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Fandom: Xeque mate
Criado: 09/07/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaCrimeDetetiveCiúmesEstudo de PersonagemRealismo
Entre o Dever e o Desejo
O silêncio dentro do meu carro era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som rítmico da chuva fina que começava a cair contra o para-brisa. Eu segurava o volante com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. A imagem de Mariana — aquela agente petulante, invasiva e irritantemente eficiente — com o braço em volta dos ombros de Maya não saía da minha mente.
Era como se um soco tivesse atravessado meu peito e arrancado todo o ar dos meus pulmões.
— "A gatinha com quem eu estava saindo" — repeti as palavras de Mariana em um sussurro carregado de veneno.
Minha mente trabalhava em uma velocidade perigosa. Maya. A minha Maya. A mulher que compartilhou anos da vida comigo, que conhecia meus medos mais profundos e que ainda era a mãe da minha filha. Ver outra pessoa tocá-la com aquela intimidade casual... doía de um jeito que eu não estava preparada para admitir.
Liguei o motor e saí dali antes que cometesse a loucura de voltar e exigir explicações. Eu não tinha esse direito. Éramos ex-esposas. O "ex" deveria significar algo, certo? Mas, enquanto eu dirigia em direção à casa dela para buscar a Helena, a única coisa que eu conseguia sentir era o gosto amargo do ciúme e uma desconfiança crescente.
Mariana não sabia. Ela não fazia ideia de que a advogada que ela estava cortejando era a mulher que destruiu — e construiu — o meu coração.
Enquanto isso, no estacionamento da delegacia, o ar parecia ter ficado escasso no momento em que a porta se abriu e Giovanna saiu por ela. Eu já esperava que o encontro entre as duas fosse tenso no trabalho, mas não estava preparada para ser o centro daquela colisão.
Ver o rosto de Giovanna se transformar de exaustão em choque, e depois em uma fúria contida, foi como assistir a um desastre em câmera lenta. Ela me olhou como se eu tivesse cometido o crime mais imperdoável do mundo. E, por um segundo, o peso da culpa me esmagou, mesmo que eu não devesse nada a ela.
— Maya? Tá tudo bem? — A voz de Mariana me trouxe de volta à realidade. Ela ainda sorria, mas havia uma sombra de dúvida em seus olhos claros. — Você ficou branca de repente.
— Está... está tudo bem — menti, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. — Só foi um dia longo.
Mariana me soltou, percebendo que eu estava desconfortável, mas ainda mantinha uma proximidade que agora me parecia sufocante.
— A delegada Torres é sempre assim? — Mariana perguntou, olhando na direção onde o carro de Giovanna tinha acabado de arrancar. — Grossa e apressada? Ela parecia que ia ter um colapso só de olhar para a gente.
— Ela tem muita responsabilidade, Mariana. E hoje o caso dos Colins foi pesado — respondi, tentando manter a voz neutra. — E ela tem uma filha para buscar.
Mariana deu de ombros, guardando as mãos nos bolsos da jaqueta da Federal.
— Sei lá. Tive a impressão de que o problema dela era pessoal. Mas enfim... que tal aquele jantar que combinamos? Eu conheço um lugar incrível aqui perto.
Eu olhei para o asfalto molhado. O beijo de mais cedo no meu escritório ainda ecoava na minha memória, mas a visão de Giovanna partindo com o maxilar travado tinha apagado qualquer rastro de entusiasmo que eu pudesse ter.
— Mariana, eu... eu realmente não estou me sentindo muito bem. Acho que a pressão do fórum hoje me pegou. Podemos deixar para outro dia?
Ela me estudou por um momento. Mariana era inteligente, treinada para ler pessoas, e eu sabia que ela sentia que algo estava errado. Mas, por sorte, ela decidiu não pressão.
— Tudo bem, doutora. Eu te levo até o seu carro. Mas não pense que vai se livrar de mim tão fácil.
Ela me acompanhou e, antes que eu entrasse no veículo, inclinou-se para um beijo rápido no canto da boca.
— Boa noite, Maya.
— Boa noite — respondi, fechando a porta e sentindo um alívio imediato ao ficar sozinha.
O trajeto até o meu apartamento foi um borrão. Eu só conseguia pensar no olhar de Giovanna. Era o mesmo olhar de quando brigávamos por causa das minhas horas extras, ou de quando ela sentia que eu estava escondendo algo. Mas havia algo mais: uma mágoa profunda que eu não via há muito tempo.
Cheguei em casa e a primeira coisa que vi foi o carro de Giovanna estacionado na frente do prédio. Meu coração disparou. Ela deveria estar com a Helena, mas o carro estava vazio. Subi o elevador sentindo minhas mãos tremerem.
Quando abri a porta do apartamento, encontrei Giovanna na cozinha, de costas para mim, servindo um copo de água. Helena já devia estar dormindo no quarto.
— Ela pegou no sono no sofá enquanto assistia desenho. Eu a levei para a cama — disse Giovanna, sem se virar. A voz dela estava fria, profissional, mas eu conseguia ouvir a tensão vibrando em cada sílaba.
— Obrigada, Gi — respondi, deixando minha bolsa sobre a mesa. — Eu me atrasei um pouco no fórum e...
— No fórum? — Ela finalmente se virou, apoiando as mãos no balcão. — Engraçado, eu vi você na porta da delegacia. E você não parecia estar trabalhando.
Respirei fundo, sentindo o confronto iminente.
— Giovanna, o que você quer que eu diga?
— Eu quero entender desde quando você e a Agente Costa são tão íntimas — ela deu um passo à frente, os olhos fixos nos meus. — Desde quando você sai com pessoas que estão diretamente envolvidas nos meus casos? Isso é um conflito ético, Maya, para não dizer uma provocação.
— Conflito ético? — soltei uma risada amarga. — Não me venha com essa. Você está com ciúmes, Giovanna. Admita pelo menos uma vez na vida.
— Ciúmes? — ela bufou, aproximando-se ainda mais. — Eu estou preocupada com a minha investigação! Mariana é instável, ela quer brilhar mais que todo mundo. E agora ela está usando você para chegar até mim? Ou você está usando ela para me atingir?
— Você se ouve quando fala? — perguntei, sentindo a raiva subir. — O mundo não gira em torno de você, delegada Torres. Eu conheci a Mariana, ela é interessante, ela é direta. Ela não passa o dia inteiro me tratando como se eu fosse um incômodo ou um arquivo morto.
Giovanna ficou em silêncio por um longo momento, a respiração pesada. O espaço entre nós parecia carregar eletricidade pura.
— Ela te beijou — afirmou Giovanna, a voz agora mais baixa, quase um sussurro quebrado. — Eu vi o batom. Eu vi o jeito que ela te tocou.
— E se beijou? — desafiei, embora meu coração estivesse martelando contra as costelas. — Nós não estamos mais juntas, Gi. Você deixou isso bem claro milhares de vezes.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, deu o último passo que nos separava e segurou meus braços com firmeza. Não era um toque agressivo, mas era possessivo.
— Você é minha, Maya — disse ela, a voz rouca, os olhos traindo toda a frieza que ela tentava manter. — Pode tentar fugir, pode tentar se envolver com quem quiser para me esquecer, mas no final do dia, a gente sabe a verdade.
— A verdade é que você me afastou! — gritei baixinho, para não acordar Helena. — A verdade é que você escolhe o distintivo antes de mim todas as vezes!
— Eu escolho a justiça! — rebateu ela.
— E quem escolhe a gente? — perguntei, as lágrimas começando a embaçar minha visão.
Giovanna suavizou o aperto nos meus braços. Seus polegares começaram a desenhar círculos lentos na minha pele, e o ódio que eu estava sentindo começou a se transformar em algo muito mais perigoso e familiar.
— Eu não suporto ver ela perto de você, Maya — confessou ela, encostando a testa na minha. — Eu tentei ser profissional, tentei ignorar o fato de que ela está no meu território, mas quando eu vi vocês duas... eu senti que ia perder o controle.
— Você já perdeu o controle, Gi — sussurrei.
Ela inclinou a cabeça e, por um instante, achei que ela fosse me beijar. O desejo era palpável, uma fome que meses de separação não tinham conseguido apagar. Mas, antes que nossos lábios se encontrassem, o celular dela tocou no bolso da calça.
O som agudo cortou o momento como uma navalha. Giovanna fechou os olhos, soltando um suspiro frustrado, e se afastou. Ela olhou o visor.
— É da central — disse ela, a máscara de delegada voltando ao lugar instantaneamente. — Houve um desdobramento no caso dos Colins. Um dos galpões foi localizado.
Eu a observei enquanto ela ajeitava a postura, limpando qualquer vestígio de vulnerabilidade do rosto.
— Você tem que ir — eu disse, sentindo o vazio voltar a ocupar o espaço entre nós.
— Tenho — ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. — Maya... tome cuidado. Mariana não é quem você pensa. Ela tem um histórico de usar pessoas para conseguir o que quer nas investigações. Não deixe que ela te use para chegar a informações que pertencem à delegacia.
— É só isso que te preocupa? — perguntei, sentindo o coração esfriar novamente. — A investigação?
Giovanna segurou a maçaneta, as costas tensas.
— Não. O que me preocupa é que eu ainda sinto que morreria por você, e você está entregando o seu sorriso para uma estranha.
Ela saiu sem esperar resposta, deixando apenas o cheiro do seu perfume e o eco das suas palavras no ar.
Fiquei parada no meio da sala, olhando para a porta fechada. A confusão em minha mente era total. De um lado, Mariana, que representava algo novo, leve e excitante; do outro, Giovanna, o caos constante, a dor profunda e a paixão avassaladora que eu nunca consegui domesticar.
Caminhei até o quarto de Helena e observei nossa filha dormindo. Ela tinha o mesmo traço firme no queixo que Giovanna. Senti uma onda de tristeza me atingir. Como tínhamos chegado a esse ponto?
Meu celular vibrou sobre a mesa da sala. Era uma mensagem de Mariana.
"Ainda pensando naquele beijo. Espero que esteja se sentindo melhor. Amanhã cedo passo no fórum para te ver antes de ir para o campo. Durma bem, gatinha."
Joguei o celular no sofá. Eu estava no meio de um fogo cruzado, e não era apenas entre a Polícia Civil e a Federal. Era uma guerra interna, onde meu coração era o campo de batalha e não haveria sobreviventes ilesos.
Amanhã o caso dos Colins ganharia um novo capítulo. E eu tinha a sensação de que a minha vida pessoal também estava prestes a explodir.
Longe dali, em seu carro, Giovanna dirigia em alta velocidade em direção ao local da ocorrência. Ela ativou a sirene, o som cortando a noite chuvosa. A adrenalina corria em suas veias, mas não era apenas pelo dever. Cada vez que ela fechava os olhos, via o rosto de Maya.
— Você não vai tirar ela de mim, Costa — sussurrou Giovanna para o para-brisa. — Nem que eu tenha que prender você por obstrução de justiça ou por roubar o que é meu.
A delegada Torres estava de volta ao jogo. E, desta vez, ela não aceitaria o xeque-mate.
Era como se um soco tivesse atravessado meu peito e arrancado todo o ar dos meus pulmões.
— "A gatinha com quem eu estava saindo" — repeti as palavras de Mariana em um sussurro carregado de veneno.
Minha mente trabalhava em uma velocidade perigosa. Maya. A minha Maya. A mulher que compartilhou anos da vida comigo, que conhecia meus medos mais profundos e que ainda era a mãe da minha filha. Ver outra pessoa tocá-la com aquela intimidade casual... doía de um jeito que eu não estava preparada para admitir.
Liguei o motor e saí dali antes que cometesse a loucura de voltar e exigir explicações. Eu não tinha esse direito. Éramos ex-esposas. O "ex" deveria significar algo, certo? Mas, enquanto eu dirigia em direção à casa dela para buscar a Helena, a única coisa que eu conseguia sentir era o gosto amargo do ciúme e uma desconfiança crescente.
Mariana não sabia. Ela não fazia ideia de que a advogada que ela estava cortejando era a mulher que destruiu — e construiu — o meu coração.
Enquanto isso, no estacionamento da delegacia, o ar parecia ter ficado escasso no momento em que a porta se abriu e Giovanna saiu por ela. Eu já esperava que o encontro entre as duas fosse tenso no trabalho, mas não estava preparada para ser o centro daquela colisão.
Ver o rosto de Giovanna se transformar de exaustão em choque, e depois em uma fúria contida, foi como assistir a um desastre em câmera lenta. Ela me olhou como se eu tivesse cometido o crime mais imperdoável do mundo. E, por um segundo, o peso da culpa me esmagou, mesmo que eu não devesse nada a ela.
— Maya? Tá tudo bem? — A voz de Mariana me trouxe de volta à realidade. Ela ainda sorria, mas havia uma sombra de dúvida em seus olhos claros. — Você ficou branca de repente.
— Está... está tudo bem — menti, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. — Só foi um dia longo.
Mariana me soltou, percebendo que eu estava desconfortável, mas ainda mantinha uma proximidade que agora me parecia sufocante.
— A delegada Torres é sempre assim? — Mariana perguntou, olhando na direção onde o carro de Giovanna tinha acabado de arrancar. — Grossa e apressada? Ela parecia que ia ter um colapso só de olhar para a gente.
— Ela tem muita responsabilidade, Mariana. E hoje o caso dos Colins foi pesado — respondi, tentando manter a voz neutra. — E ela tem uma filha para buscar.
Mariana deu de ombros, guardando as mãos nos bolsos da jaqueta da Federal.
— Sei lá. Tive a impressão de que o problema dela era pessoal. Mas enfim... que tal aquele jantar que combinamos? Eu conheço um lugar incrível aqui perto.
Eu olhei para o asfalto molhado. O beijo de mais cedo no meu escritório ainda ecoava na minha memória, mas a visão de Giovanna partindo com o maxilar travado tinha apagado qualquer rastro de entusiasmo que eu pudesse ter.
— Mariana, eu... eu realmente não estou me sentindo muito bem. Acho que a pressão do fórum hoje me pegou. Podemos deixar para outro dia?
Ela me estudou por um momento. Mariana era inteligente, treinada para ler pessoas, e eu sabia que ela sentia que algo estava errado. Mas, por sorte, ela decidiu não pressão.
— Tudo bem, doutora. Eu te levo até o seu carro. Mas não pense que vai se livrar de mim tão fácil.
Ela me acompanhou e, antes que eu entrasse no veículo, inclinou-se para um beijo rápido no canto da boca.
— Boa noite, Maya.
— Boa noite — respondi, fechando a porta e sentindo um alívio imediato ao ficar sozinha.
O trajeto até o meu apartamento foi um borrão. Eu só conseguia pensar no olhar de Giovanna. Era o mesmo olhar de quando brigávamos por causa das minhas horas extras, ou de quando ela sentia que eu estava escondendo algo. Mas havia algo mais: uma mágoa profunda que eu não via há muito tempo.
Cheguei em casa e a primeira coisa que vi foi o carro de Giovanna estacionado na frente do prédio. Meu coração disparou. Ela deveria estar com a Helena, mas o carro estava vazio. Subi o elevador sentindo minhas mãos tremerem.
Quando abri a porta do apartamento, encontrei Giovanna na cozinha, de costas para mim, servindo um copo de água. Helena já devia estar dormindo no quarto.
— Ela pegou no sono no sofá enquanto assistia desenho. Eu a levei para a cama — disse Giovanna, sem se virar. A voz dela estava fria, profissional, mas eu conseguia ouvir a tensão vibrando em cada sílaba.
— Obrigada, Gi — respondi, deixando minha bolsa sobre a mesa. — Eu me atrasei um pouco no fórum e...
— No fórum? — Ela finalmente se virou, apoiando as mãos no balcão. — Engraçado, eu vi você na porta da delegacia. E você não parecia estar trabalhando.
Respirei fundo, sentindo o confronto iminente.
— Giovanna, o que você quer que eu diga?
— Eu quero entender desde quando você e a Agente Costa são tão íntimas — ela deu um passo à frente, os olhos fixos nos meus. — Desde quando você sai com pessoas que estão diretamente envolvidas nos meus casos? Isso é um conflito ético, Maya, para não dizer uma provocação.
— Conflito ético? — soltei uma risada amarga. — Não me venha com essa. Você está com ciúmes, Giovanna. Admita pelo menos uma vez na vida.
— Ciúmes? — ela bufou, aproximando-se ainda mais. — Eu estou preocupada com a minha investigação! Mariana é instável, ela quer brilhar mais que todo mundo. E agora ela está usando você para chegar até mim? Ou você está usando ela para me atingir?
— Você se ouve quando fala? — perguntei, sentindo a raiva subir. — O mundo não gira em torno de você, delegada Torres. Eu conheci a Mariana, ela é interessante, ela é direta. Ela não passa o dia inteiro me tratando como se eu fosse um incômodo ou um arquivo morto.
Giovanna ficou em silêncio por um longo momento, a respiração pesada. O espaço entre nós parecia carregar eletricidade pura.
— Ela te beijou — afirmou Giovanna, a voz agora mais baixa, quase um sussurro quebrado. — Eu vi o batom. Eu vi o jeito que ela te tocou.
— E se beijou? — desafiei, embora meu coração estivesse martelando contra as costelas. — Nós não estamos mais juntas, Gi. Você deixou isso bem claro milhares de vezes.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, deu o último passo que nos separava e segurou meus braços com firmeza. Não era um toque agressivo, mas era possessivo.
— Você é minha, Maya — disse ela, a voz rouca, os olhos traindo toda a frieza que ela tentava manter. — Pode tentar fugir, pode tentar se envolver com quem quiser para me esquecer, mas no final do dia, a gente sabe a verdade.
— A verdade é que você me afastou! — gritei baixinho, para não acordar Helena. — A verdade é que você escolhe o distintivo antes de mim todas as vezes!
— Eu escolho a justiça! — rebateu ela.
— E quem escolhe a gente? — perguntei, as lágrimas começando a embaçar minha visão.
Giovanna suavizou o aperto nos meus braços. Seus polegares começaram a desenhar círculos lentos na minha pele, e o ódio que eu estava sentindo começou a se transformar em algo muito mais perigoso e familiar.
— Eu não suporto ver ela perto de você, Maya — confessou ela, encostando a testa na minha. — Eu tentei ser profissional, tentei ignorar o fato de que ela está no meu território, mas quando eu vi vocês duas... eu senti que ia perder o controle.
— Você já perdeu o controle, Gi — sussurrei.
Ela inclinou a cabeça e, por um instante, achei que ela fosse me beijar. O desejo era palpável, uma fome que meses de separação não tinham conseguido apagar. Mas, antes que nossos lábios se encontrassem, o celular dela tocou no bolso da calça.
O som agudo cortou o momento como uma navalha. Giovanna fechou os olhos, soltando um suspiro frustrado, e se afastou. Ela olhou o visor.
— É da central — disse ela, a máscara de delegada voltando ao lugar instantaneamente. — Houve um desdobramento no caso dos Colins. Um dos galpões foi localizado.
Eu a observei enquanto ela ajeitava a postura, limpando qualquer vestígio de vulnerabilidade do rosto.
— Você tem que ir — eu disse, sentindo o vazio voltar a ocupar o espaço entre nós.
— Tenho — ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. — Maya... tome cuidado. Mariana não é quem você pensa. Ela tem um histórico de usar pessoas para conseguir o que quer nas investigações. Não deixe que ela te use para chegar a informações que pertencem à delegacia.
— É só isso que te preocupa? — perguntei, sentindo o coração esfriar novamente. — A investigação?
Giovanna segurou a maçaneta, as costas tensas.
— Não. O que me preocupa é que eu ainda sinto que morreria por você, e você está entregando o seu sorriso para uma estranha.
Ela saiu sem esperar resposta, deixando apenas o cheiro do seu perfume e o eco das suas palavras no ar.
Fiquei parada no meio da sala, olhando para a porta fechada. A confusão em minha mente era total. De um lado, Mariana, que representava algo novo, leve e excitante; do outro, Giovanna, o caos constante, a dor profunda e a paixão avassaladora que eu nunca consegui domesticar.
Caminhei até o quarto de Helena e observei nossa filha dormindo. Ela tinha o mesmo traço firme no queixo que Giovanna. Senti uma onda de tristeza me atingir. Como tínhamos chegado a esse ponto?
Meu celular vibrou sobre a mesa da sala. Era uma mensagem de Mariana.
"Ainda pensando naquele beijo. Espero que esteja se sentindo melhor. Amanhã cedo passo no fórum para te ver antes de ir para o campo. Durma bem, gatinha."
Joguei o celular no sofá. Eu estava no meio de um fogo cruzado, e não era apenas entre a Polícia Civil e a Federal. Era uma guerra interna, onde meu coração era o campo de batalha e não haveria sobreviventes ilesos.
Amanhã o caso dos Colins ganharia um novo capítulo. E eu tinha a sensação de que a minha vida pessoal também estava prestes a explodir.
Longe dali, em seu carro, Giovanna dirigia em alta velocidade em direção ao local da ocorrência. Ela ativou a sirene, o som cortando a noite chuvosa. A adrenalina corria em suas veias, mas não era apenas pelo dever. Cada vez que ela fechava os olhos, via o rosto de Maya.
— Você não vai tirar ela de mim, Costa — sussurrou Giovanna para o para-brisa. — Nem que eu tenha que prender você por obstrução de justiça ou por roubar o que é meu.
A delegada Torres estava de volta ao jogo. E, desta vez, ela não aceitaria o xeque-mate.
