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Fandom: Sonic
Criado: 09/07/2026
Tags
DramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemCenário CanônicoRomance
O Silêncio da Marreta de Pincel
O céu sobre Green Hill estava de um azul impecável, salpicado por nuvens que pareciam algodão doce flutuando ao sabor da brisa. Era o dia perfeito para o piquenique anual do grupo, uma daquelas raras ocasiões em que o destino do mundo não estava em jogo e o único vilão a ser enfrentado era a fome. Tails havia trazido uma cesta tecnológica que mantinha os sanduíches na temperatura ideal, Knuckles estava ocupado demais tentando provar que conseguia abrir cocos apenas com o olhar, e Shadow, por algum motivo que ninguém ousava questionar, estava encostado em uma árvore distante, de braços cruzados, observando tudo com seu habitual desdém silencioso.
Sonic, o centro das atenções como sempre, estava relaxado sobre a grama, girando uma maçã entre os dedos. Ele estava em seu elemento: cercado de amigos, com o sol aquecendo seus espinhos e a promessa de uma corrida logo após o almoço.
— Eu estou dizendo, Tails — exclamou Knuckles, gesticulando dramaticamente com um pedaço de torta —, se a gente colocasse um motor naquela sua prancha, ela não seria mais rápida que eu descendo a colina rolando. A gravidade é a minha melhor amiga.
— Knuckles, isso desafia todas as leis da aerodinâmica que eu estudei — respondeu Tails, ajustando os óculos com um sorriso paciente. — Mas eu adoraria ver você tentar, só pela ciência.
— Ciência é apenas o nome que você dá para as coisas que eu faço naturalmente — rebateu a equidna, arrancando uma risada de Sonic.
Foi nesse momento que uma silhueta rosa apareceu no topo da colina. Amy Rose estava caminhando em direção ao grupo.
Sonic, por puro instinto e anos de condicionamento, sentiu aquele frio familiar na espinha. Ele sabia o que vinha a seguir: o grito de "Sonikku!", o abraço de urso que quase quebrava suas costelas e a perseguição implacável que duraria pelo menos três voltas completas pela ilha.
— Lá vem ela! — Sonic deu um pulo, já aquecendo os pés. — Se me derem licença, pessoal, eu tenho uma marca de velocidade para bater!
Ele disparou. Um borrão azul cortou a grama, deixando um rastro de poeira para trás. Sonic correu cerca de duzentos metros, esperando ouvir os passos leves e determinados de Amy atrás dele, ou talvez o som de seu Piko Piko Hammer batendo no chão enquanto ela exigia atenção.
Mas houve apenas o silêncio.
Sonic diminuiu o passo, parando gradualmente. Ele olhou por cima do ombro, confuso. Amy não estava correndo. Ela nem sequer havia acelerado o passo. Ela continuava caminhando calmamente em direção à toalha do piquenique, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo e um olhar sereno, quase distante.
Lá na colina, as risadas de Knuckles e Tails morreram instantaneamente. Até Shadow descruzou os braços, tombando levemente a cabeça para o lado, intrigado.
Amy chegou ao grupo e, em vez de perguntar para onde Sonic tinha ido, ela simplesmente deu um sorriso suave e contido.
— Olá, pessoal — disse ela, com uma voz que soava como uma brisa leve, muito diferente do tom vibrante de outrora. — Espero não ter chegado tarde demais.
— Amy? — Tails piscou, confuso. — Você... você está bem?
— Estou ótima, Tails. Por que não estaria? — Ela se sentou em uma ponta vazia da toalha, longe do lugar onde Sonic costumava ficar. — O dia está lindo, não acham?
Sonic voltou caminhando lentamente, a confusão estampada em seu rosto. Ele parou a poucos metros dela, esperando que ela notasse sua presença, que ela pulasse e dissesse o quanto sentiu sua falta desde... bem, desde ontem.
— Ah, oi, Sonic — disse ela, sem desviar o olhar da paisagem. — Que bom que voltou. A torta do Tails parece deliciosa.
— É... — Sonic coçou a nuca, sentindo um desconforto estranho. — É, eu voltei. Achei que você... sabe...
— Achou o quê? — perguntou ela, finalmente olhando para ele. Seus olhos verdes, antes cheios de uma energia avassaladora, agora eram poços de uma calma profunda e melancólica.
— Nada. Deixa pra lá.
O restante do piquenique foi, no mínimo, bizarro. Amy não tentou sentar ao lado de Sonic. Ela não tentou alimentá-lo com morangos. Ela não mencionou casamentos, encontros ou o futuro. Ela apenas conversou educadamente sobre o clima com Tails e ouviu as histórias exageradas de Knuckles com um sorriso gentil, mas sem as gargalhadas de antes.
— O que deu nela? — sussurrou Knuckles para Sonic, enquanto Amy ajudava Tails a guardar os talheres. — Ela não tentou nem te dar um cascudo hoje. Isso é sinal de apocalipse?
— Eu não sei, Knuckles — respondeu Sonic, observando-a de longe. — Ela está... diferente.
Os dias que se seguiram apenas confirmaram a mudança. Amy Rose, a ouriça que era o coração pulsante e barulhento do grupo, havia se tornado uma sombra doce e silenciosa de si mesma. Ela não aparecia mais sem avisar na casa de Sonic com flores ou planos mirabolantes. Quando se encontravam na cidade, ela apenas acenava de longe, oferecendo um cumprimento educado antes de seguir seu caminho.
Ela estava mais introvertida. Passava horas lendo em parques ou cuidando de um pequeno jardim que ninguém sabia que ela tinha. Ela não evitava os amigos de forma grosseira, mas havia uma barreira invisível, uma distância segura que ela mantinha de todos, especialmente de Sonic.
Uma tarde, Sonic estava sentado no telhado da oficina de Tails, observando o pôr do sol, quando o jovem gênio subiu para se juntar a ele.
— Ela não veio hoje de novo, não é? — perguntou Tails, sentando-se ao lado do irmão mais velho.
— Não — Sonic suspirou, chutando o ar. — Eu passei pela casa dela. As luzes estavam apagadas, mas eu vi ela na varanda. Ela estava apenas... olhando para o horizonte. Eu chamei, perguntei se ela queria ir comer um chili dog, e ela só disse: "Hoje não, Sonic, obrigada. Estou aproveitando o silêncio".
— É estranho — comentou Tails, mexendo em uma chave inglesa por puro hábito. — A Amy sempre foi a pessoa que nos mantinha unidos com aquela energia toda. Agora, parece que ela encontrou um mundo só dela onde a gente não entra mais.
— E o Shadow? — perguntou Sonic. — Ele disse alguma coisa?
— Você conhece o Shadow. Ele disse que "finalmente ela amadureceu e parou de ser irritante". Mas eu vi ele observando ela no outro dia no parque. Até ele parece achar que tem algo errado.
Sonic sentiu um aperto no peito que não conseguia explicar. Ele sempre tinha reclamado da perseguição de Amy, sempre tinha fugido dos seus abraços e evitado seus planos românticos. Mas agora que o silêncio havia se instalado, ele parecia ensurdecedor. Ele sentia falta do brilho, da insistência, daquela certeza absoluta de que, não importa o quão rápido ele corresse, Amy Rose estaria lá para tentar alcançá-lo.
Naquela noite, Sonic não conseguiu dormir. Ele correu. Correu até que seus pulmões ardessem e suas pernas pedissem trégua. E, sem perceber, seus pés o levaram até o jardim de Amy.
A casa estava mergulhada na penumbra da lua. Amy estava sentada em um banco de madeira, cercada por rosas brancas que brilhavam sob a luz lunar. Ela não usava seu vestido vermelho habitual, mas uma túnica simples e clara. Ela parecia um espírito da floresta, calma e intocável.
— Eu sabia que você viria, Sonic — disse ela, sem se virar.
Sonic parou, a respiração ainda um pouco ofegante.
— Como sabia? Eu fui silencioso.
— Eu conheço o som do seu vento — ela deu um pequeno sorriso, virando o rosto para olhá-lo. — O que faz aqui a esta hora?
— Eu... eu estava correndo. — Ele se aproximou, hesitante. — Amy, o que está acontecendo?
— Acontecendo? — Ela inclinou a cabeça.
— Você está diferente. Você não corre mais atrás de mim. Você não grita meu nome. Você mal fala com o Tails ou com o Knuckles. Até o Shadow está achando estranho, e o Shadow acha tudo normal desde que envolva armas ou escuridão!
Amy soltou uma risadinha baixa, um som que aqueceu o coração de Sonic por um breve segundo antes de desaparecer.
— Eu apenas cansei de correr, Sonic. Não é nada contra você, ou contra os meninos.
— Mas você ama correr! — protestou ele. — Você ama a agitação!
— Eu achava que amava — corrigiu ela suavemente, voltando a olhar para as flores. — Mas percebi que eu corria porque tinha medo de que, se eu parasse, eu descobriria que não havia nada me esperando. Eu corria atrás de você esperando que você parasse para me ver. Mas você nunca parava. Então, um dia, eu simplesmente parei de correr. E descobri que o silêncio é... gentil.
Sonic sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
— Amy, eu... eu não queria que você se sentisse assim.
— Não se sinta culpado, Sonic — disse ela, levantando-se e caminhando até ele. Ela parou a uma distância respeitável, sem o abraço que ele esperava. — Eu ainda gosto de você. Ainda sou sua amiga. Mas eu não preciso mais estar colada em você para me sentir completa. Eu aprendi a gostar da minha própria companhia.
— Mas a gente sente sua falta — admitiu Sonic, a voz falhando levemente. — Eu sinto sua falta. Da Amy que... que me fazia correr mais rápido.
Amy estendeu a mão e tocou levemente o ombro de Sonic. O toque era gentil, mas faltava a eletricidade de antes.
— Aquela Amy era movida por um desejo que não existe mais. Eu mudei, Sonic. Todos mudamos. Você deveria estar feliz, não deveria? Finalmente tem a liberdade que sempre quis. Ninguém te perseguindo, ninguém te cobrando nada.
Ela deu as costas a ele, caminhando em direção à porta de sua casa.
— Boa noite, Sonic. Vá descansar. Você correu muito hoje.
Sonic ficou parado no meio do jardim, cercado pelo perfume das rosas e pelo silêncio esmagador. Ele tinha a liberdade que sempre desejou. O caminho estava livre. Não havia ninguém para interceptá-lo ou atrasá-lo.
Pela primeira vez em sua vida, Sonic o Ouriço descobriu que a velocidade não significava nada se ele estivesse correndo para longe de alguém que não estava mais tentando alcançá-lo.
Nos dias seguintes, o grupo tentou se adaptar à "Nova Amy". Knuckles tentou fazer piadas mais ácidas para ver se ela reagia, mas ela apenas sorria e dizia que era uma observação interessante. Tails tentou convidá-la para ver suas novas invenções, e ela ia, mas ficava apenas observando em silêncio, sem a empolgação de antes.
Shadow foi o único que confrontou a situação de forma direta. Ele a encontrou na biblioteca da cidade.
— Você está morrendo? — perguntou ele, direto ao ponto, cruzando os braços enquanto ela folheava um livro de botânica.
Amy levantou os olhos, calma.
— Não, Shadow. Por que a pergunta?
— Você está agindo como se tivesse desistido da vida. Onde está a garota irritante que martelava robôs e gritava por atenção?
— Ela cresceu, Shadow. Ela percebeu que o mundo não gira em torno de um ouriço azul.
Shadow soltou um ruído que poderia ser interpretado como um grunhido de concordância ou desdém.
— O azulzinho está um desastre. Ele errou três saltos ontem no treinamento. Ele está distraído.
Amy fechou o livro com um clique suave.
— Ele vai superar. Sonic é rápido, lembra? Ele se recupera de tudo.
Mas Sonic não estava se recuperando. Ele estava triste. A melancolia havia se instalado em seus espinhos como uma chuva fina que não passava. Ele passava pelos lugares onde Amy costumava emboscá-lo e sentia um vazio. Ele via a marreta dela encostada no canto da sala dela através da janela e sentia uma saudade dolorosa do peso daquele objeto e da força daquela garota.
Ele percebeu que a extroversão de Amy não era um fardo, era o combustível que mantinha o grupo vibrante. Sem o brilho dela, tudo parecia em tons de cinza.
Certa tarde, o grupo se reuniu novamente na colina. Amy estava lá, sentada um pouco afastada, desenhando em um caderno. Knuckles estava tentando contar uma história sobre como ele quase derrotou um exército de robôs sozinho, mas sua voz não tinha a mesma convicção. Tails estava apenas cutucando a grama.
Sonic olhou para Amy. Ela parecia tão em paz, tão resolvida em sua solidão gentil. Ele se levantou e caminhou até ela, sentando-se na grama ao seu lado, respeitando o espaço que ela havia criado.
— O que está desenhando? — perguntou ele, tentando soar casual.
— Apenas o vale — respondeu ela, mostrando o caderno. O desenho era lindo, detalhado, capturando a essência da paz que ela agora emanava.
— Amy... — Sonic começou, hesitando. — Eu sinto muito.
Ela parou o lápis.
— Pelo quê?
— Por não ter parado antes. Eu estava tão ocupado fugindo que não percebi que você era a única pessoa que realmente conseguia me acompanhar. Não porque você era rápida, mas porque você nunca desistia.
Amy olhou para ele, e por um breve momento, Sonic viu um lampejo da antiga Amy em seus olhos verdes. Uma faísca de emoção que ela estava tentando manter sob controle.
— Sonic...
— Eu não quero que você volte a me perseguir se isso te faz mal — continuou ele, as palavras saindo rápidas demais. — Mas eu não gosto desse silêncio. Eu sinto falta da sua voz. Eu sinto falta de você estar perto. Eu sinto falta de... de nós.
Amy fechou o caderno lentamente. Ela olhou para Tails, Knuckles e Shadow, que fingiam não estar ouvindo, mas estavam todos com as orelhas atentas.
— Eu não posso voltar a ser quem eu era, Sonic — disse ela em voz baixa. — Aquela Amy se machucou demais tentando ser o que você queria, ou o que ela achava que você queria.
— Então seja essa nova Amy — disse Sonic, estendendo a mão para ela, mas sem tocá-la. — Mas seja ela perto da gente. Perto de mim. Você não precisa correr atrás de mim, Amy. Eu posso caminhar ao seu lado.
Amy olhou para a mão dele. O vento soprou, balançando seus espinhos rosa. Ela deu um sorriso, desta vez um pouco mais largo, um pouco mais real.
— Caminhar é um pouco devagar para você, não acha?
— Para você — Sonic sorriu de volta, sentindo um peso sair de seus ombros —, eu posso até aprender a andar.
Amy não pulou nele. Ela não gritou. Ela apenas inclinou a cabeça e encostou o ombro no dele, um gesto pequeno, mas carregado de significado.
— Talvez um passeio amanhã? — sugeriu ela. — Sem correria. Apenas para ver as flores novas no setor sul.
— Eu estarei lá — prometeu Sonic. — Dez minutos antes da hora.
Knuckles soltou um suspiro audível de alívio lá atrás.
— Finalmente! O clima estava tão pesado que eu achei que o Eggman tinha lançado uma bomba de depressão na gente!
Tails riu, e até Shadow deu um meio sorriso quase imperceptível.
A Amy Rose que perseguia Sonic talvez tivesse partido para sempre, dando lugar a uma jovem mais calma, doce e introvertida. Mas, enquanto Sonic a observava voltar ao seu desenho, ele percebeu que, embora o silêncio dela ainda estivesse lá, ele não era mais um muro. Era apenas uma nova melodia que ele teria que aprender a ouvir. E, para Sonic, valia a pena diminuir o passo para escutar.
Sonic, o centro das atenções como sempre, estava relaxado sobre a grama, girando uma maçã entre os dedos. Ele estava em seu elemento: cercado de amigos, com o sol aquecendo seus espinhos e a promessa de uma corrida logo após o almoço.
— Eu estou dizendo, Tails — exclamou Knuckles, gesticulando dramaticamente com um pedaço de torta —, se a gente colocasse um motor naquela sua prancha, ela não seria mais rápida que eu descendo a colina rolando. A gravidade é a minha melhor amiga.
— Knuckles, isso desafia todas as leis da aerodinâmica que eu estudei — respondeu Tails, ajustando os óculos com um sorriso paciente. — Mas eu adoraria ver você tentar, só pela ciência.
— Ciência é apenas o nome que você dá para as coisas que eu faço naturalmente — rebateu a equidna, arrancando uma risada de Sonic.
Foi nesse momento que uma silhueta rosa apareceu no topo da colina. Amy Rose estava caminhando em direção ao grupo.
Sonic, por puro instinto e anos de condicionamento, sentiu aquele frio familiar na espinha. Ele sabia o que vinha a seguir: o grito de "Sonikku!", o abraço de urso que quase quebrava suas costelas e a perseguição implacável que duraria pelo menos três voltas completas pela ilha.
— Lá vem ela! — Sonic deu um pulo, já aquecendo os pés. — Se me derem licença, pessoal, eu tenho uma marca de velocidade para bater!
Ele disparou. Um borrão azul cortou a grama, deixando um rastro de poeira para trás. Sonic correu cerca de duzentos metros, esperando ouvir os passos leves e determinados de Amy atrás dele, ou talvez o som de seu Piko Piko Hammer batendo no chão enquanto ela exigia atenção.
Mas houve apenas o silêncio.
Sonic diminuiu o passo, parando gradualmente. Ele olhou por cima do ombro, confuso. Amy não estava correndo. Ela nem sequer havia acelerado o passo. Ela continuava caminhando calmamente em direção à toalha do piquenique, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo e um olhar sereno, quase distante.
Lá na colina, as risadas de Knuckles e Tails morreram instantaneamente. Até Shadow descruzou os braços, tombando levemente a cabeça para o lado, intrigado.
Amy chegou ao grupo e, em vez de perguntar para onde Sonic tinha ido, ela simplesmente deu um sorriso suave e contido.
— Olá, pessoal — disse ela, com uma voz que soava como uma brisa leve, muito diferente do tom vibrante de outrora. — Espero não ter chegado tarde demais.
— Amy? — Tails piscou, confuso. — Você... você está bem?
— Estou ótima, Tails. Por que não estaria? — Ela se sentou em uma ponta vazia da toalha, longe do lugar onde Sonic costumava ficar. — O dia está lindo, não acham?
Sonic voltou caminhando lentamente, a confusão estampada em seu rosto. Ele parou a poucos metros dela, esperando que ela notasse sua presença, que ela pulasse e dissesse o quanto sentiu sua falta desde... bem, desde ontem.
— Ah, oi, Sonic — disse ela, sem desviar o olhar da paisagem. — Que bom que voltou. A torta do Tails parece deliciosa.
— É... — Sonic coçou a nuca, sentindo um desconforto estranho. — É, eu voltei. Achei que você... sabe...
— Achou o quê? — perguntou ela, finalmente olhando para ele. Seus olhos verdes, antes cheios de uma energia avassaladora, agora eram poços de uma calma profunda e melancólica.
— Nada. Deixa pra lá.
O restante do piquenique foi, no mínimo, bizarro. Amy não tentou sentar ao lado de Sonic. Ela não tentou alimentá-lo com morangos. Ela não mencionou casamentos, encontros ou o futuro. Ela apenas conversou educadamente sobre o clima com Tails e ouviu as histórias exageradas de Knuckles com um sorriso gentil, mas sem as gargalhadas de antes.
— O que deu nela? — sussurrou Knuckles para Sonic, enquanto Amy ajudava Tails a guardar os talheres. — Ela não tentou nem te dar um cascudo hoje. Isso é sinal de apocalipse?
— Eu não sei, Knuckles — respondeu Sonic, observando-a de longe. — Ela está... diferente.
Os dias que se seguiram apenas confirmaram a mudança. Amy Rose, a ouriça que era o coração pulsante e barulhento do grupo, havia se tornado uma sombra doce e silenciosa de si mesma. Ela não aparecia mais sem avisar na casa de Sonic com flores ou planos mirabolantes. Quando se encontravam na cidade, ela apenas acenava de longe, oferecendo um cumprimento educado antes de seguir seu caminho.
Ela estava mais introvertida. Passava horas lendo em parques ou cuidando de um pequeno jardim que ninguém sabia que ela tinha. Ela não evitava os amigos de forma grosseira, mas havia uma barreira invisível, uma distância segura que ela mantinha de todos, especialmente de Sonic.
Uma tarde, Sonic estava sentado no telhado da oficina de Tails, observando o pôr do sol, quando o jovem gênio subiu para se juntar a ele.
— Ela não veio hoje de novo, não é? — perguntou Tails, sentando-se ao lado do irmão mais velho.
— Não — Sonic suspirou, chutando o ar. — Eu passei pela casa dela. As luzes estavam apagadas, mas eu vi ela na varanda. Ela estava apenas... olhando para o horizonte. Eu chamei, perguntei se ela queria ir comer um chili dog, e ela só disse: "Hoje não, Sonic, obrigada. Estou aproveitando o silêncio".
— É estranho — comentou Tails, mexendo em uma chave inglesa por puro hábito. — A Amy sempre foi a pessoa que nos mantinha unidos com aquela energia toda. Agora, parece que ela encontrou um mundo só dela onde a gente não entra mais.
— E o Shadow? — perguntou Sonic. — Ele disse alguma coisa?
— Você conhece o Shadow. Ele disse que "finalmente ela amadureceu e parou de ser irritante". Mas eu vi ele observando ela no outro dia no parque. Até ele parece achar que tem algo errado.
Sonic sentiu um aperto no peito que não conseguia explicar. Ele sempre tinha reclamado da perseguição de Amy, sempre tinha fugido dos seus abraços e evitado seus planos românticos. Mas agora que o silêncio havia se instalado, ele parecia ensurdecedor. Ele sentia falta do brilho, da insistência, daquela certeza absoluta de que, não importa o quão rápido ele corresse, Amy Rose estaria lá para tentar alcançá-lo.
Naquela noite, Sonic não conseguiu dormir. Ele correu. Correu até que seus pulmões ardessem e suas pernas pedissem trégua. E, sem perceber, seus pés o levaram até o jardim de Amy.
A casa estava mergulhada na penumbra da lua. Amy estava sentada em um banco de madeira, cercada por rosas brancas que brilhavam sob a luz lunar. Ela não usava seu vestido vermelho habitual, mas uma túnica simples e clara. Ela parecia um espírito da floresta, calma e intocável.
— Eu sabia que você viria, Sonic — disse ela, sem se virar.
Sonic parou, a respiração ainda um pouco ofegante.
— Como sabia? Eu fui silencioso.
— Eu conheço o som do seu vento — ela deu um pequeno sorriso, virando o rosto para olhá-lo. — O que faz aqui a esta hora?
— Eu... eu estava correndo. — Ele se aproximou, hesitante. — Amy, o que está acontecendo?
— Acontecendo? — Ela inclinou a cabeça.
— Você está diferente. Você não corre mais atrás de mim. Você não grita meu nome. Você mal fala com o Tails ou com o Knuckles. Até o Shadow está achando estranho, e o Shadow acha tudo normal desde que envolva armas ou escuridão!
Amy soltou uma risadinha baixa, um som que aqueceu o coração de Sonic por um breve segundo antes de desaparecer.
— Eu apenas cansei de correr, Sonic. Não é nada contra você, ou contra os meninos.
— Mas você ama correr! — protestou ele. — Você ama a agitação!
— Eu achava que amava — corrigiu ela suavemente, voltando a olhar para as flores. — Mas percebi que eu corria porque tinha medo de que, se eu parasse, eu descobriria que não havia nada me esperando. Eu corria atrás de você esperando que você parasse para me ver. Mas você nunca parava. Então, um dia, eu simplesmente parei de correr. E descobri que o silêncio é... gentil.
Sonic sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
— Amy, eu... eu não queria que você se sentisse assim.
— Não se sinta culpado, Sonic — disse ela, levantando-se e caminhando até ele. Ela parou a uma distância respeitável, sem o abraço que ele esperava. — Eu ainda gosto de você. Ainda sou sua amiga. Mas eu não preciso mais estar colada em você para me sentir completa. Eu aprendi a gostar da minha própria companhia.
— Mas a gente sente sua falta — admitiu Sonic, a voz falhando levemente. — Eu sinto sua falta. Da Amy que... que me fazia correr mais rápido.
Amy estendeu a mão e tocou levemente o ombro de Sonic. O toque era gentil, mas faltava a eletricidade de antes.
— Aquela Amy era movida por um desejo que não existe mais. Eu mudei, Sonic. Todos mudamos. Você deveria estar feliz, não deveria? Finalmente tem a liberdade que sempre quis. Ninguém te perseguindo, ninguém te cobrando nada.
Ela deu as costas a ele, caminhando em direção à porta de sua casa.
— Boa noite, Sonic. Vá descansar. Você correu muito hoje.
Sonic ficou parado no meio do jardim, cercado pelo perfume das rosas e pelo silêncio esmagador. Ele tinha a liberdade que sempre desejou. O caminho estava livre. Não havia ninguém para interceptá-lo ou atrasá-lo.
Pela primeira vez em sua vida, Sonic o Ouriço descobriu que a velocidade não significava nada se ele estivesse correndo para longe de alguém que não estava mais tentando alcançá-lo.
Nos dias seguintes, o grupo tentou se adaptar à "Nova Amy". Knuckles tentou fazer piadas mais ácidas para ver se ela reagia, mas ela apenas sorria e dizia que era uma observação interessante. Tails tentou convidá-la para ver suas novas invenções, e ela ia, mas ficava apenas observando em silêncio, sem a empolgação de antes.
Shadow foi o único que confrontou a situação de forma direta. Ele a encontrou na biblioteca da cidade.
— Você está morrendo? — perguntou ele, direto ao ponto, cruzando os braços enquanto ela folheava um livro de botânica.
Amy levantou os olhos, calma.
— Não, Shadow. Por que a pergunta?
— Você está agindo como se tivesse desistido da vida. Onde está a garota irritante que martelava robôs e gritava por atenção?
— Ela cresceu, Shadow. Ela percebeu que o mundo não gira em torno de um ouriço azul.
Shadow soltou um ruído que poderia ser interpretado como um grunhido de concordância ou desdém.
— O azulzinho está um desastre. Ele errou três saltos ontem no treinamento. Ele está distraído.
Amy fechou o livro com um clique suave.
— Ele vai superar. Sonic é rápido, lembra? Ele se recupera de tudo.
Mas Sonic não estava se recuperando. Ele estava triste. A melancolia havia se instalado em seus espinhos como uma chuva fina que não passava. Ele passava pelos lugares onde Amy costumava emboscá-lo e sentia um vazio. Ele via a marreta dela encostada no canto da sala dela através da janela e sentia uma saudade dolorosa do peso daquele objeto e da força daquela garota.
Ele percebeu que a extroversão de Amy não era um fardo, era o combustível que mantinha o grupo vibrante. Sem o brilho dela, tudo parecia em tons de cinza.
Certa tarde, o grupo se reuniu novamente na colina. Amy estava lá, sentada um pouco afastada, desenhando em um caderno. Knuckles estava tentando contar uma história sobre como ele quase derrotou um exército de robôs sozinho, mas sua voz não tinha a mesma convicção. Tails estava apenas cutucando a grama.
Sonic olhou para Amy. Ela parecia tão em paz, tão resolvida em sua solidão gentil. Ele se levantou e caminhou até ela, sentando-se na grama ao seu lado, respeitando o espaço que ela havia criado.
— O que está desenhando? — perguntou ele, tentando soar casual.
— Apenas o vale — respondeu ela, mostrando o caderno. O desenho era lindo, detalhado, capturando a essência da paz que ela agora emanava.
— Amy... — Sonic começou, hesitando. — Eu sinto muito.
Ela parou o lápis.
— Pelo quê?
— Por não ter parado antes. Eu estava tão ocupado fugindo que não percebi que você era a única pessoa que realmente conseguia me acompanhar. Não porque você era rápida, mas porque você nunca desistia.
Amy olhou para ele, e por um breve momento, Sonic viu um lampejo da antiga Amy em seus olhos verdes. Uma faísca de emoção que ela estava tentando manter sob controle.
— Sonic...
— Eu não quero que você volte a me perseguir se isso te faz mal — continuou ele, as palavras saindo rápidas demais. — Mas eu não gosto desse silêncio. Eu sinto falta da sua voz. Eu sinto falta de você estar perto. Eu sinto falta de... de nós.
Amy fechou o caderno lentamente. Ela olhou para Tails, Knuckles e Shadow, que fingiam não estar ouvindo, mas estavam todos com as orelhas atentas.
— Eu não posso voltar a ser quem eu era, Sonic — disse ela em voz baixa. — Aquela Amy se machucou demais tentando ser o que você queria, ou o que ela achava que você queria.
— Então seja essa nova Amy — disse Sonic, estendendo a mão para ela, mas sem tocá-la. — Mas seja ela perto da gente. Perto de mim. Você não precisa correr atrás de mim, Amy. Eu posso caminhar ao seu lado.
Amy olhou para a mão dele. O vento soprou, balançando seus espinhos rosa. Ela deu um sorriso, desta vez um pouco mais largo, um pouco mais real.
— Caminhar é um pouco devagar para você, não acha?
— Para você — Sonic sorriu de volta, sentindo um peso sair de seus ombros —, eu posso até aprender a andar.
Amy não pulou nele. Ela não gritou. Ela apenas inclinou a cabeça e encostou o ombro no dele, um gesto pequeno, mas carregado de significado.
— Talvez um passeio amanhã? — sugeriu ela. — Sem correria. Apenas para ver as flores novas no setor sul.
— Eu estarei lá — prometeu Sonic. — Dez minutos antes da hora.
Knuckles soltou um suspiro audível de alívio lá atrás.
— Finalmente! O clima estava tão pesado que eu achei que o Eggman tinha lançado uma bomba de depressão na gente!
Tails riu, e até Shadow deu um meio sorriso quase imperceptível.
A Amy Rose que perseguia Sonic talvez tivesse partido para sempre, dando lugar a uma jovem mais calma, doce e introvertida. Mas, enquanto Sonic a observava voltar ao seu desenho, ele percebeu que, embora o silêncio dela ainda estivesse lá, ele não era mais um muro. Era apenas uma nova melodia que ele teria que aprender a ouvir. E, para Sonic, valia a pena diminuir o passo para escutar.
