moreno — Rio disse, aproximando-se e passando o braço pelo pescoço de Michael. — E ela não sabe fazer arroz com feijão.

Michael relaxou imediatamente, encostando a cabeça no ombro de Rio.

— Ela não sabe?

— Nem se a vida dela dependesse disso.

Michael soltou um suspiro de satisfação e entrelaçou seus dedos nos de Rio.

— Bom. Então acho que posso perdoar o ar-condicionado.

O carro seguia pelo trânsito de Manhattan. Lá fora, o mundo gritava seus nomes, criava teorias, escrevia manchetes e tentava decifrar quem eram aqueles dois homens. Mas ali dentro, no espaço de poucos metros quadrados, o maior astro do pop e o guitarrista mais talentoso da geração eram apenas dois jovens tentando proteger a simplicidade de um afeto que não cabia em capas de revista.

Rio olhou para a Polaroid que trazia na carteira, tirada naquela noite na cozinha de Neverland. Michael estava borrado, rindo de alguma coisa que Rio tinha dito, com um grão de arroz no canto da boca.

Era aquela imagem, e não os Grammys na estante, que Rio salvaria se o mundo estivesse pegando fogo.

— Rio? — Michael chamou baixinho, já quase chegando ao local do evento.

— Sim?

— Me ensina a dizer "eu te amo" em português? Mas do jeito que as pessoas dizem quando realmente querem dizer isso. Sem câmeras.

Rio sentiu o coração acelerar, o mesmo ritmo de quando subia ao palco para cinquenta mil pessoas. Ele se inclinou e sussurrou no ouvido de Michael, a voz carregada de toda a saudade de Cabo Frio e de todo o amor que havia encontrado na Califórnia.

— Eu te amo, meu moreno.

Michael repetiu as palavras, tropeçando levemente nas vogais nasais, mas com uma doçura que fez Rio fechar os olhos.

— Eu te amo, meu Rio.

O carro parou. As portas se abriram. Os flashes começaram a disparar como metralhadoras de luz. Alexander "Rio" Valentino assumiu sua postura silenciosa e observadora, e Michael Jackson vestiu sua máscara de timidez educada.

Eles saíram do carro, separados por alguns centímetros de protocolo, mas unidos pelo segredo do alho na carne e das palavras sussurradas no escuro. O mundo via as estrelas; eles viam um ao outro. E, para eles, isso era a única coisa que realmente importava.
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