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Achado por sorte

Fandom: Ordem paranormal

Criado: 10/07/2026

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O Silêncio entre as Páginas

A Cafés Pizzaria existia havia tanto tempo que ninguém parecia saber exatamente quando ela tinha sido inaugurada. Os clientes mais velhos diziam que haviam levado os primeiros namorados ali. Outros juravam que comemoraram aniversários de infância naquelas mesas vermelhas. Os fliperamas no canto continuavam funcionando aos trancos e barrancos, o piso xadrez ainda rangia perto da cozinha e as luminárias redondas lançavam a mesma luz amarelada sobre o salão desde que Franco conseguia se lembrar.

O dono dizia que aquilo era charme. Franco dizia que era falta de dinheiro para reformar.

Naquela sexta-feira, porém, ele não tinha energia suficiente nem para reclamar. Respirou fundo antes de empurrar a porta da cozinha. O cheiro de queijo derretido, molho de tomate e lenha queimando o recebeu imediatamente. Seu turno nem havia começado direito e sua cabeça já doía.

Dormira três horas. Não porque quis. Dormir, ultimamente, parecia exigir um esforço que ele já não possuía. Quando finalmente conseguia fechar os olhos, o cérebro insistia em repassar todas as pequenas coisas que poderiam ter sido feitas melhor. Será que respondeu aquele cliente de maneira seca? Será que Mandy precisou refazer alguma coisa que ele esqueceu? Será que o gerente percebeu quando ele confundiu duas comandas na quarta-feira?

Ele lembrava de cada detalhe. Como se colecionasse pequenos fracassos dentro da cabeça.

— Você tá com uma cara horrível. — Mandy passou por ele carregando duas caixas de refrigerante.

Franco olhou para ela, sentindo o peso das pálpebras.

— Boa noite pra você também.

— Dormiu? — perguntou ela, parando um instante.

Ele respondeu no automático, a resposta que já estava ensaiada na ponta da língua.

— Dormi.

Mandy parou de andar e o encarou com ceticismo.

— Dormiu ou apagou por duas horas?

Houve um silêncio pesado. Franco desviou o olhar para o balcão de inox. Ela soltou um suspiro longo.

— Franco...

— Tô bem — cortou ele, ajeitando o avental sobre a calça jeans.

Mandy conhecia aquele "tô bem". Era o mesmo que ele dizia quando passava o turno inteiro tossindo, quando esquecia de almoçar ou quando voltava dos ensaios da banda com a garganta destruída. Ela não insistiu. Só bateu de leve no ombro dele antes de seguir para o estoque.

— Se desmaiar, tenta não cair em cima da pizza.

Franco riu pelo nariz. Era o máximo que conseguiria rir naquela noite.

Às sete e meia, o salão estava completamente cheio. Sexta-feira sempre parecia reunir metade da cidade dentro daquela pizzaria. O telefone não parava de tocar, alguém gritava um pedido vindo da cozinha, uma criança corria entre as mesas fingindo ser um avião. Pratos batiam, talheres tilintavam, e o amontoado de vozes criava um ruído branco que fazia a têmpora de Franco latejar.

Ele gostava de pensar que seu cérebro funcionava como um rádio antigo. Quanto mais barulho havia ao redor, mais difícil ficava encontrar uma estação.

— Franco! — O chamado veio da cozinha.

O coração dele acelerou antes mesmo de ouvir o resto. "O que foi agora? Esqueci algo?".

— Leva a quatro.

Só isso. Era só uma pizza. Mesmo assim, demorou alguns segundos para perceber que tinha prendido a respiração. Pegou a bandeja, respirou fundo e seguiu pelo salão. No caminho, uma senhora o interrompeu puxando levemente sua manga.

— Menino.

Ele virou, equilibrando a bandeja com uma mão só.

— Sim?

— Pode trazer mais guardanapos?

— Claro.

Anotou mentalmente. Mesa quatro. Guardanapos. Suco. Voltou, entregou a pizza, sorriu o sorriso mecânico de quem atende o público e voltou para buscar o que foi pedido. No meio do caminho, esqueceu o que estava fazendo. Parou no corredor, entre a mesa seis e o balcão. Ficou olhando para os próprios pés por dois segundos.

"...o que era mesmo?"

Guardanapos. Isso.

Quando finalmente voltou até a senhora, ela sorriu de forma gentil.

— Não precisava correr.

Franco sorriu de volta, mas a frase ficou presa dentro dele como um espinho. "Demorei". Mesmo que ela não tivesse reclamado, seu cérebro transformava qualquer atraso em culpa.

Pouco depois das oito, o sino da porta tocou novamente. Mais clientes. Franco caminhou até o balcão enquanto limpava as mãos no avental sujo de farinha. Entraram três pessoas. Os dois primeiros discutiam antes mesmo de atravessar completamente a porta.

— Eu ainda acho que meia portuguesa é desperdício — disse o rapaz alto, de cabelos pretos compridos presos num rabo baixo e maquiagem escura já um pouco borrada sob os olhos.

Ao lado dele, uma mulher ruiva de óculos cruzou os braços, parecendo pronta para a réplica.

— Desperdício é colocar ketchup na pizza igual você faz, Dante.

— Ketchup é cultura, Carina.

— Ketchup é crime.

— Você fala isso porque coloca cebola em tudo.

— Porque cebola presta — retrucou ela, dando um empurrão de leve no ombro dele. — Cala a boca, Corvo.

— Cala você, Coruja.

Franco precisou prender um sorriso. Pareciam discutir por esporte, uma rotina bem ensaiada. O terceiro integrante do grupo entrou logo atrás deles. Não dizia nada. Segurava um livro enorme contra o peito, uma capa azul-escura e gasta nas pontas que parecia pesada o suficiente para fazê-lo apoiar o peso com os dois braços.

Enquanto os outros ainda discutiam sobre cebola, o garoto de cabelos ondulados e uma mecha amarela vibrante apenas esperou que eles terminassem de bloquear a entrada antes de fechar a porta atrás deles com cuidado, para que ela não batesse.

Um gesto pequeno. Quase automático. Franco não saberia explicar por que reparou nisso. Talvez porque quase ninguém fechasse aquela porta direito.

— Boa noite — disse Franco, pegando três cardápios. — Mesa para três?

O garoto do livro, que Franco agora notava ter olhos atentos e uma expressão calma que contrastava com a energia caótica dos amigos, respondeu:

— Sim, por favor.

A voz era baixa, melodiosa. Muito diferente da conversa barulhenta dos outros dois. Franco indicou uma mesa perto da janela, longe do barulho maior do fliperama.

— Fiquem à vontade. Já levo os cardápios completos.

— Obrigado — disse o garoto da mecha amarela.

Outra palavra simples. Dita com tanta naturalidade que Franco levou um instante para processar. Hoje poucas pessoas tinham dito "obrigado" com aquela entonação de quem realmente viu o outro. Enquanto os três caminhavam até a mesa, Franco notou o garoto apoiar cuidadosamente o livro no banco antes mesmo de sentar. Primeiro afastou um copo que alguém havia esquecido ali, limpou discretamente algumas migalhas com a mão e só então colocou o volume sobre o estofado.

"Deve ser importante", Franco pensou. O pensamento durou pouco. Outro cliente o chamou e ele mergulhou novamente no caos de pratos e pedidos.

As horas seguintes foram um borrão de cansaço. Franco sentia os pés arderem dentro dos tênis velhos. A cada vez que passava pela mesa da janela, notava o contraste. O tal "Corvo" e a "Coruja" continuavam em uma animação constante, rindo e gesticulando. Já o garoto da mecha amarela — que os amigos chamavam de Pomba, por algum motivo que Franco não alcançava — parecia um ponto de paz. Ele ouvia os amigos com um sorriso leve, mas seus dedos volta e meia faziam um carinho na capa do livro azul.

Ele não abriu o livro. Parecia estar ali apenas pela companhia, mas o objeto era como uma âncora.

Perto das onze, o movimento começou a diminuir. As mesas vermelhas foram esvaziando, restando apenas o cheiro de gordura e o som do rádio da cozinha. O grupo dos três pagou a conta no balcão principal com o gerente. Franco estava ocupado limpando o balcão de bebidas e só percebeu que eles tinham ido embora quando o sino da porta tocou, anunciando a saída.

Ele suspirou, sentindo o silêncio finalmente se instalar.

— Acabou por hoje? — perguntou Mandy, saindo da cozinha com um pano de prato no ombro.

— Quase. Só falta limpar o salão.

— Eu pego o lado direito, você pega o esquerdo — sugeriu ela. — Quero ir pra casa antes que eu comece a ver fantasmas.

Franco assentiu. Começou a empilhar as cadeiras, o som do metal batendo no chão ecoando no espaço vazio. Quando chegou à mesa perto da janela, parou.

Lá estava ele. O objeto azul-escuro, esquecido no canto do banco de couro sintético.

Franco deixou o pano de limpeza sobre a mesa e pegou o livro. Era pesado. A capa tinha uma textura de tecido antigo, e não havia título na frente, apenas alguns símbolos desgastados em dourado que ele não reconheceu.

— Ei, Mandy.

— Oi? — Ela gritou do outro lado do salão.

— Aquele pessoal da mesa quatro... o garoto da mecha amarela. Ele esqueceu o livro.

Mandy parou o que estava fazendo e olhou para a porta.

— Eles saíram faz uns cinco minutos. Devem estar longe.

Franco abriu o livro por puro reflexo, as páginas eram de um papel amarelado e grosso, preenchidas com uma caligrafia impecável e alguns desenhos de plantas e símbolos estranhos. No canto da primeira página, escrito a lápis de forma bem pequena, dizia: "Propriedade de Pomba".

— Ele teve tanto cuidado com isso a noite toda — murmurou Franco, sentindo uma pontada de ansiedade alheia. — Ele limpou a mesa antes de encostar o livro.

— Deixa no achados e perdidos — disse Mandy, voltando ao trabalho. — Se for importante, ele volta amanhã.

Franco olhou para o livro em suas mãos. Lembrou do "obrigado" sincero e do jeito calmo do garoto. Algo dentro dele, talvez aquela mania de repassar erros e imaginar as consequências, o fez pensar no desespero de perder algo que se estima tanto.

— Vou deixar guardado no armário dos fundos — decidiu Franco. — É perigoso alguém levar se ficar aqui na frente.

Ele caminhou até o estoque, sentindo o peso do livro. Por um momento, o cansaço pareceu menos esmagador, substituído por uma curiosidade silenciosa. Quem era aquele garoto que tratava um livro como se fosse um tesouro, mas que acabava por deixá-lo para trás em uma pizzaria barulhenta?

Franco guardou o volume azul na sua mochila, em vez de deixar no armário comum. "Assim eu garanto que nada aconteça com ele", justificou para si mesmo.

Ao sair da pizzaria meia hora depois, o ar frio da noite atingiu seu rosto. Ele ajeitou a alça da mochila, sentindo o volume sólido contra suas costas. Pela primeira vez em semanas, seu cérebro não estava repassando os erros do turno. Ele estava pensando na mecha amarela, nos olhos cansados mas gentis e no que estaria escrito naquelas páginas amareladas.

Sexta-feira estava terminando, e Franco, pela primeira vez, não estava apenas esperando pelo sono que não vinha. Ele estava esperando pelo sábado, imaginando se o dono do livro voltaria para buscá-lo.
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